Será que você quer mesmo melhorar?

Uma pessoa que decide procurar ajuda psicoterapêutica geralmente só consegue se enxergar como vítima do sofrimento que lhe acomete.

Na maioria das vezes, não passa pela cabeça dela que, em alguma medida, aquele sofrimento foi produzido e está sendo mantido por ela mesma.

Isso acontece porque não conseguimos perceber com facilidade os RACIOCÍNIOS INCONSCIENTES que estão por trás da maioria de nossas ações.

Sofremos com pensamentos obsessivos, mas não conseguimos identificar com clareza os motivos pelos quais eles não saem da nossa cabeça. Padecemos com desânimos, ansiedades e tristezas, mas não discernimos de onde essas coisas vêm.

Assim, chegamos ao consultório de um terapeuta com um pedido básico: “Livra-me desse mal!”.

Diante dessa demanda, o que um psicanalista faz?

Ele a acolhe, a recebe, a legitima. Mas… E esse “mas” faz toda a diferença: ao invés de simplesmente aceitá-la como tal, o analista a transforma numa pergunta ao paciente: “Será que você quer de fato se livrar desse mal?”.

Diferentemente do que imagina o senso comum, o adoecimento emocional não acontece por acaso nem é apenas uma reação passiva a acontecimentos da vida.

Toda enfermidade psíquica se desenvolve para cumprir certas FUNÇÕES na vida do sujeito.

No fim das contas, a gente adoece para não ter que fazer contato com a parte obscura da própria alma. Nesse sentido, a mera eliminação dos sintomas nos tornaria vulneráveis a nós mesmos. Assim, conscientemente queremos ter saúde, mas inconscientemente desejamos permanecer doentes como medida de proteção.

É por isso que a primeira etapa de uma terapia psicanalítica consiste em mudar a posição do paciente em relação ao seu adoecimento. O analista convida o sujeito a parar de olhar para seus sintomas como meros entraves à sua felicidade e passar a enxergá-los como escudos que ele próprio construiu para se proteger de si mesmo.


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Quais são as SUAS pedras de crack?

Se você reside em uma cidade de médio ou grande porte, certamente a cena abaixo lhe é familiar:

O sinal está vermelho no semáforo. Você para o seu carro e logo vem uma pessoa franzina, maltrapilha e se oferece para limpar o para-brisa do veículo em busca de alguns trocados. Embora diga que precisa do dinheiro para se alimentar, você sabe que muito provavelmente ela está juntando aquela grana para comprar algumas pedras de crack na boca de fumo mais próxima.

É muito tentador imaginar que aquele ser humano é completamente diferente de nós porque supostamente não sofremos de uma dependência tão visceral quanto a dele.

Será mesmo?

Se você ainda não se tornou insensível à presença dessas pessoas, é provável que às vezes se faça perguntas do tipo: “Como é que alguém consegue passar o dia inteiro ao sol, se oferecendo para limpar para-brisas de carros, sendo frequentemente humilhado por alguns motoristas, tudo isso para ter um gozo extremamente efêmero com uma pedra de crack?”

De fato, para muitos dependentes, comprar crack e fazer uso da droga passaram a ser as metas principais de seu cotidiano, aquilo pelo que enfrentam as dificuldades do dia a dia. O consumo da droga passa a ser o eixo em torno do qual gira sua rotina. Mais uma vez: nossa tendência é imaginar que, por não estarmos nessa condição, somos radicalmente diferentes dessas pessoas.

Mas não somos. Todos nós temos as nossas pedras de crack, isto é, aquilo pelo que não medimos esforços, suportamos qualquer perrengue, fazemos qualquer negócio… Cada um de nós tem os seus respectivos ídolos, os seus absolutos. Aristóteles usava uma expressão muito interessante para caracterizar essa Coisa em torno da qual fazemos nossa vida girar: ele a chamava de “Sumo Bem”. Por ele, podemos ser capazes de dar nossa própria alma.

