Por que muitos adolescentes atravessam uma fase de excessiva timidez em relação ao sexo oposto?

Diferentemente do que insistem em dizer os médicos e psicólogos, de acordo com o saber psicanalítico (que, a propósito, é derivado da clínica), a adolescência não é o primeiro momento de manifestação da sexualidade.

Guerra e paz
Freud demonstrou que a sexualidade já se faz presente desde o nascimento e, sobretudo, nos primeiros cinco anos de vida se apresenta de modo bastante intenso. Nesse primeiro momento de irrupção da pulsão sexual, a libido circula predominantemente por zonas do corpo que estão mais diretamente ligadas às necessidades básicas do indivíduo, a saber: a boca e o ânus. É só na puberdade que os órgãos genitais irão adquirir proeminência como zonas de excitação sexual e, ainda assim, por uma necessária intervenção da cultura.

Nesse sentido, o período da adolescência testemunha um segundo movimento de expressão aguda da pulsão sexual. Entre mais ou menos os cinco ou seis anos de idade e a puberdade (por volta dos dez ou onze anos) estabelece-se um período que Freud chamou de “latência”, pois durante essa faixa de tempo a pulsão sexual estaria num período de relativa calmaria, permitindo ao sujeito internalizar de modo tranqüilo os ensinamentos morais e educacionais que lhe são impostas pelos pais e pela sociedade. Na adolescência, esse período de “trégua” da pulsão sexual é abruptamente desfeito e a sexualidade retoma suas armas com uma força tão grande que chega a assustar o jovem que, em função do período de latência, esquecera-se de que em seu corpo habitava tamanha volúpia.

“Por isso essa força estranha…”

Esse retorno súbito da pulsão sexual, sem aviso prévio, é um dos motivos que leva o adolescente a se sentir inadequado, desconfortável, envergonhado e, por conta disso, a refugiar-se, muitas vezes, numa atitude de isolamento e timidez. Ao ser tomado de assalto por aquela estranha força que curiosamente advém de si mesmo e que traz consigo uma série de alterações no corpo (pêlos, menstruação, crescimento dos seios etc.) o adolescente se sente como se estivesse o tempo todo nu. Isso ocorre porque a pulsão se manifesta de modo tão intenso que começa a parecer ameaçadora, de modo que a imagem egóica que o sujeito havia constituído até então para si torna-se frágil. A sensação de nudez perene é uma das formas possíveis de elaboração pela via da fantasia da da insegurança gerada por tais alterações subjetivas.

Fantasmas de amor

No entanto, um número grande de adolescentes experimenta um retraimento muito mais severo em relação ao sexo oposto e isso está ligado não tanto à segunda irrupção ameaçadora da pulsão sexual, mas à primeira. Explico: no advento da pulsão sexual na infância, dissemos que a libido está bastante fixada na boca e no ânus, que são zonas do corpo ligadas à satisfação de necessidades fisiológicas do indivíduo.

No entanto, para que o pequeno infante pudesse se satisfazer sexualmente a partir dessas zonas, outras pessoas tiveram que se fazer presentes na vida do bebê. Que pessoas são essas? A mãe, o pai e/ou outros que estivessem cuidando do bebê na época. Uma dessas outras pessoas forneceu o seio ou algum substituto para a satisfação da necessidade de alimentação e, ao mesmo tempo, estimulou a mucosa da boca do bebê fazendo com que ele obtivesse um prazer a mais, um prazer que não era o da saciedade por ter sido alimentado, mas um prazer ligado propriamente à estimulação da mucosa da boca, um prazer, portanto, sexual. Embora esse prazer fosse essencialmente autoerótico, ele passou a estar irremediavelmente ligado à pessoa que forneceu o objeto para que ele fosse sentido. Lembrando que essa pessoa geralmente é a mãe. O mesmo ocorre com o prazer ligado à satisfação da necessidade de excreção. Conquanto esse prazer, para ser sentido, independa de outra pessoa, afinal a estimulação do ânus é feita pelas próprias fezes, o pequeno animal civilizado humano depende de alguém que limpe seu bumbum, o que faz com que o prazer de defecar passe também a estar ligado a uma pessoa. Lembrando que geralmente quem faz a higiene do bebê é a mãe ou o pai.

O que quero dizer com tudo isso? Que na infância a pulsão sexual está geralmente associada a pessoas bastante específicas: os pais! Nesses primeiros momentos, tradicionalmente chamados de fase oral e fase anal, o sexo dos pais não é relevante, pois o mais importante é o prazer localizado que o bebê sente. No entanto, por volta dos cinco anos, a criança começa a se fazer perguntas acerca da diferença entre homem e mulher e, concomitantemente, a se interessar sexualmente e ter fantasias com o genitor do sexo oposto, iniciando uma relação de rivalidade com o genitor do mesmo sexo. Trata-se do que Freud chamou de “complexo de Édipo”.

