Energia masculina? Energia feminina? Isso não existe!

Num texto de 1964 intitulado “Posição do inconsciente”, o psicanalista francês Jacques Lacan diz o seguinte:

“A pulsão, como representante da sexualidade no inconsciente, nunca, é senão pulsão parcial. É nisto que está a carência essencial, isto é, a daquilo que pudesse representar no sujeito o modo, em seu ser, do que ele é macho ou fêmea”.

E, mais adiante:

“Do lado do Outro, do lugar onde a fala se confirma por encontrar a troca dos significantes, os ideais que eles sustentam, as estruturas elementares de parentesco, a metáfora do pai como princípio da separação, a divisão sempre reaberta no sujeito em sua alienação primária, apenas desse lado, e por estas vias que acabamos de citar, devem instaurar-se a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher.”

Esses são trechos excepcionalmente claros da obra lacaniana. Neles Lacan elabora, com seus próprios termos, a descoberta freudiana de que os nossos impulsos sexuais não têm sexo e de que, portanto, masculinidade e feminilidade não são padrões comportamentais inatos, mas aprendidos mediante nossas experiências de vida enquadradas pelo contexto familiar e sociocultural (o que Lacan chama de “Outro”).

Por que resolvi falar desse assunto hoje? Porque tem muito picareta no Instagram falando de supostas “energia masculina” e “energia feminina”. Segundo esse pessoal, um homem, por exemplo, só seria feliz em seus relacionamentos se reconhecesse sua tal energia masculina intrínseca e encontrasse uma “mulher feminina” (risos).

O que essa galera está fazendo, na prática, é pegando modelos de masculinidade e feminilidade forjados numa determinada época e numa determinada cultura, ou seja, o que Lacan designa como “a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher” e NATURALIZANDO tais modelos como se eles estivessem enraizados no organismo ou… na alma (sei lá qual é a metafísica maluca dessa gente…).

Masculinidade e feminilidade existem? Sim, existem, mas são padrões que emergem do campo do Outro, não da biologia. Nossos impulsos sexuais são assexuados. O que eles visam, no fim das contas, é a satisfação pura e simples.


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O homem é para a mulher uma devastação

No Seminário 23 (“O Sinthoma”), o psicanalista Jacques Lacan diz o seguinte: “Pode-se dizer que o homem é para uma mulher tudo o que quiserem, a saber, uma aflição pior que um sinthoma. […]. Trata-se mesmo de uma devastação.”

Qual é a leitura que faço dessa formulação?

1 – A mulher é um sintoma para o homem: o sintoma é um processo patológico que serve para representar simbolicamente um desejo reprimido e, ao mesmo tempo, possibilitar a satisfação indireta desse desejo. Em função do complexo de Édipo, o homem coloca a mulher no lugar deixado vago pela mãe. Portanto, a mulher representa simbolicamente o objeto materno. Ao mesmo tempo, o desejo que o homem vai buscar satisfazer com ela é exatamente o de ficar com a mãe, o qual foi reprimido na saída do complexo de Édipo. Portanto, a mulher é um sintoma para o homem porque representa simbolicamente a mãe e torna-se o meio através do qual ele satisfaz indiretamente seu desejo incestuoso.

2 – Por que o homem não é um sintoma para uma mulher, mas algo mais aflitivo, uma devastação? Porque a mulher não busca no homem apenas um representante simbólico de seu pai. Lembre-se que, no complexo de Édipo, antes da menina se vincular ao pai, ela estava ligada à mãe. É desse vínculo primitivo com o objeto materno que vem a devastação. Freud destacava o fato facilmente verificável na clínica que um número significativo de mulheres possui uma relação difícil com suas mães. Para Freud, isso era decorrente do fato de que a menina atribuiria à mãe a culpa por ter nascido sem pênis. Lacan, por sua vez, entenderá que a queixa da menina junto à mãe não é por conta do pênis, mas em função do fato de que a mãe não pode lhe transmitir o que é uma “mulher de verdade”, pois essa Mulher, com “m” maiúsculo não existe. Não existe uma identidade feminina universal, diferentemente do que acontece com os homens que estão sempre às voltas com o fantasma do “homem de verdade”, do “homão da porra”, do “homem com H maiúsculo”.

O homem é uma devastação para uma mulher porque ela o coloca não só no lugar do pai, mas, sobretudo, no lugar da mãe, dessa mãe insuficiente, que não lhe satisfez, deixando-a aflita e, ao mesmo tempo, livre para desejar.


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O que é Nome-do-Pai?

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O que é falo? (final)

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Enigma feminino

Transpassa-me a alma o clamor do Outro

Sinto o terror da solidão em rios de fel

Gozo de ti servida a granel

Com gosto de morte em seus lábios

Velho está o espírito

Que derrama em frios pensamentos

Todo o ar que ainda existe

E as soluções desfilam por entre os galhos

Os morcegos já não sabem onde esconder

Em que se apóia ti para te achares mulher?

Tua falta eu já supri faz tempo

Foi muito para o lugar do vazio

Fujo de mim em ti com unhas e dentes

A plenos pulmões, grito!

Grito!

Os sons são despenhadeiros

E os músculos contraídos denunciam o horror

Da carne em tua boca

Em tua alma sobra o prazer

O que, afinal, tu queres?

