A psicologia do “bonzinho”

Betty Draper

Você certamente deve conhecer pessoas que se encaixam no perfil que irei descrever abaixo. Talvez você até seja uma delas. Trata-se daqueles indivíduos aos quais o senso comum se refere como “bonzinhos”. O fato de essa alcunha ser formulada no diminutivo já denota suficientemente uma característica básica dessas pessoas: o modo afetado com que expressam os atributos que tendemos a associar à bondade. O bonzinho é uma caricatura do ideal de bondade construído pela civilização ocidental. Ele é cordial em excesso, solícito em excesso, prestativo em excesso, humilde em excesso… Enfim, o bonzinho manifesta em suas atitudes e comportamentos todas as características superficiais que são reputadas a um indivíduo supostamente bom. Contudo, não possui o tempero do equilíbrio que torna a bondade um valor precioso.

Neste texto pretendo fazer algumas despretensiosas ilações e formular algumas hipóteses que podem nos ajudar a compreender a dinâmica psicológica subjacente ao modo “bonzinho” de ser. Como o leitor poderá perceber, farei um uso bastante livre de certos conceitos da teoria psicanalítica, sem a preocupação de demonstrar filiação a alguma orientação teórica específica.

Insegurança

Os pais, cônjuges, familiares e amigos mais próximos dos indivíduos “bonzinhos” percebem com muita clareza que se trata de pessoas geralmente muito inseguras. A despeito da devoção que demonstram pelo outro em muitas ocasiões – o que poderia a princípio indicar amadurecimento emocional – os “bonzinhos” frequentemente sofrem com o medo de não serem aceitos, amados ou reconhecidos pelo outro. Nesse sentido, quando se mostra excessivamente prestativo ou incapaz de negar um favor a alguém, o “bonzinho” não está dando mostras de que não é uma pessoa egoísta ou avarenta. Na maior parte das vezes, o “bonzinho” não ajuda o outro por uma decisão espontânea e consciente de fazê-lo, mas sim pelo medo de não ser amado pelo outro. Em decorrência, as relações interpessoais do “bonzinho” tendem a ser profundamente narcísicas, pois ele está o tempo todo tentando “resolver” a sua própria insegurança.

O temor de perder o amor do outro é tão imperativo que as demandas alheias acabam sendo tomadas pelo “bonzinho” como obrigações. Isso faz com que as pessoas com as quais o ele não possui vínculos muito fortes acabem acreditando que estão lidando apenas com uma pessoa muito prestativa e generosa.

Podemos concluir, portanto, que o “bonzinho” está muito mais preocupado com o seu próprio eu, ou melhor, com as fragilidades de sua estrutura egóica, do que com o outro. Em outras palavras, o que está por trás dos comportamentos do “bonzinho” é exatamente o oposto do que sua conduta parece indicar à primeira vista. Com isso, não estou defendendo a tese de que o “bonzinho” encarne a figura do canalha egoísta que ajuda os outros por um mero exercício de “marketing pessoal”. O funcionamento subjetivo do “bonzinho” não é perverso, mas da ordem do que ficou conhecido em psicanálise como “patologias narcísicas”. Devotar-se ao outro, ter dificuldade para confrontá-lo e para resistir às suas demandas são comportamentos que se impõem ao “bonzinho” com a força de atos compulsivos. Ele só consegue fazer frente ao medo de perder o amor do outro, sujeitando-se, tornando-se um servo resignado.

Máscara

Um conceito que talvez nos possa ser de grande utilidade para a compreensão da etiologia da conduta “boazinha” é a noção de “falso self” proposta por Winnicott. Do ponto de vista desse autor, quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico com o bebê nas fases iniciais do desenvolvimento, a criança pode desenvolver um falso self a fim de assegurar sua sobrevivência psíquica. Quando o ambiente não se relaciona de modo sintônico? Quando é invasivo ou negligente, ou seja, quando não atende as necessidades do bebê em seu ritmo. Nessas situações, o bebê é obrigado a abrir mão de sua espontaneidade para se comportar de acordo com o ritmo do ambiente. Essa maneira artificial de se comportar é uma das facetas do que Winnicott chamou de “falso self”.

Ora, em linhas gerais não é isso o que ocorre com o “bonzinho”? Se levarmos em conta o modo subserviente com que lida com as pessoas, podemos inferir que inconscientemente o “bonzinho” experimenta o outro como hostil ou, no mínimo, como incapaz de resistir a uma negativa. Assim, o “bonzinho” dá mostras de não ter incorporado uma referência de cuidado suficientemente bom capaz de produzir nele o sentimento de segurança que dá sustentação ao eu. Por essa razão, é como se o indivíduo precisasse segurar a si mesmo o tempo todo e proteger-se do abandono do outro, objetivos que só podem ser alcançados por meio da construção de uma identidade artificial: o modo “bonzinho” de ser.

O que é o grande Outro lacaniano?

A incidência da palavraQuero iniciar este texto fazendo a ressalva de que meu objetivo ao escrevê-lo não é o de fazer uma exposição completa do significado do termo “Outro” na teoria lacaniana de modo a esgotar o assunto. Não tenho sequer a pretensão de contemplar todos os sentidos em que Lacan utilizou aquela expressão ao longo de seu ensino. Meu propósito é bastante modesto: trata-se de esclarecer de modo didático a acepção mais clássica do grande Outro lacaniano. Dirijo-me, portanto, especialmente àqueles que estão se iniciando no estudo da psicanálise.

Como já disse em outros textos, conceitos são sempre elaborados com a finalidade de tornar acessíveis teoricamente uma experiência ou um conjunto de experiências. No caso do conceito de “grande Outro” podemos dizer que Lacan pretendia dar conta da relação do homem com tudo aquilo que determina boa parte do seu modo de ser.

O que determina o que somos? Uma resposta possível para essa pergunta poderia ser: as experiências que temos ao longo da vida, certo? Essas experiências de algum modo modelariam a nossa maneira de agir e de pensar. Precisamos nos lembrar, contudo, que essas experiências acontecem dentro de um contexto cultural específico. As experiências possíveis para alguém que nasceu no Oriente Médio são completamente diferentes das experiências possíveis para quem nasceu no Brasil, por exemplo. Em outras palavras, entre o indivíduo e o mundo de experiências que a ele está acessível, existe alguma coisa que recorta a sua realidade.

Dentro desse mundo específico de experiências que a cultura em que eu estou inserido me oferece, podemos dizer que as relações que estabelecemos com as pessoas também determinam quem somos, não é verdade? Muitos dos nossos gestos, hábitos e modos de falar foram fruto das identificações que tivemos com pessoas que, em algum momento da vida, foram importantes para nós. Contudo, o que mais determina o nosso jeito de ser a partir das relações com as pessoas é aquilo que elas falam a nosso respeito. Pense, por exemplo, no seu nome: essa palavra (que certamente não foi escolhida por você, mas sim por outras pessoas, provavelmente seus pais) determinou uma série de situações em sua vida. Pense nas coisas que os seus pais disseram sobre você antes do seu nascimento. Ao contrário do que muita gente pensa, essas coisas não são irrelevantes. Os sonhos, desejos e medos que seus pais tiveram a seu respeito de algum modo condicionaram a sua existência. E isso não sou nem Lacan quem diz. É a própria clínica psicanalítica que o evidencia! É como se nascêssemos como pessoas antes mesmo de nascermos efetivamente. Pense também em que medida a forma como você se descreve está carregada de coisas que as pessoas disseram sobre você. Como psicólogo de um abrigo para crianças e adolescentes percebo como o discurso dos familiares e dos próprios profissionais da instituição organizam a imagem que as acolhidas tem de si mesmas.

Pois bem. Pedi para você pensar em todas essas situações porque elas permitem observar de forma clara que a nossa maneira de ser, de pensar e, sobretudo, de enxergar a si mesmo é fortemente determinada por… palavras. Isso mesmo. Palavras que foram enunciadas por pessoas, mas que parecem se organizar de forma independente e agir sobre nós com um peso de verdade, como se tivessem sido ditas por Deus! Na clínica, por exemplo, às vezes vemos que o sofrimento de algumas pessoas está profundamente enraizado em certas palavras ouvidas quando crianças.

Com o conceito de “grande Outro” Lacan pretendeu abarcar em um único movimento teórico as diversas formas através das quais a palavra nos constitui: da cultura (que é essencialmente feita de linguagem) ao discurso familiar. Do ponto de vista lacaniano, nada mais somos do que o efeito da incidência da linguagem sobre nossos corpos.

Talvez você esteja se perguntando neste momento sobre a necessidade de grafar a palavra Outro com O maiúsculo. Pois bem. Lacan fez isso com o propósito de diferenciar esse Outro como lugar da palavra que nos determina dos “outros” (com o minúsculo) que são as pessoas com as quais nos relacionamos, nos identificamos e às vezes nos confundimos. Para Lacan era necessário fazer essa distinção, dentre outras razões, porque o Outro como lugar da palavra possui uma autonomia que faz com que ele não possa ser reduzido ao que os pequenos outros enunciam. Essa independência da linguagem na determinação do sujeito é certamente uma das grandes marcas da teoria lacaniana.

Por que Lacan disse que o sujeito é o que um significante representa para outro significante?

Na primeira etapa de seu ensino, Jacques Lacan definiu o sujeito como o que um significante representa para outro significante. Neste artigo, pretendo expor a maneira como interpreto esse enunciado lacaniano, objetivando também fornecer algumas balizas para a compreensão dessa fórmula um tanto obscura para muita gente. Por motivos didáticos, iniciarei minha exposição convidando o leitor a realizar comigo uma extração dos elementos essenciais da assertiva lacaniana.

Temos, portanto, diante de nós os termos sujeito e significante. Tratemos de definir cada um deles a fim de posteriormente analisarmos a relação atávica que Lacan defende que exista entre ambos.

Sujeito como lugar vazio

O conceito de sujeito, como qualquer estudante de ciências humanas deveria saber, não é uma noção unívoca, ou seja, comporta uma diversidade de interpretações e definições. No campo filosófico, o termo sujeito é elevado ao estatuto de conceito a partir do pensamento de René Descartes. Como foge aos nossos propósitos, analisar o conceito de sujeito em Descartes em todas as suas particularidades, serei bastante sucinto ao falar dele, mesmo correndo o risco de simplificá-lo demasiadamente.

Assim, o sujeito cartesiano poderia ser identificado ao eu, realidade supostamente irredutível, pois, segundo Descartes, sua existência não poderia ser posta em dúvida, já que o próprio ato de duvidar pressuporia um sujeito. No domínio da linguística, diz-se que sujeito é o elemento de uma sentença que sofre a predicação. Em outras palavras, o sujeito é aquilo ao qual atribuímos ou negamos determinadas características.

Observe que tanto do ponto de vista cartesiano quanto linguístico, o termo sujeito é um lugar vazio. Com efeito, para Descartes, tudo o que se diz a respeito de alguém pode ser colocado em dúvida pelo próprio sujeito. Qualquer atributo que sobre ele recaia não pode lhe servir como representante último, pois o próprio sujeito possuiria a capacidade de colocar o mérito do qualificativo em xeque e, se necessário, descartá-lo. Nesse sentido, o sujeito constitui-se em um lugar a priori vazio. Ocorre o mesmo com a noção linguística de sujeito: a palavra “Pedro” considerada isoladamente não possui sentido algum. Só adquire significação quando atribuímos a ela algum predicado, como na sentença “Pedro é um aluno.”. Portanto, o sujeito “Pedro” considerado em si mesmo é um lugar inicialmente vazio a ser preenchido com predicados.

Signo, significante, significado

Ora, o que são predicados senão palavras, significantes? A noção de significante utilizada por Lacan é proveniente de Ferdinand de Saussure, um linguista que propôs uma visão estruturalista da linguagem. Para Saussurre, a linguagem seria formada por elementos chamados signos. Esses, por sua vez, seriam compostos de duas dimensões, unidas arbitrariamente, ou seja, em função do acaso, a saber: o significante e o significado. O significante seria a parcela material do signo linguístico (o som da palavra, por exemplo). Já o significado seria o conceito, o sentido, a ideia associada ao significante. A teoria da linguagem de Saussure é estrutural porque pressupõe que o valor de um determinado signo não é dado a priori, mas depende da relação com os demais signos do sistema linguístico.

Lacan, guiado pela experiência com as formações do inconsciente (sonhos, lapsos, chistes, atos-falhos, etc.) reinventa a proposta original de Saussure, argumentando que a linguagem seria constituída essencialmente de significantes e não de signos e que o significado não teria – ainda que arbitrariamente produzida – uma relação fixa com o significante. Para Lacan, a experiência psicanalítica teria demonstrado que o significado é extremamente volátil, evanescente, como um fluido que desliza ao longo da cadeia de significantes. Nesse sentido, a noção de signo deveria ser relativizada, já que uma relação mais ou menos fixa entre significante e significado estaria restrita a um dado contexto. Por outro lado, na linguagem como um todo, isto é, no lugar do Outro, só existiriam significantes. Aliás, Lacan define o Outro precisamente como “tesouro dos significantes”.

Sujeito como efeito

Vejamos agora como Lacan articula a noção de sujeito à de significante. Vimos que o sujeito é na verdade, tanto do ponto de vista cartesiano quanto linguístico, um lugar a priori vazio. O sujeito, portanto, não possui uma substância. Sua caracterização ou significado estaria na dependência da predicação. Essa, por sua vez, é constituída de significantes, os quais, do ponto de vista lacaniano, são os próprios artífices do significado a partir das relações que estabelecem com outros significantes na cadeia linguística.

Vale lembrar que a noção de sujeito, pelo menos no caso específico da experiência psicanalítica, serve para designar a pessoa ou o indivíduo, de modo que cada um de nós pode dizer: “Eu sou um sujeito”. Então vem Lacan e diz que o sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante. Assim, se fôssemos reformular a frase original substituindo o termo “sujeito” pela definição que Lacan dá a ele, teríamos “Eu sou aquilo que um significante representa para outro significante”. Dessa frase podemos depreender algumas conclusões: a primeira é a de que, do ponto de vista lacaniano, nós não somos aquilo que acreditamos ser e a segunda é a de que a capacidade de sermos diferentes do que somos não depende de nós, mas do Outro. Afinal, é no lugar do Outro, para Lacan, que se desenrola a cadeia significante que nos determina. É lá que se encontram os significantes que nos representam para outros significantes.

Dito de modo mais simples e direto, o que Lacan pretende expressar com sua fórmula é a tese de que nós, nossos desejos, nossos projetos, nossas concepções sobre a vida, nossos amores, enfim, tudo o que decorre de nós estaria na dependência do discurso do Outro. Não foi por acaso que nessa primeira etapa de sua obra Lacan definiu o inconsciente justamente como o “discurso do Outro”. É no campo do Outro que de modo autônomo os significantes se articulam uns aos outros produzindo-nos como um mero efeito.

Assim, inicialmente lugares vazios, nós, enquanto sujeitos, vamos adquirindo substância – uma substância sempre provisória e evanescente, diga-se de passagem – ao sermos preenchidos com as significações vindas do campo do Outro, constituindo-nos como meros efeitos da cadeia de significantes.

