O que é pulsão de morte? (final)

winehousecrackheadContinuando: no post anterior, vimos que os fenômenos que Freud utiliza para ilustrar o novo princípio do funcionamento mental que havia descoberto foram da ordem da repetição. Estou certo de que você, leitor, já deve ter se feito a pergunta: “Por que por mais que eu não queira fazer tal coisa, eu continuo fazendo?” Nas próprias Escrituras encontramos São Paulo se lamentando por fazer o mal que não quer.

Pois é, meus amigos, Freud resolve chamar essa compulsão a repetir o mesmo erro de Pulsão de Morte. Por que “de Morte”? Porque, ao contrário das pulsões sexuais que nos fazem construir ligações afetivas e gerar outras vidas e das pulsões de autopreservação (como a fome, p. ex.) que nos fazem preservar nossa própria vida, a Pulsão de Morte parece querer levar-nos para o buraco!

Mas ainda permanece a pergunta: por que tal impulso existe em nós? A única forma com que Freud consegue dar solução a esse problema é recorrendo a uma hipótese velhinha, elaborada por um dos primeiros psicólogos, um sujeito chamado Gustav Fechner. Esse dizia que nosso aparelho psíquico era como uma máquina de descarregar tensão (A ansiedade vem justamente quando não conseguimos descrregar a tensão acumulada). O problema é que se a tensão for totalmente descarregada, a gente morre! Logo, ao realizarmos completamente a tendência de nosso aparelho psíquico, o resultado é a… morte.

Vejamos, então, a conclusão de Freud: se nosso aparelho psíquico tende a descarregar toda a tensão que acumulamos no dia-a-dia, quando eu tenho necessidade de repetir as mesmas coisas, é porque eu ainda não consegui descarregar. A repetição é uma forma de tentar descarregar toda a tensão. Querem ver um exemplo terrível de como isso é verdade?

A drogadição. A melhor imagem para a pulsão de morte é a chamada “Cracolândia”, a região de São Paulo onde convivem à luz do dia traficantes e consumidores de crack. O viciado deixa de pensar em trabalho, estudo, namorada, para passar o dia a fumar seu cachimbo. O que esse cara busca? Paz. Sim, ele não quer prazer sexual, ele não quer o prazer de comer um sanduíche, ele quer uma sensação maior. Ele quer uma satisfação que não o faça mais ter fome, ter sede, ter tesão. E ele quase consegue: por uns poucos minutos a droga lhe dá essa ilusão. Mas o efeito em pouco tempo passa.

E aí é necessário repetir, e repetir, e repetir…

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8 comentários sobre “O que é pulsão de morte? (final)

  1. Muito bom os textos, parabéns….
    Gostaria que você esclarecesse um conceito que as pessoas utilizam muito, inclusive por influência psicanalítica e quase sempre não corresponde ao que seria de fato a coisa, o que gostaria que esclarecesse era sobre o “ego”.

  2. Pingback: O que é recalque (final) « Lucas Nápoli

  3. Pingback: “Na dúvida, é melhor ser passivo”: Ronaldo, o ato-falho encarnado « Lucas Nápoli

  4. Esse exemplo da “Cracolândia” foi genial.
    Parabéns pelo blog. Já está adicionado à minha lista de favoritos.

    Até mais.

    Angra Valesca.

  5. Com prazer, Lenir! Qualquer tipo de comportamento ou pensamento que acomete o sujeito e que o leva ao sofrimento por se incitarem-no compulsivamente à repetição pode ser tomado como exemplo de funcionamento da pulsão de morte, como relacionamentos em que um dos parceiros faz o outro sofrer demasiadamente e esse não consegue se separar. Ele não sabe por que, mas não consegue… Obviamente, está em jogo o seu desejo e como este se satisfaz através da relação desastrosa. Todavia, essa satisfação pelo sofrimento é o que leva Freud a supor a ação de uma pulsão de morte. Respondido?

    Grande abraço e apareça sempre!

  6. Podemos pensar os estudos, o trabalho, e tudo o que utilizamos como caminho para um ideal, caminho este que embora sempre se repita nunca chegamos a nos satisfazer. O trabalho sempre me leva a querer trabalhar mais para ter mais dinheiro e assim ser mais rico por exemplo… Aprendi este exemplo de forma simples em um curso e que ao meu ver caiu como uma luva. Em nome de uma busca por um prazer idealizado e irreal (sem limite, infinito) a pessoa repete até sua auto-destruição. Muito comum nos neuróticos e também no filme Cisne Negro quando ela alcança a perfeição, ao final, só resta a morte…

    Abraços

  7. Olá Marco! Obrigado pelo comentário!
    Compartilho do seu argumento que, aliás, é um desenvolvimento lacaniano a posteriori que fornece maior racionalidade ao conceito bruto de pulsão de morte em Freud. Eu próprio utilizei esse argumento quando expliquei o conceito aqui no blog.
    No entanto, como você verá no post seguinte, Winnicott mostra que, não obstante, a morte posssa aparecer como consequência de uma compulsão a repetir, ela (a morte) não pode ser tomada como o objetivo ou o alvo da intencionalidade do sujeito, mas sim como uma consequência desfavorável resultante de formações defensivas. Nesse sentido, a compulsão à repetição seria uma condição do humano, como o quer Lacan, mas sim como uma resultante de uma relação insuficiente e doentia com o ambiente. Falarei mais disso no próximo post!
    Mais uma vez obrigado e apareça sempre!

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