A mulher que batia no analista

junginhisofficeA anedota a seguir consta da autobiografia do Jung.

O velho sábio suíço conta que no início de sua carreira como psiquiatra, certo dia apareceu em seu consultório uma senhora da alta nobreza que tinha o insólito costume de dar bofetadas em seus empregados.

Como a tal mulher considerava como empregado qualquer pessoa que lhe prestasse algum serviço profissional, os médicos que lhe atendiam também eram vítimas dos tapas na cara.

Eis que essa senhora passou a sofrer de neurose obsessiva e para o tratamento fora internada numa clínica. Não deu outra: dá-lhe tapa na cara do médico que a atendeu. Diante disso, o médico resolveu encaminhá-la para outro colega. Mesma coisa: mais um médico esbofeteado. E a sequência continuaria até o último médico suiço se não fosse pela brilhante idéia do segundo médico de encaminhar a paciente para seu troncudo colega Jung.

Quando Jung viu a mulher pela primeira vez, ele pôde entender porque ninguém revidava os tapas na cara. A senhora era imponente e tinha mais de 1 metro e 80 de altura. No início da sessão tudo corria bem, até o momento em que Jung teve que dizer a ela algo desagradável. A mulher, então, furiosa, se levantou e ameaçou começar a surra.

Jung não se fez de rogado e de imediato também se levantou dizendo: “Pois bem, a senhora é mulher, pode bater primeiro. Ladies first! Depois será a minha vez!” Acreditem: a mulher sentou-se novamente no sofá, abatida e lamentando disse: “Ninguém ainda me falou assim…”

Cá pra nós, será que ela era obsessiva mesmo?

Por que Lacan disse que “A Mulher não existe”?

07_7agesCreio que essa frase seja uma das mais polêmicas já proclamadas pelo psicanalista Jacques Lacan. Mas creio também que isso se deva ao fato de a maior parte das pessoas não entenderem porque Lacan a disse e considerá-la apenas como mais uma justificativa para o preconceito segundo o qual a Psicanálise é machista. Portanto, vamos tratar de botar os pingos nos “is”.

Uma das características mais geniais de Lacan era a sua capacidade de pegar as teorias elaboradas por Freud e tirar delas algumas frases de efeito. Esse é o caso de “A Mulher não existe”. É óbvio que Lacan não está dizendo que os seres do sexo feminino (com vulva, vagina, ovários e etc.) não existam. Ele não era psicótico a esse ponto. O que ele está dizendo é que as mulheres existem, mas A Mulher não. Para entender de onde ele tirou isso, convido meus caros leitor e leitora para um exercício de imaginação.

Imaginem que vocês se encontram por volta das idades de 4 ou 5 anos. Agora, se imaginem (nessa idade) vendo os corpos nus de um menino e de uma menina. Qual a primeira diferença que vocês irão notar? É óbvio: que no menino há uma coisa entre as pernas e que na menina não há uma coisa no meio das pernas. Lembrem-se: nessa época (4 a 5 anos) a gente, mesmo que tenha lido os livros de ciência, ainda não tem como certa a existência do órgão sexual feminino (a vagina). Então, o que a gente vê é que no menino há uma coisa e na menina não há uma coisa. Qual a conclusão mais óbvia a ser tirada dessa visão? A de que o menino possui aquilo que na menina falta.

Então, senhoras e senhores, como vai se inscrever na cabecinha de todos nós a diferença entre os sexos, quer dizer, como é que a gente vai interpretar o que é homem e o que é mulher? A partir desse objeto que o homem tem e a mulher não tem. Portanto, na nossa cabeça (Lacan diria, na ordem simbólica) a gente tem como dar uma resposta para a pergunta “O que é o homem?”. Qual resposta? “O homem é aquele que possui o objeto”. Agora, para saber o que é a mulher a gente só tem uma definição negativa: “A mulher é aquele ser que não é homem, ou seja, que não tem o objeto”. Mas essa resposta não serve! Afinal, a gente poderia dizer: “Beleza, se a mulher não é o homem então o que ela é?” É uma pergunta para a qual não se tem a resposta porque no caso da mulher não há esse objeto que a represente.

Conclui-se então que a idéia do que é a mulher, de sua essência, de seu desejo realmente não existe. Por quê? Porque diferentemente do homem ela não tem um objeto que a represente – esse objeto Freud chamou de “falo”. Então, na nossa cabeça, no mundo simbólico, a mulher não tem representação. Por isso, Lacan diz que “A Mulher (e aí a gente pode completar com: “A mulher enquanto representação do que é a mulher”) não existe”.

Isso é ruim? Ao meu ver, muito pelo contrário! Meus alunos e alunas de aulas particulares conhecem muito bem o que pensoa respeito disso. Se a mulher não tem uma representação de si mesma, isso significa que ela pode inventar sua essência! É por isso, por exemplo, que nenhuma mulher gosta de encontrar numa festa outra mulher com o mesmo vestido dela. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher. Já homem não. Homem gosta do mesmo, do padrão. Numa festa de gala, estão todos de terno. São raríssimas exceções os que querem se diferenciar – e não são vistos com bons olhos.

Por isso, minha cara leitora, quando ouvir por aí um lacaniano dizer que “A Mulher não existe”, dê graças a Deus, pois ao “não existir” ela precisa “se fazer existir”, cada uma a seu modo…

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