Portanto, será que há tanta diferença assim entre você e aquele pobre dependente químico que lhe pede dinheiro no semáforo? Você e eu também não passamos a vida inteira em busca de fugazes experiências de satisfação? Ele as procura em pedras de crack. Nós as buscamos no reconhecimento do outro, na política, no novo iPhone, no sexo, numa promoção no trabalho, em curtidas no Instagram, enfim…


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[Vídeo] O enlace doentio do masoquista inconsciente com seu carrasco

Não é por acaso que pessoas que carregam um sentimento crônico de culpa se envolvam amorosamente com indivíduos acusadores e vitimistas.


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[Vídeo] O que te impede de MUDAR

Neste vídeo: conheça os dois motivos básicos descobertos pela Psicanálise que explicam por que temos tanta dificuldade para abandonar nossas doenças emocionais.


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Por que é tão difícil mudar?

Costumo dizer que existem basicamente dois tipos de situações que costumam levar as pessoas a procurarem terapia:

1 – Quando estão fazendo certas coisas que não gostariam, mas não conseguem deixar de fazer. Por exemplo: uma jovem que não dá conta de sair de um relacionamento abusivo.

2 – Quando não conseguem fazer determinadas coisas que gostariam. Por exemplo: um homem que não consegue se aproximar das mulheres por quem se interessa.

Em ambos os casos, trata-se da busca por uma MUDANÇA. A pessoa procura ajuda para sair de um ponto A de sofrimento para um ponto B de alívio e satisfação.

Por que será que muitas vezes não conseguimos fazer essas mudanças sozinhos e por que, mesmo em terapia, o processo de transformação não é fácil e não acontece da noite para o dia?

Em outras palavras, por que é tão difícil mudar?

A experiência clínica nos mostra que existem basicamente dois grandes motivos que explicam essa resistência que involuntariamente apresentamos às mudanças.

O primeiro deles é o que chamamos em Psicanálise de “ganho primário do sintoma”. O adoecimento emocional não se manifesta por acaso. Ele é inconscientemente produzido por nós mesmos como uma espécie de “solução” para determinados conflitos inconscientes. Por exemplo: o homem que se sente inibido diante das mulheres que deseja e não consegue interagir com elas pode estar, dessa forma, “solucionando” o conflito que vivencia em seu íntimo com o desejo de permanecer ligado eroticamente a sua mãe. Dessa forma, sua inibição o protege contra a “tentação” de trair o vínculo incestuoso com a figura materna.

O segundo motivo é o chamado “ganho secundário”. Trata-se de vantagens que a gente obtém no dia a dia e na relação com o outro graças ao fato de nos mantermos doentes. A moça que não consegue sair de um relacionamento abusivo, por exemplo, pode usufruir do fato de seu companheiro lhe proporcionar uma vida financeiramente confortável. Se ela terminasse com ele, deixaria de sofrer com suas humilhações e agressões, mas também perderia as vantagens materiais que a relação lhe oferece.

Ganhos primários e secundários fazem parte da vida de todos nós. Você consegue enxergá-los?


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[Vídeo] Desça do ônibus

Este vídeo é um leve e sincero chacoalhão em você que já sabe que o destino dessa situação em que você insiste em permanecer não é o que você deseja.

Esse é o seu caso? Você conhece alguém que precisa ouvir isso?


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Por que caímos nas mesmas atitudes autodestrutivas mesmo tendo consciência delas?

Pergunta feita a mim nos stories do Instagram

Saber que um comportamento é autodestrutivo não é o suficiente para modificá-lo.

Os comportamentos autodestrutivos são meios que o Inconsciente encontra para satisfazer seus impulsos e tendências, os quais são provenientes de nossa infância.

