Fazer Psicanálise é estar numa difícil viagem, mas em boa companhia


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A gente faz Psicanálise para ir além do que a nossa infância nos permite.

Na infância, a alma informe e maleável é talhada profundamente pela vida, assumindo o aspecto que a existência lhe permite. A gente faz Psicanálise para poder discernir os contornos desse aspecto fundamental e inventar formas de existir que sejam capazes de superá-lo.


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Como a Psicanálise funciona?

Volta e meia, pessoas interessadas em agendar uma consulta me perguntam como funciona um tratamento psicanalítico.

É uma pergunta totalmente legítima. Afinal, é razoável que uma pessoa queira saber como acontece o processo terapêutico ao qual pretende se submeter.

Este texto será justamente uma resposta a esse questionamento.

Tentarei ser o mais simples e didático possível.

Vamos lá:

Em Psicanálise nós trabalhamos com base no pressuposto que existe uma parte da sua mente da qual você não tem consciência, à qual nós damos o nome de… isso mesmo: Inconsciente.

Os psicanalistas acreditam que é no Inconsciente que se encontram as raízes do adoecimento que levou você a procurar ajuda.

— Como assim?, você pergunta. E eu explico:

No Inconsciente estão uma série de pensamentos, desejos, intenções, medos, raciocínios, conclusões, crenças que foram se desenvolvendo na sua alma ao longo da vida, mas com os quais você não dá conta de lidar.

É justamente por isso que você mantém essas coisas fora do seu campo de consciência: para não ter que sentir a angústia de olhar para elas.

O problema é que, para mantê-las no Inconsciente, você precisa gastar muita energia e acaba forçando esses pensamentos, desejos, crenças etc. a se manifestarem na sua vida disfarçadamente, por meio de problemas emocionais.

Na Psicanálise, o terapeuta vai estimular você a falar sobre as suas questões de uma maneira diferente: sem ficar tentando controlar as palavras e selecionar os assuntos previamente.

Ele dirá para você simplesmente comunicar-lhe o que passa pela sua cabeça.

O objetivo é facilitar a entrada daquelas coisas do Inconsciente no seu campo de consciência.

Afinal, se você, ao invés de continuar reprimindo essas coisas, conseguir olhar para elas de frente, sem medo e encontrar um espacinho para acolhê-las na sua consciência, não precisará mais continuar doente, desperdiçando energia para mantê-las presas no Inconsciente.

Para ajudar você a perder o medo que te faz reprimir, o terapeuta vai ora provocar, ora apoiar, mas fundamentalmente desenvolverá contigo um vínculo confiável.

Pois só a confiança é capaz de vencer o medo.


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[Vídeo] Psicanálise não é uma conversa

Muita gente que nunca fez análise imagina que as sessões são constituídas basicamente de um bate-papo com o terapeuta. Neste vídeo eu explico por que essa ideia é equivocada.


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3 funções que o terapeuta exerce na Psicanálise

A diversidade das situações clínicas e a complexidade dos quadros de adoecimento com os quais se depara exigem que o psicanalista alterne diferentes posições ao longo do tratamento.

As funções apresentadas nos cards não esgotam a totalidade dos papéis que o terapeuta pode desempenhar na clínica psicanalítica.

Todavia, entendo que essas três posições apresentadas são essenciais para que os objetivos do tratamento possam ser alcançados.

Eventualmente, duas ou mais funções podem ser exercidas simultaneamente, mas normalmente uma delas prevalece, até porque cada uma está articulada a visões específicas do próprio paciente.

Quando está desempenhando o papel de investigador, por exemplo, o analista encara o paciente como um “suspeito”, alguém que esconde uma verdade e involuntariamente se esforça para mantê-la oculta.

Por outro lado, quando o terapeuta adota a posição de testemunha, o paciente passa a ser visto como uma pessoa que apresenta um sofrimento até então silenciado e que precisa ser ouvido e validado.

Sacou? Funções diferentes pedem visões diferentes do mesmo paciente.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma AULA ESPECIAL em que explico detalhadamente cada uma dessas 3 funções.

