O que é sublimação?

A entrada em cena das idéias de Jacques Lacan no palco da teoria psicanalítica foi de importância incomensurável no processo de refinamento conceitual do campo freudiano. A partir da extração feita pelo psicanalista francês da lógica subjacente a cada um dos mitos criados por Freud (como os do complexo de Édipo, complexo de castração e do pai da horda primeva) foi possível aos de fora enxergar a psicanálise não mais como um conjunto de fábulas reducionistas destinadas a explicar uma gama de fenômenos assaz complexos como a etiologia das neuroses, os sonhos, etc.

Por outro lado, Lacan e, principalmente, os lacanianos, prestaram um enorme desserviço à história da psicanálise no próprio ato de destilar a lógica das noções freudianas. Na tentativa de tornar mais palatável para lingüistas, filósofos, matemáticos e demais intelectuais uma teorização nascida da clínica neuropatológica e feita para os recém-nascidos psicólogos, Lacan e seus discípulos, ao mesmo tempo em que explicavam os paradoxos de Freud, injetaram uma dose exagerada de caráter hermético em suas elaborações.

Um exemplo paradigmático disso ocorreu com o conceito de sublimação. Até Freud não havia nenhuma dificuldade para definir tal conceito. Qualquer incauto que tivesse lido o texto “Pulsões e destinos da pulsão” (na tradição direta do alemão) ou “Os instintos e suas vicissitudes” (na tradução mais conhecida consagrada pela Standard Edition) sabia perfeitamente que a sublimação era uma das saídas possíveis que o sujeito encontra para lidar com a pulsão sexual, cuja peculiaridade seria o fato de utilizar a energia sexual (leia-se tesão) para a realização de atividades culturais como escrever, pintar, organizar um manifesto etc. Partindo da própria etimologia da palavra, podemos dizer que sublimar significa transformar a baixeza das paixões da carne em matéria-prima de coisas SUBLIMES.

Você mesmo, caro leitor, pode-se lembrar facilmente das vezes em que conscientemente sublimou! Quando na impossibilidade de deleitar-se sexualmente com a garota desejada, você se contentava em escrever-lhe cartas e mais cartas de um amor puro e sublime… Agora imagine que esse mesmo processo ocorra sem que você perceba. Imagine que aquela sua coleção de carros esportivos de brinquedo possa ser a forma que você encontrou para satisfazer uma fantasia sexual. Estranho, né? Pois é exatamente isso que Freud chamou de sublimação.

Até aí as coisas se passam de maneira perfeitamente inteligível com exceção dessa última estranheza sentida após a explicação freudiana. O que a elaboração lacaniana produz é justamente um apagamento da inteligibilidade com a contrapartida de eliminar também a estranheza. Podemos dizer, portanto, que Lacan erra nos meios mas acerta nos fins. Já veremos por que.

No seminário sobre a ética da psicanálise, o analista francês surpreende seus alunos com a seguinte afirmação: “Sublimar significa elevar um objeto à dignidade de Coisa”. É em torno dessa assertiva que minha explicação desse post girará pois, para compreendê-la, é preciso estabelecer preliminarmente os pressupostos que a fundamentam.

