As diferenças na forma como Freud e Lacan pensavam a interpretação em Psicanálise

A interpretação é uma das principais ferramentas de trabalho do psicanalista.

Por quê?

Porque a Psicanálise trabalha com o pressuposto de que o paciente expressa simbolicamente, ou seja, de forma codificada, os elementos inconscientes que estão na origem de seus problemas emocionais.

Logo, cabe ao analista interpretar aquilo que o paciente traz a fim de que esses elementos inconscientes sejam trazidos à luz e, assim, possam ser trabalhados.

Freud tinha uma concepção muito tradicional de interpretação.

Para ele, interpretar consistia basicamente em DEDUZIR e COMUNICAR ao paciente os elementos inconscientes a partir de uma observação minuciosa e cuidadosa de sua fala, de seus atos falhos, de seus sonhos e do comportamento dele na transferência.

Em outras palavras, para Freud, ao interpretar, o analista apresenta o comportamento do Inconsciente ao analisante como um detetive que, após a coleta e análise detalhada dos indícios e evidências, explica ao delegado de polícia como se deu um determinado crime.

É por isso que, nos grandes casos clínicos de Freud, vemos interpretações longuíssimas.

O “racional” freudiano é muito simples: o analista, como alguém que escuta de forma neutra e com atenção flutuante, está em condições de decifrar as manifestações do Inconsciente do analisante como um exegeta diante de um texto antigo.

Para Freud, portanto, o analista REVELA o Inconsciente por meio da interpretação.

O psicanalista francês Jacques Lacan pensava o ato analítico de interpretar de forma bem diferente.

Para ele, a interpretação não serve para revelar o Inconsciente, mas para COLOCÁ-LO EM MOVIMENTO.

Para Freud, essa era uma CONSEQUÊNCIA da boa interpretação, mas, para Lacan, trata-se do próprio OBJETIVO do ato de interpretar.

Nesse sentido, do ponto de vista lacaniano, o analista não deve fazer interpretações EXPLICATIVAS, mas PROVOCATIVAS.

Como assim, Lucas?

Quem está na Confraria Analítica vai saber! Ainda hoje, os assinantes vão receber uma aula especial sobre a interpretação na perspectiva de Lacan.

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Quando Freud nos ajuda a entender Lacan

Na primeira fase de sua produção teórica em Psicanálise, Lacan dizia que estava fazendo um “retorno a Freud”.

Para o psicanalista francês, boa parte dos seus colegas vinha praticando e pensando a Psicanálise (estamos falando da década de 1950) de uma forma que contrariava os princípios fundamentais estabelecidos por Freud.

Por isso, era preciso resgatar a essência do que o pai da Psicanálise havia proposto.

Lacan levará a cabo esse projeto fazendo uma RELEITURA dos textos freudianos através dos óculos da Filosofia, da Antropologia e da Linguística.

Um exemplo dos resultados dessa releitura é a fórmula “O Inconsciente é estruturado como uma linguagem”.

Lacan acredita que essa proposição pode ser EXTRAÍDA dos textos de Freud.

Com efeito, para o analista francês, Freud teria mostrado que as formações do Inconsciente (atos falhos, sonhos e sintomas) são construídas de modo análogo à produção de um discurso.

O que significa isso?

Deixa eu te dar um exemplo:

No plano do discurso, eu posso dizer “Ontem tomei um Porto”.

Qualquer pessoa em sã consciência saberá que eu não estou dizendo que bebi um lugar para embarque e desembarque de navios, certo?

Na verdade, eu fiz uso de uma figura de linguagem chamada METONÍMIA, que me permitiu designar a expressão “vinho do Porto” apenas com uma parte dela: “Porto”.

Para Lacan, num sonho, por exemplo, pode acontecer exatamente o mesmo processo:

Eu posso sonhar que estou pedindo “Socorro” e essa palavra ser apenas uma metonímia para o nome da minha mãe (“Maria do SOCORRO”), verdadeiro objeto da minha demanda.

Tá vendo?

O sonho (assim como as outras formações do Inconsciente) pode ser enquadrado como uma FALA, um DISCURSO, ou seja, uma produção de linguagem.