Curiosamente, nesse trágico momento, em que as fantasias sexuais em relação ao genitor do sexo oposto começam a se intensificar, a pulsão sexual resolve proclamar trégua e se inicia o período de latência! Como a sexualidade, durante toda a latência, estará num estado de calmaria, o sujeito inevitavelmente recalcará (esquecer-se-á deliberadamente) a paixão que nutria pelo genitor do sexo oposto. Em outras palavras, na latência, a menina não mais se lembrará do seu sonho de casar-se com o papai e tampouco o garoto se recordará dos sonhos que nutria de ocupar o lugar do papai na cama da mamãe.

Quando chega a adolescência e a pulsão sexual novamente se levanta, para-além de ser invadido por tamanha força libidinal, o jovem se vê às voltas com um terrível impasse: por um lado, a cultura lhe diz que ele deve se engajar num processo de busca por alguém que seja ao mesmo tempo do sexo oposto e de fora do seu círculo familiar. Por outro, a retomada da pulsão sexual traz consigo os antigos objetos de amor dos tempos de criança, ou seja, os pais e, especialmente, o genitor do sexo oposto. A diferença é que agora o jovem já está com a proibição do incesto inculcada na sua cabeça, de modo que em vez de experimentar o intenso desejo sexual que nutria pelo genitor do sexo oposto aos cinco anos de idade, ele sente nojo, vergonha, dor psíquica. Ao mesmo tempo, e para desespero do adolescente, como o seu referencial de objeto de amor é o genitor do sexo oposto, toda vez que ele olha para alguém que lhe desperta desejo sexual o que ele vê é o genitor do sexo oposto, ou seja, incesto!

É óbvio que tudo isso não acontece de modo consciente. Portanto, não tente perguntar a nenhuma adolescente se ela fica vendo a imagem do pai em todo garoto pelo qual se interessa. Ela provavelmente lhe dirá que isso é ridículo e que se sente apenas insegura e com medo de levar um fora, mas sequer suspeitará que, por trás dessas racionalizações, há uma fantasia de incesto que ainda roda com bastante força em seu inconsciente. Não obstante, a clínica com sujeitos adolescentes (e adultos) demonstra que essa inferência é plenamente justificada.

Tente, todavia, fazer um exercício mental. Tente se imaginar no inconsciente de um jovem de 13 anos que está apaixonado por uma colega de sala. Você verá que toda vez que ele se imagina ao lado da garota surpreende-se ao constatar que quem de fato está ao seu lado é sua mãe! Ora, não seria natural que esse adolescente não conseguisse sequer se aproximar da jovem?

Pois é exatamente isso o que acontece com inúmeros adolescentes. Sua timidez não é oriunda da situação atual em si, ou seja, ele não é tímido porque teme não conseguir conquistar a garota. Essa é uma modalidade já adulta de timidez. O adolescente não consegue sequer cortejar a garota por que ainda é assombrado pela imagem daquela que na infância fora a rainha de seus sonhos, a mãe. No inconsciente do jovem, a libido ainda está bastante aferrada ao objeto primitivo materno, de sorte que ainda demorará algum tempo até que ele possa contar com uma conta suficiente de libido para investir em outro objeto sexual. Alguns, sequer com a passagem do tempo, conseguem se desvencilhar do fantasma materno. Encontrá-los-emos, provavelmente, no divã.

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Esta obra, fruto de uma pesquisa de mestrado em Teoria Psicanalítica, pretende explorar o incremento do fenômeno das passagens ao ato entre os sujeitos adolescentes. Partimos de um breve estudo sobre a especificidade do trabalho psíquico demandado na adolescência, o qual serve de base para uma reflexão sobre a revivência da situação de desamparo. A partir dessa reflexão, tentamos mostrar como uma eventual convocação do corpo, sob a forma do ato, possui caráter de resposta extrema, à qual o ego pode apelar diante de uma vivência interna de transbordamento pulsional, aliada a um estado de fragilidade narcísica. Tais aspectos, de natureza metapsicológica e psicopatológica, são também articulados com peculiaridades do contexto em que vivem hoje os adolescentes ocidentais. Buscamos demonstrar o quanto a dimensão de desamparo, com toda sua complexidade, tem sido determinante no incremento do fenômeno das passagens ao ato na atualidade. A análise dessa questão é desenvolvida tendo como pano de fundo primordial o âmbito privado da família.

O que é objeto a?

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Preâmbulo

Antes de dar início a essa explicação, quero deixar claro que não pretendo aqui esgotar o tema ou analisar pormenorizadamente todas as suas nuances e vertentes interpretativas. Trata-se apenas de uma tentativa de tornar o conceito de objeto a o mais claro possível para o público leigo e para aqueles que estão se iniciando no estudo da teoria de Jacques Lacan. Digo isso como resposta prévia a qualquer acusação do tipo: “o objeto a não se reduz ao que você diz”. Desde já quero dizer que concordo com tal objeção. De fato, o conceito de objeto a não se reduz ao que será escrito aqui. Não obstante, sou veementemente contra a tendência bastante presente no campo psicanalítico, notadamente na orientação lacaniana, de elevação de conceitos ao estatuto de entes quase místicos, inefáveis, para os quais qualquer tentativa de descrição estaria fadada ao fracasso. Em suma, o objeto a é apenas uma expressão verbal, forjada por Lacan com o objetivo de lhe auxiliar na caracterização e esclarecimento de determinadas dimensões da experiência humana.

