
No processo de construção de qualquer produto, seja ele um carro, um prédio, um celular, a engenharia exerce um papel preliminar.
É no âmbito dela que se definem a função do artefato, o design, as etapas de produção, os recursos que serão necessários etc.
Mesmo não tendo acompanhado esse planejamento, nós podemos deduzi-lo analisando o produto já construído.
O nome desse procedimento é engenharia reversa.
Mas por que um psicanalista está falando disso?
Porque, na Psicanálise, nós fazemos algo parecido.
Assim como uma casa não é construída de maneira aleatória, o adoecimento psíquico também se organiza segundo uma certa lógica.
Obviamente não criamos nossos problemas emocionais da mesma forma consciente e racional que engenheiros projetam um prédio.
Mas eles não surgem do nada. Eles se formam e passam a cumprir funções muito específicas.
Sua depressão, por exemplo, não se explica apenas por uma desordem química no cérebro.
Seus pensamentos intrusivos não te assombram simplesmente porque você é muito ansioso.
Nossos sintomas e inibições são construídos, em grande medida, como formas de nos proteger de nós mesmos.
Ao longo desse movimento de construção, vários processos entram em jogo: defesas, fantasias, identificações etc.
E é só discernindo esses elementos que conseguimos deduzir como o adoecimento foi arquitetado.
Essa engenharia reversa é o que acontece ao longo de uma análise.
Enquanto associa livremente, o paciente vai como que “desmontando” os problemas emocionais, de modo que podemos enxergar suas peças.
E aí vai ficando claro tanto para o analista quanto para o analisando que houve ali uma forma de organização que não foi aleatória.
Um dos desafios da análise é ajudar o sujeito a se apropriar dessa engenharia que ele fez sem saber que fez.
Não se trata, evidentemente, de levar o paciente a pensar: “Eu estou assim por minha própria culpa. Fui eu quem fiz este sintoma”.
Não!
Na verdade, o que buscamos é ajudar a pessoa a se enxergar a fim de que, se enxergando, ela possa, finalmente, ter a chance de mudar.
Afinal, se o produto que se formou em mim funciona mal e vive dando defeito, eu preciso olhar para ele com cuidado e profundidade.
Só assim poderei, quem sabe, reconfigurá-lo ou encontrar uma forma de fazê-lo funcionar melhor.
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