Um comentário

Ressalto que essa foi a concepção de subjetividade que Lacan sustentou ao longo de toda a primeira fase de seu ensino, conhecida pelos comentadores como sendo marcada pela ênfase no chamado “registro simbólico”. Observem que nesse modelo não há espaço para o Real, para o elemento disruptivo e imprevisível. Para utilizar os termos gregos de que Lacan faz uso no Seminário 11, não há espaço para a tiquê; tudo é autômaton! O simbólico recobre tudo, de modo que ao sujeito não é possível ser nada além de um efeito da linguagem.

Do meu ponto de vista, acredito que não seja possível negar o fato de que boa parte daquilo que acreditamos ser, bem como uma série de nossos comportamentos e atitudes possam estar ligados mais ou menos diretamente aos desejos de nossos pais e à nossa herança cultural, isto é, ao que se desenrola no lugar do Outro. Penso, contudo, que essa “alienação” ao campo do Outro não é – como pensava Lacan mesmo na última fase de seu ensino – uma das operações necessárias para a constituição do sujeito. A meu ver, a alienação já é, em si mesma, sintoma de um adoecimento. Se o sujeito ainda em formação se aliena ao campo do Outro é porque a ele foi vedada a possibilidade de agir espontaneamente e se apropriar dos objetos do mundo de forma criativa. Mais uma vez, assim como na tese do desejo como falta, Lacan universaliza o adoecimento psíquico dando-lhe a conotação de estrutura.

Alguns excertos da obra lacaniana em que o autor sustenta sua concepção de sujeito como mero efeito da cadeia de significantes (todos os grifos são meus):

“O Outro é o lugar em que se situa a cadeia do significante que comanda tudo que vai poder presentificar-se do sujeito, é o campo desse vivo onde o sujeito tem que aparecer.” (Seminário 11, p. 193-194). [1]

“O significante produzindo-se no campo do Outro faz surgir o sujeito de sua significação. Mas ele só funciona como significante reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito.” (Seminário 11, p. 197).

“O quarto termo é dado pelo sujeito em sua realidade, como tal foracluída no sistema e só entrando sob o modo do morto no jogo dos significantes, mas tornando-se sujeito verdadeiro à medida que esse jogo dos significantes vem dar-lhe significação.” (De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose, Escritos, p. 558)

“Isso fala no Outro, dizemos, designando por Outro o próprio lugar evocado pelo recurso à palavra, em qualquer relação em que este intervém. Se isso fala no Outro, quer o sujeito o ouça ou não com seu ouvido, é porque é ali que o sujeito, por uma anterioridade lógica a qualquer despertar do significado, encontra seu lugar significante.” (A significação do falo, Escritos, p. 696).

Sugestões de leitura:

415rdLRsR6L._SX333_BO1,204,203,200_     51F-6cShRsL._SX332_BO1,204,203,200_     51kpXxSHdIL._SX331_BO1,204,203,200_


[1] É forçoso reconhecer que o próprio Seminário 11 marca a mudança no posicionamento de Lacan acerca do assunto, como o comprova o seguinte trecho: “Será que isto quereria dizer, do que bem parece que sou mantenedor, que o sujeito está condenado a só se ver surgir in initio, no campo do Outro? Isto podia ser assim. Muito bem!, de modo algum – de modo algum – de modo algum.” (p. 199, grifo do autor)

O que é objeto a?

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Preâmbulo

Antes de dar início a essa explicação, quero deixar claro que não pretendo aqui esgotar o tema ou analisar pormenorizadamente todas as suas nuances e vertentes interpretativas. Trata-se apenas de uma tentativa de tornar o conceito de objeto a o mais claro possível para o público leigo e para aqueles que estão se iniciando no estudo da teoria de Jacques Lacan. Digo isso como resposta prévia a qualquer acusação do tipo: “o objeto a não se reduz ao que você diz”. Desde já quero dizer que concordo com tal objeção. De fato, o conceito de objeto a não se reduz ao que será escrito aqui. Não obstante, sou veementemente contra a tendência bastante presente no campo psicanalítico, notadamente na orientação lacaniana, de elevação de conceitos ao estatuto de entes quase místicos, inefáveis, para os quais qualquer tentativa de descrição estaria fadada ao fracasso. Em suma, o objeto a é apenas uma expressão verbal, forjada por Lacan com o objetivo de lhe auxiliar na caracterização e esclarecimento de determinadas dimensões da experiência humana.

Mas deixemos de prolegômenos e vamos direto ao assunto: a noção de objeto a talvez tenha sido a contribuição mais relevante de Jacques Lacan para a teoria psicanalítica. Ela pretende ser uma resposta psicanaliticamente legítima à seguinte pergunta: “Com qual objeto o ser humano se relaciona?”.

A descoberta de Freud

De fato, outros psicanalistas tentaram fornecer respostas para essa pergunta. No entanto, segundo Lacan, as respostas que eles deram não fizeram jus à grande descoberta de Freud. Que descoberta era essa? A descoberta de que diferentemente do restante da fauna do planeta, o animal humano não possui um objeto fixo com o qual saciar seu desejo sexual.

Não há nada de enigmático nisso. Para entender tal afirmação, basta lembrar-se do seguinte: apenas o homem sente tesão por sapatos, cores de cabelo, lábios carnudos, calcinhas, cuecas, brilhos nos olhos, vegetais, outros animais etc. A variação dos objetos que nos provocam tesão é quase infinita. Por outro lado, a sexualidade de um leão, de uma tartaruga ou de um cavalo-marinho não conta com tamanha plasticidade. Leão só sente tesão por leoa, touro por vaca, peixe por peixe! Há encaixe sexual nos animais (selvagens, diga-se de passagem. Quando se tornam domésticos, ou seja, quando entram em contato com o homem, a coisa muda – basta observar os cães).

Nos animais, há relação sexual. No homem há relações sexuais, mas nenhuma em que os dois parceiros estejam de fato interessados num e noutro. É por isso que Lacan dirá no Seminário 11: “Amo em ti, mais do que tu”. Sim, porque cada um está interessado não no outro em si, mas naquilo que no outro lhe provoca seu desejo! Essa foi a grande descoberta de Freud e o conceito de objeto a pretende ser uma forma de abordá-la teoricamente.

Freud aprendeu com as crianças e os perversos que a pulsão sexual não tem objeto. É isso o que os psicanalistas querem dizer quando afirmam que o ser humano é marcado por uma falta. Que falta é essa? É a falta de um objeto que esteja de acordo com o nosso desejo. Pelo fato de, no caso da espécie humana, esse objeto não existir, toda vez que nossa pulsão, essa fome de viver fundamental, se engancha em algum objeto nós temos a ilusão de que ele nos satisfará plenamente. Mas nos enganamos. Logo vem a decepção e nós vamos buscar outra coisa. É como se nosso desejo nunca pudesse ser satisfeito, mas apenas aguçado, ou, em outros temos, a gente só conseguisse ficar com tesão mas nunca saciá-lo completamente.

Nesse momento, o leitor pode se perguntar: “Tá, mas se então a pulsão não possui um objeto adequado, como sentimos tesão? O que provoca o nosso tesão? No animal é a imagem do parceiro, isto é, do objeto. Trata-se de uma experiência da ordem do instinto, uma experiência por assim dizer pré-ordenada. E em nós, humanos, o que provoca nosso desejo?” Lacan responderá dizendo: é justamente essa falta de objeto. Na medida em que não temos um objeto adequado, os objetos que nos são oferecidos para ocupar esse lugar não vêm de uma estruturação pré-ordenada da natureza, mas sim da cultura. A cultura nos diz o que devemos desejar. E quando eu digo cultura estou me referindo aqui a todas as experiências que o sujeito tem com qualquer instância que ocupe para ele o lugar de Outro, que pode ser desde o pai e a mãe até um programa de televisão. São esses outros que ocupam lugar de Outro que nos dizem quem nós somos, o que devemos fazer da vida e o que desejar. No entanto, esse Outro nunca consegue realizar essa tarefa completamente porque nenhum objeto que ele nos oferece para desejar vai ser capaz de saciar completamente nosso desejo. Isso porque, repetindo, não há um objeto único que satisfaça plenamente a todos, de modo que sempre haverá um restinho de desejo insatisfeito que nos moverá na busca por outro objeto.

Frequentemente mascaramos com imagens a inexistência desse objeto ou, em outras palavras, a impossibilidade de descarregar esse restinho de desejo. Daí, por exemplo, só conseguirmos sentir desejo sexual em condições específicas, o que é mais explícito na experiência do perverso: o sujeito só consegue sentir tesão pela namorada se ela estiver trajando uma meia-calça vermelha, por exemplo. Ali, a imagem da meia-calça está no lugar da falta do objeto. A pulsão se enroscou na imagem da meia-calça de modo compulsivo. Com isso, o sujeito evita o confronto com a falta de objeto, com a angústia suscitada por essa falta, mas, por outro lado, se priva da plasticidade da pulsão.

Então, respondendo à pergunta do nosso interlocutor fictício, o que provoca nosso desejo não é nenhum objeto com o qual nos relacionamentos efetivamente, mas sim esse restinho que sobra de todas essas experiências. É esse restinho que nos dá gás para investir em outros objetos. E esse restinho é uma das facetas que Lacan chama de objeto a, o objeto que causa o desejo. Por isso, a gente pode dizer que, no fundo, é esse restinho que a gente busca naqueles com os quais nos relacionamos. Buscamos neles esse pedaço perdido de satisfação, esse objeto que nos saciaria completamente.

Objeto adequado ao desejo?

Essa é a tese de Lacan, a qual é perfeitamente compatível com a obra de Freud. No entanto, como dissemos acima, outros teóricos da psicanálise não pensavam dessa forma. Na década de 50, a posição defendida por eles possuía bastante prestígio na comunidade psicanalítica, de modo que foi preciso que Lacan fizesse um seminário inteiro no ano acadêmico de 1956-57 apenas para criticá-la e indicar o que considerava ser a verdadeira posição psicanalítica a respeito do objeto.

Tais analistas haviam lido a teoria de Freud sobre a sexualidade da seguinte forma: no início da vida o bebê se relaciona com pedaços de um objeto, nunca com um objeto inteiro. Até aí está tudo certo. De fato, para Freud os objetos com os quais a criança lida são objetos parciais (seio, fezes, pênis, clitóris). No entanto, e é nesse ponto que eles se afastam de Freud, pois admitiam que a criança vai amadurecendo ao longo do tempo, de modo que após o período de latência ela não mais se relaciona com objetos parciais, mas com um objeto inteiro e totalmente harmônico, capaz de satisfazer plenamente ao seu desejo. O neurótico seria, portanto, aquele infeliz que ainda permanece agarrado aos objetos parciais, não tendo amadurecido o suficiente para lidar com um objeto total. Em decorrência, o objetivo da análise seria levar o sujeito ao amadurecimento, isto é, ao ponto em que ele fosse capaz de se relacionar com um objeto pleno e harmônico.

Ora, como vimos ainda há pouco, isso não tem nada a ver com o que Freud sustentava. Para o pai da psicanálise, o neurótico que chega ao psicanalista não é um imaturo. Aliás, a idéia de “amadurecimento” não faz qualquer sentido em Freud. O neurótico que procura análise é apenas alguém que teima em achar que é possível encontrar esse objeto pleno, completamente satisfatório. Assim, o objetivo da análise, em Freud, é diametralmente oposto ao da análise da Escola da Relação de Objeto. Trata-se, na clínica freudiana, de levar o sujeito a se dar conta justamente de que o objeto pleno não existe, de que essa falta de objeto é estrutural na existência humana e de que é justamente ela que permite o exercício da criatividade e da plasticidade do desejo.

Quando Lacan cria o conceito de objeto a o que ele tem em vista é justamente dar corpo a essa falta de um objeto natural, adequado e harmônico para o ser humano. Para o analista francês (como também para Freud) nós nunca deixamos de nos relacionar com objetos parciais, com pedaços de pessoas. Em nossa fantasia fundamental, a qual regula de fato a nossa relação com o mundo, continuamos a ser ávidos bebês que desejam o seio da mãe porque o consideram uma parte perdida de si mesmos. E é justamente essa parte perdida de nós mesmos, para sempre perdida, que nós buscamos ao longo da vida. É essa parte perdida, para Lacan, o objeto com o qual nos relacionamos: um objeto que, por sua ausência, se faz presente, o objeto a.

Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (final)

Vimos até aqui que, por tudo o que Freud escreveu, sobretudo a partir de 1920 com a introdução do conceito de pulsão de morte, a felicidade para o pai da psicanálise é um sonho humano fatalmente destinado à frustração. Espero ter deixado claro que essa conclusão faz todo o sentido se levarmos em conta as premissas que guiaram o pensamento do médico vienense.

De fato, se pressupormos como verdadeiras as seguintes asserções:

(1) que entre o indivíduo e a cultura há um conflito inexorável oriundo da presença em cada organismo humano de uma pulsão destrutiva que se contrapõe à vida em sociedade;

(2) que, para que o indivíduo possa se inserir no campo que Lacan chamará de grande Outro, isto é, o campo da cultura, cuja estrutura basilar é a linguagem e suas leis, ele deve necessariamente abdicar de parte de suas tendências pulsionais – o que coloca em jogo novamente um conflito eterno entre o indivíduo e a pulsão;

(3) que a felicidade seria a possibilidade de que tal conflito inexistisse, ou seja, que, no limite, pudéssemos atualizar nossas intencionalidades sem qualquer tipo de impedimento por parte da cultura;

Logo,

(conclusão) a felicidade é de fato impossível.

Em outras palavras, para Freud a felicidade é impossível porque, ao defini-la, ele se coloca na posição do neurótico clássico, incapaz de superar o drama edipiano. Ora, o que significa ser feliz para tal neurótico? Fantasisticamente, poder ter a mãe só para si. Nos termos de Jacques Lacan, poder ter acesso a um gozo pleno, que não existe, mas que o neurótico, em sua fantasia, supõe que exista em algum lugar da terra.

Ora, por que o limite imposto pela cultura aos nossos desejos tem que ser visto necessariamente a partir da ótica da falta, da insatisfação, do mal-estar? Esse é o ponto de vista do neurótico, que sonha em ultrapassar o rochedo da castração. Por que não podemos enxergar no limite a instauração da dimensão do possível na existência humana? Sim, porque todo limite, ao mesmo tempo em que impede a execução de uma determinada intenção, nos mobiliza a inventar uma nova forma de agir, de modo que o limite ou a resistência do real aos nossos desejos nos põe na trilha da criatividade, da invenção. Não obstante, para que paremos de nos queixar diante do limite e passemos a utilizá-lo como motor de criação, nossa âncora subjetiva deve estar em outro lugar que não o da satisfação pulsional. Era assim que Donald Woods Winnicott pensava.

Para-além do mecanicismo: Winnicott e o ser

Refém do modelo mecanicista proveniente da modernidade, Freud jamais conseguiu pensar que para o sujeito humano há algo mais fundamental que as pulsões, algo que, inclusive, possibilita o uso saudável da dimensão pulsional. Para o pai da psicanálise, o ser humano é uma máquina de descarregar pulsões que se complica por sua pertença ao campo da cultura. Para Freud, não há nada na natureza do humano que o singularize com exceção do fato de que nele há pulsões e não instintos, o que faz com que a subjetividade deva ser concebida necessariamente como uma construção social (o que Lacan expressará com sua fórmula: “o sujeito é o que um significante representa para outro significante”).