Te vejo lá!


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A gente faz Psicanálise para questionar conclusões precipitadas


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Psicanálise não é para todo o mundo

Sashimi: tá aí uma coisa que eu não suporto e que faz muita gente salivar só de ouvir falar.

Já experimentei, tentei gostar, mas o sabor de peixe cru definitivamente não combina com o meu paladar.

Por outro lado, existe um alimento para o qual muita gente faz cara feia e que eu, na maturidade, aprendi a apreciar: jiló.

Empanado, frito, refogado, não importa: essa frutinha levemente amarga tem lugar no meu prato.

Aí você me pergunta: “Lucas, a postagem não é sobre Psicanálise? Então por que você está falando de comida?”.

É só uma analogia, caro leitor.

Se você me acompanha, sabe que meu método de ensino está fortemente alicerçado na construção de analogias.

Vamos lá:

Assim como tem um monte de gente cujo paladar se deleita com um belo pedaço de salmão cru, mas o meu não, assim também há muitas pessoas que se adaptam muito bem à experiência proposta pela Psicanálise e outras não.

Análise não é para todo o mundo.

Por exemplo, se você estiver procurando uma pessoa para te dar orientações sobre o que deve fazer para superar um episódio depressivo, Psicanálise não é para você.

Outrossim, pessoas que esperam que o terapeuta seja falante e lhes forneça explicações e diagnósticos também vão se sentir frustradas fazendo análise.

Por outro lado, quem tá a fim de falar sobre si, de refletir sobre sua existência, de colocar em questão suas escolhas, seus impasses, suas inibições; quem quer de fato ser escutado e SE ESCUTAR mais do que obedecer a vozes externas, essa pessoa, sim, vai se dar muito com a Psicanálise.

É claro que o sujeito pode chegar ao analista esperando ser aconselhado e diagnosticado e acabar gostando da experiência de falar-livremente-para-alguém-que-pouco-fala.

Assim como eu não curtia jiló quando era criança e acabei aprendendo a gostar.

Mas não é todo o mundo que consegue desenvolver esse “paladar” capaz de apreciar esse troço absolutamente atípico (e fascinante) que é a experiência analítica.

Como diz a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant:

“Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai pra nunca mais

Tem gente que vem e quer voltar

Tem gente que vai e quer ficar

Tem gente que veio só olhar

Tem gente a sorrir e a chorar


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Na Psicanálise, o que de fato cura é a relação com o analista

Muita gente se engana pensando que a Psicanálise é um procedimento meramente intelectual.

Imagina-se que o paciente melhora ao fazer análise simplesmente porque conseguiu substituir seus problemas emocionais pela elaboração psíquica dos conteúdos que estavam por trás deles.

Essa é uma visão equivocada.

O principal fator de cura no tratamento psicanalítico é a RELAÇÃO do paciente com o analista.

Como assim, Lucas?

Pensa comigo: o que ocasiona o adoecimento emocional do ponto de vista psicanalítico?

A resposta é: um processo de dissociação da personalidade, certo?

Em outras palavras, entendemos que o sujeito adoece para se proteger de determinadas partes de si mesmo que ele tem medo de integrar em sua personalidade.

Se é assim, qual deve ser o objetivo do tratamento?

Óbvio: ajudar a pessoa a perder esse medo!

O trabalho de decifração dos sintomas e inibições do paciente só pode acontecer se ele for se sentindo suficientemente seguro para explorar o avesso de si.

E ele só conseguirá desenvolver essa segurança no interior de uma RELAÇÃO com uma pessoa confiável, empática, não invasiva e, sobretudo, que não o condena.

Entendeu?

A análise não cura por causa daquilo que o paciente redescobre sobre si durante a terapia ou em função de interpretações certeiras do analista.

Isso tudo é importante, mas é secundário.

O fator terapêutico primordial é a reconquista, pelo paciente, da capacidade de olhar para si mesmo e se escutar sem medo.

E isso só pode ser alcançado por meio de uma RELAÇÃO de confiança com o analista.

