Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 3)

No último post desta série vimos que, por volta dos anos 1920, Freud se viu diante de um baita problema teórico: de que valia continuar utilizando o termo “inconsciente” para designar uma parte específica de nosso psiquismo se essa parcela da mente se parecia mais com um tremendo balaio de gato onde cabiam coisas tão heterogêneas como os impulsos reprimidos e as partes do ego que impediam que esses impulsos fossem reconhecidos pelo sujeito, ou seja, que provocavam resistência?

Não seria melhor passar a utilizar o termo “inconsciente” num sentido meramente descritivo, ou seja, apenas para fazer referência à forma em que se encontra uma representação mental da qual não estamos conscientes no momento?

“Sim, seria”: essa foi a resposta de Freud. Já que o conceito de inconsciente estava perdendo a especificidade que tinha no início da psicanálise, melhor seria abandoná-lo de vez.

Mas o que colocar em seu lugar? Se o conceito de inconsciente como uma região psíquica já não fazia mais sentido, logo aquela primeira divisão da mente em consciente, pré-consciente e inconsciente também iria para o ralo, certo?

Perfeitamente. O problema agora passava a ser então a elaboração de um novo modelo para representar o psiquismo. Se a mente não poderia mais ser pensada como dividida em consciente, pré-consciente e inconsciente, como uma seria uma nova estruturação, capaz de superar as limitações da primeira?

A aposta freudiana no conceito de Id

Freud foi encontrar o princípio da resposta que daria a essa pergunta num conceito extraído da obra do médico e psicanalista Georg Groddeck, acerca do qual já falei algumas vezes aqui no site e cuja obra, aliás, foi meu objeto de estudo no mestrado em Saúde Coletiva.

Influenciado pela leitura de Nietzsche, Groddeck vinha utilizando naquela época a palavrinha alemã “Es” (cuja tradução para o latim seria “Id”) para fazer referência a uma espécie de força vital que condicionaria toda a nossa existência, desde a formação dos órgãos do corpo até os nossos mais sutis pensamentos. Nesse sentido, nenhuma de nossas escolhas seria autônoma, ou seja, produto de nosso livre-arbítrio. Groddeck costumava dizer que em vez da frase “Eu vivo” deveríamos dizer “Sou vivido por isso”.

O que Groddeck queria, na verdade, era chamar a atenção para o fato de que nenhum de nós se encontra isolado do contexto em que vive e carrega em si as marcas de sua própria história. Em decorrência, todas as nossas escolhas são o produto da nossa relação coma natureza (da qual somos apenas uma modificação) bem como de nossa história. O conceito de “Es” servia para Groddeck justamente para evidenciar o fato de que o que nós chamamos de que nós não somos donos do nosso próprio nariz na medida em que nos encontra na dependência de fatores que estão para além de nós mesmos e acerca dos quais na maioria das vezes não temos consciência.

Ora, esse modo de entender a existência humana proposto por Groddeck era bastante semelhante à conclusão que Freud havia chegado desde que inventara a psicanálise e que sintetizou na famosa frase: “O eu não é senhor na própria casa.”. No momento em que Freud proferiu essa frase, o que ele tinha em mente era a força do inconsciente na determinação da conduta humana. Mas se a ideia de “o inconsciente” já não fazia muito sentido, como continuar sustentando que o “eu não é senhor na própria casa”?

Tomando emprestado de Groddeck o conceito de “Es”, ora! O termo parecia perfeito para designar a região da mente que Freud até então vinha chamando de inconsciente e, de quebra, não tinha os inconvenientes do termo inconsciente!

O vocábulo “Es” na língua alemã é um pronome impessoal. Por isso, as edições mais recentes da obra de Freud preferem traduzir o termo por “Isso” em vez de “Id”, justamente para valorizar esse aspecto semântico referente a algo indeterminado, desconhecido, obscuro. Essa característica, aliás, foi uma das razões que levaram Freud a gostar do conceito. Pareceu-lhe o termo ideal para contrapor ao ego, na medida em que colocaria em primeiro plano a verdadeira oposição que interessa à psicanálise, a saber: a oposição entre o ego e a pulsão, essa fome insaciável de viver que pode, paradoxalmente, colocar a vida em risco. É esse conflito que de fato esteve nas raízes da psicanálise e não o embate entre consciência e inconsciente!