Em contrapartida, para Winnicott, que não tinha experiência apenas com neuróticos insatisfeitos com a castração, mas com bebês doentes e saudáveis, antes de o homem se ver às voltas com a dinâmica pulsional, algo de caráter muito mais essencial deverá ser constituído. Trata-se do que Winnicott chama de “experiência de continuidade do ser” ou “a experiência de que a vida faz sentido, de que vale a pena viver.”. Para o psicanalista inglês, é esse o elemento fundamental que possibilita uma vida saudável. É essa a âncora subjetiva que todo ser deve possuir para conseguir lidar de modo não problemático nem doentio com as limitações da existência.

A construção do fundamento para a felicidade

Como se constitui essa experiência de continuidade do ser? Winnicott, diferentemente de Freud, não conseguiu ver no bebê humano uma maquininha de descarregar pulsões. A experiência clínica do analista inglês com crianças não lhe deixou dúvidas de que o pequeno filhote de Homo sapiens é dotado de determinadas tendências para o desenvolvimento que, para serem realizadas, precisam de uma contrapartida ambiental, ou seja, a adaptação ativa de alguém. Portanto, o homem não é, nem a princípio nem posteriormente uma máquina burra. Trata-se de um organismo orientado para o amadurecimento.

Num primeiro momento, as necessidades do bebê demandam uma atenção tão intensa por parte do ambiente (mãe) que o bebê não tem condições de discernir-se como um ser separado dele. Se o ambiente for suficientemente bom, isto é, se conseguir atender adequadamente as necessidades da criança, o único registro psíquico que o bebê fará dessa experiência será o de “estar sendo”, ou seja, de existir.

Gradativamente, a dependência do infans em relação ao ambiente vai se relativizando, de modo que a mãe pode se desligar um pouco do bebê. Ainda assim, ela não pode se ausentar por muito tempo. Do contrário, como o bebê ainda não se constituiu como uma pessoa inteira capaz de reconhecer o outro como independente, se for deixado desamparado por longo tempo, ele sente como se estivesse desaparecendo, uma experiência que Winnicott chamou de “angústia inimaginável” e que quebra aquele sentimento de “estar sendo” que vem sendo solidificado desde o nascimento.

Se tudo correr bem, ou seja, se o ambiente não provocar a emergência de angústias inimagináveis no bebê, o indivíduo vai paulatina e naturalmente aceitando o fato de que o outro é independente e possui corpo e psiquismo próprios. Essa passagem ao reconhecimento da alteridade só é feita de maneira saudável, isto é, não-traumática, se o sujeito conseguir consolidar esse estofo subjetivo, essa âncora, que é o sentimento de “estar sendo” ou “sentimento de continuidade da existência”. Esse sentimento funciona como algo que capacita o indivíduo a enfrentar as intempéries da vida sem se deixar abater de modo doentio. É como se, dotado desse sentimento, o sujeito pudesse dizer: “Aconteça o que acontecer, eu sou.”.

A experiência de “estar sendo” permite a atualização na vivência cotidiana de uma dimensão humana que Freud sequer cogitou existir que é o que Winnicott chama de “verdadeiro self”, que é o ponto subjetivo a partir do qual podemos criar. Trata-se de um aspecto do sujeito que Winnicott qualifica como “indevassável” no sentido de que ele é irredutível a qualquer tentativa de incorporação cultural. Ele é a marca de nossa singularidade. No indivíduo saudável, que conseguiu consolidar o sentimento de continuidade da existência, o verdadeiro self não precisa ficar oculto, não precisa ser defendido, pois possui a força daquele sentimento para resistir às limitações do mundo externo.

A presença do verdadeiro self na existência individual possibilita a experiência de sentir que a vida faz sentido. Isso porque só sentimos que a vida faz sentido quando nos sentimos vivendo e, ao mesmo tempo, criando nossa própria experiência vital. Trata-se de uma sensação oposta àquela que experimentamos quando temos que vivenciar situações que nos foram impostas. Nesses casos, vivenciamos uma sensação de futilidade, justamente por não nos sentirmos co-criadores no processo. A experiência do sujeito freudiano clássico é dessa ordem. É um indivíduo que sente as limitações colocadas em jogo por nossa pertença à cultura como meras imposições externas que o tornam insatisfeito. Tal sujeito fundamenta seu ser não na experiência de continuidade de ser, mas na satisfação pulsional. Por isso, sua conclusão será inevitavelmente a de que a vida não vale a pena, ou seja, de que não é possível ser feliz.

Felicidade a toda prova

Finalmente, para Winnicott, a felicidade é sim, possível, e pode ser vista como sinônimo de saúde. E o que é a saúde para Winnicott? Não se trata de uma existência sem desprazer ou sem limitações. Pelo contrário, ser saudável para Winnicott significa ser capaz de incorporar e fazer frente a tais experiências. E isso só é possível se o indivíduo tiver construído seu ser sobre a rocha, para usar uma metáfora bíblica. Construir o ser sobre a rocha significa ter conseguido vivenciar nos momentos iniciais da vida a experiência de ser sem interrupções e sem angústias traumáticas. Essa experiência constitui-se em uma espécie de amparo ambiental introjetado, uma rocha que permitirá ao ser sobreviver às chuvas, aos ventos e às tempestades. Mais do que isso: essa experiência permitirá ao indivíduo encarar a vida não como algo pronto ao qual nosso papel é unicamente o de adaptação, mas sim como uma algo que se abre às contribuições espontâneas e criativas do vivente.

Concluindo, diria que a felicidade, do ponto de vista winnicottiano, não tem a ver com a dimensão dos afetos. Ser feliz não significa experimentar alegria ou prazer, pois isso implicaria em considerar a felicidade como algo fugaz, momentâneo, passageiro. Também não se trata, como pensara Freud, de uma felicidade utópica cuja impossibilidade reside precisamente no fato de ser descrita como estando na dependência daquilo que é barrado pela inserção na cultura. Não. Para Winnicott, a felicidade é uma condição existencial experimentada pelo ser que se sente existindo de modo criativo, ou seja, que não encara a vida como um fardo ou na posição de mero espectador. O que está em jogo é uma felicidade que contempla o imprevisto, o desprazer, a ansiedade como contingências necessárias à existência e não como elementos que tornam o ser infeliz. Em outras palavras, para Winnicott uma felicidade autêntica só pode ser concebida como aquela capaz de sobreviver ao sofrimento sem desfalecer.

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Defesa e Viver Criativo – Um Estudo sobre a Criatividade nas Obras de S. Freud e D. W. Winnicott

Dá pra ser feliz? Freud e Winnicott respondem (parte 1)

happiness
O problema da felicidade é certamente uma questão que não admite uma resposta definitiva, até porque diz respeito a um ente que só existe na mente dos seres humanos. Ninguém vê felicidades passeando por aí – nem com o auxílio do mais avançado dos microscópios. Dito de outro modo, felicidade é um conceito, um ente de razão. Trata-se de um conceito propriamente filosófico, posto que diz respeito a uma questão que interessa a todo mundo, mas sobre a qual apenas esses serem que se intitulam amantes da sabedoria se debruçam a fim de obter uma resposta. No nível do senso comum, da experiência cotidiana, a coisa se resume a uma resposta baseada unicamente na vivência daquele a quem se faz a pergunta: “Você é feliz?”. Ele diz “‘Sim, sou’ ou ‘Não, não sou’”. É a filosofia quem se dedica a ultrapassar essa dimensão puramente fenomenológica e pensar acerca dos critérios que podemos utilizar para definir alguém como um ser em estado de felicidade ou mesmo se esse estado é possível.

Essa reflexão, cujos resultados são veiculados principalmente através da mídia, nos afeta e nos faz formular também, mesmo no âmbito do senso comum, algumas respostas. Quantas vezes não nos pegamos dizendo para alguém que felicidade é momento e não estado, que não é possível um estado de permanente felicidade, mas apenas felicidades eventuais condicionadas a circunstâncias específicas ou que ser feliz é fazer o bem ao próximo etc. Dizemos isso com pretensão de estarmos formulando enunciados verdadeiros, esquecendo-nos que, de fato, a questão é insolúvel empírica e racionalmente, comportando apenas perspectivas e interpretações parciais. Tenderemos, creio eu, a adotar aquela perspectiva que mais favoreça a satisfação de nossos interesses práticos do presente. Em outras palavras, formulamos nosso conceito de felicidade com base não em uma iluminação divina, mas sim a partir de nossas experiências pessoais, desejos e, principalmente, com base naquilo que pretendemos atingir, já que somos seres orientados por interesses específicos.

Por conta disso, quero trazer aqui não um suposto verdadeiro conceito de felicidade, mas meros posicionamentos de dois autores clássicos da psicanálise acerca do tema: Freud e Winnicott. Antes de iniciar minha exposição sobre o ponto de vista de cada um deles, preciso salientar que nenhum dos dois formulou de modo explícito um conceito de felicidade, de modo que a discussão que farei pretende refletir, com base na obra desses dois autores, sobre como eles provavelmente responderiam às seguintes perguntas: “A felicidade é possível?” e “O que significa ser feliz?”.

Freud iluminista

Quem ainda não chegou a ler os escritos de Freud a partir da década de 1920, a começar pela obra clássica “Para-além do princípio do prazer” dificilmente poderá concordar comigo quando digo que o pai da psicanálise era um grande pessimista. Isso porque até os anos 20 do século passado, Freud se manteve fiel ao espírito iluminista, manancial ideológico em que sua formação em medicina aconteceu.

O Iluminismo, como se sabe, foi um dos últimos sonhos utópicos da humanidade, cujos partidários acreditavam ser possível eliminar as fontes do sofrimento humano, como a animosidade eterna entre os homens, através da razão e da ciência. Dito de outro modo, para os iluministas seria possível chegarmos a um estado civilizacional tal que as guerras não seriam mais necessárias porque nós nos tornaríamos seres educados pela razão e não precisaríamos nos comportar mais como animais enfurecidos.

É esse espírito que leva Freud a se tornar um apologista da psicanálise como uma técnica que a razão humana teria descoberto e que poderia eliminar de vez graves problemas neuróticos humanos resultantes da repressão sexual. É esse primeiro Freud que ficou marcado na cabeça de muitas pessoas como aquele que supostamente dizia que “tudo era sexo”. De fato, ao notar que os sintomas de seus pacientes histéricos e obsessivos eram resultado da repressão de tendências sexuais que a sociedade considerava vergonhosas, como sexo oral, sexo anal, desejo de adultério etc., a primeira conclusão de Freud foi: o que faz as pessoas se tornarem neuróticas, ou seja, sofrerem, é a sociedade e seus rígidos códigos morais. Portanto, se quisermos tornar as pessoas felizes deveremos fazer uma reforma social, de modo que os códigos relativos à conduta sexual sejam mais liberais. Assim, as pessoas não precisariam se martirizar pelos desejos que sentem e não se refugiariam em sintomas neuróticos.

Nesse primeiro momento de sua obra, já é possível notar o que Freud chamaria de felicidade. Se as pessoas sofriam porque tinham que reprimir seus desejos, logo a felicidade equivaleria à possibilidade de expressão plena de nossos desejos, de um gozo sexual que não sofresse repressão. Para esse primeiro Freud, isso seria possível desde que a sociedade fosse reformada e a moral sexual se tornasse liberal a ponto de permitir toda a variabilidade da experiência sexual humana. Notem como esse conceito de felicidade freudiano não é espontâneo, mas dependente e reativo: só se pode ser feliz se o Outro da cultura permitir.

Freud pessimista

A partir de 1920, com a introdução da hipótese da pulsão de morte, Freud abandona o otimismo iluminista e a influência filosófica que mais se faz sentir em seus escritos passa a ser as idéias de Schopenhauer e seu inveterado pessimismo. Provavelmente, a primeira guerra mundial tenha sido outro fator que levou Freud a largar o sonho iluminista. A frustração por ver a manifestação sanguinária da agressividade humana no auge do processo civilizatório fez com que Freud começasse a se perguntar: “Será que não haverá no interior de todo ser humano uma tendência latente para a morte que nenhum tipo de arranjo cultural é capaz de conter?”. A resposta – afirmativa – para essa pergunta é justamente o texto “Para-além do princípio do prazer”. Ali, Freud faz uma série de malabarismos teóricos para sustentar a tese de que se o sonho da paz perpétua entre os homens não pôde ser realizado, a razão seria o próprio sonho, mas sim o fato de que em todo homem habita uma pulsão de morte que o faz destruir o outro para não se destruir. Nesse momento, Freud abandona a idéia de que a felicidade é passível de ser alcançada.

No entanto, ainda não é em “Para-além do princípio do prazer” que Freud enuncia suas idéias acerca da felicidade. Fará isso nos dois textos quase complementares escritos já próximo ao fim de sua vida que Freud. Neles, o autor deixa claro porque, do seu ponto de vista, a felicidade seria impossível. Os textos são “O Futuro de uma Ilusão” e “O Mal-estar na Civilização”. Em ambos, Freud afirma com todas as letras que o homem não pode ser feliz porque para que um indivíduo o fosse, todos os outros não poderiam ser. Explico: é que, para Freud, como vimos anteriormente, felicidade seria poder matar quando se quer matar, fazer sexo com todo tipo de mulher incluindo as da própria parentela, pegar a mulher do outro quando desse vontade etc. É claro que estou fazendo uso de uma caricatura discursiva. Freud nunca disse isso literalmente, mas quem quer que leia os dois textos a que fiz menção, perceberá que para o médico vienense a felicidade plena seria a possibilidade de colocar em ato todos os nossos desejos.

Tal possibilidade só seria permitida hipoteticamente a uma única pessoa pela simples razão de que se todas as pessoas começassem a querer fazer tudo o que desejassem, o mundo se tornaria uma barbárie e logo todos morreriam. A civilização teria a função de impedir que isso acontecesse fazendo vigorar a Lei, isto é, os códigos de conduta, cuja base mínima é o mandamento “Não matarás”.

Vejam que Freud agora já vê a moralidade com outros olhos. Nesse momento, ele se dá conta de que a repressão é necessária para que os indivíduos não se matem uns aos outros, já que se eles forem deixados à própria sorte, assim acontecerá, pois em cada um deles habita uma pulsão de morte; são seres mortíferos por natureza.

Felicidade não; mal-estar

Na medida em que para que haja civilização, os indivíduos são obrigados a reprimir boa parte de seus desejos, cada um de nós seria assaltado continuamente por um sentimento de mal-estar, gerado pela quantidade de energia agressiva e sexual que não pode ser descarregada. Por essa razão, jamais poderíamos ser felizes, pois estaríamos sempre às voltas com esse mal-estar, essa ansiedade, essa angústia que, não raro, é descarregada nos sintomas neuróticos. Em outras palavras, para Freud, saúde e felicidade são apenas ideais, jamais estados concretos de existência. O homem é naturalmente doente, pois porta em si mesmo uma tendência destrutiva que é contrária à convivência com os demais seres humanos.

