O Eu não é só um outro

Não podemos reduzir o conceito de Eu em Psicanálise apenas a essa dimensão que passou a ser etiquetada (volto a dizer: por influência da própria Psicanálise) como “ego”. De fato, Freud apresenta o Eu, por um lado, como uma instância psíquica constituída mediante a identificação com outras pessoas. Essa é a dimensão imaginária do Eu, resultante de uma mescla das imagens de diferentes pessoas que passaram pelas nossas vidas e que foram objeto de nosso investimento amoroso. Mãe, pai, tios, avós, amigos, professores, parceiros amorosos, enfim, todas essas pessoas podem ser alvos de nossas identificações e acabarem sendo incorporadas em maior ou menor grau naquilo que denominamos de nossa “identidade”. Em parte, o que chamamos de Eu é uma colagem de traços de diferentes pessoas.

Mas o Eu não é só isso. Freud deixa muito claro em seus escritos que o Eu é também a própria pessoa em sua condição de sujeito, ou seja, de agente da própria vida. É o Eu entendido nesse sentido que o pai da Psicanálise entende que precisa ser fortalecido pela terapia psicanalítica. Trata-se do Eu autoconsciente que pode, inclusive, tomar a sua própria identidade (o Eu no primeiro sentido) como objeto de reflexão. Quando dizemos, por exemplo: “Eu sou uma pessoa tímida”, podemos ver claramente essas duas facetas do Eu: por um lado o Eu sujeito que olha para si e é capaz de se descrever e, por outro, o Eu objeto, ou seja, o eu no sentido da imagem de si (“pessoa tímida”).

Leia o texto completo aqui.


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Por que Lacan dizia que “o desejo do homem é o desejo do Outro”?

Tem coisa no Lacan que é difícil demais de entender, quanto mais de explicar.

Esse não é o caso da fórmula “O desejo do homem é o desejo do Outro”. Vou te provar que compreendê-la é mais fácil do que você imagina.

Primeiramente, é importante saber que Lacan trabalha com uma distinção fundamental entre necessidade e desejo.

Necessidade é aquilo que o bebê experimenta no início da vida quando tem fome, por exemplo. Nesse caso, a criança PRECISA de alimento para sobreviver. Qualquer outra coisa não serve.

Já o desejo é aquilo que experimentamos, por exemplo, quando queremos sair para jantar numa churrascaria. A gente não PRECISA dessa experiência para sobreviver. Portanto, não é uma necessidade.

Por que, então, temos esse DESEJO de ir à churrascaria?

Podemos alegar que os motivos são a qualidade da carne e do atendimento ou a variedade de opções. Contudo, não podemos deixar de reconhecer que tais aspectos só se tornaram de fato alvos do nosso desejo porque SOCIALMENTE eles são valorizados. Tanto é assim que, para uma pessoa vegana, por exemplo, a qualidade da carne da churrascaria não seria um fator capaz de motivá-la a sair de casa.

Entendeu? Eu só desejo as coisas que desejo porque faço parte de uma comunidade que me ensinou (direta ou indiretamente) que tais coisas são… desejáveis. Em outras palavras, eu desejo o que desejo porque outras pessoas desejam também. É por isso que um vietnamita, por exemplo, salivaria diante de um bom assado de cachorro e você não.

Isso mostra que, enquanto a necessidade vem de nós mesmos (do nosso organismo), o desejo vem… do Outro, ou seja, de pessoas, grupos, instituições que exercem sobre nós uma função de autoridade, determinação, prescrição, regulação.

Nesse sentido, Lacan conclui de forma bastante perspicaz que, no fim das contas, na raiz de todos os nossos desejos está o desejo de ser reconhecido pelo Outro. O raciocínio é simples: se eu quero a coisa que o Outro quer isso significa que o que me atrai de fato não é a coisa em si, mas o olhar do Outro sobre a coisa. Ou seja: o que eu quero de verdade é o olhar desejante do Outro, ora bolas!

Entendeu, agora, por que Lacan dizia que “o desejo do homem é o desejo do Outro”?


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“O inconsciente é o capítulo censurado” (Jacques Lacan, 1953)

Ontem à noite na aula ao vivo da Confraria Analítica, eu estava demonstrando para os alunos que uma das principais evidências da existência do Inconsciente são os “furos” que existem na narrativa que fazemos da nossa própria história.