Mas deixemos de prolegômenos e vamos direto ao assunto: a noção de objeto a talvez tenha sido a contribuição mais relevante de Jacques Lacan para a teoria psicanalítica. Ela pretende ser uma resposta psicanaliticamente legítima à seguinte pergunta: “Com qual objeto o ser humano se relaciona?”.

A descoberta de Freud

De fato, outros psicanalistas tentaram fornecer respostas para essa pergunta. No entanto, segundo Lacan, as respostas que eles deram não fizeram jus à grande descoberta de Freud. Que descoberta era essa? A descoberta de que diferentemente do restante da fauna do planeta, o animal humano não possui um objeto fixo com o qual saciar seu desejo sexual.

Não há nada de enigmático nisso. Para entender tal afirmação, basta lembrar-se do seguinte: apenas o homem sente tesão por sapatos, cores de cabelo, lábios carnudos, calcinhas, cuecas, brilhos nos olhos, vegetais, outros animais etc. A variação dos objetos que nos provocam tesão é quase infinita. Por outro lado, a sexualidade de um leão, de uma tartaruga ou de um cavalo-marinho não conta com tamanha plasticidade. Leão só sente tesão por leoa, touro por vaca, peixe por peixe! Há encaixe sexual nos animais (selvagens, diga-se de passagem. Quando se tornam domésticos, ou seja, quando entram em contato com o homem, a coisa muda – basta observar os cães).

Nos animais, há relação sexual. No homem há relações sexuais, mas nenhuma em que os dois parceiros estejam de fato interessados num e noutro. É por isso que Lacan dirá no Seminário 11: “Amo em ti, mais do que tu”. Sim, porque cada um está interessado não no outro em si, mas naquilo que no outro lhe provoca seu desejo! Essa foi a grande descoberta de Freud e o conceito de objeto a pretende ser uma forma de abordá-la teoricamente.

Freud aprendeu com as crianças e os perversos que a pulsão sexual não tem objeto. É isso o que os psicanalistas querem dizer quando afirmam que o ser humano é marcado por uma falta. Que falta é essa? É a falta de um objeto que esteja de acordo com o nosso desejo. Pelo fato de, no caso da espécie humana, esse objeto não existir, toda vez que nossa pulsão, essa fome de viver fundamental, se engancha em algum objeto nós temos a ilusão de que ele nos satisfará plenamente. Mas nos enganamos. Logo vem a decepção e nós vamos buscar outra coisa. É como se nosso desejo nunca pudesse ser satisfeito, mas apenas aguçado, ou, em outros temos, a gente só conseguisse ficar com tesão mas nunca saciá-lo completamente.

Nesse momento, o leitor pode se perguntar: “Tá, mas se então a pulsão não possui um objeto adequado, como sentimos tesão? O que provoca o nosso tesão? No animal é a imagem do parceiro, isto é, do objeto. Trata-se de uma experiência da ordem do instinto, uma experiência por assim dizer pré-ordenada. E em nós, humanos, o que provoca nosso desejo?” Lacan responderá dizendo: é justamente essa falta de objeto. Na medida em que não temos um objeto adequado, os objetos que nos são oferecidos para ocupar esse lugar não vêm de uma estruturação pré-ordenada da natureza, mas sim da cultura. A cultura nos diz o que devemos desejar. E quando eu digo cultura estou me referindo aqui a todas as experiências que o sujeito tem com qualquer instância que ocupe para ele o lugar de Outro, que pode ser desde o pai e a mãe até um programa de televisão. São esses outros que ocupam lugar de Outro que nos dizem quem nós somos, o que devemos fazer da vida e o que desejar. No entanto, esse Outro nunca consegue realizar essa tarefa completamente porque nenhum objeto que ele nos oferece para desejar vai ser capaz de saciar completamente nosso desejo. Isso porque, repetindo, não há um objeto único que satisfaça plenamente a todos, de modo que sempre haverá um restinho de desejo insatisfeito que nos moverá na busca por outro objeto.

Frequentemente mascaramos com imagens a inexistência desse objeto ou, em outras palavras, a impossibilidade de descarregar esse restinho de desejo. Daí, por exemplo, só conseguirmos sentir desejo sexual em condições específicas, o que é mais explícito na experiência do perverso: o sujeito só consegue sentir tesão pela namorada se ela estiver trajando uma meia-calça vermelha, por exemplo. Ali, a imagem da meia-calça está no lugar da falta do objeto. A pulsão se enroscou na imagem da meia-calça de modo compulsivo. Com isso, o sujeito evita o confronto com a falta de objeto, com a angústia suscitada por essa falta, mas, por outro lado, se priva da plasticidade da pulsão.