Existem alguns trechos da obra de Freud que nos ajudam a entender com notável clareza essas releituras lacanianas.

Ainda hoje quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá uma aula especial em que eu comento justamente um desses trechos.

Nele, Freud nos mostra de forma cristalina por que Lacan insistiu tanto na importância de prestarmos mais atenção nas PALAVRAS que os pacientes dizem, ou seja, nos SIGNIFICANTES, em vez de ficarmos o tempo todo tentando deduzir significados.

Te vejo lá na Confraria!


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Necessidade, demanda e desejo: entenda a tríade lacaniana

A necessidade é um anseio de natureza biológica por objetos ou experiências que não podem faltar, que são imprescindíveis para a sobrevivência.

Pense, por exemplo, na necessidade que temos de alimento e de sono.

Para entender mais facilmente o que é a demanda, trabalhe com um sinônimo dessa palavra: o termo PEDIDO.

Um pedido é algo que necessariamente depende da linguagem. A necessidade, não. A necessidade é biológica, vem do corpo.

Um pedido, por sua vez, é algo que só pode ser feito se eu conseguir construir um enunciado baseado num certo código. Não qualquer código, mas o código conhecido pela outra pessoa à qual dirijo meu pedido.

Ou seja, para que o outro atenda a minha demanda, eu preciso necessariamente me submeter ao código dele.

Ora, é exatamente isso o que acontece conosco quando somos bebês. A gente nasce e já vem “de fábrica” com necessidades. No entanto, a gente não consegue satisfazer essas necessidades por conta própria. Precisamos necessariamente dos nossos pais.

No início, eles até saciam nossas necessidades sem que a gente tenha que pedir. Todavia, com o passar do tempo, a gente tem que começar a demandar.

E, para demandar, a gente precisa necessariamente aprender a língua dos pais.

Ou seja, a partir de um certo momento, precisamos “traduzir” nossas necessidades em pedidos, em demandas.

Isso introduz uma novidade: ao articularmos nossas necessidades na forma de demandas, passamos a ansiar não só pelo alimento ou pelo sono, mas também pela COMPREENSÃO dos nossos pais.

Em outras palavras, a gente passa a não querer só a comida em si, por exemplo. Quando o bebê pede comida e a mãe traz, esse ato da mãe de ir até ele acaba sendo vivenciado como um signo de amor: “Mamãe me compreende, mamãe me ama”.

Por isso, Lacan dizia que, no fim das contas, toda demanda é demanda de amor. Ou seja, a gente pede coisas, mas o que verdadeiramente queremos não é só a coisa, mas O SIGNIFICADO DE AMOR que supomos estar em jogo quando o outro nos atende.

Só que tem um problema…

No processo de “traduzir” nossas necessidades de acordo com o código do outro, inevitavelmente ALGO QUE PERDE.

É o que acontece em toda tradução: por mais que o tradutor se esforce, a palavra escolhida nunca corresponde exatamente ao termo original que está sendo traduzido.

Da mesma forma, quando o bebê articula sua necessidade de comida, por exemplo, na forma de um pedido à mãe, o enunciado que ele produz não corresponde EXATAMENTE à sua necessidade.

Por isso, na hora que a mãe vem e dá o alimento ao bebê, ele se sacia, se sente amado, mas alguma coisa fica faltando; parece que não é o suficiente.

Essa sensação de que algo está faltando, algo que, como dizem Clarice Lispector e Chico Buarque “ainda não tem nome e nem nunca terá” é o tal do… DESEJO.

Mas sobre ele a gente fala em outro momento.


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[Vídeo] Entenda a relação do obsessivo e da histérica com o desejo do Outro

Neste vídeo: conheça a estrutura das fantasias com as quais o sujeito responde ao desejo do Outro na histeria e na neurose obsessiva.


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Por que é tão difícil fazer associação livre?

Freud estabeleceu que, no tratamento psicanalítico, o paciente deve falar tudo o que lhe vier à cabeça durante as sessões.

No entanto, a verdade, constatável por qualquer analista sincero, é que são raríssimos os pacientes que efetivamente fazem associação livre.

A maioria seleciona mais ou menos cuidadosamente o que fala, mesmo sob protestos reiterados do terapeuta para que isso não aconteça.