Isso acontece em duas situações:

1 – Quando a pessoa bloqueou todas as demais formas saudáveis de expressão do Inconsciente, “obrigando-o” a se satisfazer por uma via patológica.

ou

2 – Quando os próprios impulsos e tendências do Inconsciente só podem encontrar satisfação (a princípio) por meio da encenação de situações autodestrutivas. Isso acontece, por exemplo, quando no Inconsciente existem impulsos de natureza masoquista.

Para deixar de cair em atitudes autodestrutivas, o sujeito precisará “reconectar-se” com seu Inconsciente a fim de discernir suas intenções e fornecer novos caminhos de satisfação para ele ou mesmo para convencê-lo a renunciar a certos impulsos e tendências.

Esta é uma maneira figurada de falar sobre o que acontece ao longo de uma terapia psicanalítica.


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[Vídeo] 3 motivos pelos quais é tão difícil TERMINAR um relacionamento

Neste vídeo falo sobre três motivos que explicam por que é tão difícil para muitas pessoas terminarem um relacionamento mesmo estando insatisfeitas com ele.


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Você sempre está onde te convém

Sim, por pior que seja a situação, se você tem como sair dela e mesmo assim permanece, é porque deseja permanecer.

Aí você me diz: “Mas, Lucas, isso que você está falando não faz sentido. Eu não estou no trabalho que gostaria de estar nem o meu relacionamento é como eu gostaria que fosse. Como, então, você pode me dizer que estou onde desejo estar?”.

Vamos lá. Deixa eu te explicar:

Ao contrário do que pensa, você não é uma pessoa só. Na verdade, uma das dimensões do que você chama de EU é uma síntese das diversas pessoas que você amou desde o início da vida. Em outras palavras, há em você pedaços do seu pai, da sua mãe, de irmãos, de professores, de amigos, de tios, enfim… Você é um monte de gente reunida em uma pessoa só.

Ao mesmo tempo, você possui uma série de desejos, inclinações e impulsos que estão no seu Inconsciente e que, portanto, você reprimiu e não é capaz de reconhecer.

Nesse sentido, esse trabalho ou relacionamento que você percebe conscientemente como insatisfatórios e fontes de sofrimento podem muito bem estar agradando os traços paternos ou maternos presentes no seu Eu ou sendo extremamente aprazíveis para certos impulsos que você mantém reprimidos no Inconsciente.

Entendeu? Ainda não? Então, continue lendo.

Em outras palavras, o que estou querendo te mostrar é que a gente sempre faz aquilo que deseja. Se não conseguimos perceber isso é porque nem sempre sabemos quais são os desejos que se fazem presentes em nós. Afinal, como o demônio que escravizava o gadareno, nós “somos muitos”…

Múltiplos e contraditórios desejos nos habitam e direcionam nossa existência enquanto nos iludimos achando que nossas escolhas são sempre fruto de nossas decisões conscientes. É por isso que muitas vezes permanecemos em situações que SABEMOS serem desfavoráveis e dolorosas. Com efeito, essa consciência não impede que certas partes de nós se satisfaçam por meio delas.

Na terapia psicanalítica, ajudamos o paciente a tomar consciência e se apropriar desses diversos desejos inconscientes que agem sobre ele à revelia de sua vontade.


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[Vídeo] Entenda o que é GOZO em Psicanálise

Neste vídeo o psicanalista Lucas Nápoli explica de forma CLARA, SIMPLES E DIDÁTICA a noção lacaniana de gozo.


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O que é esse tal de gozo em Psicanálise?

Quando a gente pensa na palavra “gozo”, imediatamente somos remetidos à esfera sexual. Afinal, essa palavra é mais frequentemente utilizada no discurso comum como sinônimo de orgasmo.

Numa acepção um pouco mais jurídica, por assim dizer, gozo designa também o uso ou o desfrute de algo, como quando se diz que um trabalhador está “em pleno gozo de suas férias”.

O conceito de gozo em Psicanálise tem relação com esses dois sentidos da palavra, embora não possa ser reduzido a nenhum deles.