Então, respondendo à pergunta do nosso interlocutor fictício, o que provoca nosso desejo não é nenhum objeto com o qual nos relacionamentos efetivamente, mas sim esse restinho que sobra de todas essas experiências. É esse restinho que nos dá gás para investir em outros objetos. E esse restinho é uma das facetas que Lacan chama de objeto a, o objeto que causa o desejo. Por isso, a gente pode dizer que, no fundo, é esse restinho que a gente busca naqueles com os quais nos relacionamos. Buscamos neles esse pedaço perdido de satisfação, esse objeto que nos saciaria completamente.

Objeto adequado ao desejo?

Essa é a tese de Lacan, a qual é perfeitamente compatível com a obra de Freud. No entanto, como dissemos acima, outros teóricos da psicanálise não pensavam dessa forma. Na década de 50, a posição defendida por eles possuía bastante prestígio na comunidade psicanalítica, de modo que foi preciso que Lacan fizesse um seminário inteiro no ano acadêmico de 1956-57 apenas para criticá-la e indicar o que considerava ser a verdadeira posição psicanalítica a respeito do objeto.

Tais analistas haviam lido a teoria de Freud sobre a sexualidade da seguinte forma: no início da vida o bebê se relaciona com pedaços de um objeto, nunca com um objeto inteiro. Até aí está tudo certo. De fato, para Freud os objetos com os quais a criança lida são objetos parciais (seio, fezes, pênis, clitóris). No entanto, e é nesse ponto que eles se afastam de Freud, pois admitiam que a criança vai amadurecendo ao longo do tempo, de modo que após o período de latência ela não mais se relaciona com objetos parciais, mas com um objeto inteiro e totalmente harmônico, capaz de satisfazer plenamente ao seu desejo. O neurótico seria, portanto, aquele infeliz que ainda permanece agarrado aos objetos parciais, não tendo amadurecido o suficiente para lidar com um objeto total. Em decorrência, o objetivo da análise seria levar o sujeito ao amadurecimento, isto é, ao ponto em que ele fosse capaz de se relacionar com um objeto pleno e harmônico.

Ora, como vimos ainda há pouco, isso não tem nada a ver com o que Freud sustentava. Para o pai da psicanálise, o neurótico que chega ao psicanalista não é um imaturo. Aliás, a idéia de “amadurecimento” não faz qualquer sentido em Freud. O neurótico que procura análise é apenas alguém que teima em achar que é possível encontrar esse objeto pleno, completamente satisfatório. Assim, o objetivo da análise, em Freud, é diametralmente oposto ao da análise da Escola da Relação de Objeto. Trata-se, na clínica freudiana, de levar o sujeito a se dar conta justamente de que o objeto pleno não existe, de que essa falta de objeto é estrutural na existência humana e de que é justamente ela que permite o exercício da criatividade e da plasticidade do desejo.

Quando Lacan cria o conceito de objeto a o que ele tem em vista é justamente dar corpo a essa falta de um objeto natural, adequado e harmônico para o ser humano. Para o analista francês (como também para Freud) nós nunca deixamos de nos relacionar com objetos parciais, com pedaços de pessoas. Em nossa fantasia fundamental, a qual regula de fato a nossa relação com o mundo, continuamos a ser ávidos bebês que desejam o seio da mãe porque o consideram uma parte perdida de si mesmos. E é justamente essa parte perdida de nós mesmos, para sempre perdida, que nós buscamos ao longo da vida. É essa parte perdida, para Lacan, o objeto com o qual nos relacionamos: um objeto que, por sua ausência, se faz presente, o objeto a.

Metapsicologia do emagrecimento (final)

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O alimento é um dos muitos objetos capazes de enganar a pulsão, de satisfazê-la por alguns momentos até que ela volte a nos incomodar. E é o fato de a comida poder fazer semblante de objeto a uma das razões que nos levam a comer mais do que deveríamos. Em outras palavras, exageramos na comida, grande parte das vezes, para enganar a pulsão. Foi isso o que concluímos até aqui.

O alimento como signo de amor

Não obstante, há outra dimensão do alimento que até o momento não fizemos referência, mas que também está associada ao comer em excesso. Trata-se da entrada da comida no registro que poderíamos chamar de demanda. Ao lado da necessidade e da vontade louca de viver (pulsão), age em nós uma demanda de amor motivada principalmente por nossa fragilidade ao nascer que, por sua vez, implica numa submissão ao Outro, condição indispensável à nossa sobrevivência. Queremos ser amados pelo Outro e, para, sentirmo-nos amados, precisamos de signos desse amor. O alimento é um desses signos.

Não precisa pensar na caixa de bombons que seu namorado lhe entrega como expressão do que ele sente por você, pois pode haver dúvidas de que as reais intenções dele sejam de fato manifestar amor em relação a você. Pense na experiência muito mais generalizada da interação entre mãe e bebê. O leite que a criança ingere é tomado como uma dádiva da mãe, um presente desse Outro que se apresenta ali de braços abertos para acolhê-la, enfim um signo de seu amor pelo bebê.