Sem falar naqueles que trazem para as sessões uma “pauta” anotada no papel ou no celular.

Não sou desses que proíbe o paciente de trazer essas notas ou que lhe dá uma bronca por não fazer a associação livre.

Por influência do psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, entendo que o analista que age assim converte-se automaticamente na encarnação de uma figura parental excessivamente dura e severa.

Por outro lado, é interessante refletir sobre os motivos pelos quais é tão difícil para a imensa maioria dos pacientes fazer a associação livre.

Qualquer pessoa que já tenha feito a experiência de simplesmente verbalizar o fluxo de ideias que passam por sua cabeça sabe que o resultado não é lá muito agradável.

Inevitavelmente você acaba falando coisas que jamais imaginou que sairiam de sua boca.

Isso evidencia aquilo que o Lacan chamou, em certo momento, de “a realidade do discurso em sua autonomia”.

O exercício da associação livre nos faz perceber que as palavras parecem ter vida própria e que basta retirar temporariamente a censura egoica de cena para que elas manifestem sua autonomia.

Ao verbalizarmos tudo o que vem à nossa cabeça, nos damos conta de que, apesar de falarmos, somos, na verdade, muito mais FALADOS.

Essa constatação provoca ansiedade, pois faz com que o Eu se sinta ameaçado pelo fluxo autônomo das ideias.

Dá medo, né?

Afinal, sabe-se lá o que sairá de nossas bocas…


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“Eu te amo, mas porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu — o objeto a” (Jacques Lacan)

Por que Lacan disse isso?

Sempre que vocês estiverem diante de um conceito que é aparentemente difícil de entender, tentem abordá-lo fazendo a seguinte pergunta:

— PARA QUE o autor precisou inventá-lo?

Sim, em tese conceitos não são criados aleatoriamente.

Eles são forjados como ferramentas que ajudam a compreender uma determinada realidade.

Pelo menos, deveria ser assim…Assumindo que essa minha premissa epistemológica está correta, vamos pensar:— Para que Lacan precisou inventar o conceito de objeto a?

Obviamente os exegetas da obra lacaniana poderiam citar inúmeros motivos, mas, do meu ponto de vista, um deles me parece facilmente observável.

Ao dizer que o objeto a funciona como causa do desejo, Lacan me parece estar propondo que, no fundo, por trás de todos os nossos desejos está o anseio por um objeto que a gente tem a impressão de que um dia teve, mas acabou perdendo.

E não é mais ou menos assim que acontece mesmo?

Pensa comigo: o que nos faz desejar, por exemplo, uma pessoa?

Ok, você poderá enumerar vários fatores físicos, psicológicos e até morais, mas concorda comigo que sempre está em jogo a expectativa de que essa pessoa lhe deixará satisfeito, feliz?

Então…Se é assim, a gente pode dizer que a causa do seu desejo pela pessoa não é exatamente a pessoa em si, mas um objeto virtual que supostamente lhe proporcionaria felicidade eterna e que acidentalmente você conseguiu enxergar… na pessoa desejada.

Sacou?

Você deseja a pessoa, sim, mas a causa do desejo, isto é, aquilo que te faz desejar não é a pessoa em si, mas esse objeto supostamente satisfatório que não sai da sua cabeça desde que era bebê.

É como se a gente tivesse perdido um brinquedo quando criança e agora passasse a vida inteira tentando reencontrá-lo.

Só que é um brinquedo que a gente nem sabe que cor tem, se é grande ou pequeno, nada.

Tudo o que a gente sabe é que, quando o possuíamos, éramos felizes.

Aí, tem dia que a gente cai na ilusão de achar que ele está na pessoa X ou Y.

Do meu ponto de vista, o conceito de objeto a nos ajuda a pensar no caráter nostálgico que caracteriza o desejo neurótico.


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Freud é Freud, Lacan é Lacan

Quando estamos estudando o pensamento de um autor, é muito importante separarmos o que ele efetivamente disse das RELEITURAS propostas por seus comentadores.

Em que pese o fato de ter formulado uma nova e robusta matriz teórica em Psicanálise, Jacques Lacan pode ser considerado um grande comentador da obra freudiana, talvez o maior de todos.

