Travessia da fantasia: tornar-se o que se era

A experiência psicanalítica evidencia que nós não vivemos na realidade objetiva, ou seja, aquela que independe do que pensamos, desejamos e imaginamos. Somos capazes de supor a existência de uma realidade objetiva (pois não sabemos se de fato ela existe) porque percebemos a insuficiência da realidade em que vivemos. Algo nela sempre falta ou sobra. Há sempre alguma coisa que não fecha, uma inconsistência, um defeito, que nos faz suspeitar de sua fidedignidade: “Será que posso mesmo confiar que a realidade seja assim como eu acho que é?”.

Quando essa pergunta começa a se tornar mais frequente e a gerar angústia, as pessoas costumam procurar terapia. Alguns métodos de tratamento ajudam o paciente a “remendar” o tecido de sua realidade que começou a se romper e a revelar os buracos que o constituem. São métodos que trabalham com exercícios, reorganização do pensamento, autocontrole etc. e que têm um valor inegável, embora se baseiem numa concepção um tanto ingênua da realidade.

Por saber que nós não vivemos na realidade objetiva, mas numa realidade que Freud chamou de “psíquica”, a Psicanálise trabalha de outra forma. O fato de nossa realidade ser fundamentalmente psíquica significa que ela é estruturada por fantasias e, mais especificamente, por uma “fantasia fundamental” (conceito inventado pelo psicanalista francês Jacques Lacan). O objetivo da Psicanálise não é o de eliminar essa fantasia com a suposta justificativa de fazer o sujeito “encarar a realidade”. Não! Se a fantasia fosse destruída, o paciente cairia justamente naquilo que está para-além da nossa realidade, o Real, dimensão com a qual não podemos lidar diretamente.

Aliás, a fantasia fundamental é justamente a tela que nós construímos para nos protegermos do Real. O problema é que, enquanto não tomamos consciência da fantasia, enquanto fingimos que ela não existe, somos dominados por ela, tal como uma marionete nas mãos do titereiro. Em outras palavras, sofremos, não conseguimos sair do lugar, mas não sabemos o motivo. Por isso, a Psicanálise não busca fazer remendos na realidade psíquica do paciente, pois isso implicaria em mantê-lo assujeitado à fantasia. Entendemos que todas as fantasias são furadas mesmo — e é bom que seja assim… 😉

A proposta da Psicanálise é a de ajudar o paciente a “atravessar” sua fantasia. O que significa isso? Significa ajudá-lo a responsabilizar-se pelo próprio desejo, ou seja, sair do lugar de objeto e tornar-se sujeito de sua realidade, o que implica em conseguir lidar criativamente com sua fantasia e não submeter-se passivamente a ela . Como disse Freud em sua célebre máxima no final da conferência “A Dissecção da Personalidade Psíquica”, o objetivo da Psicanálise é que “Wo Es war, soll Ich werden”, ou seja, que nos tornemos o que já éramos.

Autor: Lucas Nápoli

Lucas Nápoli é psicólogo, psicanalista e professor. Possui os títulos de Doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor do livro "A Doença como Manifestação da Vida".

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