O Id freudiano

Diferentemente de Groddeck, que entendia o Id como a expressão da nossa vinculação indissociável com o mundo, Freud privilegiou o significado do conceito referente a algo exterior ao ego, exemplificado na famosa frase de uma personagem da Escolinha do Professor Raimundo: “Ele só pensa naquilo”. Esse “naquilo” é obviamente a sexualidade, a qual, para Freud, se manifesta no ser humano de modo excessivo, desmedido e que, por conta disso, adquire uma conotação de exterioridade em relação ao ego. É por isso que, do ponto de vista freudiano, haverá sempre um conflito entre o ego e as pulsões no cerne de cada alma humana.

O Id é justamente o conceito que Freud empregará para situar o lugar que essas pulsões ocupam no aparelho psíquico. No Id se encontrariam tanto as pulsões sexuais quanto as pulsões de morte (responsáveis pela agressividade que dirigimos contra nós mesmos e contra os outros). As pulsões seriam os representantes no psiquismo de necessidades provenientes do corpo e buscariam unicamente a satisfação sem levar em conta as possibilidades reais de obtê-la e, muito menos, se essa satisfação faria bem para o sujeito. A norma que regula o funcionamento mental dentro do Id é o princípio do prazer, ou seja, no Id uma representação mental se liga a outra não em função de uma relação lógica ou semântica, mas sim devido ao fato de ambas estarem ligadas mutuamente a uma experiência de satisfação ou de busca dela. Assim, no Id, a fórmula 1 + 1 não é necessariamente igual a 2. Pode ser igual a 3 ou a 20 caso essa estranha equação favoreça a conquista do prazer e da satisfação. Em outras palavras, não há razão no interior do Id. A racionalidade é um modo de funcionamento mental a ser conquistado pelo sujeito.

No próximo post veremos como essa conquista é levada a cabo. Conheceremos de que modo o Id dá origem ao ego, esse filho ingrato que desde o nascimento já entrará em conflito com seu genitor e, se possível, veremos ainda o surgimento do terceiro e último elemento da segunda tópica, o famoso e feroz “superego”.

CONTINUA.

Sugestões de leitura:

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Id, ego, superego: entenda a segunda tópica de Freud (parte 1)

Este texto tem o objetivo de apresentar sinteticamente a dinâmica relacional entre as instâncias psíquicas da chamada segunda tópica de Freud. Espero que, ao final, você consiga compreender como id, ego e superego se constituem e se relacionam e qual a relevância desses conceitos para a clínica psicanalítica.

Nessa primeira parte do texto você verá: (1) quais foram os equívocos teóricos cometidos pela psicologia geral na interpretação da segunda tópica e (2) qual deve ser a melhor estratégia metodológica para o entendimento adequado dos conceitos de id, ego e superego.

Pré-conceitos

Id, ego e superego são sem dúvida alguns dos conceitos psicanalíticos que mais se popularizaram tanto no âmbito da psicologia geral quanto no senso comum, sobretudo nos Estados Unidos. Essa constatação por si só já é suficiente para nos despertar certa curiosidade, afinal a maior parte das descobertas da psicanálise, a exemplo da sexualidade infantil, da etiologia sexual das neuroses e do pensamento inconsciente geralmente foi recebida com um alto grau de resistência, principalmente entre os americanos.

As noções de id, ego e superego, no entanto, tiveram um destino diferente e foram sossegadamente incorporadas ao vocabulário psicológico comum. Minha hipótese para explicar essa peculiaridade é justamente o que me motivou a escrever este texto.

Penso que se essa tríade conceitual foi aceita com tão pouca resistência pela psicologia geral isso se deve a uma má compreensão dos conceitos por parte dos não analistas e até mesmo por certos psicanalistas.

Com efeito, influenciada pelas analogias e metáforas didáticas que Freud elaborou para explicar como as três instâncias psíquicas interagiam, a psicologia geral acabou por considerar tais conceitos como meros nomes psicanalíticos para três dimensões da experiência humana milenarmente conhecidas e que não precisaram da psicanálise para serem trazidas à luz, a saber: as paixões, a razão e a moral. Assim, o id seria o conceito representativo das paixões, o ego o da razão e o superego o da moral. Você mesmo, leitor, provavelmente já deve ter lido tais equivalências em algum livro de psicologia geral ou as ouvido de algum professor que não era psicanalista.