Ao exercer esse papel, Lacan muitas vezes expôs discordâncias em relação a certos pontos da teoria de Freud.

Muitos analistas, no entanto, seduzidos pela brilhante retórica lacaniana, acabam recalcando tais discordâncias e passam a achar que o que Lacan está propondo corresponde exatamente ao que Freud disse.

Isso acontece, por exemplo, na questão do desenvolvimento psicossexual.

Lá no Seminário XI, o analista francês faz questão de dizer: Freud acredita na maturação da pulsão sexual; eu, não.

Sabe esse negócio de fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital?

Então… Tem gente que acha que essa caracterização do desenvolvimento psicossexual em fases é irrelevante na obra de Freud porque Lacan não está de acordo com ela.

Quem pensa assim acredita que Lacan conseguiu extrair uma suposta “verdade verdadeira” que estaria implícita no texto freudiano.

Trata-se, a meu ver, de um baita engano!

Lacan não está para Freud como Paulo de Tarso está para Cristo.

Apesar dos evidentes pontos de confluência, trata-se de concepções teóricas distintas.

Sobre essa questão das fases do desenvolvimento psicossexual, não resta a menor dúvida de que Freud a considerava como um elemento importantíssimo em sua teoria.

Tanto é assim que num de seus últimos textos, o “Esboço de Psicanálise”, ele dedica um capítulo inteiro para falar do desenvolvimento da função sexual, entendendo-o como um processo de maturação biológica com começo, meio e fim.

Freud pensava assim. Lacan, não.

Você não é obrigado a concordar com Freud e pode preferir a leitura lacaniana, mas é preciso ter a honestidade intelectual de admitir que um fala uma coisa e o outro fala outra.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma pequena aula especial sobre essas diferenças entre as visões de Freud e de Lacan sobre o desenvolvimento da sexualidade.


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O que Lacan quis dizer ao propor que o Inconsciente é uma cadeia de significantes?

Uma das contribuições mais interessantes de Jacques Lacan para o campo psicanalítico foi sua tese de que o Inconsciente poderia ser pensado como uma cadeia de significantes.

Ao propor essa ideia, Lacan está enfatizando o papel que as “palavras” em si mesmas (e não o significado que se supõe estar atrelado a elas) exercem nas formações do Inconsciente, isto é, nos sonhos, atos falhos e sintomas.

Coloquei o termo PALAVRAS entre aspas porque a noção de significante em Lacan não contempla apenas uma palavra especificamente, mas isso é assunto para outra postagem.

Na análise do segundo sonho de sua paciente Dora, por exemplo, Freud chega à conclusão de que a estação de trem tão buscada pela paciente no sonho representa o órgão genital feminino.

Tal dedução não foi feita por conta de uma possível semelhança entre uma estação e uma vagina, mas devido à presença na PALAVRA “Bahnhof” (estação, em alemão) do mesmo sufixo “hof” presente na PALAVRA “Vorhof” (vestíbulo da vagina, em alemão).

O significante é justamente o elemento material arbitrário que, unido, a uma ideia, compõe um signo linguístico.

Por que arbitrário? Por que não há nenhum motivo natural para que um significante esteja colado a um determinado significado.

Tanto é assim que um mesmo significante pode estar associado a significados completamente diferentes.
O significante “livre”, por exemplo, está geralmente associado, em português, à ideia de um sujeito que goza de liberdade, ao passo que, em francês, ESSE MESMO SIGNIFICANTE pode estar vinculado à ideia de um texto escrito.

Ao formular a tese de que o Inconsciente é uma cadeia de significantes, Lacan está propondo que, no tratamento psicanalítico, trata-se menos de buscar significações profundas na fala do paciente e mais de mapear os significantes que se repetem na vida do sujeito.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje (sexta) uma aula especial em que comento um trecho da obra de Lacan nos qual ele trata dessa concepção do Inconsciente como uma cadeia de significantes.


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[Vídeo] A RESISTÊNCIA É SEMPRE DO ANALISTA – Entenda o que significa isso

Neste vídeo: entenda definitivamente a famosa tese de que a resistência é sempre do analista, proposta por Jacques Lacan.