Esse termo foi escolhido por Lacan para nomear uma experiência que Freud descreveu, mas não batizou. Refiro-me à experiência da SATISFAÇÃO SEXUAL INCONSCIENTE.

Quem aqui conhece um pouquinho de Psicanálise, sabe que Freud descobriu que muitos dos nossos problemas emocionais são, na verdade, a expressão disfarçada de impulsos sexuais reprimidos. Dito de forma mais simples, a gente se satisfaz sexualmente por meio da doença.

Talvez você esteja se perguntando: “Uai, Lucas, mas como assim? Quando estamos emocionalmente doentes, o que sentimos é dor e sofrimento e não prazer. Como, então, Freud pode dizer que estamos satisfazendo impulsos sexuais por meio da doença?”.

É aí que entra o conceito de gozo. Deixa eu te explicar: como a gente reprime certos impulsos sexuais, não podemos experimentá-los conscientemente. Justamente por isso é que só conseguimos descarregá-los disfarçadamente por meio dos sintomas. Logo, a satisfação desses impulsos é feita de forma inconsciente. Conscientemente sinto dor e sofrimento, mas inconscientemente estou… gozando!

O conceito de gozo serve, portanto, para designar tanto essa experiência de “orgasmo” que a gente experimenta sem saber por meio do sofrimento quanto o próprio uso/desfrute dos problemas emocionais para a obtenção de satisfação sexual. É por isso que os psicanalistas costumam dizer coisas como “Essa pessoa está gozando com esse relacionamento doentio”.

De fato, essa é uma das descobertas mais revolucionárias da Psicanálise: a de que podemos gozar com gemidos tanto de prazer quanto de dor.

Tem certeza de que você quer ser curado?

Opnamedatum: 2010-08-05

Mais do que uma coletânea de livros religiosos, a Bíblia é fundamentalmente uma obra que fala sobre a natureza do homem e expõe as vísceras da experiência humana. Por isso, tenho muita dificuldade de respeitar intelectualmente um profissional de Ciências Humanas que não detenha um conhecimento razoável dos textos bíblicos. É lastimável o cara que sabe o que Lacan falou na lição 03 do Seminário 10, mas desconhece o fato de que Paulo de Tarso escreveu mais de uma epístola.

Essa é apenas uma introdução que me veio à cabeça quando pensei no tema acerca do qual gostaria de tratar hoje e que me foi sugerido justamente por alguns fragmentos da Bíblia.

Sempre me chamou a atenção uma peculiaridade do comportamento de Jesus de Nazaré ao lidar com os doentes que apareciam em seu caminho. Das duas uma: ou ele perguntava para a pessoa: “O que você quer que eu faça por você?” ou indagava: “Você quer ser curado?”, como fez com o paralítico que há anos vivia às margens do Tanque de Betesda.

Tais indagações podem soar um tanto irônicas se você parar para pensar que aquelas pessoas estavam visivelmente doentes. Não era óbvio que elas gostariam de ser curadas?

Não, não era. Creio que as perguntas de Jesus, as quais, na verdade, todo analista, também faz àqueles que o procuram, revela justamente que NEM SEMPRE QUEREMOS SER CURADOS DE NOSSAS DOENÇAS. Eu falei um pouco sobre isso no domingo passado.

Na verdade, muitas vezes a gente procura um terapeuta apenas com o objetivo de sermos aliviados de nossas dores, mas não necessariamente curados. Afinal, a verdadeira cura exige de nós a tomada de certas decisões que não queremos, seja porque temos medo do que acontecerá se as tomarmos, seja porque não queremos abrir mão do ilusório conforto que a doença nos proporciona.