Portanto, o leite recebe uma significação diferente em cada um dos registros da nossa experiência com o Outro: na medida em que aplaca a sensação de fome é um objeto de necessidade; como, além disso, serve também para apaziguar um pouco a ânsia de viver da pulsão, é um objeto engana-pulsão, um semblante de objeto a; e, finalmente, como é fornecido a alguém em que habita uma vontade enorme de ser amado, serve como signo de amor, objeto da demanda.

Antes de emagrecer…

Fiz menção a todos esses significados que a comida pode tomar na experiência humana para demonstrar e deixar claro que qualquer tentativa de emagrecimento que pretenda se basear unicamente na redução do número de calorias ingeridas irá inevitavelmente fracassar. Se na ingestão de alimentos, no caso específico da espécie humana, está implicada não apenas a necessidade, mas também a pulsão e a demanda de amor, isso significa que em todo processo de aumento de peso, para-além das tendências genéticas, essas outras dimensões citadas estarão sempre presentes.

Nesse sentido, antes de recorrermos à dieta mais comentada nas revistas semanais ou até mesmo antes de buscarmos a ajuda de um nutricionista, é preciso que nos coloquemos a pergunta: “Por que estou comendo além do que deveria?”. Até aqui expus os fatores inerentes à condição humana que favorecem o ganho de peso, as quais podem ser sintetizadas da seguinte forma: nós não comemos apenas para matar a fome, mas para atender a outras solicitações da vida, quais sejam, a pulsão e a demanda. Portanto, em todos os momentos em que a comida se torna para mim um excesso, o alimento provavelmente estará atendendo de maneira mais proeminente a uma ou ambas as solicitações.

Forneça mais objetos para a pulsão

Entendemos até aqui a pulsão como essa vontade desregulada e intensa de gozar a vida. Isso significa que nos momentos em que, por diversos motivos, os objetos com os quais a pulsão possa se satisfazer se encontram limitados, o alimento poderá se transformar num dos poucos objetos engana-pulsão, ou seja, ele passará a carregar o fardo de ter que tapear a pulsão mais do que o normal. Em outras palavras, devido a tais limitações, o indivíduo começará a comer em excesso apenas para satisfazer parcialmente a vontade de viver que se encontra limitada em seu exercício. É por isso que a grande maioria das pessoas obesas possui uma vida bastante empobrecida em termos de relacionamento social. São, via de regra, pessoas que saem muito pouco de casa, exercem poucas atividades etc. Nesse ponto o leitor pode dizer: “Um momento, eu conheço muitas pessoas gordas que têm uma vida muito ativa!” E eu respondo: Sim, de fato, existem inúmeras pessoas com excesso de peso que dificilmente estão ociosas. Todavia, a pergunta que eu faço é: será que tais pessoas estão de fato investindo libido naquilo que fazem?

Libido é o termo que Freud utilizava para se referir à energia que a vontade de viver (pulsão) usa para se manifestar. Há pessoas que trabalham muito, passam o dia inteiro ocupadas e quando chegam em casa se empanturram com lanches prontos, pizzas, frituras etc. Ou seja, elas tiveram atividades durante todo o dia, mas em nenhum momento tais atividades serviram para tapear a pulsão. Em outros termos, em nenhum momento tais pessoas gozaram a vida com suas atividades. Executaram-nas com artificialidade, de modo mecânico. Daí chegarem em casa e terem que descarregar a libido acumulada durante todo o dia direto num único objeto, o alimento.

Portanto, estabelecer novos objetos com os quais a pulsão possa “brincar” é uma das ações que comprovadamente tendem a favorecer o emagrecimento. Você mesmo já deve ter percebido que quando está fazendo algo que realmente gosta, que te dá “tesão” (no sentido literal ou figurado), ou seja, algo em que você investe não apenas interesse mental, mas energia libidinal de fato, você não sente vontade de comer. Pode até sentir fome, mas consegue segurá-la pelo simples prazer de estar fornecendo à pulsão um objeto com o qual ela possa gozar. Eu mesmo, ao escrever este texto, estou sentindo fome, mas não o desejo de comer, pois ao escrever este artigo sinto que estou investindo libido, estou fazendo algo que gosto.

Terapêutica de Narciso

Por que, muitas vezes, pessoas que antes comiam bastante, ao passarem a praticar exercícios físicos começam a comer menos e a perder aquela ânsia que as fazia correr ao restaurante fast-food mais próximo? Trata-se de um aparente paradoxo, pois o exercício físico consome calorias, ou seja, em tese ele geraria mais fome. Sim, apenas fome. Por isso essa idéia consiste em um falso paradoxo. De fato, atividades físicas produzem sensação de fome. No entanto, em contrapartida, se o sujeito realiza os exercícios de modo espontâneo, livre, isto é, se faz com desejo e não apenas para atender às demandas do padrão estético contemporâneo, ele acaba fazendo do exercício físico um objeto de descarga pulsional, de investimento de libido. Tanto é assim que existem pessoas que, restringem tanto seus objetos engana-pulsão, que passam a se viciar em exercícios físicos, transformando-os no único objeto de investimento libidinal.