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Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 02)

Fiquei de apresentar nesta segunda parte do texto um esboço dessa estrutura que está na base da caracterização feita por Freud, mas não se confunde com ela. Tomemos, então, o mito freudiano e destaquemos seus elementos estruturais.

Freud começa sua descrição do Édipo com a imagem de um menino que tem cerca de quatro ou cinco anos e está vivenciando o que o pai da Psicanálise chama de “fase fálica” do desenvolvimento sexual. Nesse estágio, a criança do sexo masculino estaria intensamente interessada no prazer proporcionado pelo pênis. Uma menina da mesma faixa etária também passaria por essa fase e seu interesse estaria voltado para o clitóris, parte do corpo feminino equivalente ao pênis. Do ponto de vista estrutural, tais imagens representam o fato universal de que nosso corpo é fonte de gozo, ou seja, de que a experiência de prazer é primariamente autoerótica.

Na sequência da narrativa freudiana, tanto o menino quanto a menina passam a nutrir fantasias sexuais envolvendo a mãe, ou seja, passam a tomar a genitora como objeto sexual, vinculando-a ao prazer que experimentam em seu próprio corpo. Essa imagem da criança conectando seu gozo autoerótico ao outro materno ilustra o processo estrutural que Lacan nomeou como ALIENAÇÃO. Trata-se do fato de que todo ser humano nasce num ambiente social já formatado, com uma cultura própria da qual ele não pode escapar. Assim, no início da vida, todos nós somos obrigados a nos submetermos a esse ambiente (que Lacan chama de Outro com “O” maiúsculo). Dessa forma, o nosso próprio gozo que, originalmente é autoerótico, passa a estar “adaptado” ao Outro, subordinado às regras dele. No mito de Freud, esse fato universal é expresso pela imagem da criança apaixonada pela própria mãe.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Por que o complexo de Édipo continua “válido” ainda hoje? (parte 01)

Por outro lado, o problema que a Psicanálise enfrenta para sustentar o conceito de complexo de Édipo atualmente não tem a ver com uma suposta “heteronormatividade” que estaria implícita nele. A maior dificuldade com a qual precisamos lidar diz respeito ao fato de que a descrição que Freud faz do Édipo só tem como referente um formato muito específico de família: aquele no qual a criança nasce e é criada no seio de um casal composto pelos seus dois genitores. O pai da Psicanálise não nos forneceu uma caracterização universal do complexo de Édipo, que pudesse ser aplicada para outros formatos de família, alguns dos quais são tão frequentes no mundo contemporâneo.

Como pensar o Édipo, por exemplo, numa família em que o pai morreu, sumiu ou nunca se fez presente e os filhos são criados apenas por sua mãe? Crianças que já nos primeiros dias de vida foram levadas para instituições de acolhimento e lá viveram durante 10, 15 ou 18 anos não passam pelo complexo de Édipo? E o que dizer daqueles meninos e meninas que são filhos de parcerias homossexuais? O Édipo valeria também para essas crianças? Se sim, como seria possível, já que Freud fala apenas de pai e mãe e nunca de dois pais ou duas mães?

O teórico que nos ajudou a “universalizar” o complexo de Édipo permitindo que ele pudesse ser aplicado às mais diversas configurações familiares foi o psicanalista francês Jacques Lacan. Para ele, o complexo de Édipo, tal como descrito na obra freudiana, seria, na verdade, um mito criado por Freud.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Quais são os capítulos censurados da sua história?

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em Psicanálise”, Lacan afirma que “O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado.” (p. 260 dos “Escritos”).

Esse trecho é interessante porque nele Lacan revela um aspecto muito específico de como pensa a existência humana.

Para o analista francês, desde antes do nascimento nossa história já está sendo contada. Depois que chegamos ao mundo, pegamos esse bonde sem saber que ele já estava andando. Em outras palavras, assumimos a autoria de um livro que já estava sendo escrito e aí continuamos a escrevê-lo, tomando a narrativa da forma como a encontramos.

No entanto, não escrevemos nossa história de um ponto de vista exterior, como um jornalista relatando fatos para uma matéria. Somos personagens da nossa própria narrativa, de modo que não conseguimos nos situar fora dela.

