O mito do brasileiro apolítico (final)

No post anterior me dediquei a descrever em que consiste o que aqui denomino de “mito do brasileiro apolítico” e a demonstrar porque ele constitui uma falácia. Só relembrando: o mito se refere à idéia enraizada no senso comum de nosso país que afirma que os brasileiros não se interessam por política. Fiz ver que essa idéia é falsa na medida em que ela se sustenta num uso equivocado da noção de política.

Hoje pretendo dar prosseguimento à minha demonstração respondendo a duas perguntas que certamente habitam o espírito do leitor mais atento: (1) Se eu afirmo que o brasileiro se interessa – e muito – por política, onde se manifesta esse interesse? Onde ele se transforma em ação já que não o é no terreno da política “standard”, isto é, no âmbito dos três poderes? e (2) Por que o exercício da política se dá nesses outros espaços e não no domínio tradicional?

Onde o brasileiro mostra que se interessa por política

Certamente o leitor já deve ter visto pela televisão ou quem sabe até tenha comparecido pessoalmente a um evento bastante peculiar ao nosso país e que recebe geralmente o nome de “manifestação de torcedores de times de futebol”. Um acontecimento desse tipo ocorreu recentemente após a eliminação do Corinthians da Taça Libertadores da América. Na ocasião, torcedores demandaram a saída de grandes nomes do time como o atualmente aposentado Ronaldo. Pois bem, a pergunta que eu lhes faço é: “Em que um evento como esse difere em seus elementos constituintes, em sua estrutura, de uma revolta popular com a que houve recentemente no Egito?”. Sem dúvida, a massa dirá: “Existe uma distância óbvia entre um acontecimento e outro: o primeiro não era importante, pois o que estava em jogo era apenas o desempenho de um time de futebol; já no segundo estava em questão o destino de um país.”

Eu concordo com a maior parte desse argumento. De fato, a diferença mais evidente e visível é que num caso se trata de uma agremiação esportiva e em outro de um país. Não obstante, discordo radicalmente da idéia de que um acontecimento é mais importante que outro. Do ponto de vista do observador externo, é óbvio que se fossem escalonados numa hierarquia de importâncias o desempenho de um time de futebol e o destino de uma nação, o último estaria acima do primeiro. No entanto, do ponto de vista de quem está inserido em ambas as manifestações o grau de importância dos motivos das revoltas se equivalem. Não é preciso uma pesquisa neurocientífica para verificar isso. Bastaria perguntar a qualquer torcedor do Corinthians que estivesse envolvido na manifestação se o que ele estava fazendo tinha tanto valor quanto o que os egípcios faziam do outro lado do mundo. É claro que ele diria que sim e ainda acrescentaria que o Corinthians, assim como o Egito, também é uma “nação”.

A nossa tendência ao observar esse tipo de manifestação – digo “nossa” porque me incluo de fato entre os que estão subordinados a essa tendência – é criticá-la e dizer que tais torcedores deveriam organizar uma revolta desse tipo não contra um time de futebol cuja performance não interfere demasiado em suas vidas mas sim contra os parlamentares que aumentaram em 60% seus vencimentos. Efetivamente, é impossível negar que um observador externo consideraria o Brasil uma nação esquizofrênica posto que enquanto os supostos representantes do povo aumentam o próprio salário criminosamente, esse mesmo povo, em vez de se insurgir contra tal situação, se revolta contra o baixo desempenho dos clubes de futebol pelos quais torcem! É ou não é incompreensível à primeira vista?

Sim, à primeira vista é mesmo impossível entender. Mas se colocarmos o povo no divã e analisarmos isso como um sintoma, rapidamente aquilo que era estranho e enigmático passa a ser visto como perfeitamente razoável. Façamos esse exercício.

Deslocamento psíquico e nomadismo político

Freud, desde o início de sua atuação clínica tratando de histéricas e neuróticos obsessivos, pôde verificar uma tendência bastante curiosa do nosso aparelho psíquico. È o seguinte: sempre que algum conteúdo psíquico (lembranças, fantasias, pensamentos etc.) se torna difícil de ser suportado, causando-nos desprazer, angústia, aflição, o nosso psiquismo emprega uma estratégia para que nós não permaneçamos sofrendo angustiados: ele desloca a carga de energia que a gente investia naquele conteúdo que nos causava sofrimento para outro conteúdo mais ameno, que pode até nos fazer sofrer também, mas será um sofrimento suportável, menor que o anterior. Assim acontece, por exemplo, com um obsessivo que não podendo lidar com a culpa que sente perante a idéia de um desejo de matar o pai desloca a energia vinculada a essa idéia para a idéia de que tem lavar as mãos de meia em meia hora. Essa última idéia, que agora aparece investida de energia, certamente o levará a ter grandes incômodos e desprazer; no entanto, nada que se compare à culpa por sentir desejo de matar o próprio pai.

Para quê toda essa digressão sobre o conceito de deslocamento em Freud? Abordei essa idéia porque ela me parece interessante para entendermos esse descompasso entre uma atuação incisiva (e política) de torcedores junto a seus clubes do coração e um parco envolvimento das pessoas com os temas da política standard como a questão dos salários dos parlamentares. Ora, do mesmo modo que a energia ligada a um conteúdo psíquico aflitivo pode ser deslocada para outro conteúdo com o objetivo de diminuir o sofrimento ligado ao primeiro, penso que o interesse e o engajamento políticos podem igualmente ser deslocados de um espaço para outro com vistas a certa finalidade que, nesse caso, não seria a diminuição do desprazer, mas sim a busca de uma polis, como mencionei no post anterior.