Corroborando essas ideias, Freud diz o seguinte na conferência “Transferência”, de 1917 (volume XVI das Obras Completas):

“A fim de que o paciente enfrente a luta do conflito normal com as resistências que lhe mostramos na análise, ele tem necessidade de um poderoso estímulo que influenciará sua decisão no sentido que desejamos, levando à recuperação. […] Nesse ponto, o que é DECISIVO em sua luta não é sua compreensão interna (insight) intelectual — que nem é suficientemente forte, nem suficientemente livre para uma tal realização —, mas simples e unicamente a sua RELAÇÃO com o médico.” (grifos meus).


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A gente faz Psicanálise para se respeitar

É natural que as pessoas procurem ajuda psicoterapêutica com o objetivo de mudarem, isto é, de se livrarem de traços e comportamentos que as fazem sofrer.

Todavia, esse legítimo desejo de mudança pode vir contaminado pela busca de certos ideais que não têm nada a ver com aquilo que o sujeito verdadeiramente deseja.

Deixa eu te explicar isso melhor com o apoio de uma ilustração factual.

Tomemos, por exemplo, o caso de um jovem que se deleita ficando em casa sozinho, estudando, tocando instrumentos musicais e assistindo aos filmes de sua preferência.

Navegando por perfis de desenvolvimento pessoal no Instagram, esse jovem é levado a crer que não deveria passar tanto tempo sozinho e que o “correto” seria tornar-se mais sociável.

Esse imperativo evoca nele as duras palavras que sempre ouviu de seu pai: “Sai desse quarto, menino! Parece um bicho do mato! Você precisa dar umas voltas com seus amigos!”

Pronto! Agora esse pobre rapaz acredita que sua forma espontânea de curtir a vida (mais reclusa, sem tantas interações) é um problema e que ele deveria mudar para se adequar.

Para se adequar a quê?

A um suposto ideal de saúde emocional que parece ser natural e universal, mas, na verdade, foi inventado por algumas pessoas (coincidentemente, sociáveis…).

Em casos como esse, o objetivo da Psicanálise não é o de ajudar essa pessoa a mudar a sua forma habitual de se comportar.

A terapia psicanalítica não está a serviço de nenhum ideal normativo.

A meta passa a ser auxiliar o paciente a relativizar o peso do imperativo superegoico de adequação ao ideal de sociabilidade.

Em outras palavras, trata-se de ajudar o sujeito a RESPEITAR o seu próprio jeito de ser.

Afinal, é só quando reconhecemos e legitimamos aquilo que, em nós, é mais forte do que nós que nos tornamos flexíveis o bastante para fazermos diferente – quando necessário.


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Como explicar a Psicanálise para o paciente que nunca fez terapia?

Uma pessoa me fez essa pergunta na caixinha dos stories do Instagram.

Como muitos seguidores consideraram a resposta relevante, decidi compartilhá-la aqui no feed também a fim de alcançar outras pessoas.

Para explicar o funcionamento da Psicanálise para um paciente que nunca fez terapia, creio ser apropriada a seguinte analogia:

“Imagine [você, analista, está falando com o paciente] que a terapia é uma longa viagem que nós dois faremos juntos de carro.

É uma viagem diferente, pois a gente não sabe exatamente onde vai chegar; o mais importante é a jornada que faremos juntos.

Quem irá dirigir o carro? Você. Sim, pode parecer estranho que seja você, o paciente, a guiar esse processo, mas, confie em mim: é melhor assim.

Bem, isso significa que eu, como terapeuta, estarei no banco do carona, certo? Mas, não se preocupe: eu não vou ficar dormindo (aqui pode entrar uma leve risada). Eu vou funcionar para você como uma espécie de copiloto.

Durante a viagem, a sua tarefa é bem simples: você só tem que guiar o carro para onde quiser e ir descrevendo para mim o que está vendo à frente e ao redor.

Não, não temos um mapa. Esta é a graça desta viagem. Não existe um trajeto planejado. É você quem decide para onde a gente vai.