A imagem que, a meu ver, melhor ilustra essa ideia lacaniana de difícil apreensão é a gravura “Drawing Hands”, de Maurits Cornelis Escher, que certamente serviu de inspiração para o clipe de “Drive” da banda Incubus. No quadro aparecem duas mãos, uma sendo desenhada pela outra e vice-versa, sugerindo a ideia de um “autodesenho”.

A concepção de subjetividade em Lacan tem a ver com isso. A gente não vive numa realidade e, ao mesmo tempo, vamos construindo narrativas sobre ela. Não! Para Lacan, a gente vive na própria história que criamos, iniciada e, portanto, estruturada pelo Outro.

Assim, ao dizer que “O inconsciente é o capítulo censurado”, Lacan está propondo que, no interior desse livro do qual sou o autor e, ao mesmo tempo, o personagem, existem páginas que foram rasgadas ou trechos sobre os quais fizemos colagens para ocultar o conteúdo original.

Nesse sentido, a Psicanálise pode ser tomada como um convite para a revisão de nossa própria história. Ao se submeter à experiência analítica, o sujeito seria convocado a recompor o seu “livro da vida”, resgatando as páginas censuradas e desfazendo as falsificações.


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Encerrar a sessão é uma forma de intervenção do analista

No texto “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan diz o seguinte: “A suspensão da sessão não pode deixar de ser experimentada pelo sujeito como uma pontuação em seu progresso” (“Escritos”, p. 314).

Essa frase sintetiza a fundamentação de uma inovação técnica introduzida pelo psicanalista francês no campo psicanalítico: as sessões de tempo variável.

Antes de Lacan, havia um consenso entre os analistas de que as sessões de análise deveriam ter uma duração fixa, seja ela de 50, 45 ou 30 minutos. A quantidade de minutos em si não era o aspecto mais relevante, mas, sim, a invariabilidade na duração das sessões.

Havia uma justificativa para isso, a qual Lacan, inclusive, aponta no mesmo texto: “Decerto, a neutralidade que manifestamos ao aplicar estritamente essa regra mantém a via de nosso não-agir.” (“Escritos”, p. 315).

Lacan está reconhecendo o fato de que, ao encerrar todas as sessões rigorosamente aos 50 minutos, por exemplo, o analista estaria se resguardando quanto a sua contratransferência, a qual o levaria, de repente, a ficar pouco tempo com certos pacientes e muito tempo com outros por razões puramente pessoais. Em suma, o tempo fixo das sessões ajudaria o analista a se manter o mais neutro e abstinente possível no tratamento (o que Lacan chama de “via de nosso não-agir”).

No entanto, como o psicanalista francês explica no primeiro trecho citado, o momento em que o analista encerra a sessão funciona como uma pontuação na fala do paciente. Por exemplo: suponhamos que um terapeuta encerre a sessão após o paciente dizer algo como “Se pudesse eu mataria o meu pai.”. Agora imaginemos que o analista tivesse deixado o paciente continuar falando porque, sei lá, restavam ainda 4 minutos para que a sessão atingisse 50 minutos. Nesse caso, o paciente poderia ter continuado seu discurso e talvez tentaria relativizar o peso de seu desejo de morte ao pai com frases como: “Na verdade, acho que não o mataria… Onde estou com a cabeça? Eu amo meu pai. Jamais faria uma coisa dessas. Acho que falei isso só porque estou chateado com ele…”

Sacou? O paciente que sairia da sessão encerrada pelo analista após a expressão do desejo parricida não seria o mesmo que sairia da sessão finalizada após 50 minutos.

Nesse sentido, acho que você percebeu que o encerramento da sessão pode ser utilizado como uma intervenção pelo analista na medida em que exerce um efeito sobre o que o paciente diz e, portanto, no que ele escuta de si mesmo.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje uma mini-aula especial na qual falo sobre esse assunto com mais detalhes e exemplos.


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Por que Lacan dizia que “a resistência é sempre do analista”?

Num trabalho de 1958 chamado “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”, Jacques Lacan afirma que “não há outra resistência à análise senão a do próprio analista”. Tá lá na página 601 dos “Escritos”.

