O mito do brasileiro apolítico (parte 1)

Meu objetivo ao escrever este texto é bastante preciso. Tenciono demonstrar (no sentido filosófico do termo) que é falsa a afirmação facilmente encontrada no senso comum de que o brasileiro não se interessa por política. Defenderei – e mostrarei porque o faço – a tese de que o brasileiro, como qualquer outro homo sapiens, em qualquer lugar do mundo e em qualquer época, se interessa muito por política, por mais escandaloso que isso possa soar a ouvidos incautos. Minha caixa de ferramentas conceitual, como não poderia deixar de ser, será a teoria psicanalítica. Antes, porém, de indicar e explicar a falácia do mito do brasileiro apolítico é conveniente apresentá-lo.

O mito

O que eu estou chamando aqui de “mito do brasileiro apolítico” se fundamenta na idéia compartilhada pela maior parte das pessoas que ocupam o território designado pelo nome de Brasil e principalmente por aqueles dentre essa massa de pessoas que atuam em veículos midiáticos, de que o brasileiro via de regra não quer saber de política, que não busca se informar sobre o assunto e tampouco se engaja em atividades de cunho político.

Pois bem, a não-correspondência dessa idéia à realidade dos fatos se justifica precisamente pelo uso reducionista que aqueles que a enunciam fazem do termo “política”. Para esses, política significa apenas os acontecimentos que estão relacionados direta ou indiretamente às três esferas de poder constituídas em nossa república, a saber: os poderes executivo, legislativo e judiciário. Logo, quando se diz que o brasileiro não se interessa por política, o que se tem em mente é a cena clássica de um cidadão que abre um jornal qualquer nos cadernos “Brasil” ou “Política”, sente um assombroso tédio e rapidamente folheia o periódico em busca dos cadernos de “Cultura” ou “Esportes”, os quais, diferentemente dos primeiros, despertam-lhe um vivo interesse. À pergunta: “Nessa cena, qual é o problema? O caderno de política que não consegue fomentar no leitor interesse algum ou o próprio leitor que, por ser brasileiro, não se interessa pelo primeiro?” o senso comum não titubeia em responder com um irrefletido: “É óbvio que é o leitor”. Meu posicionamento é outro e o justifico exatamente por meio de uma crítica a esse uso padrão que fazemos da palavra política.

Não pedirei ajuda a nenhum filósofo para fazer essa crítica. Exporei aqui o que penso ser o significado do termo política não a partir de pré-concepções, mas com base na experiência. Certamente ninguém questionaria o fato de que a Revolução Francesa foi um acontecimento político nem tampouco o movimento mais recente que poderíamos chamar toscamente de “Revolução Egípcia”. Como também ninguém se negaria a admitir que o movimento negro nos EUA ou as marchas pela legalização da maconha no Brasil também constituem ações políticas. O que todos esses eventos têm em comum? É justamente a resposta a essa pergunta que, a meu ver, caracteriza a política. E ela tem a ver com a origem etimológica do termo.

Polis, território, Brasil

Eu sei, isso já está mais do que batido, mas nem por isso devemos nos esquecer de que a noção de política em seu sentido mais radical compreende um discurso acerca daquilo que acontece na polis. O grande erro do senso comum é acreditar que todos os brasileiros compartilham de uma mesma polis! Esse erro se baseia numa equivalência injustificada entre polis e nação, polis e estado e polis e município. Não é porque eu habito um país que ele funciona para mim como polis. Polis não é o mesmo que território. Há pré-condições para que possamos reconhecer um território como nossa polis e as duas principais são: (1) que possamos nos reconhecer nesse território e (2) que possamos sentir que nossa ação de fato interfere na dinâmica do território, ou seja, que temos a capacidade de transformá-lo. Caso tais condições não sejam preenchidas, o território acaba sendo apenas o local em que vivemos, sem nenhuma significação política.

Penso que para a grande maioria dos brasileiros é justamente isso o que acontece: não nos reconhecemos como membros de uma nação que se constitui efetivamente a partir de nós próprios. Provavelmente por razões históricas – as quais não tenho competência para delinear aqui – nos acostumamos a pensar que o Brasil tem um dono: o Estado. Daí a conotação de “realeza” com a qual muitas vezes investimos nossos presidentes. Subjaz em nossa percepção do país a idéia de que esse funciona de acordo com os caprichos de alguns seres misteriosos chamados “políticos” que de 4 em 4 anos se revezam no comando de acordo com mecanismos que desconhecemos, mas que, segundo a mídia, têm a ver com o voto. Ora, é uma grande falácia pensar que o voto, para a grande maioria do nosso povo, significa um “exercício de cidadania”, a “manifestação do que queremos para nosso país”. Não. O voto, para a maior parte de nós, constitui-se apenas como a obrigação de escolher a cada 4 anos os novos ladrões que vão mandar no país. Sei que muitos idealistas irão contestar veementemente tal assertiva, mas não me importo. Perceber as coisas não como elas são, mas como nós gostaríamos que elas fossem é a tendência natural do humano.

Concluindo

Creio, assim, ter demonstrado que se a tese de que o brasileiro não se interessa por política deve ser considerada como verdadeira, isso só é possível mediante o uso equivocado do termo política fundamentado na idéia de que o território que habitamos deve naturalmente ser visto como polis independentemente de qual seja nossa experiência para com ele. A partir desse ponto de vista, sim, é possível dizer que o brasileiro não se interessa por política. Mas se atentarmos para o fato de que nem o Brasil enquanto nação, nem os estados e municípios se constituem como polis para a maior parte dos brasileiros na medida em que eles não se reconhecem nesses territórios e não reconhecem o potencial transformador de sua ação nos mesmos, é absolutamente plausível dizer que o brasileiro não se interessa por essa política cujas notícias proliferam nos cadernos “Brasil” dos jornais e da qual ele não sente fazendo parte. Enfim, o brasileiro não se interessa por essa política, porque ela não lhe concerne, não o preocupa, no sentido winnicottiano do termo.

