O que é transferência? (final)

2oedipusPois bem, sem mais delongas, vamos tratar de preencher as lacunas deixadas nos dois últimos posts. Dissemos que na transferência o paciente repete com o analista o mesmo modo padronizado de viver que acabou levando-o a se dar mal. A questão é: de onde vem esse modo padronizado de viver?

Uma vez que o Homo sapiens é o único animal que não nasce “sabendo” como viver, logo é possível afirmar que nosso jeito de ser deve ser aprendido. Mas não se enganem: quando eu digo aprendido não estou recorrendo à história de reforçamentos e punições pela qual passou a pessoa. O elemento-chave aí é o desejo do Outro. Sim, porque se nós não nascemos sabendo viver, a gente precisa de um Outro que nos diga quem somos e como nos portarmos perante a vida. Logo, deveremos encontrar um jeito de viver que atenda ao desejo desse Outro. Isso acontece muito cedo na vida da gente, mais ou menos lá pelos 4 ou 5 anos. Nesse ponto, o sagaz leitor pode perguntar: “Tá, mas porque a gente continua repetindo esse jeito de ser mesmo depois de adulto?”. Respondo: porque se esse jeito de ser que a gente criou foi para atender ao desejo do Outro, isso significa que o Outro só vai me amar se eu continuar sendo desse jeito. E como foi o Outro quem me disse quem eu sou, logo se esse Outro não me amar, sentir-me-ei angustiado por não conseguir mais me reconhecer.

Quando o paciente procura um analista, o que ele espera? Espera que o analista diga a ele quem ele é e como ele deve se conduzir na vida. Por quê? Porque o modo como ele vinha se conduzindo acabou por fazê-lo sofrer. Logo, o analista acaba ocupando na cabeça do paciente esse lugar de Outro. É por isso que vocês vão encontrar muitas vezes Lacan dizendo que a transferência está em ação quando o analista é para o paciente um Sujeito Suposto Saber. Por que “suposto”? Porque, é óbvio, o analista não tem esse saber sobre quem o paciente é e o que ele deve fazer para ser feliz. No entanto, para que a análise aconteça, é necessário que o paciente pense assim por muito tempo. Pra quê? Para que ele continue falando na esperança de que um dia o analista lhe revele o segredo sobre o seu ser até chegar ao momento em que ele vai se dar conta de que, de fato, o analista nada sabe. E mais: que ninguém sabe!

Portanto, senhoras e senhores, “o que se transfere na transferência” são as pessoas que ocuparão o lugar do Outro na cabeça do paciente. Antes, eram os pais, hoje é o analista. Então, se o sujeito criou seu jeito de ser para ser amado no princípio pelos pais, ele repete esse mesmo jeito doentio de ser com o analista, para que esse também o ame.

E amando, lhe diga quem ele é, para onde deve ir, o que deve fazer para ser feliz…

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8 comentários sobre “O que é transferência? (final)

  1. Olá Lucas, gostei muito do seu texto sobre transferência.
    Vc tem outros textos, estou interessada em aprofundar-me nesse assunto, mais especificamente em situações de “apaixonamento” pelo terapeuta, que muitos denominam como transferência.

    Abraços
    Radha

  2. Lucas, vc tem muita didática! Sua explicação para transferência foi muitíssimo clara.
    Você faz análise?
    Eu estou sofrendo muito com a tal da transferência. Não consigo sair do meu padrão. Acho o meu analista o máximo e quero muito que ele me admire. Aí entro em parafuso quando falo do meu lado podre, porque morro de medo de perdê-lo, por mais que saiba que ele não vai me deixar na mão (mesmo porque pago as sessões em dia…) Custei para perceber que é esse o meu modo de operar na vida, mas ainda não sei como sair dessa angústia. Algum conselho?
    Parabéns pelo texto! Um abraço, Vica

  3. Vica, em primeiro lugar muito obrigado pela visita e pelos elogios.
    Pelo que você contou, pode-se dizer que seu analista está fazendo um ótimo trabalho. Explico: é que quando a transferência se encontra, assim, bem estabelecida, é sinal de que o seu modo padronizado de viver foi atualizado na sessão de análise, o que significa também que sua neurose passou a ser uma neurose de transferência.
    A saída da transferência vai depender de como o seu analista conseguir manejá-la junto com você. Se ele continuar sendo competente (e você ajudar rs), com o tempo você vai conseguindo tomar distância desse jeito padronizado de viver. Não que você vai deixar de vivê-lo (isso pode acontecer, sim) mas o mais importante é que você não vai mais ser escrava dele.
    Fique tranquila, você está numa fase essencial do tratamento. Continue fazendo a sua parte: associação livre (rs).

    Um abraço!

  4. Prezada Radha, de minha autoria não tenho outros textos não, mas tenho notado que transferência tem sido um tema muito visualizado. Em breve farei mais considerações.

    Um abraço!

  5. Olá, Lucas, é a primeira vez que eu consigo entender o que seria “transferência”. Muito didático o seu conceito. Parabéns!

  6. Oi. Sou estudante do 6º semestre de psicologia. Já tinha lido o texto de Lacan que fala sobre o “Sujeito suposto saber” e posso dizer que só agora, depois de ler seu texto, que realmente entendi o significado pleno desse termo.
    Obrigada e sucesso.

  7. Olá Lucas, obrigado por compartilhar esse texto! Muito esclarecedor uma vez que falar de psicanálise é um tanto quanto desafiador.
    Faço terapia a pouco mais de quatro meses e, não sei se propositadamente, meu analista nas ultimas semanas tem me deixado “aguardando um novo horário”. Esse silencio por parte dele vem me angustiando por dentro, me deixando a cada dia com mais raiva. Esse afastamento por parte do psicanalista pode ser um processo da transferencia e/ou da analise ? Essa raiva é bem parecida com a de rejeição/falta de justificativa.

  8. Oi Gabriel! Não entendi muito bem sua pergunta. Como está a situação hoje?

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