Quem me ajudou a entender essa famosa formulação foi o Bruce Fink no recomendadíssimo “Introdução clínica à psicanálise lacaniana” (Zahar, 2018). A propósito, Fink é um daqueles raros autores lacanianos que escreve em humanês e não em lacanês.

O que Lacan está querendo dizer com essa ideia de que a resistência é sempre do analista?

A dificuldade para compreender essa tese vem do fato de que, com base na leitura de Freud, a gente chega à conclusão de que o paciente é quem está sempre “resistindo”. Afinal, o sintoma neurótico só aparece na vida do sujeito porque ele RESISTE a reconhecer o próprio desejo, certo?

Pois é! Lacan não está contradizendo essa descoberta freudiana. Pelo contrário! Ao fazer a provocação de que a resistência é sempre do analista, o que o francês está querendo mostrar é que a resistência do paciente é óbvia, de modo que é tão irrelevante dizer que o paciente está resistindo quanto dizer que a água é molhada.

É claro que o paciente resiste! Quem não pode resistir é o analista!

Portanto, quando dizemos coisas como “essa análise não está andando por causa da resistência do paciente”, o correto seria reconhecermos que a inércia do processo está sendo provocada pela resistência DO ANALISTA. Afinal, a resistência do paciente sempre está presente. Ela não é um fator acidental que ora se manifesta e ora desaparece.

Essa resistência nunca cede naturalmente. Do contrário, o sujeito poderia se curar sozinho sem fazer análise. O fator que se opõe à resistência e faz a análise funcionar é o desejo… mas o desejo DO ANALISTA.

É o analista quem, por meio de seus silêncios, pontuações, cortes e interpretações, encoraja o paciente a renunciar ao gozo inútil, mórbido e pouco criativo do sintoma, encarando a angústia inerente à condição humana e buscando formas mais autorais e criativas de expressar seu desejo no mundo.

A resistência é sempre do analista porque, no tratamento, só o analista tem a “opção” de não resistir e fazer valer seu desejo de analisar.


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Energia masculina? Energia feminina? Isso não existe!

Num texto de 1964 intitulado “Posição do inconsciente”, o psicanalista francês Jacques Lacan diz o seguinte:

“A pulsão, como representante da sexualidade no inconsciente, nunca, é senão pulsão parcial. É nisto que está a carência essencial, isto é, a daquilo que pudesse representar no sujeito o modo, em seu ser, do que ele é macho ou fêmea”.

E, mais adiante:

“Do lado do Outro, do lugar onde a fala se confirma por encontrar a troca dos significantes, os ideais que eles sustentam, as estruturas elementares de parentesco, a metáfora do pai como princípio da separação, a divisão sempre reaberta no sujeito em sua alienação primária, apenas desse lado, e por estas vias que acabamos de citar, devem instaurar-se a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher.”

Esses são trechos excepcionalmente claros da obra lacaniana. Neles Lacan elabora, com seus próprios termos, a descoberta freudiana de que os nossos impulsos sexuais não têm sexo e de que, portanto, masculinidade e feminilidade não são padrões comportamentais inatos, mas aprendidos mediante nossas experiências de vida enquadradas pelo contexto familiar e sociocultural (o que Lacan chama de “Outro”).

Por que resolvi falar desse assunto hoje? Porque tem muito picareta no Instagram falando de supostas “energia masculina” e “energia feminina”. Segundo esse pessoal, um homem, por exemplo, só seria feliz em seus relacionamentos se reconhecesse sua tal energia masculina intrínseca e encontrasse uma “mulher feminina” (risos).

O que essa galera está fazendo, na prática, é pegando modelos de masculinidade e feminilidade forjados numa determinada época e numa determinada cultura, ou seja, o que Lacan designa como “a ordem e a norma que dizem ao sujeito o que ele deve fazer como homem ou mulher” e NATURALIZANDO tais modelos como se eles estivessem enraizados no organismo ou… na alma (sei lá qual é a metafísica maluca dessa gente…).

Masculinidade e feminilidade existem? Sim, existem, mas são padrões que emergem do campo do Outro, não da biologia. Nossos impulsos sexuais são assexuados. O que eles visam, no fim das contas, é a satisfação pura e simples.


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