A gente se acostuma com tudo, meus caros, inclusive com nossas paralisias. A gente dá um jeito: viramos mendigos, acreditamos que um milagre acontecerá e tudo vai mudar sem que precisemos fazer um mínimo esforço, botamos a culpa de nosso sofrimento nos pais, na sociedade, no capitalismo, em Deus…

É muito difícil levantar-se, tomar o próprio leito e caminhar. Por isso, as perguntas “O que você quer que eu faça por você?” e “Você quer ser curado?” não são perguntas irônicas. Numa terapia psicanalítica, elas estão constantemente sendo refeitas. Essa é uma das razões pelas quais alguns pacientes abandonam o tratamento. Eles imaginam que a cura virá meio que por inércia, sem que precisem se enxergar e abandonar os confortos da doença.

Mudar dá trabalho, exige coragem e capacidade de suportar certas mutilações emocionais. A terapia ajuda você a ter forças para avançar nesse processo. Mas SÓ VOCÊ pode se levantar, tomar o seu leito e caminhar.

Você é o profeta do seu próprio sofrimento?

JóA auto-vitimização é um traço que aparece com muita frequência no discurso dos pacientes que atendemos em psicoterapia. Com exceção, talvez, dos deprimidos que, em vez de se considerarem vítimas, enxergam a si mesmos como algozes do mundo, a maioria de nossos pacientes tende a apresentar a fantasia de que não são responsáveis por nenhuma parcela do próprio sofrimento. A mudança dessa posição subjetiva, aliás, é uma das primeiras tarefas a serem levadas a cabo num tratamento psicoterapêutico. Essa mudança acontece, sobretudo, através de um processo de elaboração psíquica que leva o doente a se dar conta de como ele próprio contribui para a manutenção do seu padecimento.

Como inicialmente veem a si mesmos apenas como vítimas das ações cruéis de outras pessoas, muitos pacientes não percebem que eles próprios, de uma forma inconsciente e amiúde não-verbal, acabam estabelecendo as condições para que lhes aconteça exatamente aquilo que não gostariam que acontecesse. Em psicologia, esse fenômeno recebeu o nome de “profecias auto-realizadoras”.

Tomemos uma ilustração clínica: uma paciente vem ao consultório queixando-se de que as pessoas com as quais convive na faculdade e no ambiente de trabalho sistematicamente a rejeitam por considerarem-na chata. A fim de compreender melhor a lamentação da moça, o terapeuta pergunta a ela se alguma daquelas pessoas já lhe disse explicitamente que ela era chata. A paciente diz que não, que, na verdade, ninguém nunca lhe disse isso, mas ela consegue perceber que é essa a visão que as pessoas têm dela. Notando uma boa oportunidade para uma intervenção, o terapeuta diz: “Então não são as pessoas que lhe veem como chata. É você que imagina que elas pensam isso de você.”. Ao se perceber flagrada em sua auto-vitimização, a paciente tenta se defender, mas acaba se denunciando novamente: “Não! Isso não é coisa da minha cabeça! Eles realmente me acham chata. Por isso, eu quase não converso com ninguém. Povo metido…”.

Segunda ilustração: um jovem de trinta e poucos anos afirma ter procurado tratamento psicoterapêutico por ter dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto. Quando perguntado pelo terapeuta acerca da natureza da dificuldade, o sujeito responde que “as mulheres nunca dão bola para mim; só me dão foras!”. Observando a atitude auto-vitimizadora do paciente, o terapeuta decide repetir a pergunta colocando ênfase na palavra “sua” como forma de retificar sua posição subjetiva: “Mas qual é a natureza da sua dificuldade com as mulheres?”. O paciente, então, responde que não sabe e que procurou ajuda justamente para descobrir o que ele tem de errado.

Nesses dois exemplos é possível observar com certa clareza que as queixas dos pacientes é verbalizada inicialmente com o único propósito de justificar a fantasia de que são inocentes vítimas do comportamento perverso de outras pessoas. Em outras palavras, é como se implicitamente estivessem dizendo ao terapeuta: “Eu sofro porque o mundo me faz sofrer. O mundo tem que mudar, não eu.”. As intervenções do terapeuta visam justamente levar o paciente a converter esse discurso auto-vimizador em um questionamento acerca do que ele próprio precisa mudar em seu comportamento.