Entretanto, asseguro-lhe que mesmo uma leitura superficial da obra “O Ego e o Id” (texto em que Freud introduz as noções de id e superego e apresenta uma nova visão do ego) já é suficiente para que se perceba que reduzir id, ego e superego a representantes das paixões, da razão e da moral constitui-se em um grave equívoco teórico na medida em que, agindo dessa forma, não se faz referência justamente aos aspectos mais cruciais de cada conceito e que são justamente as novidades trazidas pela experiência da psicanálise.

Portanto, o que você lerá a seguir é uma tentativa de explicar em conjunto a tríade id, ego e superego a partir dos fenômenos e experiências subjetivas que cada conceito pretende descrever. Ao final, você será capaz de perceber que somente se nos detivéssemos aos aspectos mais superficiais dos conceitos seria possível estabelecer uma analogia entre id e paixões, ego e razão e superego e moral. Uma análise aprofundada nos leva inevitavelmente a considerar tais noções como instrumentos teóricos para a compreensão de realidades subjetivas singulares, que não necessariamente têm a ver diretamente com paixões, razão e moral.

Fazendo a pergunta correta

Toda vez em que queremos entender com certo rigor algum conceito teórico, o procedimento metodológico mais correto não é se perguntar pelo significado do conceito, mas antes pelas razões que levaram o autor em questão a introduzi-lo. Em outras palavras, a pergunta correta a ser feita perante um conceito é: “Por quê?” e não “O que é?”. Frequentemente, ao adotarmos essa estratégia, deparamo-nos com os problemas e impasses empíricos e/ou teóricos enfrentados pelo autor, os quais são justamente o que motivou a produção de um novo conceito ou a reformulação de ideias anteriores.

Os conceitos de id, ego e superego não fogem a essa regra. Freud os elaborou para resolver problemas. No caso dele, para dar conta de achados clínicos inusitados e limitações verificadas nas noções teóricas que até então vinha utilizando. Nesse sentido, para compreender de fato o essencial dessa tríade conceitual freudiana, é preciso que nos façamos o seguinte questionamento: “Por que, afinal de contas, Freud precisou criar os conceitos de id e superego e reformular a noção já existente de ego?”.

Sugestões de leitura:

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Por que Winnicott não aderiu ao conceito de pulsão de morte? (final)

No post anterior abordamos as razões pelas quais Freud se sentiu forçado a admitir a existência de uma pulsão de morte, as condições culturais que permitiram a elaboração do conceito bem como suas contradições internas. Aquilo fora apenas um preâmbulo para o que hoje pretendo expor com a intenção de responder à pergunta que efetivamente motivou este texto.

O que Winnicott trouxe de novo para a psicanálise?

Inicialmente, é preciso que o leitor ainda não versado no pensamento de D. W. Winnicott possa ter acesso aos pressupostos a partir dos quais o autor enuncia seu discurso psicanalítico. Tais pressupostos estão diretamente relacionados ao campo de atuação clínica ao qual Winnicott se dedicou durante toda a vida, a saber: a pediatria.

Ainda antes de empreender uma formação psicanalítica, Winnicott já atuava como pediatra, o que lhe permitiu ter acesso a um grande aprendizado acerca das relações entre os bebês e suas mães, saber que faltou a Freud. Winnicott precocemente notou que a mãe (ou outro responsável por cuidar do bebê) exercia um papel fundamental no desenvolvimento da criança, de sorte que se tal função não fosse exercida de maneira boa o suficiente a criança inevitavelmente não se desenvolveria a contento e teria no futuro patologias emocionais específicas.

Esse discernimento por parte de Winnicott acerca da importância da presença ativa da mãe no desenvolvimento do sujeito se colocava na via oposta à da tradição psicanalítica, a começar por Freud. Afinal, o pai da psicanálise elaborou a função da mãe não como ambiente, mas como o objeto libidinal primordial, objeto traumático, diga-se de passagem, pois deixaria como marca para o sujeito o desejo de retorno a um estado inicial de gozo excessivo.

Além disso, o entendimento de que o sujeito só pode se constituir a partir da presença suficientemente boa de um ambiente fez com que Winnicott se apercebesse de que o “eu” é uma função a ser desenvolvida, diferentemente de Freud que trabalhava já com a suposição de um sujeito na criança. Essas diferenças levaram Winnicott a encarar seu trabalho como uma espécie de complemento à teoria psicanalítica tradicional. Com efeito, considerava que o que descobrira no trabalho com bebês deveria ser visto no âmbito teórico como um estágio anterior ao da relação com objetos, fase que fora a principal fonte de investigação para Freud e seus discípulos.