Notem que o posicionamento de Freud é claramente determinista: ele parte da suposição de que em todo indivíduo nasce com uma pulsão de morte e que a função primordial da civilização é dizer “Não”. Conquanto o pai da psicanálise tenha abandonado o ideário iluminista, ele ainda continua radicalmente moderno. Com efeito, é a modernidade que construiu oposições do tipo indivíduo/sociedade que, em Freud, aparece de forma claríssima: o indivíduo, com sua pulsão de morte maluca, é inimigo da sociedade, essa instância que Lacan chamará de Outro, que humaniza, que faz o pequeno animalzinho humano se tornar sujeito. É óbvio que numa perspectiva que admite tais pressupostos deterministas, a felicidade será mesmo impossível, pois ela será pensada, como de fato Freud pensou, como justamente aquilo que a cultura não permite que aconteça. Novamente faço-os notar que se trata de um conceito reativo de felicidade.

Na segunda parte deste texto, veremos como Winnicott, ao adotar um ponto de vista não-determinista, mas historicista, concebe a felicidade como sendo uma conquista possível.

Megamente e as conseqüências de um ambiente falho (final)

Decepcionado por não ter conseguido conquistar Rosana, o herói artificial Titã resolve fazer exatamente o contrário do que lhe havia sido proposto por Megamente. Começa a aterrorizar Metrocity com uma crueldade que nem mesmo Megamente seria capaz de empregar.

A gênese da destrutividade em Titã

Essa mudança no comportamento de Titã evidencia mais uma vez o caráter reativo do mal e da agressividade, cuja intensidade é diretamente proporcional ao impacto das decepções vivenciadas pelo sujeito. Titã não age movido pela força de uma pulsão de morte exteriorizada, mas sim por uma dinâmica afetiva marcada pelos sentimentos de humilhação e desilusão decorrentes da interação com um ambiente que o frustrou. Ele poderia ter reagido de modo diferente, até mesmo não agressivo, caso não tivesse se sentido tão onipotente como se sentira ao saber dos poderes que havia adquirido. Ao se julgar capaz de conseguir tudo o que queria no momento em que se tornara um herói, o jovem Hal refugiou-se numa fantasia de onipotência que não o permitiu reconhecer a resistência que a realidade estabelece à realização de todo desejo.

Titã acreditara que se havia se tornado irresistível à repórter e ao ter seu desejo frustrado, o anti-herói acabou se dando conta do caráter fantasioso do seu sentimento de onipotência, constatação que o fez se sentir ameaçado. Afinal, se mesmo se tornando um herói, ele não era capaz de conquistar seu objeto de amor, isso significava que ele era essencialmente um incompetente, um fraco, enfim, todos os adjetivos com os quais seu supereu lhe caracterizara. Sentindo-se, portanto, humilhado e ameaçado pelas críticas superegóicas que, nesse momento, devem ter grassado, Titã percebe que a única forma de recuperar sua potência e repelir esse sentimento de humilhação é tornando-se agressivo, cruel e utilizando seus poderes para o mal.

Um herói artificial

Na outra ponta da história temos uma situação radicalmente diferente. Megamente, cuja vida afetiva outrora era bastante semelhante à atualmente experimentada por Titã, vivencia agora outra modalidade de relação com o mundo, um tipo de interação espontânea, não-agressiva, benevolente. Como vimos, essa transformação foi produzida pelo encontro com o amor e a acolhida sincera da repórter Rosana Rocha que, não obstante, ainda cria que se relacionava com o bibliotecário Bernard. Num dos encontros entre Megamente e a repórter, o ex-vilão deixa, sem querer, que Rosana o veja tal como é, ou seja, como um ET azul de cabeça grande. É mais um momento de decepção no filme, que faz com que a repórter encerre o encontro e vá para casa.

Megamente, no entanto, volta a procurar Rosana a fim de ir com ela até a antiga casa de Metroman com vistas a encontrar uma forma de parar Titã, o qual vinha fazendo da cidade um caos. A repórter concorda em ir com o ex-vilão e, na residência de Metroman, acabam se encontrando com o próprio de roupão e barba por fazer. O herói não havia morrido, mas apenas saído de cena e é a explicação sobre o que o levara a fazer isso que nos interessa aqui.

Metroman disse que estava se sentindo cansado de ter que enfrentar cotidianamente aquelas batalhas com Megamente e ter que sustentar aquele papel de “o salvador de Metrocity”. Tudo aquilo parecia não fazer mais sentido pra ele. Na verdade, o que fica claro é que, de fato, jamais fizera sentido, pois o que motivava as atitudes heróicas de Metroman não era o seu desejo de fazer o bem, mas as demandas do Outro que lhe reivindicaram desde a infância a assunção da identidade de herói. Nunca lhe perguntaram o que ele de fato gostaria de fazer da vida. O ambiente à sua volta escolheu seu destino à sua revelia, pressupondo que, pelo fato de apresentar superpoderes, ele devesse necessariamente tornar-se um herói.

É nessa parte do filme que nos damos conta de que tanto Megamente quanto o Sr. Perfeitinho foram formados em um ambiente falho, insuficientemente bom. No caso de Megamente, as falhas se manifestaram como hostilidade e ausência de acolhimento às suas potencialidades. Já no caso do Sr. Perfeitinho, a expressão da insuficiência do ambiente foi bem mais sutil. Com efeito, o garoto só recebia elogios, era adorado por todos à sua volta, não experimentando um minuto sequer de hostilidade. Por que, então, o ambiente foi falho?

As duas modalidades de falha ambiental

Tragamos Winnicott novamente à baila para nos ajudar a pensar acerca disso. Para Winnicott, o ambiente pode falhar na adaptação ao bebê de duas maneiras. Uma delas (é a que ocorreu no caso de Megamente) acontece quando o ambiente frustra precocemente as expectativas do bebê, não permitindo a ele estabelecer uma relação de confiabilidade com o mundo. O protótipo dessa interação é a mãe que só fornece o seio ao bebê após o momento em que o infans alucina a presença do seio à sua frente, ou seja, ocorre um desencontro entre a necessidade do bebê e a presença do objeto que satisfaria essa necessidade. Nesse estágio da vida da criança, tal desencontro não pode ocorrer, pois, para estabelecer uma relação de confiança com o ambiente, o bebê precisa experimentar a ilusão de que foi ele próprio quem criou o seio, ilusão que só pode ser vivenciada se o seio aparece no exato momento em que o bebê o deseja.

O outro ripo de falha ambiental possível ocorre quando o ambiente não deixa espaço para a manifestação espontânea do desejo do sujeito. Naquela situação modelar a que fizemos referência, essa falha se manifestaria pela apresentação do seio antes que o bebê sentisse a necessidade de mamar. Essa condição impossibilita a ilusão de onipotência da criança da mesma forma que a anterior. Se naquela o seio veio atrasado, nessa veio adiantado. De todo modo, não veio no tempo do bebê, ou seja, o ambiente não agiu de acordo com a espontaneidade da criança, mas sim de acordo com suas próprias demandas.

A conseqüência desse segundo tipo de falha ambiental é, como no primeiro, a criação de um falso-self. Todavia, enquanto no primeiro caso o falso-self é criado marcado pela reação agressiva à frustração perpetrada pelo ambiente e após uma cogitação prévia acerca do que ele espera do sujeito, no segundo caso as coisas se passam de forma um pouco diferente. As demandas ambientais já se presentificam no momento mesmo da falha. De fato, ao apresentar o seio antes que o bebê tivesse necessidade dele, o ambiente já está obrigando a criança se sujeitar a seu ritmo, isto é, à suas demandas. O bebê é forçado a trocar seu desejo espontâneo pelo desejo do ambiente e, em decorrência, adotar uma identidade artificial que agrade a esse ambiente. Junto com a espontaneidade, vai-se embora também a agressividade que não tem sequer ocasião de manifestar-se naturalmente, pois o ambiente não permite que o bebê apresente frustrações. Ao invadir a existência do bebê com um seio inesperado, é como se o ambiente dissesse à criança: “Não se preocupe, você não precisará nem mesmo sentir a necessidade do seio. Ele estará aqui o tempo todo. Mame-o”.

Ora, a infância do Sr. Perfeitinho não fora basicamente assim? Empanturrado com as demandas à sua volta que o solicitavam a demonstrar seus incríveis superpoderes e, posteriormente, a utilizá-los no combate ao mal, Metroman jamais teve a oportunidade de expressar-se espontaneamente, de fazer o que verdadeiramente desejava. Aquele que todos aclamavam como herói, possuía, na verdade, pretensões muito mais modestas. Queria fazer o que todo cidadão comum faz e, além disso, tornar-se cantor de rock, mesmo que não tivesse lá muito talento para isso…

O herói Megamente

Conquanto tenham ouvido Metroman dizer isso com toda a clareza, Megamente e Rosana continuam fazendo o papel de ambiente falho para o agora ex-herói, pedindo insistentemente a ele que vá até a cidade para vencer o Titã. Felizmente, para sua saúde, Metroman recusa-se a submeter-se novamente às demandas do Outro, atitude que tem um efeito terapêutico duplo, pois leva Megamente a encontrar-se com sua verdadeira vocação, que é a de herói! É nesse momento que o ET azul abandona de vez a identidade de vilão, indo combater Titã. Após algumas reviravoltas, Megamente finalmente consegue recuperar o aparelho capaz de retirar daquele a essência de herói, transformando-o novamente no tímido câmera Hal. Megamente é, então, aclamado por toda Metrocity como o novo herói da cidade e recebe, por tabela, o amor de Rosana.

Concluindo

“Megamente” se apresenta como uma ilustração riquíssima dos modos singulares de manifestação de um espectro psicopatológico que afeta essa dimensão essencial da experiência humana à qual denominamos de identidade. No centro do palco temos um sujeito cuja experiência de ser de modo autêntico é perturbada pela hostilidade e rejeição que recebe quando criança e que se reage a essa frustração ambiental tornando-se destrutivo. Do outro lado, temos um herói artificialmente construído pelas demandas à sua volta e que, de fato, nunca quis ocupar essa função, mas tivera que fazê-lo à força, pois não fora respeitado em sua espontaneidade.

Ao final do filme ambos encontram seu verdadeiro destino e exibem aquela alegria que brota naturalmente no corpo daquele que sente que a vida faz sentido e que sentem aquela experiência que Winnicott descobriu ser a mais fundamental e imprescindível na vida de qualquer indivíduo, que é a experiência de continuidade do ser. De fato, Megamente e Metroman só conseguem resgatar essa experiência que neles sofrera interrupção na infância quando o falso-self de ambos perde a consistência e dá lugar ao verdadeiro self. Em Megamente isso aconteceu a partir da interação com um ambiente acolhedor, espontâneo e interessado representado pela repórter. Já com Metroman, a transformação ocorreu como o fruto de uma decisão corajosa, motivada pelo cansaço da identidade artificial.

Megamente e as conseqüências de um ambiente falho (parte 2)

Após assumir definitivamente a identidade de vilão, a única possível de adotar dentro do contexto hostil em que vivia, Megamente passa a travar grandiosas batalhas com o outrora Sr. Perfeitinho e agora herói da cidade, Metroman. O vilão cresce tendo tais lutas como sua principal ocupação.

Fama de mau

O acontecimento principal do filme, que deflagrará as condições em que se dará o desfecho da narrativa, é o último combate entre Megamente e Metroman. Nessa ocasião, fica evidente aos olhos do espectador que a identidade de vilão em Megamente é uma construção fundamentalmente artificial (falso-self) que não corresponde àquilo que o personagem de fato é em sua dimensão mais íntima. Com efeito, é impossível não notar o modo afetado com o qual Megamente expressa sua suposta maldade. Age como se de fato estivesse encarnando um personagem. Fica notório o fato de que, metaforicamente, está trajando uma vestimenta prêt-à-porter. Além disso, volta e meia Megamente mostra sinais de fragilidade e surtos de infantilismos (como os freqüentes erros nas pronúncias das palavras) que deixam bastante claro sua condição de imaturidade e do uso da identidade de vilão como defesa.

Em outras palavras, Megamente aí se apresenta como um ser que se sente permanentemente ameaçado e que precisa fazer uso da “fama de mau” para conseguir suprimir essa sensação de desamparo e medo. Demonstrei anteriormente que são justamente esses os sentimentos que, despertados precocemente no sujeito pelas falhas ambientais, suscitam a formação de um falso-self, na medida em que o self verdadeiro não foi suficientemente fortalecido para lidar com eles.

Sem Metroman, sem Megamente

Dissemos que se trata da última batalha entre Megamente e Metroman porque esse último morre no combate, ou melhor, finge que morre, como veremos adiante. Por ora, sigamos a sequência do filme e nos coloquemos na posição do espectador incauto que ainda não sabe os acontecimentos posteriores da história. Pois bem, a princípio, Metroman é considerado como morto, o que faz de Megamente o novo “dono” de Metrocity já que não haveria outra pessoa além do herói capaz de lutar contra ele.

Logo que se dá conta da suposta vitória, Megamente comemora o “feito” e passa a gozar a nova vida de “manda-chuva” da cidade. No entanto, gradualmente vai-se abatendo sofre ele uma profunda melancolia, cujas razões o próprio vilão explica a seu fiel companheiro, o peixe “Criado”, que não conseguia entender o porquê daquele estado. Megamente queixa-se de que sua vida perdera o sentido depois que ele havia “vencido” a batalha. Não havia mais ninguém com quem lutar e lutar contra Metroman era a única coisa que ele vinha fazendo ao longo de toda a sua vida.

Temos aqui a ilustração perfeita do momento em que o falso-self é colocado em xeque. Com efeito, a identidade falsificada é criada com a função doentia de servir como a máscara que o sujeito utiliza para se adaptar a mundo hostil, caótico e falho. Quando o mundo em questão, ou seja, o mundo que demandou do sujeito o forjamento de um falso-self, desaparece, esse perde a sua consistência, pois não fora uma identidade criada espontaneamente, baseada na experiência psicossomática autêntica do sujeito, mas sim por oposição a algo. Nesse sentido, para existir, o falso-self precisa de um ambiente ameaçador e desfavorável, o que coloca o sujeito na situação de só saber reconhecer quem é por oposição a outrem. É essa a problemática de Megamente.

Não obstante, diferentemente do que poderíamos pensar à primeira vista, a vacilação, isto é, a perda de consistência do falso-self, expressa frequentemente através de estados depressivos, como o que viveu Megamente, não é ruim para o sujeito. Pelo contrário: a tristeza que se abate sobre o personagem é justamente o elemento que propiciará uma mudança em sua existência e o reencontro com sua espontaneidade perdida na infância.

O último suspiro do falso-self

Isso, todavia, não acontece de imediato. O falso-self de vilão é tão forte e necessário para Megamente que, a princípio, o personagem tenta mantê-lo através da criação artificial de um novo herói para a cidade. Com esse intuito, Megamente extrai das caspas recolhidas de Metroman uma espécie de “essência do herói” com vistas a inoculá-la em algum homem a fim de fazer do sujeito escolhido o novo herói, contra o qual o vilão pudesse duelar. Entretanto, a essência acaba sendo introduzida por acaso no assistente da repórter Rosana Rocha que Megamente geralmente seqüestrava para atrair a atenção de Metroman.