Nesse processo, fica claro que tanto a moça que reclama de ser considerada chata quanto o rapaz que se queixa do desprezo das mulheres, contribuem de uma forma muito significativa para que suas queixas se mantenham. A moça não percebe que ela própria se exclui das relações com as pessoas e não o inverso. E ela se exclui por imaginar que os outros a consideram chata, sendo que ninguém jamais lhe disse isso. Pode-se concluir, portanto, que ela própria, antes dos outros, se vê como chata. Trata-se de um auto-julgamento que provavelmente já faz com que ela se coloque frente às outras pessoas de um modo tímido e receoso – atitude que, naturalmente, não favorece ninguém nas relações interpessoais.

No caso do rapaz, as coisas se passam de modo semelhante. Quando o terapeuta repete a pergunta acerca da natureza de sua dificuldade com as mulheres, ele responde com uma fantasia que certamente influencia o modo como se relaciona com o sexo oposto. Ele diz que veio à psicoterapia para descobrir “o que tem de errado” consigo. Nesse momento, o paciente evidencia que vem estabelecendo um juízo moral sobre si mesmo. Ele ainda não formula uma demanda de mudança; quer apenas encontrar essa espécie de “pecado original” que carrega consigo e que lhe impede de obter sucesso com as mulheres. É bastante provável que nas ocasiões em que tem a oportunidade de iniciar uma paquera, o paciente se apresente de modo inseguro e hesitante por considerar de antemão que possui “algo de errado”. Essa insegurança e hesitação, por sua vez, provavelmente acabem transmitindo às mulheres uma impressão negativa a seu respeito e fazendo com que elas se afastem.

Nos dois casos, a expectativa que os pacientes apresentam em relação ao comportamento do outro, isto é, a profecia de que sempre serão rejeitados, inevitavelmente se realiza. Isso não acontece, contudo, porque sejam, como Jó, alvos de um acordo maroto entre Deus e o diabo, mas sim porque eles próprios, sem perceberem, se encarregam de cumprirem a profecia. Um dos objetivos da psicoterapia, como dissemos acima, é justamente o de levar o paciente a perceber que frequentemente exerce o papel de profeta do próprio infortúnio e que a saída para o abandono das profecias auto-realizadoras está na quebra das fantasias de auto-vitimização.

Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (Adendo)

A causa do desejo é um objeto, o objeto a, um nome para a falta de objeto. Logo, o desejo é causado pela falta. Essa é a tese de Jacques Lacan para explicar a quase infinita variabilidade de objetos que podemos desejar. Desejamos uma multiplicidade de objetos e jamais experimentamos uma satisfação completa porque somos seres furados, faltosos. Esse é o argumento lacaniano.

Demonstrei que essa teoria é de fato correta desde que tomemos como parâmetro de razoabilidade a fantasia de gozo pleno do neurótico. Se aceitarmos que a psicanálise deva ficar refém de uma fantasia neurótica, a tese do desejo como decorrente da falta adquire total pertinência. Felizmente não é esse o caso. A psicanálise pretende tratar a neurose, não fazer de suas fantasias os fundamentos de seus enunciados teóricos. Se o neurótico se percebe como um eterno insatisfeito em busca de um gozo impossível, não se deve depreender disso que ele formula algo de verdadeiro a respeito do desejo.

Ao longo de minha argumentação, provei que não é preciso supor uma falta ou um furo para explicar o desejo. Se somos capazes de desejar múltiplos objetos, isso só evidencia a imensa variabilidade de coisas existentes que nos podem ser úteis, bem como a vasta potência dos nossos corpos de se conjugar a vários objetos.