No entanto, o que Winnicott fez de fato foi fundar um novo paradigma no interior da doutrina psicanalítica, com conseqüências teóricas e práticas muito específicas. Uma delas é a recusa do conceito de pulsão de morte.

Pulsão de paz

Ora, o cerne da noção de pulsão de morte, como vimos, está na idéia de que no indivíduo age uma força que o impele a um retorno ao estado inorgânico (morte) do qual ele seria proveniente. Winnicott contrapõe a essa tese dois fatos óbvios: o primeiro é o de que nenhum indivíduo orgânico surge a partir do estado inorgânico. Em outras palavras, só a vida é capaz de gerar outra vida. A título de adendo ao comentário de Winnicott, posso dizer que até mesmo as especulações freudianas que não fazem referência ao indivíduo humano, mas a organismos unicelulares não estão de acordo com muitos dos achados da física moderna que têm borrado cada vez mais as fronteiras do orgânico e do inorgânico a partir do estudo dos fenômenos quânticos.

Para Winnicott, a tendência de descarga total de tensões, que de fato pode ser verificada em nosso aparelho psíquico, não deve ser vista tal como Freud supôs como uma tendência para a morte, mas sim para um estado de coisas que mais se assemelharia à condição inicial do bebê no útero materno, isto é, um estado de total pacificação que não implica na ausência de vida. Aliás, as meditações e diversas técnicas orientais de concentração estão aí para mostrar que um sentimento de ausência de tensões é possível de ser alcançado sem que, para isso, não haja vida.

Desamparo e cuidado

O que levou Freud a incorrer no erro de supor que o que se visa nessa tendência geral de nosso psiquismo é a morte em si mesma e não simplesmente a paz foi, em primeiro lugar, sua concepção concernente às origens do sujeito humano. Para Freud, no princípio era a falta e o excesso. O bebê paradigmático do discurso freudiano é a criança que chora com fome, se lembra do trauma que foi ter nascido e por isso já sabe o que significa o desamparo; é amamentado pela mãe; junto com a satisfação de ter sido alimentado, sente um prazer erótico na mucosa da boca, ou seja, algo que se acrescenta à nutrição como um excesso; e vai passar a vida inteira buscando uma satisfação para esse excesso que nunca poderá ser levada a cabo. Em outros termos, para Freud o sujeito humano é, desde o início, um sofredor, seja pelo desamparo, seja pelo excesso.

Winnicott demonstrará ao longo de todo o seu percurso teórico que esse sofrimento só será fato para aquele indivíduo que em momentos anteriores ao bebê paradigmático de Freud não experimentou um ambiente suficientemente bom. Logo, para Winnicott, no princípio não era nem a falta nem o excesso, mas sim a harmonia existente entre o bebê e a mãe, advinda do estágio de dependência absoluta do cuidado materno que o bebê experimenta após o nascimento. Harmonia necessária para que o bebê possa constituir-se como um sujeito existente. É essa harmonia total, plena, que o vivente busca reproduzir e que Freud pensou tratar-se de uma procura da morte, justamente porque em seu esquema teórico tal harmonia não cabia no curso da vida, ou seja, só poderia ser equivalente à morte.

Desculpa para repensar o mal

A outra razão pela qual Freud caiu no engodo de confundir paz com morte foi o fato de que toda essa elucubração em torno do orgânico e do inorgânico era apenas um modo de Freud introduzir com uma retórica científica suas novas opiniões a respeito do problema da agressividade. Freud era um iluminista e, como tal, confiava nas luzes da Razão para dar jeito no mundo. Quando veio a guerra, a perseguição nazista e uma série de outras barbáries, só restaram a Freud duas alternativas: ou ele reconhecia que a Razão tal como havia sido formulada desde o Iluminismo estava equivocada ou mantinha-se firme em seu discurso racionalista e tentava explicar – pela via da própria Razão – o que havia acontecido. E foi essa a opção adotada pelo médico vienense.

Assim, para Freud, não seria a Razão que estava errada, mas sim os próprios homens e esses errariam porque dentro deles habitava uma pulsão de destruição que, em não matando eles próprios (masoquismo primário), mataria seus semelhantes ao ser deslocada para o mundo externo. Ou seja, Freud explicou a causa pelo efeito, como se dissesse: “por que os homens matam? Porque existe neles um impulso de matar.”. É, portanto, uma explicação que não explica, só adia o problema. E Freud de fato queria adiá-lo, pois para respondê-lo ele teria que colocar em questão a própria racionalidade moderna. O pai da psicanálise preferiu resignar-se e dizer em 1930 que o homem sofre um mal-estar crônico, irremediável, ocasionado justamente pela presença silenciosa da pulsão de morte em cada organismo.

