
Normalmente, nossos pensamentos e os sentimentos que os acompanham estão conectados de forma adequada.
Por exemplo: se eu pedir que você pense em sua melhor amiga e lhe perguntar o que sente ao fazer isso, provavelmente sua resposta será algum afeto positivo como ternura, carinho etc.
Da mesma forma, 99% de vocês diriam que sentem asco, nojo, repugnância ao se imaginarem num restaurante comendo um prato enorme de… fezes.
— Ah, Lucas, mas isso é óbvio. Por que você está tomando meu tempo para falar de banalidades?
Calma. Isso foi só uma introdução.
Meu objetivo aqui é falar sobre as situações em que há uma desconexão entre pensamentos e afetos. Conhecê-las pode te ajudar a pensar melhor sobre si.
Quando certos pensamentos entram em conflito com nosso ego (a imagem que queremos — ou suportamos — ter de nós mesmos), um dos mecanismos de defesa que utilizamos para proteger essa imagem é o RECALQUE.
Inicialmente, Freud achou que ele consistia simplesmente em tirar o pensamento perturbador do alcance da consciência.
Porém, a experiência clínica foi mostrando que este é apenas um dos desfechos possíveis do recalque.
Na verdade, a operação fundamental desse mecanismo é o rompimento da ligação original entre pensamento e afeto.
Essa desconexão, em si, é suficiente para proteger o ego.
Ou seja, o pensamento não precisa necessariamente ser deletado da consciência. Basta separá-lo do sentimento que o acompanhava.
Por exemplo: vamos supor que você teve uma briga feia recentemente com seu pai e lhe passou rapidamente pela cabeça a ideia de que seria bom que ele morresse.
Incapaz de suportar esse pensamento, você automaticamente o recalcou, ou seja, desconectou a ideia da morte do pai do sentimento que a acompanhava no momento (ódio).
Separado do pensamento original, o ódio pode se vincular a outra ideia, por exemplo, à de um influenciador digital, levando você a se tornar a mais nova hater do sujeito em questão…
Já o pensamento sobre a morte do pai pode permanecer na consciência, acompanhado, agora, não mais pelo ódio, mas pelo MEDO.
Você passa a se preocupar exageradamente com a saúde de seu pai, liga todos os dias para saber se ele está bem, fica aflita quando ele faz uma viagem de carro…
A ideia de que seu pai poderia morrer não sai da sua cabeça, mas, agora, ao pensar nela, você não se vê como uma pessoa que QUER que isso aconteça (autoimagem insuportável), mas como alguém que busca justamente evitar tal desfecho.
Se essa preocupação excessiva começa a atrapalhar seu sono e seu dia a dia, de repente você pode decidir fazer terapia.
Se o terapeuta for cognitivo-comportamental, ele provavelmente vai tentar te ajudar a se convencer de que esse medo exagerado de que seu pai morra não tem fundamento na realidade, que é só um conjunto de “pensamentos automáticos” nutridos pela ansiedade.
Mas se o terapeuta for psicanalista, ele te ajudará a traçar a HISTÓRIA dessas preocupações, reconstruindo as ligações que foram desfeitas pelo recalque.
E então você perceberá que o verdadeiro objeto do seu medo não é a morte do pai, mas a imagem de si como filha que um dia desejou isso.
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