Em primeiro lugar, convém dizer que do ponto de vista freudiano, toda a nossa existência humana, apesar de composta por inúmeras atividades, possui como objetivo último a busca por um estado de completa satisfação. No entanto, como todos sabem – e não é preciso ler Freud para compreender isso – esse estado não passa de uma construção mítica, pois ele é naturalmente impossível visto que a vida é puro contraste. Uma hora a gente está triste, outra a gente está feliz e só sabemos que estamos felizes porque outrora estivemos tristes e vice-versa. Portanto, o estado completo de satisfação não passa de uma fantasia. Todavia, o aspecto curioso é que mesmo sabendo que é uma fantasia, constantemente tendemos a considerá-la como possível, por exemplo, quando ficamos apaixonados e achamos que a pessoa amada é a outra metade da laranja que vai nos fazer felizes para sempre. Mesmo que alguns leitores digam que não, no fundo, no fundo, é isso que todo mundo sente. Afinal, se todos imaginassem as agruras pelas quais passarão no decorrer do relacionamento, é provável que grande parte de nós permanecesse sozinhos para sempre. Então, já que tendemos a transpor a ilusão de uma satisfação completa para a realidade, é COMO SE em algum momento de nossa existência nós, de fato, já tivéssemos a experimentado e, após determinado tempo, tivéssemos sido separados do objeto que nos proporcionava tal satisfação. Mas vejam bem – e essa foi uma contribuição trazida pelo Lacan – tudo se passa no plano do COMO SE. Por isso não cabe dizer que esse momento de satisfação foi vivido no útero ou nas primeiras mamadas. Todas essas hipóteses são interpretações a posteriori. O mais justo é dizer que já nascemos marcados com a idéia de que um dia experimentamos um estado de completa satisfação que, não se sabe por que cargas d’água, foi perdida.

Lacan, na tentativa de substancializar, quer dizer, dar corpo a essa perda, a essa falta, a princípio (no referido seminário sobre a ética) apresentou a idéia de que no princípio havíamo-nos nos satisfeito com algo que ele chamou de Coisa (Das Ding em alemão), mas a consciência de que essa Coisa havia existido só existiria a partir do momento em que tivéssemos entrado em contato com a cultura que dizia que poderíamos nos satisfazer com determinados objetos e não com outros. Trocando em miúdos, eu só reconheço que um dia estive em contato com a Coisa, o objeto de satisfação, a partir do momento em que o acesso a esse objeto me é interditado.

Vejamos agora se é então possível compreender a definição lacaniana da sublimação. Para isso, vamos substituir o termo “Coisa” por “objeto de satisfação”. A frase, então, fica assim: “Sublimar é elevar um objeto à dignidade de um objeto de satisfação”. Mais fácil, não é? Mas ainda resta articular essa definição com o que Freud afirma sobre o conceito de sublimação e para isso teremos que atentar para as características que o pai da psicanálise enuncia para a pulsão.

Segundo Freud, nada na pulsão sexual é fixo a não ser o fato de que não importa com quem o sujeito se relaciona ou de que forma o faz, ele sempre visa à satisfação. Entretanto, como vimos, essa satisfação é sempre parcial pois a satisfação plena é impossível. Assim, é como se a pulsão nunca alcançasse a Coisa, o objeto de satisfação plena, mas tão-somente desse voltas em torno dele, o bordejasse. No plano psíquico, é como se, ao nos apaixonarmos, fantasisticamente pensássemos que nosso relacionamento com a pessoa amada constituísse o acesso à Coisa. Todavia, como esse acesso é impossível de fato, logo vem a decepção, pois nos damos conta de que tudo não passou de mais uma volta dada em torno da Coisa.

Com a sublimação, o que acontece é que, na fantasia, esse lugar da Coisa é preenchido por um objeto qualquer. É assim que a escrita passa a não constituir mais uma mera função expressiva, mas adquire, na economia psíquica do sujeito, um estatuto tal como uma válvula de escape para suas desilusões e fantasias. Ela se torna a mídia na qual ocorrerão as voltas em torno da Coisa. É assim também que os carrinhos da coleção são elevados da condição de meros objetos de metal à de objetos de satisfação, com os quais o sujeito perde horas e horas, organizando, admirando. É como se ao escrever, pintar ou organizar seus carrinhos, o sujeito por breves momentos fizesse de conta que estava ali, face a face com a Coisa…

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23 comentários sobre “O que é sublimação?

  1. Salve, Salve Mestre, que bons ventos o trazem de volta ao blog. Gostei do Texto, muito massa …. espero ver mais posts por aqui. um forte abraço.