A agressividade como defesa

Winnicott, ainda que não o soubesse, não tinha compromissos com a Razão iluminista. E é por isso que ele enxerga a insuficiência da explicação freudiana da agressividade pela da pulsão de morte. Para o pediatra inglês, em primeiro lugar não se pode dizer que exista no indivíduo uma pulsão de destruição autônoma ao lado de uma pulsão de vida. Seu argumento, embora não faça menção a nenhuma filosofia, é o mesmo que Sócrates utiliza na conversa com Mênon e que C. S. Lewis expressa em “Cristianismo puro e simples”: ora, ninguém busca o mal pelo mal, ou seja, é ilógica a existência de uma pulsão de destruição agindo no organismo de maneira independente da pulsão sexual, pela simples razão de que aquele que faz o mal, o faz porque o considera um bem, ou seja, a destruição constitui-se apenas como um meio para a realização de um fim que, do ponto de vista daquele que age, é um bem.

Winnicott indica isso demonstrando dois fatos: em primeiro lugar, o de que o que nós chamamos de agressividade ou destruição, no início da vida não é exercido com o objetivo de efetivamente destruir. Winnicott afirma que no início da vida o amor é marcado por uma voracidade tamanha que pode fantasisticamente ocasionar a destruição do objeto amado. No entanto, o que o bebê pretende é a incorporação plena do objeto, sendo a destruição apenas um efeito colateral do processo e não o que é originalmente visado. Aliás, assim que bebê se dá conta de que seu amor acabou por destruir o objeto na fantasia, ele experimenta pela primeira vez a sensação de culpa – é o que Winnicott, na esteira de Melanie Klein, chamou de posição depressiva.

Por mascarar essa dinâmica afetiva, o conceito de pulsão de morte pode ser visto como uma reificação da agressividade e, como tal, sem utilidade alguma. Ele impede que se veja as reais fontes históricas do comportamento agressivo como, por exemplo, a reação por parte do indivíduo a acontecimentos que quebram seu sentimento de continuidade do ser. Não há nenhum mistério nisso: Winnicott só constatou o fato óbvio – que Freud não quis ver pelas razões já expostas acima – de que nós nos tornamos agressivos por motivos específicos, pelas experiências de vida que nos forçam a adotar o comportamento agressivo como única forma de nos defendermos. E isso vale não apenas para o relacionamento entre indivíduos, mas também entre nações. Nesse sentido, o conceito de pulsão de morte se torna irrelevante, não é uma hipótese heurística, pois a explicação da agressividade está na história do sujeito. Uma suposta tendência inata para a violência é pura tautologia.

O que muda na prática

A guisa de conclusão, quero dizer que as diferenças entre uma concepção que postula a idéia de uma pulsão de morte e outra que não o faz não se dão apenas no nível abstrato da teoria, mas ensejam distinções importantíssimas na prática. Por exemplo, na análise do problema da crescente violência em nosso país, a aplicação da noção de pulsão de morte como hipótese explicativa pode acabar justificando condutas eminentemente repressivas por parte da polícia e da justiça: afinal, se o homem possui em si uma tendência natural para a violência, não há possibilidade de recuperá-lo, restando apenas o emprego de penalidades cada vez mais severas como forma de brecar o advento externo da pulsão de destruição. Por outro lado, se a agressividade é vista como um comportamento advindo de uma história singular, como uma defesa empregada pelo sujeito na condição de último recurso de enfrentamento de condições que se lhe tornaram adversas, a visão acerca da criminalidade é totalmente distinta da primeira: buscar-se-á em primeiro lugar compreender as origens da violência e, em compreendendo-as, buscar solucionar o problema (que, por ser histórico e não pulsional, pode ser solucionado) pela organização de uma ambiente suficientemente bom que possa fazer com que o sujeito não precise recorrer ao comportamento agressivo como defesa.

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Não pretendi aqui realizar uma análise completa das razões que levaram Winnicott a não considerar o conceito de pulsão de morte como útil. Ainda restam alguns aspectos a serem explorados, o que posso fazer na discussão com os leitores nos comentários ou em outra ocasião aqui mesmo no blog.