Revisitando o caso Dora: onde Freud errou?

Em outubro de 1900, Freud começou a atender uma jovem de dezoito anos que ficaria muito conhecida na história da Psicanálise.

O médico vienense deu a ela o pseudônimo de “Dora” e a diagnosticou com uma “petite hystérie”, ou seja, um quadro histérico relativamente leve — para os critérios da época.

A paciente sofria com episódios de falta de ar, tosse nervosa, perda da voz, enxaquecas e uma sintomatologia depressiva.

No início do tratamento, a moça acusava o pai de ser falso, mentiroso e egoísta. Freud confessa, no relato do caso, que a paciente tinha certa razão ao caracterizar o pai dessa forma, considerando as coisas que ele fazia.

Dora se sentia particularmente indignada por acreditar que o pai fez vistas grossas para o assédio que ela havia sofrido durante um bom tempo por parte de um vizinho, o famoso Sr. K.

Ela achava que o genitor relevava isso porque o Sr. K. meio que também fingia não ver que sua esposa, a Sra. K., tinha um caso com o pai de Dora.

Ou seja, Dora se via como vítima de um acordo entre os dois homens. Era como se o pai tivesse dito ao Sr. K: “Você me deixa ficar com sua mulher e, em troca, te dou minha filha”.

No entanto, àquela altura, Freud já havia aprendido que, frequentemente, a gente desce a lenha no outro (como Dora estava fazendo com seu pai) não só porque o outro merece, mas também para não reconhecer a nossa própria “capivara” — como se diz no meio policial.

Eu vou citar o que Freud escreve a esse respeito para que você entenda melhor esse mecanismo:

“Um rosário de censuras a outras pessoas leva-nos a suspeitar da existência de um rosário de autocensuras de conteúdo idêntico.”

— Tá, mas qual era a “capivara” de Dora, Lucas?

Ora, se o pai tinha feito vistas grossas para o assédio que ela sofrera, a moça havia “passado pano” para o caso que ele teve com a Sra. K.

Dora só confrontou o pai e pediu para que a família se afastasse do casal K. quando o Sr. K. teve a pachorra de convidá-la a se tornar sua amante.

Porém, diz Freud, “durante todos os anos anteriores ela fizera o possível para favorecer as relações do pai com a Sra. K. Nunca ia vê-la quando suspeitava de que seu pai estivesse lá. Sabia que, nesse caso, as crianças seriam afastadas, e rumava pelo caminho em que estava certa de encontrá-las, indo passear com elas”.

A hipótese de Freud era de que Dora, apesar de sentir nojo das importunações do Sr. K., acabou se apaixonando pelo cara.

Por isso, inconscientemente ela colaborava para a manutenção daquele arranjo no qual era tratada como um objeto de troca.

Isso absolve o Sr. K. e o pai? Óbvio que não.

O Sr. K. foi objetivamente um molestador. Dora tinha 14 anos quando o cara, que tinha 36, a beijou à força, gente!

Já o pai, para dizer o mínimo, foi negligente em seu papel de proteger a filha.

Por outro lado, se Freud não tivesse chamado a atenção de Dora para o modo como ela, sem perceber, colaborava para a manutenção daquela situação problemática, o tratamento não caminharia.

Embora a jovem já estivesse há cerca de dois anos sem contato com o Sr. K. quando iniciou a análise, as marcas da relação conflituosa e ambivalente que ela teve tanto com ele quanto com a Sra. K. ainda estavam muito vivas dentro dela, nutrindo seus sintomas histéricos.

No fim das contas, o tratamento foi um fracasso. Durou mais ou menos três meses e foi interrompido por iniciativa da própria Dora.

Freud atribuiu esse fim prematuro ao fato de não ter reconhecido e manejado oportunamente a transferência paterna que Dora teria feito com ele.

Eu tenho minhas dúvidas.

Talvez o problema tenha sido o modo como Freud olhava para Dora.

Ele a via apenas como uma jovem histérica que, como tal, tinha uma relação ambivalente com os próprios desejos: desejo pelo Sr. K., desejo pelo pai, desejo pela Sra. K…

Ela era isso? Sim.

Mas também era uma jovem confusa, que passou anos tendo sua afetividade adolescente sendo explorada por um homem de meia idade, com a conivência do próprio pai.

Freud ajudou Dora a se enxergar melhor? Sim.

Mas não a ajudou a se refazer do trauma de ter sido usada por dois homens.


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