Mas há outras políticas nas quais ele se sente engajado, concernido e que atua com o mesmo espírito dos franceses em 1789. É preciso ter olhos para ver.

Que políticas são essas e como explicar esse descompasso entre o interesse por elas e o desinteresse pela política “standard” é o que veremos no próximo post.

CONTINUA…

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10 comentários sobre “O mito do brasileiro apolítico (parte 1)

  1. Lucas,

    você certamente faz parte de um grupo de pessoas que merece ser lido pois instiga o pensamento!!!

    Tenho observações sobre o teu texto mas acho que vou precisar colocar no meu blog, daí trocaremos idéias e poderemos fazer com que outras pessoas questionem tudo que está aí.

    Parabéns pelo blog e pelo seu trabalho!!!
    Cris

  2. Olá Cris!
    É exatamente essa a idéia. Do mesmo modo que na clínica o analista busca levar o paciente a colocar em questão o que até então se constituia como aixoma para ele, assim também meus exercícios de reflexão neste blog pretendem justamente fazer o leitor pensar sobre coisas acerca das quais até então não o fizera.

    Vou ficar no aguardo das suas obervações. Tenho certeza que enriquecerá bastante a discussão!

    Acredito firmemente na fecundidade dos blogs como fomentadores de novas idéias face à esterilidade das publicações científicas.

    Grande abraço, amigo! E obrigado pela visita! Apareça sempre!

  3. Lucas,

    Mais um post interessante abordado da maneira que só você sabe fazer.
    Aqui em Portugal o cenário político não é muito diferente do do Brasil.

    Aliás, nas últimas presidenciais, ouvi a seguinte conversa:
    – Em quem é que vais votar?
    – Não sei ainda, não conheço muito bem os candidatos
    – Eu vou votar no X, parece bom
    – Ah, então eu também vou.

    É esse desligamento que se verifica cá em Portugal, um desinvestimento pelo cenário político onde até a obrigação de votar já começa a ser posta em causa… nas últimas eleições a percentagem de abstenção foi de 54% , o que revela que o Parlamento não é “suficientemente bom”, no sentido winnicottiano 😉

    Abraço e continue com o bom trabalho

  4. Concordo. Gostaria de adicionar que, p/ Reeve (2006), o interesse é um estado emocional surgido no indivíduo a partir de um evento importante ressonante com suas necessidades fisiológicas, psicológicas e sociais. Levando em conta as necessidades sociais, me parece pouco provável que a maioria dos brasileiros prefira debater política ao invés de, por exemplo, o resultado do campeonato brasileiro. É algo contruído socialmente.
    Acredito que o interesse por colunas de cultura e esporte em detrimento das colunas de política parlamentar tenha a ver com a estética que embala o conteúdo discutido: vide CQC. Este explora os acontecimentos políticos com habilidade, desperta interesse e até vira assunto de bar.

  5. Olá Cláudio! É um prazer tê-lo aqui novamente!
    Bem, pelo visto a situação política em Portugal é semelhante à do Brasil. Aliás, desconfio que seja assim em quase todos os países.
    No próximo post, minha demonstração girará em torno, justamente, de mostrar que pelo fato de o ambiente político padrão não se constituir como “suficientemente bom” isso acaba forçando o exercício da atuação política em outros campos.
    Muito obrigado pela contribuição, mostrando como são as coisas aí em Portugal!
    Grande abraço!

  6. Olá Rafael!
    Sinto-me muito satisfeito quando encontro leitores como você que conseguem apreender o espírito das coisas.
    Seu comentário corrobora de maneira brilhante o que eu disse neste post e visulmbra o que eu vou abordar no próximo.
    Como o do Cláudio, seu comentário contribui para o enriquecimento do texto.
    Um grande abraço!

  7. Bem colocado. Mas o brasileiro não tem sequer noção do que seja política, presumindo apenas que seja uma reunião ou confronto de forças, portanto uma aritmética mais primária, para fazer valer sua preferencia. Esta é a razão dos políticos deitarem e rolarem como vigaristas, em cima de um povo de boa-fé.

  8. Olá CR! Primeiramente, agradeço pela visita!
    Eu não sei se concordo muito com você quando diz que o fato de o brasileiro possuir uma visão equivocada da política é a razão pela qual os políticos deitam e rolam como vigaristas.
    A meu ver, acho que é o contrário: é justamente uma história política marcada por inúmeros casos de corrupção, mandatos dedicados ao enriquecimento próprio do político, etc. que faz com que o potencial inato para a atuação política seja desenvolvido de maneira errada e o brasileiro conceba a política num sentido muito limitado.
    Falarei mais sobre isso na segunda parte do post.

    Um grande abraço e apareça sempre!

  9. Não sei se já está pronto seu próximo post, mas gostaria de lhe sugerir a articulação com éthos e êthos, p/ continuar o jogo de palavras que se articula perfeitamente com polis.
    Gostei do texto.
    Abraços

  10. Olá Alexandre!
    Excelente sugestão! De fato, o sentido original de “ethos”, qual seja, a idéia de “morada”, de “casa” casa perfeitamente com o modo como eu entendo a noção de polis, perfeitamente.
    O post ainda não está pronto, de modo que é provável que sua contribuição apareça.
    Muito obrigado e um grande abraço!

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