E eu, o que farei? Como disse, eu serei meio que um copiloto. De vez em quando, eu vou pedir para você fazer a volta para a gente passar de novo por certos lugares e vou chamar sua atenção para certas coisas que passaram batido pelo seu olhar.

Confie em mim: enquanto a gente faz essa viagem, pouco a pouco esse sofrimento todo que te fez vir aqui vai passar.

Talvez, depois de um tempo, você queira estacionar o carro, mas é possível também que goste tanto da viagem que não queira mais parar de dirigir.”.

E aí, o que você achou da analogia? Você, analista, costuma utilizar outras comparações como essa com seus pacientes?


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Psicanálise não é uma conversa. É muito melhor do que isso.

Muita gente acredita que a Psicanálise é um tipo de conversa. Isso é um equívoco.

A conversa é basicamente uma troca de ideias. Quando conversamos, estamos interessados em verbalizar o que pensamos e também em ouvir o que o outro pensa. O interlocutor, por sua vez, faz a mesma coisa.

Ora, não é isso o que acontece numa Psicanálise.

De fato, numa sessão analítica, o paciente fala e deseja ouvir o que o seu analista tem a dizer. Aliás, esse interesse pela palavra do terapeuta é um dos sinais do que nós chamamos de transferência, ingrediente fundamental para o sucesso do tratamento.

No entanto, ao contrário do que acontece numa conversa, o analista frustra a demanda do paciente de saber quais são suas ideias. Com efeito, numa Psicanálise, o terapeuta não fala o que pensa, mas tenta colocar em palavras aquilo que está nas entrelinhas do discurso do paciente. Em outras palavras, o psicanalista entrega ao analisante aquilo que está implícito em sua própria fala.

É por isso que fazer análise é uma experiência simultaneamente incômoda e aliviadora.

É desconfortável porque frustra o nosso desejo infantil de termos um guru a nos guiar pela vida dizendo o que devemos fazer e como devemos ser.

Todavia, é uma experiência também reconfortante porque nos oferece a possibilidade de sermos verdadeiramente escutados em nossa singularidade, o que raramente ocorre numa conversa, na qual que o interlocutor, amiúde, ao invés de nos escutar atentamente, está mais preocupado com o que irá dizer quando nos calarmos.


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Para que sua alma está predisposta?

Se você não costuma praticar atividades físicas, é muito provável que tenha dificuldades para manter o fôlego ao subir alguns lances de escada. Por outro lado, quem faz atividades aeróbicas frequentes não se sentirá tão extenuado.

Estou chamando sua atenção para essas obviedades a fim de destacar o fato de que os processos pelos quais nosso corpo passa ao longo do tempo o tornam mais ou menos predisposto a certas atividades. Quem pratica corrida três vezes por semana, por exemplo, está muito mais preparado para fugir de um assaltante do que uma pessoa sedentária.

Da mesma forma, nossa alma também apresenta predisposições advindas de nossa história. Por exemplo, há pessoas que se sentem extremamente desconfortáveis em situações novas porque, no passado, foram forçadas a se adaptar de modo abrupto a um contexto diferente. A alma delas tornou-se, por conta dessa experiência, predisposta a encarar a novidade como uma ameaça. Assim, sempre que podem, fogem do desconhecido e procuram estar sempre preparadas a fim de evitar absolutamente qualquer imprevisto.

Há também aqueles indivíduos que não suportam situações de conflito. Alguns deles, além da ansiedade intensa, experimentam até sensações físicas apavorantes quando expostos a contendas e embates. A experiência clínica me autoriza a dizer que em praticamente todos os casos desse tipo verifica-se uma história marcada pela exposição precoce a conflitos familiares, geralmente entre os pais. Dito de outro modo, pessoas que evitam conflito possuem uma alma que se tornou predisposta a temer todo e qualquer confronto porque lá atrás, quando eram crianças, se sentiram extremamente ameaçadas pelo impacto dos conflitos familiares.