Essa analogia fica mais clara se ligarmos a noção de polis à de ethos (como sugeriu o colega Alexandre Brito). Com efeito, o termo ethos (que deu origem ao conceito de ética) denota, em grego, a idéia de “morada”, de “casa”, de “habitat”. Logo, quando dizemos que a atuação política se desloca de um espaço a outro em busca de uma polis, a idéia é de que o deslocamento se dá como estratégia para que o potencial político inerente à condição humana encontre uma morada, uma casa, onde seja possível um exercício efetivo da ação política. Aliás, o termo “casa” é bastante utilizado pelos parlamentares para se referirem à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. É bastante provável que, com exceção deles mesmos, nenhum de nós se sinta “em casa” nessas casas. E é precisamente por não nos sentirmos em casa em relação a tudo o que está relacionado a tais casas que nós saímos, como nômades políticos, em busca de outras moradas…

É melhor ser torcedor do que ser eleitor

Nesse sentido, assim como a culpa do neurótico obsessivo em relação a seus desejos o força a deslocar a energia que neles investe para idéias obsessivas e atos compulsivos, nosso sentimento de impotência da nossa atuação política junto aos três poderes nos faz sair à procura de novos espaços para exercer a nossa potência política. E nós os encontramos: os nossos times de futebol são um exemplo desses espaços favoráveis. Nesse âmbito nossa atuação é reconhecida (Quem nunca ouviu dirigentes de futebol dizerem que o torcedor tem o direito de protestar, xingar e dizer o que pensa?) e, mais do que isso, ela gera efeitos, tem força: ficou nítido que a aposentadoria de Ronaldo foi precipitada em função da insatisfação dos torcedores em relação a sua atuação e, principalmente, em relação a seu peso.

Em outras palavras, é em espaços como a manifestação de torcedores que nossa potência política pode ser efetivada porque são nesses espaços que o brasileiro se sente “em casa”. O clube de futebol é seu ethos, sua polis, pois ali, como na ágora grega, o seu discurso tem valor, tem reconhecimento e, não raro, decide rumos. É justamente isso o que não ocorre no espaço da política tradicional. O sujeito observa a discussão sobre o aumento de salários dos deputados e pensa: “Pra quê eu vou me manifestar se a decisão ocorrerá independente da minha vontade? É melhor eu usar melhor meu tempo indo lá na sede do Corinthians, porque se a nação não quiser o Ronaldo não fica!”

 

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7 comentários sobre “O mito do brasileiro apolítico (final)

  1. Lucas,

    Não sou fã de futebol mas continuo fã dos seus artigos. E não pude deixar de sorrir ao ler este porque, pelo que me parece, a realidade do Brasil não é assim tão diferente da de Portugal como já tivemos oportunidade de discutir.

    Há uns dias tive um pensamento um pouco idiota, mas talvez tenha um fundo de verdade. Que é as pessoas colocarem o governo político no mesmo patamar que a religião…. Não acreditam, não se interessam… Mas quando há algo a culpar, seja por que motivo for, essa culpa é logo deslocada para o governo. As pessoas não têm trabalho, mas a culpa não é não quererem trabalhar, é de Deus que não lhe dá sorte, ou de um governo que não lhe dá um trabalho à porta de casa 🙂

    Um abraço Lucas

  2. Olá Cláudio!
    Concordo com sua comparação entre o modo como nos relacionamos com o governo e com a religião. De fato, Deus e o governo se tornam depositários de nossa culpa. E talvez a fala muito comum que encontramos que afirma que “todo político é corrupto” sirva exatamente como uma estratégia para não nos responsabilizarmos. É mais ou menos assim: dizendo que o governo é sempre corrputo, eu sempre terei alguém a quem atribuir as razões de meu fracasso… Essa idéia me foi sugerida por um ex-professor.

    Um grande abraço, amigo!

  3. Interessantíssima sua articulação com o deslocamento, este efeito de linguagem que subtrai, assim como a matonimia proposta por Lacan ao pensar nestes termos. A política é um processo (e ñ a politica caricata de um ministro e cia) que os brasileiros jamais estão ilesos. E por estratégias do poder, quanto menos o brasileiro souber dos cargos políticos, melhor para ambos, por mais ambiguo e contraditorio que seja. Agora é esperar o Tiririca explicar…hehehe

  4. Olá Alexandre!
    Acho que teremos que aguardar sentados uma explicação do nobre deputado! rsrsrsrs

    Grande abraço e muito obrigado pelo comentário, sempre oportuno!

  5. não conhecia este teu lado,acreditava que vc ficava alheio,amei a matéria,uma grande maioria de cidadãos dizem não gostar de política,por desconhecerem que a atitude de torceR,votar,e até mesmo exigir que Ronaldo(FENOMENO)fique no corinthias também é fazer política,tem um cliche,que diz ,politica,futebol,e religião não se discute,e na verdade estes são os assuntos mais discutivéis(ministro magri)considerando é claro,que na casa de DEUS (IGREJA) e na casa dos 3 poderes não temos voz , na casa de futebol sim,por isso deixamos passar desapercebido mensalões e mensaleiros,e nos concentramos no proximo jogo do cruzeiro, nós temos necessidade de reconhecimento então canalizamos toda nossa energia onde para nós teremos honra,mesmo que seja surreal….. as estrelinhas do futebol desconhecem nossa existencia e os deputados também ops…e os pastores?

  6. Olá Tania! Que bom ter você por aqui! Acredito que você tenha entendido perfeitamente a minha tese. O brasileiro não é apolítico. Apenas exerce sua potencialidade política nos ambientes em que ela é acolhida.

    Um forte abraço!

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