Outro efeito da prática de exercícios físicos é, evidentemente, um inevitável emagrecimento em função do gasto maior de calorias. É aí que percebemos que o processo de emagrecimento é, na grande maioria das vezes, retroalimentador. Isso porque um dos objetos com os quais a pulsão mais gosta de brincar é o eu, mas especificamente, a dimensão do eu à qual se dá o nome de imagem corporal. Pessoas que se sentem bonitas e estão satisfeitas com o próprio corpo sentem um gozo enorme em se olharem no espelho, aquele mesmo júbilo que o bebê ainda sem coordenação motora sente quando se reconhece no espelho, lá por volta dos 18 meses. Esse momento marca o nascimento do eu, de acordo com Lacan, tal como a psicanálise o concebe. É o estádio do espelho.

Pois bem, ao emagrecermos, vamos, a cada dia, ficando mais satisfeitos com nossa imagem corporal, ou seja, gradualmente vamos investindo uma maior quantidade de libido nela, de modo que aquele excesso que vinha tendo a comida como único alvo de descarga vai paulatinamente desaparecendo. O sujeito passa a se comer na imagem refletida no espelho.

Vejam, portanto, que, no que diz respeito ao comer em excesso motivado por uma fixação pulsional na comida devido à limitação da oferta de outros objetos com os quais a pulsão possa brincar, o foco da mudança, ou seja, da entrada num processo de emagrecimento passa pela dimensão quantitativa. É preciso fornecer à vontade de viver novos caminhos a trilhar. O sujeito que passa o dia na internet ou assistindo TV dificilmente se salvará da tentação de recorrer à comida para descarregar a libido que permanece aí à deriva. Evidentemente há o fator genético que não pode ser desprezado, mas só uma pequena minoria permanece magra em função dele.

Não obstante a dimensão quantitativa seja de fundamental importância, a qualitativa também é relevante. Com efeito, não basta, como eu já disse, iniciar dezenas de novas atividades se elas forem realizadas sem prazer, de maneira automática e artificial. Repito: é preciso que as atividades sejam capazes de enganar a pulsão, de modo a fazê-la se desvincular do alimento. Atividades que só enganam a nós próprios e deixam a pulsão quietinha em seu círculo vicioso com a comida não ajudarão em nada no emagrecimento.

Quando se come para se sentir amado

Quando o excesso de peso está associado à predominância do alimento no registro da demanda, a mudança é muito menos simples de ser iniciada. De fato, quando se come em excesso para tapear a pulsão, já que essa não possui outros objetos com os quais se enganar, basta fornecer novas vias de escoamento libidinal que o alimento perde o estatuto de único alvo e o sujeito passa a não viver apenas para comer. Por outro lado, quando se ingere comida em excesso tendo em vista remediar-se uma demanda de amor insatisfeita, a diminuição na ingestão de alimento e o conseqüente emagrecimento são tarefas que não podem ser executadas pelo sujeito sem uma ajuda especializada. Isso porque, diferentemente da pulsão, a demanda de amor não pode ser facilmente enganada com outros objetos. O sujeito que, do ponto de vista de suas fantasias inconscientes, considera que deve comer em excesso, pois na sua história de vida ao alimento adquiriu o estatuto de signo único do amor do Outro, só poderá se desvencilhar desse excesso caso a sua fantasia seja encarada de frente – o que é a proposta do método psicanalítico. O sujeito se empanturra de comida e não consegue deixar de fazê-lo sem saber sabendo que em seu inconsciente roda uma fantasia segundo a qual ele só se sentirá seguro do amor do Outro se comer em demasia.

Para a pessoa cujo comer excessivo está localizado nessa estrutura toda dieta, toda intervenção nutricional, enfim, toda tentativa que queira fazer aliança apenas com a consciência do sujeito, fracassará, pois a fantasia inconsciente que motiva o comer em excesso permanecerá intocada. Nesse caso, uma psicoterapia psicanalítica seria o procedimento mais indicado com vistas ao emagrecimento.

Concluindo

Neste texto não pretendi, de modo algum, esgotar a temática referente ao ganho e à perda de peso do ponto de vista da psicanálise. É óbvio que aspectos ligados à história subjetiva particular de cada indivíduo intervêm tanto no aumento quanto na diminuição do percentual de gordura, de modo que cada processo de engorda e emagrecimento é relativamente singular. Minha intenção, no entanto, foi apontar os fatores de cunho metapsicológico, ou seja, ligados à estrutura mesma da subjetividade que se constituem em condições favorecedoras do comer em excesso e do emagrecimento. Essa metapsicologia, a meu ver, tem sido sistematicamente rechaçada em toda discussão acerca do tema, na qual predomina os discursos veiculados pela biomedicina e pela nutrição, os quais advogam uma visão do ser humano como máquina e não como sujeito.