O sujeito em questão trata-se de Hal, um jovem gordo, tímido e imaturo que nutre uma paixão secreta pela repórter. Ao se aperceber forte e com superpoderes devido à injeção da essência de Metroman, o jovem coloca para fora os traços de personalidade que se lhe encontravam latentes e transforma-se curiosamente na antítese de um herói: egoísta, irresponsável e narcisista. Descobre-se, então, que Hal alimentava forte inveja de Metroman, julgando que sua colega estava interessada no herói. Por conta disso, supõe que, por tornar-se herói, adquirira os requisitos suficientes para conquistar Rosana – o que não acontece. Essa é sua primeira decepção. A segunda é relacionada a Megamente. Quando o vilão descobrira que a essência do herói havia sido inoculada no assistente da repórter, Megamente se transformara em um velho sábio e dissera ser o “pai espacial” do novo herói, ao qual dá o “criativo” nome de Titã. Quando Hal descobre que, na verdade, o suposto “pai espacial” era Megamente, sente-se novamente decepcionado. Essa decepção aliada à primeira concernente ao amor da repórter leva Titã a tornar-se mau. A cidade passa, então, a ter dois vilões: Megamente e Titã.

Múltiplas personalidades

Antes de prosseguir com os acontecimentos que levarão ao desfecho da história, gostaria de comentar essa capacidade de Megamente de assumir a identidade de quem quisesse de maneira mágica. Trata-se de um traço colocado no personagem que revela mais uma vez o significativo conhecimento psicológico do autor da película. De fato, essa habilidade de se transformar em qualquer pessoa aponta mais uma vez para a problemática central de Megamente e que diz respeito à sua identidade. A facilidade em se comportar de acordo com as exigências do ambiente ou, em outras palavras, em trocar o agir espontâneo pelas respostas às demandas do Outro é uma característica particularmente interessante do falso-self. Por não construir sua identidade sobre a rocha da espontaneidade, o indivíduo que forja um falso-self passa a assumir diferentes identidades de acordo com o ambiente em que se encontra. Trata-se de um verdadeiro camaleão que existe unicamente para se adaptar às cores dos ambientes pelos quais passeia, sem um eixo irredutível que expresse sua singularidade, que o diferencie da massa. Na experiência analítica, é preciso que o analista tome cuidado para não contribuir para o reforço de um falso-self, pois pacientes nessa condição frequentemente adotam uma postura de submissão que pode ser aparentemente agradável ao terapeuta e acabar sendo confundida com a velha “transferência positiva”.

O advento do verdadeiro self     

Numa dessas várias transformações, Megamente acaba assumindo a identidade de um funcionário do museu dedicado a Metroman chamado Bernard, um jovem intelectual. Aos poucos, Rosana começa a se apaixonar por Bernard, isto é, por Megamente se passando por Bernard, de modo que o vilão passa a experimentar pela primeira vez na vida o amor sincero de alguém por ele. Megamente sente, então, o primeiro contato com um ambiente acolhedor, afetuoso, não-hostil, representado pela figura da repórter. Nessa passagem do filme, podemos observar com nitidez a proposta winnicottiana de que nós nos constituímos a partir da interação entre nossas potencialidades inatas e o ambiente. O ambiente acolhedor proporcionado pela repórter extrai de Megamente (ainda disfarçado na imagem de Bernard) toda a espontaneidade que o vilão teve que “recalcar” em função da hostilidade do ambiente se sua infância. Na pele de Bernard, Megamente não é reativamente desagradável nem manifesta qualquer tipo de comportamento afetado, como anteriormente. Pelo contrário, conversa com naturalidade, sente-se bem e até provoca alegria em Rosana.

Poderíamos fazer uma analogia entre a atitude da repórter em relação a Megamente e a postura adotado pelo analista diante de um paciente massacrado por um falso-self. Conquanto a repórter estivesse enganada quanto à pessoa com quem de fato estava se relacionando, sua atitude de acolhimento em relação a Megamente foi o elemento que permitiu ao personagem prescindir da sua identidade de vilão e passar a agir com espontaneidade. Em outras palavras, Megamente tornou-se “do bem” quando encontrou um ambiente que o permitiu ser assim, que não o obrigou a adotar uma máscara “do mal” para sobreviver. Essa dinâmica é semelhante àquela que acontece na relação entre o analista e uma analisando encarcerado nas jaulas do falso-self. É óbvio que o terapeuta não tem que se apaixonar pelo paciente para permitir a ele ser espontâneo. A função do analista é produzir um ambiente de acolhimento autêntico e adaptado às necessidades do paciente. Num ambiente dessa natureza, o falso-self perde sua função, pois o paciente não será obrigado a reagir nem a criar uma personalidade alienígena para se adaptar, pois é o ambiente quem se adaptará a ele. Winnicott dizia que o falso-self era uma crosta criada pelo sujeito para proteger seu fragilizado verdadeiro self que não pôde se atualizar pela hostilidade do ambiente. Numa análise bem feita, essa função se torna supérflua.

No próximo post, o último desta série, abordarei o destino e a personalidade de Metroman, personagem que, como veremos não era tão diferente de seu adversário, Megamente. Será a ocasião propícia para apresentarmos as conclusões gerais a que o filme nos leva do ponto de vista da psicanálise.

Psicossomática e Psicanálise VI: Jacques Lacan

Durante seu ensino, Jacques Lacan nunca tomou o fenômeno psicossomático como tema central de suas investigações. Nunca fez, por exemplo, um seminário dedicado ao assunto como o fez com as psicoses. As referências acerca da psicossomática na obra lacaniana são, portanto, pontuais e consistem essencialmente de comentários realizados em função de questionamentos feitos pelos ouvintes de suas conferências e seminários. Nesse sentido, não podemos exigir de Lacan uma abordagem profunda do tema, como o fizeram, com exceção de Freud, os demais autores que vimos até agora. Apesar disso, as pouquíssimas páginas que podem ser encontradas nos textos de Lacan sobre o fenômeno psicossomático são altamente instrutivas e dão sustentação a pesquisas mais minuciosas sobre o assunto dentro do enquadramento geral da teoria lacaniana. Exemplo disso são os estudos clínicos de Jean Guir, alguns deles publicados na coletânea “A psicossomática na clínica lacaniana”.

Seminário 2: o fenômeno psicossomático não é um sintoma

A partir de uma vista geral dos seminários, artigos e intervenções de Lacan, nota-se que o psicanalista francês abordou o problema da psicossomática em três momentos de seu ensino. No “Seminário 2” dedicado à temática do eu na teoria e na técnica da psicanálise, Lacan se limita a dizer que, diferentemente do sintoma neurótico, que se constitui a partir e no registro simbólico, o fenômeno psicossomático é da ordem do real e está relacionado com o autoerotismo. Lacan parece aqui estar seguindo uma inspiração ferencziana que, como vimos, concebia o fenômeno psicossomático como o investimento libidinal exacerbado no órgão doente. Ao dizer que a psicossomática é da ordem do real, Lacan já sinaliza que concebe tal afecção como estando mais próxima do problema das psicoses do que das neuroses, apontando talvez para a impossibilidade de uma decifração simbólica do fenômeno psicossomático pela via da interpretação.

A segunda referência lacaniana à psicossomática ocorre no “Seminário 11” no qual Lacan está interessado em formalizar os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Deixaremos para adiante a análise do que Lacan diz nesse momento, pois se trata, a nosso ver, da elaboração mais completa que Lacan fez a respeito do assunto e é nela que nos deteremos nesta explicação.

Conferência sobre “O Sintoma”: o fenômeno psicossomático é um hieróglifo

O terceiro momento em que Lacan aborda o fenômeno psicossomático é na conferência que proferiu em 1975 em Genebra (Suíça) sobre o sintoma. Naquela oportunidade, Lacan afirma três coisas importantes sobre psicossomática a partir de perguntas feitas por espectadores. Diferentemente do que havia dito no “Seminário 2”, Lacan assevera agora que o fenômeno psicossomático está profundamente enraizado no imaginário e não no real, o que se coaduna com suas novas elaborações acerca do registro do real que o diferenciam completamente da idéia de realidade material externa.

O segundo ponto frisado por Lacan é a analogia entre o fenômeno psicossomático e um hieróglifo, o qual constitui a unidade fundamental da escrita egípcia antiga que era de cunho ideográfico. O que Lacan está dizendo é que o fenômeno psicossomático se constitui como uma espécie de escrita no corpo, uma escrita que está baseada num código estranho e que só faz sentido a partir desse código, não sendo, portanto, apreensível pelo observador incauto. Trata-se, deste modo, de algo distinto do sintoma neurótico, que, por seu turno, está referenciado simbolicamente ao Outro compartilhado pelo doente e pelo analista, logo, potencialmente interpretável.

Lacan também diz que, em relação ao fenômeno psicossomático, é preciso encontrar o que ele chama de “gozo específico” e que podemos entender através da seguinte pergunta: “A que o fenômeno psicossomático satisfaz? A que ele responde?”. Como veremos posteriormente, Lacan pensa esse fenômeno como uma resposta a algo da ordem da fixação, entendida a partir do conceito freudiano de fixierung que significa a marca, o traço deixado pela experiência no corpo. Quando se diz, por exemplo, que fulano de tal é fixado na fase oral, se está dizendo que seu corpo ficou marcado por suas experiências infantis de satisfação através da mucosa bucal. Ou seja, tais experiências deixaram um traço permanente em seu corpo, a fixação nesse tipo de gozo. O fenômeno psicossomático, de maneira semelhante, seria o resultado de uma marca deixada pelo significante no corpo do sujeito.

Seminário 11: significantes congelados

A seguir, veremos de maneira esquemática como isso pode acontecer, ou seja, como o corpo pode vir a responder às marcas do significante através de uma lesão orgânica. Lacan nos explicou isso no “Seminário 11” no momento em que se dedicava a elaborar as duas etapas de constituição do sujeito: a alienação e a separação. Portanto, para que o leitor possa entender claramente a leitura lacaniana do fenômeno psicossomático gestada nesse momento, será preciso falarmos um pouco sobre essas duas etapas.

Lacan, desde o início de seu ensino, já fazia questão de dizer o tempo todo que talvez a grande descoberta de Freud tenha sido a de que o sujeito não possui nenhuma substância; que ele é efeito do significante. Em outras palavras, isso quer dizer que Freud teria mostrado através da investigação do inconsciente que o sujeito, isto é, essa instância que pode responder por seus atos, não é distinto da linguagem da qual faz uso, mas que, pelo contrário, é propriamente um efeito da linguagem. Quando se diz, por exemplo, “Ele é meu pai.” fazendo referência a uma determinada pessoa, o significante “pai” não representa o sujeito ao qual eu me refiro para a pessoa com quem estou conversando, pois a palavra “pai” só faz sentido ao ser posta em oposição com “mãe”, “filho”, “tio” etc. Ou seja, a palavra “pai” representa o sujeito ao qual me refiro não para aquele com quem eu converso, mas sim para outros significantes, de modo que aquela pessoa específica à qual me refiro como sendo meu “pai” perde sua substancialidade. Ele se torna um mero significante posto em relação com outros. O ser vivente ao qual o significante “pai” foi atribuído se apaga ao ser relacionado com os demais significantes. Permanece apenas o significante “pai”.

Ora, esse mesmo processo acontece com todos nós desde o início da vida. Afinal, ao nascermos já encontramos nas fantasias, nos pensamentos e nas bocas de nossos pais e das pessoas que estão à nossa volta um monte de significantes para serem colados em nós, nem que sejam os nossos meros nomes-próprios. Por razões puramente didáticas, vamos representar esses significantes que se encontram aí à nossa espera como sendo um único significante, S1. Como esses significantes já se encontram presentes antes de nascermos, diremos que esse S1 é o significante do desejo do Outro. Esse Outro com “O” maiúsculo é aqui entendido como o representante de todo o falatório à nossa volta. Portanto, entendam desejo do Outro como significando aquilo que o mundo espera de nós.

Continuando, então, quando a gente nasce, somos imediatamente alocados como o objeto referente de S1, ou seja, objeto do desejo do Outro. O problema é que tudo aquilo que dizem sobre nós, todas as fantasias que têm sobre nós (S1) só faz sentido em relação a todo o resto da linguagem, que a gente poderia chamar de S2. O que acontece, então, é que nosso ser ficará alienado na linguagem, pois aquilo que dizem que somos (S1) só pode ser entendido pela referência a S2, como no exemplo que dei do “pai”. Essa é a primeira etapa da constituição do sujeito que Lacan chamou de alienação.

A segunda operação, chamada de separação, virá à luz quando essa ligação entre S1 e S2 for posta em questão. Ora, certamente poderíamos nos perguntar: por que, afinal de contas, S1 não é suficiente? Por que ele tem que necessariamente estar referenciado a S2, S3, S4, S5… para fazer sentido? É nesse momento que nos apercebemos da falta no Outro. Se o Outro não é capaz de dizer tudo sobre nós, se tudo o que ele diz precisa de outro significante para fazer sentido, e esse de outro e assim sucessivamente, isso significa que esse Outro é incompleto. Há uma falta essencial nele que faz com que sempre se necessite de outro significante para dar sentido ao que se diz. Essa é a própria natureza da linguagem. Só podemos explicar o que é um significante utilizando outros significantes.

Se o Outro é incompleto, isso significa que esse Outro está o tempo todo desejando. Mas, peraí, não éramos nós mesmos o objeto de desejo do Outro? Se esse Outro permanece eternamente desejante, isso significa que nós não somos capazes de satisfazer plenamente seu desejo. Portanto, nós também somos faltosos e desejantes. Mas desejantes do quê? Ora, justamente daquilo que passou a se tornar para nós um enigma: o desejo do Outro. Se esse Outro não se satisfaz comigo, com o que ele se satisfaz, então? O nosso desejo passa a ser o desejo do desejo do Outro. Como S1 é o representante dos significantes iniciais que nos fizeram crer que éramos o objeto do desejo do Outro, é esse S1 que servirá de referência para os demais significantes que buscaremos para descobrir o que satisfaz o desejo do Outro. Em outras palavras, o S1 se tornará o significante-mestre de nossas vidas e essas só terão sentido por ter esse significante como eixo, como centro.

Holófrase e a experiência de Pavlov

Isso tudo acontece em sujeitos neuróticos, ou seja, sujeitos “normais”. Lacan, não obstante, sinaliza a possibilidade de outra estruturação que produzirá como um de seus possíveis resultados o fenômeno psicossomático. Trata-se do congelamento entre S1 e S2. Como dissemos acima, normalmente o significante do desejo do Outro (S1) é posto em relação com os demais significantes (S2). Ou seja, há um intervalo entre S1 e S2 e esse intervalo é justamente a manifestação do desejo do Outro. O Outro só busca a referência a S2 porque S1 não é suficiente. Nos casos em que há o congelamento entre S1 e S2, o intervalo desaparece e com ele a falta no Outro! Lacan ilustra essa estruturação com a figura de linguagem da “holófrase”. Trata-se da enunciação de uma frase inteira com uma única locução, por exemplo: em vez de dizer “Eu gosto de carne.”, digo “Eugostodecarne”. No primeiro caso, a frase faz sentido, pois há um intervalo entre cada palavra. No segundo não; a estranha palavra produzida só possui sentido ao ser desmembrada, ou seja, ao se lhe intercalarem espaços.

Assim, numa estruturação subjetiva em que S1 e S2 se constituem como uma holófrase, o desejo do Outro não é posto em causa, pois a cadeia de significantes é tomada em bloco, como se fosse de fato completa. Como não houve intervalo entre S1 e S2, o primeiro não pôde ser isolado da cadeia e servir de referência para o sujeito. Lacan afirma que são fenômenos decorrentes dessa estruturação são a psicose, a debilidade mental e o fenômeno psicossomático. A especificidade desse último caso é que nele esses significantes que não puderam ser relativizados em função da ausência de intervalo entre eles se incrustam no corpo. Lacan demonstra essa possibilidade apelando para a experiência pavloviana com cães.