A imagem que melhor ilustra a concepção lacaniana do desejo é a de uma dona-de-casa que perdeu o botão de uma camisa e, examinando toda a casa, jamais consegue encontrar o objeto perdido, achando pelo caminho uma série de outros botões semelhantes, sendo que nenhum deles pode substituir adequadamente a peça que sumiu. O desejo lacaniano seria essa busca sempre infeliz pelo botão perdido.

O que está como pano de fundo dessa concepção é uma visão da pulsão como um mecanismo desregulado, visão que começa em Freud com a ideia da criança como um perverso polimorfo e continua em Lacan com a teoria da falta.

A pergunta que não quer calar é: por que considerar a plasticidade da pulsão o signo de uma falta ou de um furo fundamental? Por que dizer que o ser humano é faltoso ou furado porque há uma variabilidade quase infinita de escolhas de objeto? Em outras palavras, por que fazer da riquíssima capacidade da pulsão de orientar-se em direção a múltiplas possibilidades o indicativo da perda de um objeto primordial?

Não estaria Lacan, ao teorizar o desejo como resultante da falta, manifestando uma espécie de decepção, frustração ou desapontamento pela inexistência de um objeto adequado à pulsão? Dito de outro modo, não estaria Lacan fazendo da queixa radical do neurótico uma condição necessária de todos os indivíduos?

É o neurótico que chega aos nossos consultórios queixando-se de que não consegue atingir um gozo pleno, de que gostaria muito de saber o caminho certo para a felicidade, mas só consegue desejar, desejar e desejar sem jamais se satisfazer. É esse o desejo neurótico, desejo que, na verdade, nada mais é do que esperança sempre frustrada de uma satisfação absoluta, expectativa de encontro com o botão perdido. É esse desejo doentio, impotente, romântico, que Lacan defende que seja o desejo de todos!

Ora, por que considerar que há um botão perdido a ser procurado? Se não há objeto adequado para a pulsão não é porque num passado longínquo, mítico, esse objeto existiu e foi perdido. A pulsão não é uma garrafa que perdeu a tampa! Ela assemelha-se muito mais a um imenso manancial que jorra incessantemente e cuja água pode desaguar em múltiplos rios, criados a partir das experiências de vida. Nesse sentido, o desejo não é reação à perda da tampa, mas sim uma ação primária, produção, potência. O desejo não é uma busca eterna de um objeto inexistente cuja posse supostamente daria ao sujeito o acesso a um gozo absoluto. Esse é o desejo doentio do neurótico!

O desejo é, na verdade, potência criativa, cuja variabilidade de possibilidades não foi forjada pela perda de um direcionamento único. A capacidade produtiva do desejo lhe é intrínseca, constitutiva. Em vez da imagem da dona-de-casa desesperada à procura do botão perdido, propomos como ilustração para o desejo a cena de um bebê diante de diversos brinquedos. Ora se diverte com um, ora com outro, sem esperança de encontrar nada, apenas fruindo espontaneamente o gozo de agir – atividade primária e não reativa.

Se a dona de casa procura o botão perdido, é porque tem esperança de encontrá-lo. Imagina a camisa sem defeito, com todos os botões adequadamente arranjados. É a imagem da camisa perfeita que fundamenta sua incessante busca. Não ocorre o mesmo com o nosso desejo. Se imaginamos uma completude, é fantasisticamente que o fazemos. Da mesma forma, só no interior de uma fantasia pode haver falta.

Por outro lado, a criança que brinca não o faz para atingir nenhuma completude, não anseia por um gozo absoluto. Brinca porque brincar faz bem, porque lhe proporciona prazer, alegria, lhe faz sentir-se viva, existindo, criando. Desejo, portanto, é criação e não um remédio para uma suposta falta.

O que é Nome-do-Pai?

Olá! Tudo bem? O conteúdo que você está buscando não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”. Sem falsa modéstia, trata-se de praticamente um curso de introdução à Teoria Psicanalítica. Para conhecer e adquirir o livro digital, é só clicar aqui.

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