O que é o grande Outro lacaniano?

A incidência da palavraQuero iniciar este texto fazendo a ressalva de que meu objetivo ao escrevê-lo não é o de fazer uma exposição completa do significado do termo “Outro” na teoria lacaniana de modo a esgotar o assunto. Não tenho sequer a pretensão de contemplar todos os sentidos em que Lacan utilizou aquela expressão ao longo de seu ensino. Meu propósito é bastante modesto: trata-se de esclarecer de modo didático a acepção mais clássica do grande Outro lacaniano. Dirijo-me, portanto, especialmente àqueles que estão se iniciando no estudo da psicanálise.

Como já disse em outros textos, conceitos são sempre elaborados com a finalidade de tornar acessíveis teoricamente uma experiência ou um conjunto de experiências. No caso do conceito de “grande Outro” podemos dizer que Lacan pretendia dar conta da relação do homem com tudo aquilo que determina boa parte do seu modo de ser.

O que determina o que somos? Uma resposta possível para essa pergunta poderia ser: as experiências que temos ao longo da vida, certo? Essas experiências de algum modo modelariam a nossa maneira de agir e de pensar. Precisamos nos lembrar, contudo, que essas experiências acontecem dentro de um contexto cultural específico. As experiências possíveis para alguém que nasceu no Oriente Médio são completamente diferentes das experiências possíveis para quem nasceu no Brasil, por exemplo. Em outras palavras, entre o indivíduo e o mundo de experiências que a ele está acessível, existe alguma coisa que recorta a sua realidade.

Dentro desse mundo específico de experiências que a cultura em que eu estou inserido me oferece, podemos dizer que as relações que estabelecemos com as pessoas também determinam quem somos, não é verdade? Muitos dos nossos gestos, hábitos e modos de falar foram fruto das identificações que tivemos com pessoas que, em algum momento da vida, foram importantes para nós. Contudo, o que mais determina o nosso jeito de ser a partir das relações com as pessoas é aquilo que elas falam a nosso respeito. Pense, por exemplo, no seu nome: essa palavra (que certamente não foi escolhida por você, mas sim por outras pessoas, provavelmente seus pais) determinou uma série de situações em sua vida. Pense nas coisas que os seus pais disseram sobre você antes do seu nascimento. Ao contrário do que muita gente pensa, essas coisas não são irrelevantes. Os sonhos, desejos e medos que seus pais tiveram a seu respeito de algum modo condicionaram a sua existência. E isso não sou nem Lacan quem diz. É a própria clínica psicanalítica que o evidencia! É como se nascêssemos como pessoas antes mesmo de nascermos efetivamente. Pense também em que medida a forma como você se descreve está carregada de coisas que as pessoas disseram sobre você. Como psicólogo de um abrigo para crianças e adolescentes percebo como o discurso dos familiares e dos próprios profissionais da instituição organizam a imagem que as acolhidas tem de si mesmas.

Pois bem. Pedi para você pensar em todas essas situações porque elas permitem observar de forma clara que a nossa maneira de ser, de pensar e, sobretudo, de enxergar a si mesmo é fortemente determinada por… palavras. Isso mesmo. Palavras que foram enunciadas por pessoas, mas que parecem se organizar de forma independente e agir sobre nós com um peso de verdade, como se tivessem sido ditas por Deus! Na clínica, por exemplo, às vezes vemos que o sofrimento de algumas pessoas está profundamente enraizado em certas palavras ouvidas quando crianças.

Com o conceito de “grande Outro” Lacan pretendeu abarcar em um único movimento teórico as diversas formas através das quais a palavra nos constitui: da cultura (que é essencialmente feita de linguagem) ao discurso familiar. Do ponto de vista lacaniano, nada mais somos do que o efeito da incidência da linguagem sobre nossos corpos.

Talvez você esteja se perguntando neste momento sobre a necessidade de grafar a palavra Outro com O maiúsculo. Pois bem. Lacan fez isso com o propósito de diferenciar esse Outro como lugar da palavra que nos determina dos “outros” (com o minúsculo) que são as pessoas com as quais nos relacionamos, nos identificamos e às vezes nos confundimos. Para Lacan era necessário fazer essa distinção, dentre outras razões, porque o Outro como lugar da palavra possui uma autonomia que faz com que ele não possa ser reduzido ao que os pequenos outros enunciam. Essa independência da linguagem na determinação do sujeito é certamente uma das grandes marcas da teoria lacaniana.

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11 comentários sobre “O que é o grande Outro lacaniano?

  1. Muito obrigado por tornar esse conceito claro como o dia!. Enfim tenho uma compreensão mais prática do que teórica. Usando os posts do blog para facilitar minhas leituras na psicanálise.

  2. Que bom que você gostou, Jhonis!

    Apareça sempre por aqui!

    Forte abraço!

  3. Olá Lucas! conheci seu site há pouco tempo, sou estudante de psicologia, e estou muito interessado em psicanálise. Ainda sou iniciante, suas postagens me tiraram muitas dúvidas, mas ainda tenho várias kkkkk e uma delas é em relação ao conceito lacaniano de ”gozo”, a relação deste com os sintomas, já ouvi muitas coisas sobre gozo, mas ainda não consigo entender, sempre levo para o lado do prazer absoluto, não sei se é isso. Acho que seria interessante uma postagem explicando esse conceito. Você explica muito bem! =D abraços.

  4. Olá, Lucas! Agradeço pelo tempo que você destina a criação destes textos que explicam de forma simplificada algo que, à primeira vista, parece complexo e exige uma demanda maior de estudo por parte do leitor. Continue sempre! Obrigado!

  5. Muito bom, meu xará!

    Um exemplo simbólico de uma experiência perversa com a figura do Grande Outro pode ser encontrada em uma das cenas iniciais ou finais do filme 1984.

    Inclusive, o assunto me lembrou de um texto meu que dizia assim:

    “Figuras autoritárias da Universidade não podem entender Lacan.
    Uma vez escutei uma professora universitária, que exerce função de orientadora para pesquisadores, dizer que sempre leu Lacan mas nunca conseguiu entendê-lo. Ora, ela não pode, não quer e não irá entender Lacan. Caso ela entenda Lacan, perceberá a besta histérico-autoritária que ela é diante da autenticidade das ideias e estilos singulares de escrita de seus orientandos. E todo o conjunto de discursos de defesa à favor da autenticidade, da individualidade, da singularidade e da criatividade original que são berrados em salas e corredores da instituição universitária caem por terra e se revelam engodos. Compreendendo Lacan, essas figuras autoritárias da universidade se descobrirão como o “Outro” que produz o discurso no inconsciente, o “Outro” que produz desejo sobre o desejo alheio.”

  6. Olá Marlon! O conceito de “gozo” já está na lista para os próximos posts!

    Grande abraço!

  7. Que texto fantástico Lucas! Sou estudante de Psicologia e mesmo lendo bastante sobre o assunto, ainda não tinha compreendido esse conceito… rsrs
    Obrigada! Me ajudou bastante!!!
    Aproveitei pra dar uma lida em outros textos aqui e te dou os parabéns pelo blog… Sua linguagem é muito clara e de fácil entendimento!!! Não é todo mundo que consegue falar de psicanálise com essa propriedade e ainda se fazer entender, mesmo para aqueles que não a conhecem mais a fundo.
    Grata pela contribuição!
    Abraços!

  8. Muitíssimo obrigado pelo feedback, Dállia!

    Fique sempre à vontade para comentar!

    Grande abraço!

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