O que Pavlov fazia? Ele condicionava o cão a salivar sempre que escutava um determinado sinal sonoro. Fazia isso disparando o sinal sonoro nas repetidas vezes em que dava alimento ao cão. Temos, portanto, do lado do experimentador, que aqui representa o Outro, a produção de uma relação entre sinal sonoro e alimento, uma relação significante, na medida em que a associação entre os dois elementos é puramente contingencial, assim como a relação entre a palavra “galo” e o animal designado por ela não é necessária. No entanto, do lado do cão, não temos essa relação. O cão não pensa: “Ah, o sinal tocou. Isso significa que aquele cara vai me trazer comida”. Ele simplesmente responde organicamente (salivando) a um significante (sinal sonoro). Por não ser dotado de linguagem, o cão não pode se perguntar, por exemplo, “por que esse cara só me dá comida com esse sinal tocando?”. Ele não pode colocar em questão o desejo do Outro!

Para Lacan, com o psicossomático acontece precisamente a mesma coisa. Ele responde no nível do corpo a uma indução significante cujo sentido reside no Outro, mas que a ele foi vedado descobrir em função do processo de congelamento entre S1 e S2. É por isso que é muito comum encontrarmos na clínica com pacientes psicossomáticos a eclosão da doença ou de uma lesão em uma determinada data que para a história de vida do sujeito é significativa. O evento relacionado a essa data não pôde ser colocado em relação com o restante da cadeia de significantes, de modo que o sujeito só pôde responder a ela pela via do corpo. O mesmo acontece com determinados nomes que, ao se apresentarem ao sujeito ao longo de sua existência são capazes de produzir a emergência de um fenômeno psicossomático de maneira imediata. Assim, a doença psicossomática se constitui como um verdadeiro hieróglifo perdido, cujo código original que permitiria decifrá-lo se encontra alhures e é desconhecido tanto pelo analista quanto pelo próprio doente.

Concluindo

Para Lacan, a capacidade de produção de um fenômeno psicossomático como resposta a um determinado evento está na dependência de uma estruturação subjetiva prévia que não possibilitou a emergência do questionamento do desejo do Outro devido ao fato de a cadeia de significantes ter sido imposta ao sujeito em bloco, de maneira congelada, sem intervalos. Assim, determinados eventos encontram um bloqueio ao tentarem ser elaborados psiquicamente. O corpo, então, se encarrega de reagir a tais eventos através de uma lesão orgânica. A função do analista, por conseguinte, é a de colocar a cadeia de significantes para funcionar, tirando-a da paralisia em que se encontra. Do meu ponto de vista, trata-se de fazer o inconsciente existir, de modo a colocar os significantes que induziram à formação do fenômeno psicossomático em dialética com outros significantes. Em outras palavras, inventar uma linguagem em que o hieróglifo marcado no corpo possa adquirir sentido.

***

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Psicossomática e Psicanálise IV: Sandor Ferenczi

Se não me falha a memória, passei toda a minha graduação em Psicologia sem ouvir sequer uma única vez o nome de Ferenczi ser pronunciado por algum de meus professores. Ao contrário do que o leitor possa pensar, não se trata de uma deficiência específica da universidade em que me formei. A maior parte dos cursos de Psicologia não aborda as proposições teóricas e técnicas desse importante autor. E isso não se deve apenas a uma limitação de tempo, mas também – e principalmente – pelo fato de as disciplinas relacionadas à teoria psicanalítica se dedicarem quase que exclusivamente às idéias de Freud e Lacan. No máximo Winnicott, Melanie Klein ou Jung aparecem à surdina.

Assim, o estudante de Psicologia sai da graduação sabendo apenas que Ferenczi foi um discípulo de Freud que em determinada época começou a propor umas inovações na técnica psicanalítica – e que Freud não foi muito com a cara delas. Pouca gente sabe, por exemplo, que quem mais defendeu a chamada “segunda regra fundamental da psicanálise” segundo a qual todo analista deveria passar por sua própria análise pessoal foi Ferenczi e não Freud.

Em decorrência disso, quem conhece a obra ferencziana um pouco mais provavelmente o fez como resultado de uma formação psicanalítica tradicional em alguma instituição ou leu seus escritos por conta própria – o que foi o meu caso. E é justamente sobre um trabalho de Ferenczi que o post de hoje trata.

Por que Ferenczi?

Estamos abordando nessa série as concepções de doença psicossomática na teoria psicanalítica. De fato, Ferenczi não foi um autor que versou muitas páginas sobre o tema. No entanto, sua inclusão aqui se deve a duas razões: a primeira é a de que ele foi um dos primeiros autores da psicanálise a crer na eficácia do método freudiano no tratamento de doenças orgânicas. Tanto é assim que quando Georg Groddeck, o autor que levará mais seriamente essa idéia e cujas teses veremos em um dos próximos posts, faz sua entrada na psicanálise, Ferenczi se tornará um de seus mais próximos colegas e até seu paciente. A segunda razão que nos leva a incluir Ferenczi nessa série é seu interessante artigo “As neuroses orgânicas e seu tratamento”, justamente o texto em que o autor esclarece o que pensa sobre a possibilidade de processos inconscientes serem expressos pelo corpo. Vejamos, então, o que Ferenczi diz nesse trabalho.

Quando o corpo vira amante

Apesar de ter sido utilizada pela primeira vez em 1818, mesmo em 1926, quando o artigo foi escrito, a palavra “psicossomática” ainda não era um termo comum, de modo que havia diversas expressões para designar desordens somáticas com fatores etiológicos psíquicos. Ferenczi utiliza o termo “neurose orgânica”.

No início do artigo, não há nada de novo. Ferenczi se dedica apenas a repetir aquilo que na semana passada vimos ser a concepção de Freud acerca das chamadas “neuroses atuais”. Assim, na neurastenia e na neurose de angústia (que para Ferenczi são neuroses orgânicas) o fator desencadeador principal seria um déficit na vida sexual atual do indivíduo (coito interrompido, abstinência sexual, etc.). O tratamento para esses casos não seria psíquico, mas consistiria em mudanças efetivas na vida sexual.

É na segunda parte do artigo que encontramos a contribuição realmente original de Ferenczi. Nessa seção, ele vai versar sobre o que chamou de “neuroses monossintomáticas”. Trata-se de afecções caracterizadas por crises de sintomas específicos, como asma, perturbações do estômago, irritações intestinais, alterações do ritmo cardíaco etc. São transtornos cujos sintomas parecem confluir para um determinado órgão do corpo.

No tratamento de pacientes com esse tipo de queixa, Ferenczi se dá conta de que o órgão que se tornara problemático e disfuncional, antes do advento da doença havia sido exageradamente investido de libido. Sim, coração, estômago, intestino, rins, pulmões, todos esses órgãos também possuem a capacidade de se tornaram erógenos e não apenas as zonas erógenas tradicionais (boca, seio, pênis, vagina, ânus).

Freud descobriu que é através da relação com o outro que determinadas partes do corpo adquirem uma significação erótica, ou seja, a rigor qualquer parte do corpo pode se tornar erógena dependendo das relações que o sujeito venha a experimentar com o outro. A libido é extremamente plástica e passível de ser investida em qualquer zona corporal.

Como Ferenczi ressalta, na saúde a libido está investida de maneira equânime em todo o corpo, proporcionando aquela sensação de bem-estar físico que os saudáveis experimentam. No entanto, em função de determinados eventos de sua história de vida, o sujeito pode começar a investir uma quantidade exacerbada de libido em determinado órgão, ou seja, quebrar o equilíbrio. Ferenczi nota que isso geralmente acontece quando a vida amorosa/sexual do sujeito encontra-se limitada por alguma razão de ordem inconsciente. Assim, é como se determinado órgão que, ao longo da história do sujeito, se tornou significativo em função da sua relação com o outro, por exemplo, o estômago, passasse a constituir uma espécie de depósito de libido insatisfeita. É como se o estômago adquirisse uma significação genital. A propósito, é comum observarmos pessoas com distúrbios orgânicos desse tipo se referirem a seus órgãos doentes como se eles fossem pessoas, por exemplo: “Quando meu estômago ataca…”; “Meu intestino é muito preguiçoso…”; “Se minha perna deixar…”.

Em suma, é como se o sujeito passasse a ter uma relação amorosa com seu órgão. E é precisamente esse “excesso de amor” o que gera a doença, pois se o órgão passa a ter que exercer para o sujeito o papel de parceiro sexual, não poderá mais atuar nas suas funções normais. Notem que essa dinâmica é muito semelhante à que ocorre nos casos de histeria. Nesses, todavia, são as representações do corpo que sofrem a investida de uma libido represada. Nas neuroses orgânicas, é a estrutura física mesmo do corpo que é prejudicada em função da sobrecarga de libido.

Tratamento

Frente a um quadro desses, o que fazer? Como a psicanálise poderia ajudar sujeitos que sofrem de uma neurose orgânica? Ferenczi observou que nessas situações o analista não precisa utilizar nenhuma técnica especial. O dispositivo analítico em si mesmo já seria terapêutico. Isso porque a relação que se estabelece entre o paciente e o analista não é uma relação qualquer; é propriamente uma relação de amor na medida em que supomos que ali acontece um negócio chamado transferência. Nesse sentido, ao entrar em análise o sujeito teria à sua disposição um novo objeto (o analista) para fazer uso, podendo finalmente, deixar o órgão doente funcionar em paz.

Concluindo

Esquematicamente, poderíamos dizer que o desenvolvimento de uma neurose orgânica para Ferenczi atravessaria as seguintes fases: (1) Num primeiro momento, na infância, determinado órgão ou parte do corpo se torna mais potencialmente erógeno do que os outros (isso em função de identificações, superestimulação etc.); (2) Quando adulto, ou mesmo ainda criança, as relações amorosas “normais” do indivíduo com o outro são, por alguma razão, dificultadas ou mesmo impossibilitadas; (3) A libido que não pôde ser investida naquelas relações retroage para o órgão mais potencialmente erógeno, desvirtuando suas funções e obrigando-o a ocupar um lugar semelhante ao de objeto sexual genital na economia psíquica do sujeito.

***

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“E agora, José?” – Niilismo e fim de análise

Prólogo

No início do post “Como você lida com o seu passado? (parte 1)” eu havia prometido um segundo texto desenvolvendo, tal como naquele, algumas idéias que me vieram à mente no decorrer da leitura do texto “O niilismo e o problema da temporalidade” de Gianni Vattimo, que se encontra na coletânea de ensaios do autor intitulada Diálogo com Nietzsche. Tais idéias estabelecem alguns vínculos entre a Psicanálise e o pensamento de Nietzsche a respeito da história.

Naquele post fiz uma analogia entre os dois modos de encarar o passado postulados por Nietzsche (de acordo com a leitura de Vattimo), a saber: o que ele chama de “doença histórica” e o que seria a maneira autêntica de se lidar com o passado e dois momentos históricos da técnica psicanalítica, os quais acabaram por se converter em dois posicionamentos metodológicos antagônicos, de modo que ambos ainda se fazem presentes no contexto atual da técnica psicanalítica.

Hoje meu interesse é trabalhar o conceito central do ensaio de Vattimo, o niilismo, que, em Nietzsche, aparece como uma postura filosófica não-original, mas reativa, decorrente de um processo anterior caracterizado por certa desilusão. É precisamente nesse modo nietzschiano de encarar a postura niilista que enxergo uma associação com o tratamento psicanalítico.

De Hegel ao Eclesiastes

Na segunda parte de seu ensaio, Vattimo dedica-se a demonstrar por que Nietzsche concebe o niilismo como consequência da doença histórica. Essa, como vimos naquele outro post, consiste na adesão a uma das seguintes pressuposições: (1) de que a história contém em si um sentido, um fim, um propósito previamente definidos ou (2) de que a história é um imenso oceano de eventos transitórios no qual toda ação é pouco relevante ou significativa já que se constitui apenas como mais uma gota d’água dentre milhões de outras.

Por sua vez, o niilismo significa a postura filosófica e/ou existencial que nega a presença de qualquer fundamento ou valor na realidade. Em outras palavras, para o niilista não há nada (nihil) capaz de assegurar que um determinado ato é preferível a outro; todos os atos, todos os eventos, todos os acontecimentos se equivalem. O caro leitor provavelmente já experimentou momentos em que tal argumento se lhe apresentou à mente ou conheceu pessoas que já passaram pela experiência do niilismo. O que Nietzsche fará é uma espécie de análise psicológica das razões pelas quais esse tipo de posicionamento vem à tona na consciência humana. E o que ele conclui é que se trata do ranço de uma desilusão prévia.

Como Vattimo explica, Nietzsche percebe que todo modo de encarar a história baseado na idéia de que há um sentido por detrás dos acontecimentos que se processam ao longo da existência está fadado ao fracasso, pois a própria vida se encarrega de desmenti-lo. Hegel, por exemplo, construiu todo um sistema filosófico baseado na tese de que a história caminha inevitavelmente rumo ao saber absoluto, ou seja, ao momento em que nossa razão seria capaz de conhecer absolutamente toda a realidade. Diga-me, caro leitor, se você tem alguma dúvida de que Hegel deveria ser internado no hospício mais próximo?

Outro exemplo de concepção que admite a existência de uma ordem pré-definida ao mundo é a providencialista, presente na alma de muitos cristãos que entenderam equivocadamente a mensagem de Jesus de Nazaré. Crêem tais homens que Deus guia a história tal como um escritor de um romance. Nessa “obra” aqueles que seriam “de Deus” (os mocinhos) teriam uma vida agradável, cercada de benesses ao passo que os demais (os vilões) sofreriam as agruras da infelicidade. Evidentemente, o que pode resultar disso é apenas desilusão (vide, por exemplo, os lamentos de Salomão no “Eclesiastes”) e em seguida aquele célebre brado do homem de pouca fé: “De que vale ser bom?” – eis o niilismo.

Assim, a crença na providência ou numa ordem de sentido que guia a história, ao ser posta em xeque pela própria existência, gera outra crença: a de que não há nada capaz de funcionar como critério para nossas ações visto que, descortinada a ausência de ordem no mundo, nada há que possa fundamentar o agir humano. Ora, não é precisamente esse sentimento que acomete nossos analisandos já nas etapas finais de um processo analítico?

Da fé à liberdade

Se há um aspecto presente em todo aquele que busca a ajuda de um psicanalista, esse aspecto é a fé. Todo o nosso trabalho como analistas é o de colocar em questão essa fé. Fé em quem? No Outro. Sim, Outro com O maiúsculo, não o pequeno outro, representante de todos esses seres humanos com os quais o sujeito compartilha sua existência. O Outro em questão é esse precipitado maciço de falas do pai, da mãe, do irmão, do avô, da avó, da cultura. Enfim, é essa amálgama de saberes que vão se depositando ao longo da vida num imenso compartimento da alma etiquetado com a pergunta: “Quem sou eu?”. O analisando chega ao divã com a firme certeza de que aquele amontoado de entulho verbal que fora ali depositado responde efetivamente à pergunta que dá nome ao compartimento. Inevitavelmente, esse entulho não permanece imóvel, mas é organizado como uma historinha, de modo que cada fragmento vai se encaixando num romance trágico que passa a constituir o que o analisando irá chamar de “minha história de vida”. É por isso que se o analista não for competente, ele é facilmente enredado nesse romance, pois ele faz todo o sentido. Afinal, é construído justamente com essa finalidade: dar sentido.

