A Psicanálise e a subversão da Filosofia (final)

Heraclitus%2C_Johannes_MoreelseNo último post, mostramos, num esquema lógico – aparentemente com ares silogísticos – que a questão mais fundamental do humano, anterior ao questionamento ontológico (“o que é?”) é a problemática ética que de maneira alguma é o problema do que se deve ou não fazer. A indagação fundamentalmente ética é: “O que isso quer de mim?” ou “Como isso quer que eu seja?”

Utilizo a palavra “isso” para não utilizar precipitadamente o termo “Outro” já que, na raiz, essa questão não implica o Outro e sim algo como “a natureza” ou “o mundo”: “O que o mundo quer de mim?”. O Outro funcionou para que a Psicanálise evidenciasse isso porque, é preciso lembrar, ela nasceu a partir do tratamento das neuroses que não são nada mais nada menos do que os imbróglios do sujeito na sua relação com o Outro, seja ele identificado à cultura ou aos próprios pais.

O Outro, assim como a anatomia (já dizia Napoleão) é destino, ou seja, pra que a gente possa se estruturar minimamente como pessoa é necessária a presença suficientemente boa de uma pessoa, seja ela, a mãe, a babá ou qualquer outra figura que funcione como um esteio.

A essa figura a gente não pergunta o que é o mundo, o que é o que é. Ou melhor, a gente pode até perguntar, mas é com outro objetivo, o objetivo de saber qual é o desejo dessa figura, qual é o desejo desse Outro.

É isso que Lacan mostra na interpretação que faz da tradicional fase em que a criança aborrece a mãe perguntando o porquê de tudo. Lacan mostra que o que a criança quer saber não é o conteúdo da resposta da mãe. Ela está ligada é nos intervalos entre cada palavra, intervalos que denunciam o desejo materno. Ao perguntar sobre o mundo, ela quer saber sobre o desejo.

Do mesmo modo, a pesquisa filosófica pode até fazer semblante de querer saber a “verdadeira verdade”, como diria o Cidade Negra. No entanto, o que se encontra na raiz dessa busca é um questionamento sobre o desejo. Ora, não é isso que mostra o saudoso Renatinho Carteiro (René Descartes) quer dizer quando afirma lá no seu discurso do método que ele quer descobrir a verdade sobre as coisas do mundo “para melhor se conduzir nessa vida”? A verdade que Descartes quer saber é a verdade do desejo do mundo, o que o mundo quer dele para que ele possa se conduzir melhor e evitar os imprevistos.

Na medida em que esse desejo nunca se manifesta às claras, é sempre preciso supor algo. É preciso criar um teatro imaginário em que todas as figuras do mundo encontram seu lugar, no qual eu sabia meu script (o que tenho que fazer, para onde devo ir), sempre supondo que isso seja o que o Outro quer de mim. É o que os psicanalistas chamam de “fantasia fundamental”

Mas isso já é matéria para outro post.

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5 comentários sobre “A Psicanálise e a subversão da Filosofia (final)

  1. Se as pessoas não fossem tão superficiais, bastava pergtar pra elas ora! rs… Agora, resta saber se vamos querer realmente fazer o q elas desejam, visto q o desejo não é tão bonzinho qto se mostra. Se a demanda do mundo é ser amado, então blê, já temos uma resposta. Mas acho q mais do q querer saber o q o mundo quer de mim, há tb uma pergta q não vi resposta senão na religião. Pq, ou pra q, o mundo foi inventado? Td bem q a religião tb é composta pelo mundo, e é divulgada pelo mundo, mas entra em cena um ser q é divino, o Eu Sou, para os cristãos, e aí? Obedecer os ensinamentos deste ser divino, Deus, é uma forma de fazer o ser humano ser amado sim, mas pra q q o ser humano foi inventado? Alguém além dos teólogos tem essa resposta? Não estou dizendo q todos teólogos têm, mas sei q alguns têm, se eles acreditam ou não já é outro assunto, mas q tem tem.

  2. Adorei o texto. Estou aprendendo muito. Não sou da área, mas tenho muito curiosidade no assunto.
    Mas gostaria de fazer um comentário sobre o comentário da Ádila. Achei tão estranha a pergunta “para quê que o ser humano foi inventado?” Os teólogos têm a resposta? Pra mim, o ser humano não foi inventado (nem o mundo), ele apenas aconteceu. Já a religião, esta sim foi inventada pelo ser humano, acredito que justamente para dar algum sentido ao que não faz sentido algum. Acreditar na existência de Deus, de um pai capaz de cuidar de todos nós, nos deixa um pouco menos angustiados, o que de qualquer forma não elimina nossa “fantasia fundamental”, se entendi bem o que isso significa. Afinal, o que Deus quer de mim?

  3. A resposta vai tanto para Vica quanto para a Ádila.
    Quando a gente se pergunta para que, por exemplo, o ferro elétrico foi inventado, estamos colocando em questão sua finalidade. Simplificando, poderíamos dizer que o ferro elétrico foi inventado para facilitar a vida das pessoas que se dedicam à nobre arte de passar roupas. Ponto. Se pararmos por aqui, estaríamos formulando simplesmente um enunciado pragmático que deixaria de lado questões como: “Por que as pessoas querem que a tarefa de passar roupas se torne mais fácil?” e “Por que o inventor do ferro elétrico pensou em inventar um produto que beneficiaria a vida de muitas pessoas?”
    Pois bem, essas são questões da ordem do desejo. Da mesma forma, quando o ser humano se pergunta para quê ele existe, qual a finalidade de sua existência, enfim, qual o sentido da vida, ele está, primeiramente, supondo que haja algum sentido na vida. E se há algum sentido na vida, isso significa que houve um desejo de que ele existisse (assim como no caso do ferro de passar, se ele possui alguma finalidade é que estava em jogo o desejo tanto do inventor quanto das pessoas que compram o ferro).
    Pois bem, se eu sou um sujeito que acredita que há um Deus, eu vou logo supor que a finalidade de minha existência foi determinada por ele. Logo, minha questão passa a ser: “Qual o desejo de Deus?”
    O problema, ao meu ver, e nisso estou seguindo o pensamento de Spinoza, é que nós nos acostumamos a responder à essa pergunta (“Qual o desejo de Deus?”) com respostas pateticamente humanas. O que a gente concebe como a essência e a vontade divinas é um precipitado de nossa própria experiência afetiva com o mundo. Criamos, então, uma imagem de Deus assemelhada à função paterna (o que Freud critica em “O Futuro de uma Ilusão”) e não nos demos conta de que se Deus é Deus não há outra forma de se pensá-lo a não ser como imanente ao mundo.
    Pra finalizar, a respeito do que a Vica disse, acho que é possível pensar que o ser humano é um acontecimento sem nenhuma intencionalidade implícita (essa é opinião de Darwin e Sartre). Só acho que experienciar essa opinião subjetivamente é impossível visto que o simples fato de nos questionarmos, por exemplo, diante do aborto, se isso é bom ou ruim, implica em supor que haja em algum lugar a verdade sobre o bem e o mal. E se há essa verdade, há o desejo de quem a formulou…

  4. Eu já havia entendido o q disse, só estava problematizando. Mas de qualquer forma obrigada.

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