Metapsicologia do emagrecimento (parte 1)

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Na atualidade, emagrecer tem sido o objetivo de grande parte dos indivíduos, especialmente no lado ocidental do globo terrestre. Nunca na historia da humanidade houve tantas pessoas acima do peso ou obesas e, conseqüentemente, também nunca houve tanta gente querendo perder calorias. Em geral, tende-se a explicar o crescente aumento no número de indivíduos acima do peso recorrendo-se a variáveis sociológicas tais como: aumento da oferta de alimentos; o crescimento do consumo dos alimentos conhecidos como fast-food, altamente calóricos; as formas contemporâneas de trabalho que demandam um menor dispêndio de esforço físico e mais atividade intelectual; a criação de dispositivos automatizados que tornam desnecessários certos movimentos físicos, como a invenção do controle remoto que eliminou a necessidade de se gastar calorias levantando-se do sofá para mudar o canal da TV.

Essas e muitas outras razões de caráter social associadas à suposição de um fator genético exercendo influência sobre o excesso de peso fazem parte da explicação mais difundida para o crescimento do número de indivíduos acima do peso na contemporaneidade. Em decorrência, o emagrecimento é visto como sendo o resultado de modificações no chamado “estilo de vida” já que ainda não é possível uma intervenção genética com vistas a eliminar ou modificar os genes que atuam na etiologia do aumento de peso. Assim, para que o indivíduo emagreça, recomenda-se que ele passe a ter uma dieta menos calórica, ou seja, que diminua seu índice de ingestão de calorias e que passe a praticar exercícios físicos a fim de gastar uma maior quantidade delas. Dessa equação, nasceria um indivíduo em processo de emagrecimento.

Não obstante eu reconheça a verdade presente no que foi dito acima, penso que não se pode reduzir tanto o aumento de peso quanto o emagrecimento a uma dinâmica mecânica baseada no número de calorias ingeridas e de calorias gastas. O sujeito não é uma máquina. Logo, há fatores relacionados principalmente ao campo afetivo que intervêm nos processos de ganho e perda de peso. Pretendo, neste texto, expor que fatores seriam esses. Mais especificamente, minha intenção é fazer um estudo metapsicológico acerca do que ocorre com um indivíduo que está em fase de emagrecimento e mostrar as variáveis que estão para-além da equação calórica. Antes, porém, será preciso discutir a gênese do ganho de peso também do ponto de vista metapsicológico. Nesse sentido, veremos em primeiro lugar, as razões que nos levam a comer mais do que deveríamos e o que ocorre subjetivamente com o indivíduo que ingere mais calorias do que o necessário e que, assim, se torna gordo.

Só há gordos no mundo humano

A espécie humana é a única cuja boa parte dos seus exemplares está acima do peso normal. Aliás, não só a espécie humana. Cachorros domésticos (d’homem) também podem engordar bastante. De qualquer forma, é preciso que haja a interferência do fator especificamente humano para que haja a presença do processo de engordar. De fato, aumentamos não só o nosso peso. Engordamos bois, porcos, galinhas, com o objetivo de vendê-los para que outros indivíduos se alimentem de sua carne e, não raro, acabem engordando. Por que isso acontece? Por que apenas no âmbito da espécie humana há esse excesso de ingestão calórica? É o que tentarei, pretensiosamente, explicar.

Por que a maioria dos animais não engorda?

Todos os animais, com exceção do homem, se comportam a partir do que a biologia chama de “instinto”, isto é, um conjunto de comportamentos padronizados constituído de respostas fixas para os estímulos que a vida lhes apresenta. Em outras palavras, nenhum animal além do homem (e, talvez, dos animais domésticos) tem dúvida, por exemplo, em relação ao que vai comer no almoço. Aliás, nenhum deles sequer discerne um evento chamado almoço! Eles não se baseiam em horários para se alimentar. Deu fome, o lagarto vai aonde há alimento e come, ou seja, ele funciona baseado unicamente no registro da necessidade. Mesmo animais que só se alimentam em determinada parte do dia estão restritos à dimensão da necessidade, pois o que os leva a se comportarem dessa maneira é seu instinto e não uma convenção social, cultural, linguajeira como é no caso dos humanos.

Assim, os animais comem apenas o estritamente necessário e isso não ocorre porque eles são mais sábios que os humanos, mas sim porque o instinto, a necessidade os leva a pararem quando já estão satisfeitos e ingeriram as substâncias necessárias para servir de combustível à sua vivência cotidiana. Eles nem sequer têm a capacidade de pensar: “Vou parar de me alimentar agora, pois já comi o suficiente.”. Não. Eles simplesmente param porque para pensar daquela forma eles teriam que ter acesso a uma dimensão que é exclusiva dos humanos, a saber, a linguagem.