Portanto, o analisando, tal como a consciência humana pré-niilista, adentra o dispositivo analítico crente numa pré-ordenação de sua história. Em decorrência, a tarefa do analista é fazer o papel que em Nietzsche é realizado pela própria vida, ou seja, o de demonstrar a falta de sustentação dessa história, deixando claro que não há nenhuma pré-ordenação, que o romance existencial com o qual o sujeito presenteia o analista não existiu desde o início, mas foi paulatinamente sendo construído.

Quando uma análise é levada até o fim, o que geralmente acontece é que depois de muitas idas e vindas, o analisando consegue ter abalada sua crença no Outro, reconhecendo que ele na verdade não existe como disse Lacan no final de seu ensino. Por outro lado, se o Outro não existe, se aquela pré-ordenação da história com a qual o paciente entrou em análise se mostrou construída, artificial, o que fazer? O que a partir de agora servirá como guia das ações do sujeito? Antes era o Outro; agora o sujeito conta com uma apavorante liberdade de movimentos, mas não sabe por onde começar e com base em quê agir.

Da queda do Outro ao imperativo da vida

Nietzsche dá a resposta: não há critérios transcendentais para a ação a não ser que os criemos como reação ao desespero da liberdade. O único critério é imanente, é a própria vida e aquilo que fortalece e aumenta a própria potência vital. O que a psicanálise faz é auxiliar o sujeito a demolir essa massa alienígena (alien=estranho, outro) que se impunha a ele como norteador de ações no lugar da própria vida. Assim, livre dessa história produzida como defesa, o sujeito se torna capaz de optar e de escolher aquilo que mais convém à sua potência vital, mesmo que seja um traço que outrora estava presente na amálgama do Outro. Desacreditado em sua função de eixo absoluto e pré-ordenador, o Outro passa a ser um mero referencial que pode ser descartado ou utilizado. A história agora é outra.

Winnicott e o cristianismo VI – a gênese da moralidade e a ética cristã

Por que não fazemos tudo o que queremos? Essa questão, aparentemente banal e de fácil resolução, não obstante está no cerne das discussões concernentes aos domínios da moral e da ética. Poderíamos formulá-la em outros termos tais como: “Por que muitas vezes sentimos o desejo de agredir e até matar determinadas pessoas e não o fazemos?” Uma resposta que saltaria da boca de muitos seria a de que não realizamos tais atos porque em condições normais seríamos punidos, oficialmente pela polícia e/ou extra-oficialmente pela própria pessoa, por seus amigos ou familiares. Em suma, o que limitaria nossa ação seria tão-somente o medo da punição.

Essa é uma solução de fato plenamente plausível para o problema e ela era compartilhada por ninguém menos que o doutor Sigmund Freud. Com efeito, para o médico vienense, o conflito entre o que desejamos e o que devemos fazer estava na raiz de nossa estrutura enquanto pessoas; era, por assim dizer, o núcleo de nossa existência. Para Freud, o ser humano na origem é potencialmente capaz de realizar e fruir de todas as perversões existentes, das que já existiram e das que virão a existir no futuro. Essa é a tese que levou Freud a dizer que a criança é um “perverso polimorfo”. Isso significa que, sob a ótica do pai da Psicanálise, a moralidade e os princípios éticos teriam se desenvolvido como uma reação, uma defesa, uma tentativa de regular tanto nossa sexualidade quanto nossa agressividade. Em outras palavras, o homem inicialmente seria um monstro capaz de todas as atrocidades imagináveis, que posteriormente seria “amansado” e “controlado” pela instância moral. Mas não só por ela. Freud dá relevância também ao papel da própria realidade na regulação de nossas ações, visto que por vezes embora não estejamos sob a ameaça de uma punição moral, a realidade não nos fornece condições de realização de nossos desejos, como no caso de alguém que se encontra destituído de liberdade.

Para Freud, a primeira regulação que sofremos, isto é, a primeira concessão que fazemos à moral, abdicando de nosso desejo é a proibição de gozarmos plenamente, no sentido erótico, do corpo de nossa mãe. Como se sabe, o bebê não apenas se alimenta ao engolir o leite materno. Ele também se satisfaz com o prazer gerado a partir de seus lábios pela sucção dos seios da mãe, o que faz com que uma das facetas da mãe, para o bebê, seja a de um objeto sexual. Com o tempo, o bebê, ao explorar seu corpo, descobre que seu órgão genital também lhe proporciona prazeres análogos aos da sucção do seio. Logo, quem surgirá na mente da criança associado a esse prazer genital? Óbvio: a mãe. Não obstante, o bebê logo, logo, terá que se esquecer da mamãe e pensar na priminha ou na coleguinha da escola, porque no mundo dos adultos, ninguém pode desejar a própria mãe, pois a mamãe é do papai.

Da mesma forma se passa com a questão da agressividade. “Já que não posso ficar com a mamãe porque ela é do papai, então é simples resolver a questão: eu mato papai! Não, não posso? Por que não? Ah sim, porque no mundo dos adultos é proibido matar. Poxa, mas tudo o que eu quero é proibido!” Tanto a sexualidade quanto a agressividade são regulados, do ponto de vista de Freud, não por uma compreensão da própria natureza dos atos, mas por sanções que vêm de fora e que não explicam as razões das proibições, apenas apresentam as negativas “Não farás isso, não farás aquilo”.

Jacques Lacan, vendo o perigo que tal entendimento de Freud sobre a moralidade poderia gerar visto que se poderia pensar, como de fato se pensou, que já que é a moralidade que faz com que as pessoas não possam dar livre vazão a seus desejos, é só eliminar boa parte dos princípios morais que as neuroses serão bem menos freqüentes. Foi com base nesse tipo de pensamento que, principalmente nos anos 60, iniciou-se um movimento de liberalização sexual que, no entanto, não extinguiu as neuroses. Pelo contrário, foram gerados novos problemas como compulsões sexuais, promiscuidade e a conseqüente proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, entre as quais a AIDS.

Com vistas a impedir que movimentos como esse se dissessem baseados nas teorias da Psicanálise, Jacques Lacan foi obrigado a radicalizar os enunciados freudianos e dizer: “Olha, pessoal, Freud efetivamente disse que a moral limitava o exercício de toda a nossa potencialidade sexual e que muita gente que não dava conta de reprimir seus desejos acabava dando vazão a eles na forma de doença psicológica. No entanto, o que Freud realmente queria dizer é que nem se a gente acabasse com todos os princípios morais, nossa vida seria melhor porque a realização plena de nossa sexualidade é impossível. Sabem por quê? Por que nós somos seres que falam e vivemos num mundo onde tudo está sob o domínio da linguagem. Tudo tem nome e só sabemos o que uma coisa significa tendo em mente todas as outras palavras do mundo que se distinguem do nome da coisa em questão. Enfim, estamos todos alienados na linguagem. Logo, não temos como ter acesso à Coisa da sexualidade, só à sua representação. É por isso que mesmo não estando sujeitos a estatutos morais, nunca estaremos satisfeitos, pois estaremos sempre sujeitos à linguagem que, por sua vez, limita nossa percepção de nós mesmos. Assim, não é a moral que nos divide, fazendo que uma parte de nós deseje uma coisa e outra deseje atingir um ideal de moralidade. É a própria linguagem que, pelo próprio fato de termos um nome, faz com que nos distanciemos de nós mesmos.”

O que Lacan fez, portanto, foi dar um estatuto ontológico, estrutural, necessário às teses contingentes de Freud, pois podemos conceber uma sociedade sem o mínimo de estruturação moral como Sodoma, mas não há sociedade sem linguagem. É por isso que Lacan vai dizer que os dez mandamentos são as próprias leis da linguagem. Assim, não se trata de uma impossibilidade relativa, mas de uma impossibilidade lógica de satisfação plena. É por isso também que Lacan terá que conjugar o conceito de libido de Freud que, na obra desse último, fazia referência à sexualidade entendida não apenas como sexualidade genital e o conceito de pulsão de morte, a explicação freudiana para a agressividade humana, unindo os dois conceitos em um só: o conceito de gozo. Destarte, em Freud a moral regularia e limitaria a libido e a pulsão de morte; em Lacan, a linguagem limitaria o gozo. Daí a idéia de Lacan de que o sujeito se constitui no próprio ato de representar-se na linguagem o que demanda uma escamoteação da dimensão do gozo, o que em Freud equivaleria ao recalque.

Bem, será que as teses freudo-lacanianas seriam os únicos meios para se pensar as relações entre o homem e a moralidade? A meu ver não. Elas não são sequer eficazes. Basta observar que a conclusão a que se chega ao final da apreciação crítica dessas teses é de que, de fato, é impossível ao sujeito humano ser saudável visto que Lacan, ao dar um estatuto estrutural à teoria freudiana, encampando a moral à linguagem, acabou por dizer que o ser humano é natural e eternamente dividido, ou seja, é neurótico por natureza e não por contingência. Assim, o mundo seria dividido entre os mais e os menos neuróticos.

E ainda há outro inconveniente nessa concepção. Tanto Freud quanto Lacan nem chegam a discutir se os princípios éticos e a moralidade, exemplificados nos dez mandamentos, são úteis para nossa vida. Para ambos, eles não possuem significação em si mesmos, servem apenas para impedir que os indivíduos ajam de determinada forma. O que significa dizer que, para eles, não há uma tentativa nos princípios morais de modificar os anseios das pessoas, mas tão-somente limitar suas ações. Portanto, cabe aos indivíduos unicamente a tarefa de submeter-se aos princípios e não compreender a importância deles.

Ora, será que Lacan foi tomar o exemplo dos dez mandamentos por acaso? Por que ele não usou, por exemplo, a orientação de Cristo para não revidar ofensas? Justamente porque os primeiros de fato são dados por Deus via Moisés sem nenhuma explicação aos israelitas sobre o porquê de segui-los. A razão era unicamente a de obedecer a Javé. Tanto é que se você não obedecesse a Lei, ou seja, se pecasse, era obrigado a realizar um determinado ato reparador, como oferendas, sacrifícios etc. Ou seja, a resposta para a pergunta: “Por que não posso matar?” era “Por que Deus disse que não.” Ora, em Jesus vemos uma dinâmica completamente distinta. Cristo não deixou nenhum princípio ético sem explicar as razões pelas quais as pessoas deveriam segui-los. Por exemplo, quanto ao princípio de não revidar ofensas, o Nazareno é enfático em dizer que se deve agir assim porque Deus não se vinga. Ele não dá chuva, sol, alimento só para aqueles que o agradam, mas também para os que o ofendem.

Os mandamentos de Cristo são todos inteligíveis, o que faz com que a pessoa que os segue, faça-o de coração e não como mera obrigação como acontecia com a Lei de Moisés. Os judeus não sentiam e não sentem a Lei como um conjunto de prescrições que lhes possibilita ter uma vida melhor. Pelo contrário, sentem-nas como um peso nas costas. Justamente porque essa Lei me diz para eu não matar aquele pagão miserável que adora Baal e pelo qual eu nutro dia após dia um ódio imenso; que eu não posso pegar a mulher do meu próximo pela qual eu nutro intenso desejo; que eu não posso deixar meu pai na miséria, o mesmo pai que violentou minha irmã quando criança. Ou seja, a Lei de Moisés vai na direção oposta à da natureza humana! Ela impede justamente aquilo que eu tenho mais vontade! Por quê? Porque ela não muda o entendimento, exatamente porque não há justificativas para segui-las a não ser obedecer ao temível Deus Javé.

Os mandamentos de Cristo não pressupõem que o sujeito a eles se submeta sem pensar. Pelo contrário, é por entender que ao segui-los, se terá vida e vida em abundância é que o sujeito os cumpre. E vejam só: não é que Winnicott nos apresenta uma concepção sobre o desenvolvimento da moralidade no indivíduo que vai de encontro justamente à ética cristã?

Muitos analistas de orientação estritamente freudiana ou lacaniana volta e meia questionam à ala winnicottiana do ringue psicanalítico o fato de na teoria de Winnicott a figura do pai ficar um tanto quanto apagada. Até nos textos em que Winnicott aborda a função do pai, ele o faz associando-a a um papel maternal. Essa aparente elisão do pai no discurso winnicottiano não se deu por acaso. Também não se trata de um possível descuido de Winnicott em enfatizar demasiadamente a mãe e subvalorizar o papel do pai no desenvolvimento da criança. É que Winnicott não opera com a diferença clássica que Lacan herdou de Freud entre uma suposta função da mãe como objeto primordial do sujeito e uma também suposta função do pai como responsável pela incidência da Lei, da castração na economia subjetiva da pessoa. Winnicott não trabalha com conceitos como Nome-do-Pai, essa pequena massa lingüística que, segundo Lacan, seria o eixo organizador de nossa dimensão simbólica.

Para Winnicott mãe e pai são elementos que devem exercer uma função que está para-além deles, qual seja, a de proporcionar um ambiente bom o suficiente para que a criança possa desenvolver suas potencialidades. Às vezes a figura da mãe aparece supervalorizada no pensamento de Winnicott não porque é apenas ela quem pode fazer o papel de um ambiente suficientemente bom, mas sim porque no contexto cultural ocidental contemporâneo herdeiro da família tradicional burguesa o pai tende a assumir um lugar de distância dos cuidados e do processo de desenvolvimento da criança, exercendo o papel apenas de provedor e do último recurso reivindicado pela mãe para a correção dos filhos, o famoso: “Vou contar para o seu pai quando ele chegar”. Nesse contexto, é natural que imaginariamente o pai seja tomado como o veículo da Lei, afinal ele funciona nesse regime familiar como o “supremo tribunal federal” para a mãe. Essa por sua vez, fica a cargo sozinha da tarefa de facilitar o desenvolvimento dos filhos. Obviamente essa situação vem se modificando há algumas décadas – e é ótimo que se modifique; os filhos agradecem! Cada vez mais, os pais vêm se conscientizando do seu papel por assim dizer “maternante”. No entanto, ainda vigora lado a lado com essa versão pós-moderna o modelo tradicional em que o pai surge unicamente “para botar as coisas nos eixos”, do jeitinho que Freud e Lacan pensavam…

Por que fiz toda essa digressão quando na verdade deveria estar falando da moralidade em Winnicott? Justamente porque essa concepção do analista inglês sobre as funções de pai e mãe faz toda a diferença quando vamos investigar como Winnicott entende o nascimento da moralidade no indivíduo. Se não há de um lado uma mãe afetuosa cuja função é apenas a de gerar fantasias edípicas e do outro um pai castrador, cuja função é apenas a de “botar ordem na casa”, temos que, para Winnicott, a moralidade não nasce a partir de uma intervenção regulatória de uma Lei transgeracional. Para o pediatra, quanto a isso a Lei é supérflua. Dá quase para colocar as palavras do apóstolo Paulo na carta aos Gálatas na boca de Winnicott: “Olha, essa coisa de Lei é para imaturos. Imaturos é quem precisam de um tutor para dizer a eles tudo o que elas devem fazer. Nós cristãos, amadurecemos. A fé em Deus nos basta para que não façamos o mal.”

