Penso que talvez o recalque seja, antes de mais nada, a forma que o sujeito encontra para manter estável seu ego. Como um conjunto de identificações que é, o ego, como dissera Freud, tem uma tendência forte à síntese, i. é, uma compulsão a fazer parecer que é uno e indivisível. Recalcar uma determinada representação mental, então, seria o mecanismo empregado pelo sujeito para se manter firme diante do perigo que determinado pensamento representaria para sua estabilidade. Essa estabilidade pode ser aqui entendida como a crença na falta de um buraco no ego ou, se me permitem o jogo de palavras, o acreditar na falta da falta.
O neurótico obsessivo é o paradigma do sujeito que não acredita que algo nele falta. Tanto mais que para o obsessivo algo nele sobra. Sobra tanto que ele deve dar aos outros, deve pagar uma dívida eterna. Se ele deve pagar aos outros é porque tem mais e não menos. Os outros precisam do que nele sobra.
A histérica apesar de parecer reconhecer sua falta, na verdade revive as justificativas infantis de que a culpa é do outro. Para a histérica, sua incompletude é uma questão de “distribuição de renda”. Se algo está errado é porque o Outro roubou aquilo que era dela por direito. Entendam bem isso: a histérica reivindica aquilo que para ela é dela mas está nas mãos do outro, ou seja, ela não se reconhece como incompleta, ou se assim o faz, não admite que ela por si só é uma falta-a-ser, mas entende que o Outro deve preencher uma falta que ele próprio causou. Daí que a histérica permaneça sempre em reivindicação. É a forma dela de mostrar que foi roubada, que foi castrada e, portanto, de demonstrar que sua falta não é legítima.
Já o obsessivo, com sua dívida impagável, faz parecer que tem muito. Tanto que sua dívida é eterna, pois se a dívida acaba, há o perigo de se descobrir a falta. O obsessivo posa como o rico que não é. Ele e a histérica se projetam um no outro. O obsessivo fazendo parecer que a falta está na histérica. Essa, por sua vez, acreditando que aquele roubou o que ele diz que nela falta. É uma dinâmica análoga à do mestre e escravo de Hegel. Assim como a histérica só se reconhece como pedinte a partir do momento que reconhece o obsessivo como o que tem de sobra, o que tem lucro (o roubo honesto), o escravo só reconhece como tal no momento em que reconhece o outro como senhor. E assim como o obsessivo, o senhor não reconhece ninguém. É esse o desespero do obsessivo e do senhor: o ter demais, o ter além da conta, de forma que ainda que se pague a todos nunca se conseguirá pagar tudo, pois o objeto roubado da histérica sempre será menor que o buraco deixado por sua falta.

