
Eu começo a reflexão de hoje sem saber exatamente onde ela vai desembocar. Só sei o seu ponto de partida: a expressão popular “deixar a desejar”.
Provavelmente você já a utilizou diversas vezes. Talvez, após a estreia do Brasil na Copa, muitas pessoas tenham pensado:
“É, hoje a Seleção deixou a desejar.”
Não sei se você já parou para pensar nisso, mas essa é uma expressão meio paradoxal. Ela é utilizada para expressar uma lamentação, mas, ao mesmo tempo, contém um elemento que nós geralmente consideramos positivo: o desejo.
Afinal, a gente gosta de desejar — e de ser desejado, claro.
Então, por que não vemos com bons olhos alguém ou algo que “deixa a desejar”?
A resposta talvez esteja no reconhecimento de duas modalidades de desejo: um que se dá em face da limitação e outro que é efeito da frustração.
No primeiro caso, a gente deseja porque o contato com o objeto é tão prazeroso que nos faz querer continuar em contato com ele. Porém, em função de alguma limitação física ou temporal, esse contato precisa ser interrompido.
É o que acontece quando você passa horas com uma pessoa e lamenta ter que se despedir dela ou quando come um prato delicioso e sofre ao dar a última garfada.
Nessas situações, não dizemos que a pessoa ou a comida “deixaram a desejar”. Em vez disso, é mais provável dizermos que elas deixaram um “gostinho de quero mais”.
Esse “gostinho” é um sentimento paradoxal, uma mistura de prazer e dor. Estamos sofrendo pela perda do contato com o objeto, mas, ao mesmo tempo, felizes pelo tempo que passamos com ele e desejando revê-lo.
Por outro lado, no “deixar a desejar”, parece haver só sofrimento. E isso decorre do que vem antes: a expectativa que acompanha o contato com o objeto.
Se achamos que a Seleção deixou a desejar na estreia da Copa é porque não queríamos apenas ver o Brasil jogar. Queríamos a vitória.
Nesse caso, o desejo resultante não está voltado para o futuro, não é o de rever a Seleção. É o desejo pelo que não aconteceu, pelo que não existiu.
A distinção entre essas duas modalidades de desejo me leva a pensar que, talvez, dois dos ingredientes de uma vida boa (no sentido filosófico do termo) sejam:
A busca consciente por experiências que proporcionem “gostinho de quero mais” e um esforço também deliberado de evitar a sensação de que algo ou alguém nos “deixou a desejar”.
O primeiro depende de um refinamento da capacidade de reconhecer do que verdadeiramente gostamos. Já o segundo passa por evitarmos nutrir expectativas em excesso.
Agora me diga: como tem sido sua vida?
Ela tem mais momentos que deixam gostinho de quero mais ou mais coisas que deixam a desejar?
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No último post, mostramos, num esquema lógico – aparentemente com ares silogísticos – que a questão mais fundamental do humano, anterior ao questionamento ontológico (“o que é?”) é a problemática ética que de maneira alguma é o problema do que se deve ou não fazer. A indagação fundamentalmente ética é: “O que isso quer de mim?” ou “Como isso quer que eu seja?”
Qual a razão de ser do conhecimento que se autodenomina filosófico? Isto é, por que a filosofia existe? Certamente essa pergunta não deve ser respondida de qualquer maneira, mas uma visada periférica da história da filosofia (leia-se a história do que homens que se intitularam ou foram chamados de filósofos disseram) mostra que a função da Filosofia geralmente foi vista como sendo a da procura da verdade.
No último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.
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