A terapia psicanalítica nos ajuda a identificar essas predisposições e a gênese de cada uma delas. Afinal, esse é um requisito necessário para que se possa ajudar a alma a perdê-las e a adquirir tendências e inclinações mais favoráveis à vida.

Psicanálise não é autoconhecimento

Muitas pessoas dizem que fazem Psicanálise não só para se livrarem de certos sintomas, mas também pelo desejo de se conhecerem.

Entretanto, a Psicanálise não serve a essa segunda finalidade pela simples razão de que não se pode conhecer aquilo que já se sabe.

Como assim, Lucas? Explico: ao contrário do que muita gente imagina, nós não somos desconhecidos para nós mesmos. Pelo contrário: sabemos exatamente o que se encontra presente em cada pedaço de nossas almas.

O problema é que a gente deliberadamente se esquece de algumas dessas coisas. Sabe quando você tem certeza de que sabe a resposta de uma pergunta da prova, mas não consegue se lembrar dela? Então, com as coisas da alma acontece o mesmo. A diferença é que o esquecimento da resposta da prova não é proposital (pelo menos, aparentemente, não…).

Repito: nós conhecemos tudo o que se passa em nosso interior. Contudo, por medo, vergonha ou culpa, preferimos fingir que alguns dos elementos que nos habitam não existem. Isso faz com que nos tornemos estrangeiros para nós mesmos.  Não por falta de conhecimento, mas pela resistência a nos… RECONHECERMOS.

Sim, as pessoas não adoecem porque não se conhecem, mas por que não RECONHECEM certas partes de si mesmas. Nesse sentido, o que a Psicanálise promove não é autoconhecimento, mas AUTORECONHECIMENTO.

O que acontece numa terapia analítica é semelhante ao processo de aprendizagem na concepção de Platão. Para o filósofo grego, quando aprendemos uma verdade, isso significa tão-somente que estamos nos lembrando dela, pois já a conhecíamos de nossa estada prévia no mundo inteligível.

Analogamente, na Psicanálise, quando o sujeito obtém, por exemplo, um insight e se dá conta das motivações de um sintoma ou de um traço de personalidade, o que está acontecendo é um processo de RECONHECIMENTO de uma verdade que já estava ali presente, impedida de se manifestar em função das resistências internas.

A gente faz Psicanálise para transformar cicatrizes em tatuagens

 

Não é possível mudar o passado.

Não é possível voltar no tempo e fazer com que seus pais frios e distantes se tornem acolhedores e amorosos. Não dá para voltar há 20, 30, 40 anos e impedir aquele abuso sexual de acontecer ou convencer sua mãe de que violência e autoritarismo não combinam com educação.

Enfim, nos é vedada a possibilidade de alterar os fatos que atravessaram nossa existência.

Contudo, podemos, sim, mudar a maneira como os enxergamos. Não, eu não estou me referindo a essas bobagens polianescas que muitos pseudoterapeutas andam dizendo por aí. O que eu, como psicanalista, proponho não é uma mera ressignificação do passado, o tal do “enxergar o lado bom das coisas”. Não existe lado bom no abuso sexual, na opressão, na frieza, na violência. Não! Na vida, diferentemente do que acontece no Instagram, não existe filtro para fazer tudo ficar artificialmente belo.

A gente não faz Psicanálise para “olhar a vida de outra forma”. A gente faz Psicanálise para se APROPRIAR da vida tal como ela é e foi (aos nossos olhos): com suas dores, com seus abusos, com seus sofrimentos.

A tendência natural que todos nós temos é a de querermos nos livrar das memórias das dores que nos marcaram.  Ou seja, não queremos TOMAR POSSE da nossa própria história. Desejamos inutilmente voltar no tempo para mudar as coisas. E, por isso, muitos de nós vivem cronicamente frustrados.

A Psicanálise vai na contramão dessa tendência. Convocamos o paciente a resistir a ela e o exortamos a olhar para o próprio passado e dizer: “Isso sou eu, essa é a minha história. Apesar de não ter escrito todas as páginas, permaneço sendo o único autor dessa obra irrepetível que é a minha existência”.