Winnicott vai dizer, com outras palavras, o mesmo conteúdo só que ao falar de teoria do desenvolvimento individual e não de cristianismo. Mas a idéia é a mesma: a Lei só é necessária para quem não contou com um ambiente suficientemente bom! E mesmo assim a Lei não resolve as coisas. Pelo contrário: ela piora (e os exemplos que Winnicott dá são ótimos: crianças “agressivas, “rebeldes” etc. A punição, ou seja, o exercício da Lei, não funciona para elas; o que elas precisam é de um ambiente que as acolha, que as entenda e que ajudem a elas próprias a renunciar à agressividade.). A graça cristã pode ser compreendida, assim, por analogia, através do conceito de “ambiente suficientemente bom”.

Para Winnicott, herdeiro do pensamento de Melanie Klein, no início da vida todos nós convivemos imaginariamente com duas mães. Sim, DUAS mães: uma que nos faz muito feliz ao nos amamentar na hora em que sentimos fome, aquela que nos dá carinho, aconchego quando sentimos que as coisas vão mal, que nos dá calor quando a temperatura começa a cair, enfim, aquela mãe que está na hora certa no lugar certo fazendo a gente se sentir plenamente satisfeito – essa é a mãe boa. Mas também há a mãe má, protótipo das bruxas e madrastas dos contos de fada: é a mãe que não vem quando a gente chora de fome, aquela que às vezes não nos dá toda a segurança de que necessitamos no momento, a que nos deixa assando ao demorar em trocar as fraldas, enfim, é a mãe que falha, que não aparece na hora certa, que demora, que mete os pés pelas mãos às vezes. Obviamente, trata-se de DUAS mães apenas na cabecinha maniqueísta da criança. Na realidade, as duas mães são de fato dois aspectos de uma mesma mãe, justamente porque é existencialmente impossível que se possa ser uma mãe totalmente presente e satisfatória o tempo todo. Mas o bebê ainda não entende isso e a forma dele lidar com essa angústia é cindindo a mãe em duas: uma boa e outra má, da mesma forma como nós, às vezes, imaturamente pensamos que as coisas não estão indo bem porque Deus está nos castigando e que quando as coisas vão bem é porque estamos fazendo tudo o que Deus quer. O modelo dessa cisão entre um Deus que pune e um Deus que agracia está aí no precoce maniqueísmo infantil.

Acontece que há ainda outro complicador. Pelo fato de mãe e criança estarem, nos primeiros momentos da vida do bebê, em um estado que poderíamos descrever como de contigüidade psíquica, a famosa “simbiose” ou díade de Françoise Dolto, o bebê não consegue se reconhecer como constituindo uma existência separada e distinta da existência da mãe, de tal modo que o que ocorre do lado da mãe é imediatamente repercutido do lado da criança. Portanto, se o bebê imagina existirem uma mãe boa e outra má, logo existirão um eu bom e outro mau. Essa correspondência entre os campos da mãe e do bebê se dá através dos mecanismos psíquicos que Melanie Klein tão brilhantemente descreveu, a saber a introjeção e projeção: a criança, ao mesmo tempo em que se reconhece a partir de características extraídas da mãe/ambiente, também expele para fora de si determinados atributos passando a reconhecê-los como sendo próprios da mãe. Há, portanto, um intercâmbio de representações e sentimentos contínuo entre mãe e bebê sem que as fronteiras entre um lado e outro sejam delimitáveis.

Ocorre, no entanto, que todos nós possuímos uma tendência inata para a integração, isto é, uma potencialidade a reconhecermos nossa identidade como algo inteiro, total, ainda que apresentando aspectos conflitantes. É a realização dessa tendência que faz com que possamos nos reconhecer como uma mesma pessoa ao longo do tempo. Quando as condições ambientais não são favoráveis a que tal potencialidade se efetive, surgem problemas da ordem da identidade como os famosos casos de psicose em que o sujeito possui o que se chama de “múltiplas personalidades” sem um eixo que as organize.

Para que a tendência à integração se torne ato, como já dissemos, faz-se necessário um ambiente suficientemente bom, o que, em termos práticos significa um ambiente que proporcione um mínimo de estabilidade de maneira a partir que o bebê reconheça que o “eu bom” e o “eu mau” são de fato um único eu. O que resulta dessa síntese operada dentro de um ambiente minimamente bom é o sentimento de responsabilidade que descrevemos no último post dessa série associando-o ao arrependimento cristão. O bebê percebe que as “más ações” vêm dele mesmo e não de outro eu.

Não obstante, como já vimos, nessa fase em que o bebê depende quase que absolutamente da presença da mãe, tudo o que ocorre do lado do bebê, apresenta uma correspondência, na vida imaginativa da criança, do lado da mãe. Assim, se há uma síntese do eu bom e do eu mau do bebê, haverá também, para a criança, uma síntese entre a mãe boa e a mãe má! E, vejam é justamente essa última síntese que, para Winnicott, marca o nascimento da moralidade no ser humano. Por quê? Porque a partir do momento em que a criança começa a reconhecer que a mãe má é a mesma pessoa que a mãe boa, ela se conscientiza de que todos os pensamentos, fantasias e ações agressivas dirigidas contra a mãe má, que frustra, que falha, eram também dirigidas contra a mãe boa, que gratifica, que alimenta, que dá carinho! Essa consciência, esse insight é um acontecimento de grandes proporções no psiquismo da criança, pois o primeiro sentimento que ele gera é o de culpa, afinal o bebê começa a perceber que estava agindo e desejando mal para aquele ser que ele mais amava! Melanie Klein, ao reconhecer a força do impacto dessa consciência na mente da criança, chamou a fase em que a criança tem essa constatação de “posição depressiva”, pois para a psicanalista o sentimento de culpa geraria um estado deprimido perene que, nos casos de melancolia (depressão) estaria exacerbado, mas que em todas as pessoas persistiria em maior ou menor grau em estado latente. Ou seja, para Melanie Klein, seguindo Freud, todos nós estaríamos condenados ao fado de carregar uma culpa latente que, por sua vez, geraria uma constante depressão também latente!

Winnicott não pensava assim. Para ele havia solução para o sentimento de culpa e a posição depressiva. E essa solução não passava, como queriam Freud e Lacan, pela incidência da Lei na subjetividade. Para o psicanalista inglês, nós nos livramos da culpa por termos ultrajado nosso maior objeto de amor, apenas pela consciência de termos feito mal a quem amamos. Parece tautológico, redundante, mas não é, pois a compreensão desse processo muda todo nosso entendimento da moralidade. No esquema tradicional freudiano, nós abdicaríamos de fazer o mal apenas para não sermos punidos pela Lei. Já em Winnicott, nós deixaríamos de fazer o mal por termos nos conscientizado de que, em primeiro lugar, ao fazermos o mal estamos agredindo a quem amamos e, em segundo lugar, que nós também temos o mal em nós (síntese entre o “eu bom” e o “eu mau”).

Ora, não é exatamente essa compreensão ética que Jesus nos traz em oposição à Lei judaica? Ele diz: “Olha, você não devem fazer o mau a seu irmão não porque a Lei proíbe mas porque seu irmão também é filho de Deus e Deus não deixa de fazer o bem a ele em nenhum momento não obstante ele aja mau.” E também através do mandamento “Faça aos outros o que você quer que façam a você”. Ao reconhecer que o “eu bom” e o “eu mau” são uma mesma pessoa, o bebê percebe que também é capaz de fazer o mal. Obviamente, ele não vai querer que lhe revidem o mal que fez. Assim, do mesmo modo, não irá retribuir ao ambiente o mal que esse possa ter feito. Além disso, ao reconhecer que a mãe boa e a má são uma única e mesma mãe, o bebê não mais a agredirá, não por obediência ao mandamento “Não matarás”, mas por compreender que ao agredir a mãe má ele está agredindo também a mãe boa. Assim também, o cristão não faz mau ao próximo por reconhecer que o próximo por pior que seja é tanto quanto ele próprio amado por Deus, de tal modo que se ele agride o próximo, por tabela ele está agredindo a Deus, justamente Aquele a quem mais ama. Da mesma forma, o cristão não julga o próximo pelo fato de reconhecer que ele próprio não é inimputável, por reconhecer que traz as potencialidades do pecado do próximo em si.

Winnicott nos fornece, portanto, com sua teoria do desenvolvimento da moralidade no homem a partir do relacionamento da criança com a mãe/ambiente, um modelo teórico que nos auxilia a compreender a ética cristã, o modo como o cristão lida com dilemas morais. Jesus bate o martelo e diz: “Olha, não importa o que dizem os outros mandamentos. Se vocês observar apenas esse: ‘Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo’ você não precisam mais observar nenhuma regra”. Agora substitua o termo Deus por mãe e você terá nesse único mandamento de Cristo toda a teoria do desenvolvimento da moralidade de Winnicott. O bebê, no estado de dependência absoluta, não só ama como tem a necessidade de amar a mãe sobre todas as coisas pela simples razão de que, naquele momento, a mãe é, de fato, TODAS AS COISAS para o bebê. Quem dera se nós agíssemos para com Deus como o bebê age para com a mãe, tendo-a como essencial para sua sobrevivência, sabendo que vive nela, com ela e para ela. Além disso, o bebê, como no mandamento, ama à mãe como ele mesmo justamente por reconhecer que não há diferença entre ele e a mãe. A partir do momento em que reconhecemos que entre nós e o próximo não há nenhuma diferença aos olhos de Deus, que independente do que ele ou nós façamos, todos estão marcados pela potencialidade do mal, do pecado e que todos são alvo da graça de Deus, que faz a chuva cair “sobre justos e injustos”, nós não fazemos o mal ao próximo, pois, com efeito, “com a mesma medida que julgardes sereis julgados e aqueles que tiverem misericórdia, alcançarão misericórdia”.

Certamente, muitos de vocês podem se perguntar “Mas por que Freud não pensava assim? Por que ele insistia na necessidade do superego e da lei (interpretação lacaniana)?”. Eu tenho uma hipótese: Freud não pensava assim porque era judeu, e porque como judeu, mesmo renegando a fé, ele não conseguia entender a novidade cristã. Por isso, ele não concebia que a moralidade pudesse advir desse processo de metanóia, de renovação do entendimento que o bebê experimenta no desenvolvimento e o cristão na conversão. Freud, como judeu, pensava como judeu, ou seja, que para que façamos o bem se faz necessária uma Lei que nos diga o que é o bem e como fazê-lo. Ora, não é exatamente isso o que fez Moisés ao proclamar para o povo a Lei?

O que faremos então? Ignoraremos Freud, reconhecendo-o como tendo uma concepção de moralidade caduca? De forma alguma! A concepção de Freud será sempre atual – e para a grande maioria das pessoas. Ela só não explica a ética cristã, o modo como os cristãos lidam com o problema da ética. No entanto, ela explica como todo o resto do mundo lida. Por que todo o resto do mundo só não faz o mal por obediência a leis. E não estou falando apenas da lei judaica ou das leis e códigos civis de direito. Estou falando também de leis filosóficas, sociológicas, políticas, religiosas. Tem gente que não faz o mal porque segue a ética de Aristóteles ou de Kant. Isso significa que a ética dessa pessoa está apartada da Lei? De maneira nenhuma. Ele só está seguindo uma lei diferente: a lei de Kant ou Aristóteles. É só a ética de Jesus de Nazaré a que traz uma libertação de fato de qualquer tipo de Lei. E a minha tese é de que a teoria winnicottiana nos oferece um modelo teórico de entendimento, uma analogia bastante útil para compreendermos essa libertação.

Mas Freud continua valendo para todos os não-cristãos. E é por isso que a psicanálise ainda faz sucesso e nunca será extinta. E é também por isso que a análise não funciona e é completamente desnecessária para um cristão efetivamente convertido. Mas quantos há que ainda não o são…

A Psicanálise e a subversão da Filosofia (final)

Heraclitus%2C_Johannes_MoreelseNo último post, mostramos, num esquema lógico – aparentemente com ares silogísticos – que a questão mais fundamental do humano, anterior ao questionamento ontológico (“o que é?”) é a problemática ética que de maneira alguma é o problema do que se deve ou não fazer. A indagação fundamentalmente ética é: “O que isso quer de mim?” ou “Como isso quer que eu seja?”

Utilizo a palavra “isso” para não utilizar precipitadamente o termo “Outro” já que, na raiz, essa questão não implica o Outro e sim algo como “a natureza” ou “o mundo”: “O que o mundo quer de mim?”. O Outro funcionou para que a Psicanálise evidenciasse isso porque, é preciso lembrar, ela nasceu a partir do tratamento das neuroses que não são nada mais nada menos do que os imbróglios do sujeito na sua relação com o Outro, seja ele identificado à cultura ou aos próprios pais.

O Outro, assim como a anatomia (já dizia Napoleão) é destino, ou seja, pra que a gente possa se estruturar minimamente como pessoa é necessária a presença suficientemente boa de uma pessoa, seja ela, a mãe, a babá ou qualquer outra figura que funcione como um esteio.

A essa figura a gente não pergunta o que é o mundo, o que é o que é. Ou melhor, a gente pode até perguntar, mas é com outro objetivo, o objetivo de saber qual é o desejo dessa figura, qual é o desejo desse Outro.

É isso que Lacan mostra na interpretação que faz da tradicional fase em que a criança aborrece a mãe perguntando o porquê de tudo. Lacan mostra que o que a criança quer saber não é o conteúdo da resposta da mãe. Ela está ligada é nos intervalos entre cada palavra, intervalos que denunciam o desejo materno. Ao perguntar sobre o mundo, ela quer saber sobre o desejo.

Do mesmo modo, a pesquisa filosófica pode até fazer semblante de querer saber a “verdadeira verdade”, como diria o Cidade Negra. No entanto, o que se encontra na raiz dessa busca é um questionamento sobre o desejo. Ora, não é isso que mostra o saudoso Renatinho Carteiro (René Descartes) quer dizer quando afirma lá no seu discurso do método que ele quer descobrir a verdade sobre as coisas do mundo “para melhor se conduzir nessa vida”? A verdade que Descartes quer saber é a verdade do desejo do mundo, o que o mundo quer dele para que ele possa se conduzir melhor e evitar os imprevistos.

Na medida em que esse desejo nunca se manifesta às claras, é sempre preciso supor algo. É preciso criar um teatro imaginário em que todas as figuras do mundo encontram seu lugar, no qual eu sabia meu script (o que tenho que fazer, para onde devo ir), sempre supondo que isso seja o que o Outro quer de mim. É o que os psicanalistas chamam de “fantasia fundamental”

Mas isso já é matéria para outro post.

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Enigma feminino

Transpassa-me a alma o clamor do Outro

Sinto o terror da solidão em rios de fel

Gozo de ti servida a granel

Com gosto de morte em seus lábios

Velho está o espírito

Que derrama em frios pensamentos

Todo o ar que ainda existe

E as soluções desfilam por entre os galhos

Os morcegos já não sabem onde esconder

Em que se apóia ti para te achares mulher?

Tua falta eu já supri faz tempo

Foi muito para o lugar do vazio

Fujo de mim em ti com unhas e dentes

A plenos pulmões, grito!

Grito!

Os sons são despenhadeiros

E os músculos contraídos denunciam o horror

Da carne em tua boca

Em tua alma sobra o prazer

O que, afinal, tu queres?