Em vez do instinto, uma vontade desregulada de viver

O Homo sapiens não se comporta a partir do instinto. É verdade que ainda temos alguns, mas sua influência em nosso dia-a-dia é mínima. A imensa maioria dos nossos comportamentos é aprendida na nossa interação com outros seres humanos. Em outras palavras, nós, diferentemente dos animais, não nascemos sabendo viver. Não há nada que naturalmente estabeleça pontes entre nós e o mundo. Em vez do instinto, viemos de fábrica com uma tendência mais ou menos desconfortável que Freud chamou de Trieb, cuja tradução mais aceita hoje em dia para o português é “pulsão”.

A pulsão é força pura. É uma vontade de viver, de gozar a existência, mas que carece de saber. Nós nascemos sem sabe o que fazer com essa vontade de viver. Não obstante, via de regra, saímos do útero direto para os braços de pessoas que se autorizam a nos ensinar. São esses indivíduos que vão direcionar nossa pulsão, que vão nos dizer onde temos que investi-la, ou seja, como devemos empregar essa nossa vontade de viver. Isso é terapêutico. Quando nascemos, a força da pulsão é tão intensa que ela se nos afigura como ameaçadora, como algo que vai nos explodir tamanha a intensidade com que ela se manifesta. Quando entram em cena as pessoas que vão cuidar de nós (que a psicanálise sintetiza com o conceito de Outro) a pulsão ganha canais de descarga e assim perde parte de seu potencial destrutivo. Não obstante, por mais que o Outro aponte para nós caminhos nos quais devemos orientar nossa pulsão, eles nunca serão capazes de esgotar a força da pulsão que age em nós de maneira ininterrupta. Haverá sempre um resto com o qual nós teremos que nos virar sozinhos.

A fome e a vontade de comer

Pois bem, o que tudo isso tem a ver com aumento de peso? Ora, a existência da pulsão no âmbito humano é o elemento que faz com que entre nós as coisas se passem de forma diferente dos animais. Com efeito, a pulsão, essa intensa vontade de viver, nos retira da submissão ao registro da necessidade. Para entendermos isso melhor, façamos uma comparação entre o que acontece com um filhote de pássaro e com um bebê humano. Ambos precisam ser alimentados por um exemplar mais maduro de sua espécie, geralmente a mãe. O filhote de pássaro receberá exatamente a quantidade de alimento que precisa naquele momento para saciar sua fome e adquirir os nutrientes necessários para seu crescimento adequado. Bela harmonia. Já com o bebê humano, não se pode dizer que o mesmo acontecerá, ou seja, que ele receberá apenas aquilo de que necessita. E isso por várias razões.

Em primeiro lugar, pelo fato de que a mãe não sabe, por ter nascido sem instinto, qual a quantidade de leite suficiente para o bebê no momento da mamada. Por não saber, a mãe se angustia e fica na dúvida quanto ao momento certo de retirar o seio. “Quando o bebê parar de sugar” é o que lhe dizem. Mas aí surge outra questão: será que o bebê só pára de sugar o seio quando extraiu a quantidade estritamente necessária de leite? Qualquer mãe sabe que não. E os psicanalistas explicam a razão disso. Ocorre que em função da ausência do instinto (que forneceria aquele saber ao bebê) e da presença da pulsão, o seio é para o bebê ao mesmo tempo um objeto de necessidade – ou seja, que ele utiliza a fim de eliminar a sensação desconfortável que depois reconhecerá como sendo “fome” – quanto um objeto da pulsão, isto é, um objeto que supostamente seria capaz de satisfazer aquela vontade de viver, cujo matiz excessivo o amedronta. Nesse sentido, o bebê geralmente mama mais do que deveria, pois mesmo depois de ter saciado a fome, ele continua sugando o seio não mais para se alimentar, mas tão-somente para sentir o prazer que emerge do contato do seio e do leite com a mucosa da boca, prazer que, naquele momento, serve como veículo de descarga da pulsão. Assim, o bebê só pára de mamar quando sente que a pulsão deu uma apaziguada, que não vai voltar a incomodá-lo com sua demanda tão cedo.

Portanto, a presença da pulsão em nós faz com que o alimento não nos sirva unicamente no domínio da necessidade, ou seja, como elemento capaz de eliminar a sensação de fome. A comida é para nós também uma forma de satisfazermos parcialmente a pulsão, nossa vontade de viver. Por que parcialmente? Por que, como disse anteriormente, essa vontade de viver é infinita e ininterrupta! Ela nos dá descansos periódicos, mas jamais se satisfaz completamente. O alimento, no âmbito humano, é, portanto, um “engana-pulsão”. Sabe quando a gente ingere determinada coisa com baixa capacidade de provocar saciedade a fim de “enganarmos o estômago”? Pois é, nós também utilizamos coisas para enganar a pulsão, pois o único objeto que seria capaz de saciar completamente a pulsão não existe. A psicanálise dá o nome a esse objeto de “objeto a”. Nesse sentido, toda vez que a pulsão é satisfeita por alguns momentos ela encontrou objetos que a enganaram, objetos que se fizeram passar pelo objeto a. Um deles é o alimento.

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