Reflexões sobre o Imaginário

betta_fish1As senhoras e os senhores que frequentam assiduamente este blog, provavelmente já devem ter me visto repetir algumas vezes uma fórmula que nos serve de eixo para o entendimento (?) do que é o homem. Costumamos dizer que “o homem é um ser que não nasce sabendo viver”.

Essa fórmula, absolutamente óbvia mas que muitos insistem em negligenciar por motivos que não vêm ao caso no momento, já foi pronunciada de outras maneiras, ainda que com consequências distintas. Vemos, por exemplo, um Sartre fundamentar todo o seu Existencialismo a partir da afirmação de que, no homem, “a existência precede a essência”.

A obviedade presente nessas formulações pode ser escancarada se verificarmos os casos de crianças que não foram criadas num ambiente humano, mas em contato com macacos ou lobos. Invariavelmente, elas se comportam… como macacos ou lobos. É o mesmo que acontece em relação ao peixe Betta (desses que devem ser criados sozinhos num aquário). Para que o Betta macho produza as bolhas que servirão de ninho para os ovos da fêmea, ele precisa visualizar a fêmea. Ou seja, uma simples imagem é capaz de gerar efeitos no organismo do peixe. Tanto é assim que não é necessário que o macho visualize uma fêmea real, mas apenas uma foto de uma fêmea.

No humano, isso ocorre principalmente com relação à imagem que temos de nós mesmos (nosso eu). A construção dessa imagem depende das imagens com as quais temos contato, isto é, com as imagens de nossos semelhantes, com os diversos outros que aparecem durante nossa vida. No caso das crianças criadas no meio de macacos e lobos isso fica evidente: se os outros com os quais elas convivem são macacos e lobos, logo elas vão se comportar como macacos e lobos. Por isso a máxima: “Diga-me com que andas e te direi quem és” porta algo de verdade.

Basta você fazer um pequeno exercício de observação:

Veja por exemplo um casal de namorados. Com apenas alguns anos de relacionamento amoroso, os dois parceiros já portam feições, manias e traços um do outro, o que fica bastante evidente principalmente quando as relações terminam. Outro exemplo, esse ainda mais visível: pense aí nos vários traços de comportamento que você compartilha com seu pai ou sua mãe: é o tradicional “Fulano puxou isso do pai…”

Disso tudo podemos concluir que o nosso eu, aquilo que pensamos ser a nossa identidade, é, na verdade, um amontoado de traços que foram tomados dos outros. Em outros termos, o eu é um agrupamento de identificações.

É esse registro da experiência humana em que o sujeito se relaciona com seu eu e que o eu de uma pessoa se relaciona com o eu de outra que Lacan chama de Imaginário.

O que é transferência? (final)

2oedipusPois bem, sem mais delongas, vamos tratar de preencher as lacunas deixadas nos dois últimos posts. Dissemos que na transferência o paciente repete com o analista o mesmo modo padronizado de viver que acabou levando-o a se dar mal. A questão é: de onde vem esse modo padronizado de viver?

Uma vez que o Homo sapiens é o único animal que não nasce “sabendo” como viver, logo é possível afirmar que nosso jeito de ser deve ser aprendido. Mas não se enganem: quando eu digo aprendido não estou recorrendo à história de reforçamentos e punições pela qual passou a pessoa. O elemento-chave aí é o desejo do Outro. Sim, porque se nós não nascemos sabendo viver, a gente precisa de um Outro que nos diga quem somos e como nos portarmos perante a vida. Logo, deveremos encontrar um jeito de viver que atenda ao desejo desse Outro. Isso acontece muito cedo na vida da gente, mais ou menos lá pelos 4 ou 5 anos. Nesse ponto, o sagaz leitor pode perguntar: “Tá, mas porque a gente continua repetindo esse jeito de ser mesmo depois de adulto?”. Respondo: porque se esse jeito de ser que a gente criou foi para atender ao desejo do Outro, isso significa que o Outro só vai me amar se eu continuar sendo desse jeito. E como foi o Outro quem me disse quem eu sou, logo se esse Outro não me amar, sentir-me-ei angustiado por não conseguir mais me reconhecer.

Quando o paciente procura um analista, o que ele espera? Espera que o analista diga a ele quem ele é e como ele deve se conduzir na vida. Por quê? Porque o modo como ele vinha se conduzindo acabou por fazê-lo sofrer. Logo, o analista acaba ocupando na cabeça do paciente esse lugar de Outro. É por isso que vocês vão encontrar muitas vezes Lacan dizendo que a transferência está em ação quando o analista é para o paciente um Sujeito Suposto Saber. Por que “suposto”? Porque, é óbvio, o analista não tem esse saber sobre quem o paciente é e o que ele deve fazer para ser feliz. No entanto, para que a análise aconteça, é necessário que o paciente pense assim por muito tempo. Pra quê? Para que ele continue falando na esperança de que um dia o analista lhe revele o segredo sobre o seu ser até chegar ao momento em que ele vai se dar conta de que, de fato, o analista nada sabe. E mais: que ninguém sabe!

Portanto, senhoras e senhores, “o que se transfere na transferência” são as pessoas que ocuparão o lugar do Outro na cabeça do paciente. Antes, eram os pais, hoje é o analista. Então, se o sujeito criou seu jeito de ser para ser amado no princípio pelos pais, ele repete esse mesmo jeito doentio de ser com o analista, para que esse também o ame.

E amando, lhe diga quem ele é, para onde deve ir, o que deve fazer para ser feliz…

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