    MSc. Igor Madeira

  2. A sublimacao nada mais e (meu teclado esta sem acento)que um mecanismo coerente ao mundo tridimensional e bipolar em que estamos imersos.Ele e fruto do estado atual de evolucao do homem, tomando por inicio desde o surgimento daquilo que chamamos de consicencia e que vem sendo captada pelo teleencefalo desenvolvido desde que se tornou o tal.
    O conhecimento esta presente, provavelmente desde sempre e atraves do mecanismo da evolucao, o cerebro passou a interpretar este conhecimento captado ênergeticamente atraves do cerebro e da consciencia(com uma antena).E esta interpretacao foi, e vem tomando formas com o passar das geracoes e dos seculos.Atualmente ele interpreta o conhecimento do todo (de maneira geral) a busca da felicidade como satisfacao sexual.Futuramente inexoravelmente ira compreender que a busca da felicidade e traduzida dentro da verdade absoluta como algo sublime que ainda poucos cerebros conseguiram captar e traduzir.

  3. Parabéns
    Gostei de sua explicação foi bem preciso e relacionou o tema com ações do cotidiano.

  4. Obrigado Marinalva, conforme a evolução for acontecendo, mais mentes vão captando a verdade absoluta em relação a grande busca do ser humano, a felicidade.E com oconhecimento absoluto (ou suficiente) a sublimação deixará de existir pois não haverá mais o coflito da dualidade,uma vez que se incorporou o conhecimento do absoluto.
    Esta é a minha visão.
    Um exemplo de mente cuja antena já estava sintonizada e por isso traduziu a verdade absoluta em todas as suas formas foi Jesus, isso há mais de 2.000 anos!Basta aplicar o termo sublimação ao conhecimento demostrado por Ele, e veremos que não faz nenhum sentido quando percebemos como era a mente de Jesus através do conhecimentoque ele deixou.

  5. Lucas,
    Parabens pelo seu esforço e dedicação, pois, sem estes nao seria possivel um texto tao rico e objetivo..

  6. Olá Maria Cristina!
    Obrigado pelos elogios!
    Espero estar contribuindo efetivamente para um discernimento maior da teoria psicanalítica.
    Um grande abraço e apareça sempre!

  7. muito legal e compreessível a definição da maneira que colocaste ,valeu, abraço

  8. Olá jeronimo! Fico feliz que tenha gostado!
    Obrigado pelo comentário e apareça sempre!

  9. Explicaçoes como estas me fizeram compreender muitas coisas ocultas
    valeu !!!

  10. Olá Taís!
    Você não tem idéia de como observações como a que você fez me deixam satisfeito!
    Espero continuar te ajudando a tornar iluminados conceitos outrora obscuros.
    Fique à vontade para sugerir alguma noção que você gostaria que fosse explicada aqui.
    E apareça sempre!
    Grande abraço!

  11. Olá Irislaine! Obrigado pelo comentário! Apareça sempre!

    Grande abraço!

  12. Bem elucidativo o texto deste Lucas Napoli,que acabo de conhecer.fFui psiquiatra.Atualmente estou aposentada.

  13. Pingback: Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (parte 1) | Lucas Nápoli

  14. Pingback: Pinto Pet | São Meus Hormônios

  15. Parabéns pelas explicações!
    Consigo entender assuntos complexos somente em seu blog.

  16. Olá Claudia! Fico muito feliz com esse feedback!

    Recomendo o blog para pessoas que você conhece e que também têm o desejo de aprender sobre psicologia e psicanálise.

    Um forte abraço e apareça sempre!

  17. Me surgiu uma dúvida, alguém poderia esclarecer? É possível fazer uma analogia com a sublimação de Freud e a individuação de Jung? De que maneira? obrigada

  18. Olá Adriana! Acredito que os dois conceitos foram utilizados para darem conta de realidades completamente diversas, mas pode ser que um estudo rigoroso e profundo das obras de Jung e Freud possa concluir que existem semelhanças e, até mesmo, efetivamente uma analogia entre eles.

    Um forte abraço e apareça sempre!

  19. Olá Paula! Muito obrigado pelo comentário!

    Explore à vontade o site!

    Um forte abraço!

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