Diferentemente do que acontece em um filme ou uma série bem produzidos, no roteiro que descreve nossa biografia há diversas partes faltantes que fazem o enredo ficar eventualmente incompreensível.

É por isso que, não raro, uma das principais queixas que os pacientes apresentam na clínica psicanalítica pode ser expressa por frases como: “Não sei por que faço isso!” ou “Não consigo entender por que sou assim!”.

As respostas para essas questões estão justamente naquelas partes do roteiro do nosso “filme” biográfico que nós deliberadamente cortamos e tentamos descartar, ou seja, naquelas ideias, pensamentos e lembranças que foram objeto de… recalque.

Os conteúdos recalcados representam as “cenas” que a gente não quer que sejam veiculadas nas telas do nosso “cinema” interior; obsCENIDADES que revelam quem verdadeiramente somos por trás das câmeras.

O recalcado, no entanto, sempre retorna, já dizia Freud. A gente inevitavelmente acaba tropeçando nas partes censuradas do nosso filme biográfico. E quando a queda é grande e causa dores e feridas, é nesse momento que a gente procura análise…

Você já se deu conta desses “furos” no roteiro da sua vida?


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O que foi feito da sua espontaneidade infantil?

Todo bebê nasce plenamente espontâneo.

Isso significa que no início da vida não existe distância ou oposição entre o que queremos e o que fazemos. Se estamos com fome, choramos; não engolimos o choro. Se mamar está gostoso, a gente continua mamando; não controlamos o nosso prazer.

Todavia, à medida que crescemos e vamos nos dando conta de que existem outras pessoas no mundo, nossa espontaneidade começa a ser limitada. Isso acontece por basicamente duas razões:

A primeira é a de que o mundo para de estar o tempo todo à nossa disposição. Agora não basta chorar na hora da fome; é preciso chamar a mãe, ou seja, eu preciso abrir mão do meu choro espontâneo para me submeter ao código de comunicação do Outro. Para os nerds de Psicanálise: quem fala muito sobre isso é o Sr. Jacques Lacan.

A segunda razão é a percepção de que a nossa espontaneidade pode causar dano ao outro. Mamar no seio materno de fato é muito gostoso e a gente gostaria de continuar fazendo isso para sempre. No entanto, renunciamos a esse impulso espontâneo porque nos damos conta de que nossas mães também são pessoas com uma vida própria e não somente um par de seios que nos amamenta. Para os nerds de Psicanálise: quem fala muito sobre isso é a Sra. Melanie Klein.

Quem teve sorte no seu processo de desenvolvimento, ou seja, quem pôde contar com um ambiente suficientemente bom na infância, consegue se adaptar satisfatoriamente à realidade da vida social. Tais indivíduos abrem mão de parte da sua espontaneidade infantil, mas conservam outra parcela dela, expressando-a naturalmente de modo adaptado às circunstâncias e limitações da vida adulta. Essas pessoas se sentem vivas e reais porque sabem que não são apenas mais uma peça na engrenagem social ou, como diria Roger Waters, “another brick in the wall”.

Por outro lado, há aqueles que não tiveram tal sorte e foram obrigados desde muito precocemente a viver de modo submisso, sem espaço suficientemente para a conservação e expressão de parte da espontaneidade infantil. São pessoas que estão o tempo todo pedindo licença ao Outro para existirem. Para os nerds de Psicanálise: quem fala muito sobre essas duas condições é o Sr. Donald Winnicott.


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Os 3 tempos do Édipo em Lacan

De acordo com Jacques Lacan o complexo de Édipo é um mito freudiano. Em outras palavras, para o analista francês, aquela descrição que Freud faz dos vínculos eróticos conflituosos e ambivalentes que a criança estabelece com seus pais seria uma NARRATIVA SIMBÓLICA.

Sim, uma narrativa, assim como as histórias de Cupido ou de Narciso. Da mesma forma que a narrativa mítica de Narciso começa com a consulta de seus pais a um oráculo, Freud começaria seu mito do complexo de Édipo falando sobre o interesse sexual da criança pela mãe.

Para Lacan, Freud teria criado o mito do Édipo a partir dos relatos de seus pacientes, para explicar, com o apoio de imagens, como se constitui o nosso desejo e, portanto, a nossa relação com a falta, isto é, com a impossibilidade de satisfação plena na vida (simbolizada pela figura da castração no mito freudiano).

Partindo dessa interpretação, Lacan se propôs, então, a extrair aquilo que seria a ESTRUTURA do complexo de Édipo que estaria por trás da descrição mítica freudiana. Dito de outro modo, o psicanalista francês olhou para o Édipo tentando responder à seguinte pergunta: “Quais são os elementos que fazem parte da condição humana e estão presentes na vida de todas as pessoas, independentemente da época e que estão por trás dessa história que Freud nos conta?”.

A resposta para essa questão é justamente a teoria lacaniana dos três tempos do Édipo.

Leia os quadros e me diga: esse post te ajudou a entender melhor a visão lacaniana do complexo de Édipo?


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O que é esse tal de objeto a?

Primeira coisa que você precisa saber: “objeto a” foi um conceito criado pelo psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981).

Segunda coisa que você precisa saber: o conceito de objeto a não possui um referente concreto, como o conceito de “garrafa”, por exemplo. Você pode olhar para uma Coca-Cola de 600ml e dizer: “Veja, eis uma garrafa”, mas não poderá fazer o mesmo com o objeto a. Não tem como ver, tocar ou experimentar o objeto a. Trata-se de um conceito ABSTRATO, como os números. Apesar de utilizar expressões como “Comprei  cinco laranjas”, você nunca viu O NÚMERO 5 EM SI. Então, o conceito de objeto a precisa ser pensado com base nessa mesma lógica, combinado?

Beleza. Então, vamos lá:

Por que Lacan precisou criar o conceito de objeto a?

Há várias maneiras de responder a essa pergunta. Eu optarei pela que considero a mais simples: Lacan inventou o conceito de objeto a para nomear algo já presente na teorização freudiana.

Com efeito, Freud demonstrou que nossos impulsos (sexuais e agressivos) procuram ser satisfeitos, ou seja, descarregados. Para alcançar essa meta, eles UTILIZAM objetos, mas a natureza desses objetos é pouco relevante do ponto de vista deles. Tanto faz se for homem, mulher, comida, sapato. O mais importante para os impulsos é a obtenção de descarga.

Freud mostrou, portanto, que, embora precise haver objetos para que os impulsos possam ser satisfeitos, esses objetos são variáveis. Portanto, os impulsos não estão vinculados a objetos específicos, mas precisam de algo que exerça para eles a FUNÇÃO DE OBJETO. Pois bem! Olha aí: “objeto a” foi justamente o nome que Lacan deu para essa função, esse lugar, que pode ser ocupado pelos mais diversos objetos concretos.

É como se nossos impulsos fossem mendigos com uma latinha vazia na mão dizendo para o mundo: “Por favor, me deem qualquer coisa para encher minha latinha. Qualquer coisa serve desde que a preencha!”. A latinha, nessa analogia, seria o objeto a. É justamente por ele ser, tal como a latinha, um lugar virtualmente vazio que faz nossos impulsos serem atiçados. Por isso, Lacan dizia que o objeto a é a causa do desejo.

Esta singela postagem ajudou você a compreender esse conceito?


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O homem é para a mulher uma devastação

No Seminário 23 (“O Sinthoma”), o psicanalista Jacques Lacan diz o seguinte: “Pode-se dizer que o homem é para uma mulher tudo o que quiserem, a saber, uma aflição pior que um sinthoma. […]. Trata-se mesmo de uma devastação.”

Qual é a leitura que faço dessa formulação?

1 – A mulher é um sintoma para o homem: o sintoma é um processo patológico que serve para representar simbolicamente um desejo reprimido e, ao mesmo tempo, possibilitar a satisfação indireta desse desejo. Em função do complexo de Édipo, o homem coloca a mulher no lugar deixado vago pela mãe. Portanto, a mulher representa simbolicamente o objeto materno. Ao mesmo tempo, o desejo que o homem vai buscar satisfazer com ela é exatamente o de ficar com a mãe, o qual foi reprimido na saída do complexo de Édipo. Portanto, a mulher é um sintoma para o homem porque representa simbolicamente a mãe e torna-se o meio através do qual ele satisfaz indiretamente seu desejo incestuoso.

2 – Por que o homem não é um sintoma para uma mulher, mas algo mais aflitivo, uma devastação? Porque a mulher não busca no homem apenas um representante simbólico de seu pai. Lembre-se que, no complexo de Édipo, antes da menina se vincular ao pai, ela estava ligada à mãe. É desse vínculo primitivo com o objeto materno que vem a devastação. Freud destacava o fato facilmente verificável na clínica que um número significativo de mulheres possui uma relação difícil com suas mães. Para Freud, isso era decorrente do fato de que a menina atribuiria à mãe a culpa por ter nascido sem pênis. Lacan, por sua vez, entenderá que a queixa da menina junto à mãe não é por conta do pênis, mas em função do fato de que a mãe não pode lhe transmitir o que é uma “mulher de verdade”, pois essa Mulher, com “m” maiúsculo não existe. Não existe uma identidade feminina universal, diferentemente do que acontece com os homens que estão sempre às voltas com o fantasma do “homem de verdade”, do “homão da porra”, do “homem com H maiúsculo”.

O homem é uma devastação para uma mulher porque ela o coloca não só no lugar do pai, mas, sobretudo, no lugar da mãe, dessa mãe insuficiente, que não lhe satisfez, deixando-a aflita e, ao mesmo tempo, livre para desejar.


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[Vídeo] Entenda o que é GOZO em Psicanálise

Neste vídeo o psicanalista Lucas Nápoli explica de forma CLARA, SIMPLES E DIDÁTICA a noção lacaniana de gozo.


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O que é esse tal de gozo em Psicanálise?

Quando a gente pensa na palavra “gozo”, imediatamente somos remetidos à esfera sexual. Afinal, essa palavra é mais frequentemente utilizada no discurso comum como sinônimo de orgasmo.

Numa acepção um pouco mais jurídica, por assim dizer, gozo designa também o uso ou o desfrute de algo, como quando se diz que um trabalhador está “em pleno gozo de suas férias”.

O conceito de gozo em Psicanálise tem relação com esses dois sentidos da palavra, embora não possa ser reduzido a nenhum deles.

Esse termo foi escolhido por Lacan para nomear uma experiência que Freud descreveu, mas não batizou. Refiro-me à experiência da SATISFAÇÃO SEXUAL INCONSCIENTE.

Quem aqui conhece um pouquinho de Psicanálise, sabe que Freud descobriu que muitos dos nossos problemas emocionais são, na verdade, a expressão disfarçada de impulsos sexuais reprimidos. Dito de forma mais simples, a gente se satisfaz sexualmente por meio da doença.

Talvez você esteja se perguntando: “Uai, Lucas, mas como assim? Quando estamos emocionalmente doentes, o que sentimos é dor e sofrimento e não prazer. Como, então, Freud pode dizer que estamos satisfazendo impulsos sexuais por meio da doença?”.

É aí que entra o conceito de gozo. Deixa eu te explicar: como a gente reprime certos impulsos sexuais, não podemos experimentá-los conscientemente. Justamente por isso é que só conseguimos descarregá-los disfarçadamente por meio dos sintomas. Logo, a satisfação desses impulsos é feita de forma inconsciente. Conscientemente sinto dor e sofrimento, mas inconscientemente estou… gozando!

O conceito de gozo serve, portanto, para designar tanto essa experiência de “orgasmo” que a gente experimenta sem saber por meio do sofrimento quanto o próprio uso/desfrute dos problemas emocionais para a obtenção de satisfação sexual. É por isso que os psicanalistas costumam dizer coisas como “Essa pessoa está gozando com esse relacionamento doentio”.

De fato, essa é uma das descobertas mais revolucionárias da Psicanálise: a de que podemos gozar com gemidos tanto de prazer quanto de dor.

O que é o Simbólico em Lacan?

O Simbólico contempla a dimensão da nossa experiência que é condicionada pela linguagem.

Diferente de outros animais, o homem não vive apenas no mundo físico, mas também no mundo cultural que, por sua vez, é constituído basicamente de palavras, ou seja, de elementos simbólicos.

Por exemplo, pense no seu nome. Quando ele aparece na lista de funcionários da empresa onde você trabalha, aquelas palavras (digamos “João de Souza”) simbolizam a sua existência naquela empresa independentemente da sua presença concreta na firma. Entendeu? As palavras fazem com que você exista não só no mundo físico, mas também em outro mundo, o mundo do registro, o mundo da representação, o mundo simbólico.

Nesse outro mundo, as palavras estão ARTICULADAS e você acaba sofrendo os efeitos dessas articulações. Por exemplo, a palavra João, escolhida por seus pais para ser o seu nome, é a mesma palavra que se utiliza em português para a tradução do nome de um dos discípulos de Jesus, autor do quarto evangelho. É também parte do nome de um brinquedo infantil, o João Bobo. Você enquanto “pessoa física”, por assim dizer, não tem nada a ver com o João Evangelista nem com o João Bobo, mas o seu nome tem e isso é o suficiente para que você sofra eventualmente os efeitos dessas relações… simbólicas.

Isso não acontece, por exemplo, com um cachorro. O fato de se chamar Bob ou Rex não faz a menor diferença na vida de um cão. Já na vida de um ser humano, as consequências de se chamar João são muito diferentes das consequências de se chamar Pedro.

Portanto, o Simbólico diz respeito à dimensão da nossa vida que é dependente das articulações autônomas existentes entre as palavras.

[Vídeo] O que é o ego em Psicanálise?

Neste vídeo você entenderá de uma vez por todas o conceito de ego em Psicanálise.

Este é o segundo episódio da série em que explico a segunda tópica do aparelho psíquico de Freud. P. S.: Houve um pequeno problema de sincronização entre o áudio e o vídeo a partir do minuto 12, mas isso não comprometeu a explicação. Desculpem!

Por que Lacan disse que “a relação sexual não existe”?

Como-medir-a-tensão-de-uma-tomada-elétricaTodos os leitores familiarizados com os escritos e as transcrições das aulas do Seminário de Jacques Lacan sabem que a concisão não era um aspecto valorizado pelo grande analista francês. Lacan adorava dar voltas e voltas em torno de um tema, como se estivesse demonstrando em seu próprio discurso a incapacidade da linguagem de dar conta do real.

Apesar disso, o autor também era mestre em propor fórmulas, isto é, enunciados curtos, esquemáticos, que resumiam um conjunto de proposições e raciocínios. Algumas delas acabavam servindo como uma espécie de lamparina no interior de seu quase sempre obscuro castelo teórico. É esse o caso, por exemplo, de “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” e “o sintoma é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito”, enunciados que funcionam como ótimas chaves de leitura para a primeira fase de seu ensino.

No entanto, algumas de suas fórmulas se apresentam como uma espécie de charada ou provocação, estimulando o leitor a continuar se aprofundando na esperança de que em algum momento ele irá explicá-las – o que geralmente não acontece. Esse é, por exemplo, o caso dos enunciados “a mulher não existe” e “o sujeito é aquilo que um significante representa para outro significante”, os quais já foram comentados aqui. A afirmação de que “a relação sexual não existe”, que me proponho a esclarecer agora, também me parece se encaixar nesse caso.

Não há encaixe

Primeiramente é preciso dizer que na frase original que Lacan proferiu em francês (“Il n’y a pas de rapport sexuel”), traduzida por alguns autores como “Não há relação sexual”, o analista francês utiliza a palavra rapport. Apesar de ser tradicionalmente traduzido em português por “relação”, na língua francesa esse termo possui uma conotação mais específica que nos ajuda a entender o que Lacan queria dizer com essa curiosa afirmação. De fato, a palavra rapport designa uma relação de complementariedade, de encaixe, onde os elementos são mutuamente proporcionais. Trata-se do tipo de relação que existe, por exemplo, entre um plugue de um aparelho doméstico e uma tomada. Nesse sentido, quando Lacan diz que “não há relação sexual”, o que ele está dizendo é que entre os seres humanos, no campo do amor, não existe relações de encaixe perfeito. Em outras palavras, ninguém é o plugue ou a tomada de ninguém!

Neste momento você pode estar pensando: “Puxa, mas é só isso? Achei que essa frase do Lacan guardasse um significado mais profundo. É óbvio que não há encaixe perfeito numa relação entre seres humanos! Qualquer pessoa que já tenha estado num relacionamento amoroso sabe disso”. Você está certo, caro leitor. Trata-se de uma constatação evidente. Mas, então, por que cargas d’água Lacan sentiu necessidade de enunciar essa fórmula já que se trata de algo tão óbvio? Ora, por que apesar de evidente e facilmente detectável, nós insistimos o tempo todo em tapar o sol com a peneira! Sim: a inexistência da relação sexual significa que não existe, não existirá e nunca existiu um conhecimento, um saber, um manual que seja capaz de nos ensinar o que fazer para termos relações amorosas harmônicas e plenamente satisfatórias para ambos os parceiros. Dito de outro modo, a natureza não nos presentou com a fórmula do amor. Em vez disso, ela nos deu a linguagem.

No entanto, é possível verificar no senso comum e até mesmo na ciência diversas tentativas de descobrir esse saber que irá proporcionar o encaixe perfeito entre os parceiros amorosos. Não acredita? Então faça o teste: abra agora mesmo o Google e coloque na barra de busca: “como ter um casamento feliz”. Se todos nós estivéssemos plenamente convencidos de que a relação sexual não existe, a única resposta que você talvez encontraria para essa demanda seria: “Vá se virar!”. Em vez disso, você irá se deparar com uma série de sites em que psicólogos, filósofos, médicos, padres, pastores, astrólogos etc. dizem quais são os 5, 10, 15, 20, não-sei-quantos passos para estabelecer uma relação de encaixe perfeito com seu parceiro amoroso. Em outras palavras, o que essas pessoas estão dizendo é que a relação sexual existe, sim, e elas sabem a fórmula!

A singularidade do desejo

Dizer que a relação sexual não existe significa dizer que o nosso comportamento afetivo-sexual não está submetido a ciclos biológicos pré-definidos, como acontece com a imensa maioria dos outros animais. No caso dos seres humanos, a inexistência de um instinto sexual faz com que a nossa maneira de desejar, de amar e de gozar seja construída de forma absolutamente singular. Nesse sentido, o encontro sexual entre duas pessoas significa um encontro entre dois mundos distintos, que não foram forjados para se complementarem. Utilizando o exemplo do plugue e da tomada como analogia, é como se eles tivessem sido elaborados de modo completamente independente, de sorte que o encaixe entre se torna impossível.

Então a fórmula “a relação sexual não existe” significa que nós nunca seremos felizes no amor? Sim, se por felicidade entendermos um estado de harmonia e completude na relação com o outro. Não estando submetido a um ciclo biológico padronizado, nosso desejo obedece a coordenadas próprias, singulares, ou seja, necessariamente incapazes de se encaixarem com perfeição nas coordenadas do desejo do outro, que é tão singular quanto o nosso. Por outro lado, se por felicidade entendermos a capacidade de nos sentirmos reais, espontâneos e criativos, a inexistência da relação sexual pode ser, inclusive, uma condição para a felicidade. A impossibilidade do encaixe abre espaço para a invenção, para a surpresa, para a construção de fórmulas provisórias, contingentes, singulares de amar, destituídas de idealizações e permanentemente abertas ao acaso. Como disse o poeta carioca,

“O nosso amor a gente inventa

Pra se distrair

E quando acaba a gente pensa

Que ele nunca existiu”

Sugestões de leitura:

Zah_Lacan_18Mai_c3     OSeminarioLivro20     LacanElucidado_0

O que é o grande Outro lacaniano?

Olá! Tudo bem? O conteúdo que você está buscando não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”. Sem falsa modéstia, trata-se de praticamente um curso de introdução à Teoria Psicanalítica. Para conhecer e adquirir o livro digital, é só clicar aqui.

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[Vídeo] Anorexia

É muito comum ouvirmos leigos e até mesmo psicólogos e psiquiatras dizerem que a anorexia nervosa é uma patologia cuja origem está ligada diretamente aos padrões de beleza do mundo contemporâneo. Defende-se a ideia de que esses referenciais estéticos oprimem de tal forma os indivíduos, sobretudo mulheres, que acabam levando alguns deles a recusarem a ingestão de alimentos a fim de alcançarem o corpo supostamente valorizado socialmente. No vídeo abaixo, apresento um ponto de vista completamente distinto fundamentado na tese proposta pelo psicanalista Jacques Lacan de que na anorexia come-se o nada.

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