Reflexões sobre o sujeito em Psicanálise

Meu objetivo com este texto é modesto. Pretendo apenas “pensar em voz alta” acerca do significado que o termo “sujeito” assume na teoria psicanalítica.

No senso comum acostumamo-nos a utilizar a palavra sujeito como sinônimo de pessoa ou indivíduo do sexo masculino, como quando dizemos: “Aquele sujeito é muito rabugento”. Ninguém se refere a uma mulher designando-a como um sujeito, dizendo, por exemplo: “Aquela sujeito é linda!”. As razões pelas quais essa divergência ocorre talvez sejam assaz interessantes de serem avaliadas, mas aqui não é o momento para tal. Quero enfatizar apenas que no linguajar ordinário a noção de sujeito se confunde com a de indivíduo ou pessoa do sexo masculino.

Não obstante, ela guarda certo parentesco com o sentido que o termo adquire no campo em que foi formulado como conceito, a saber: a Filosofia. De fato, não há sujeito – enquanto conceito – antes de Descartes. Foi ele o inventor do “eu” moderno, idéia tão banal para nós hoje que nem nos damos conta de que, em verdade, trata-se de uma invenção. Foi o filósofo francês quem, rompendo com o modo de pensar medieval, nos brindou com a tese revolucionária de que não somos apenas objeto da vontade divina e das contingências da realidade, mas que transcendemos a tais condicionamentos, isto é, temos autonomia, podemos ser tomados como causa de nossos próprios atos. Enfim, somos sujeitos de nossos predicados e não predicados do sujeito divino!

Essa idéia nos é tão familiar hoje em dia que temos dificuldade em imaginar um mundo em que ela não existia. Todavia, a Idade Média sobreviveu durante centenas de anos sem necessidade da noção de sujeito, assim como ainda hoje muitas culturas ditas “primitivas” funcionam da mesma forma, confirmando o fato de que a noção de sujeito não nos é dada pela natureza, mas requer um exercício intelectual demandado pelas condições de uma determinada organização sócio-histórica. No caso da era medieval, o conceito de sujeito era supérfluo: se Deus explicava tudo não havia porque supor no homem a existência de um eu irredutível, não-condicionado, transcendendo às vicissitudes da realidade.

Mas a Modernidade demandou a invenção desse conceito – e Descartes o fez. E é com base nessa noção que a Modernidade trabalhou, instituindo a ciência moderna, a categoria dos direitos universais do homem e valores como a liberdade, por exemplo, implausível sem o conceito de eu, de sujeito que, nesse sentido, como no senso comum, pode ser associado ao de pessoa e de indivíduo.

E do século XVII, quando Descartes enuncia a invenção do sujeito, até meados do século XVIII a humanidade sobreviveu crente na existência de um sujeito autônomo, livre e consciente dos seus atos. Mas a realidade social, em constante mudança, solicita novamente uma transformação conceitual. A idéia de um eu, de um sujeito, de um indivíduo, tão palatável no crepúsculo da Idade Média e tão esperançosa face ao teocentrismo até então reinante, passa a mostrar sinais de fragilidade. Tiramos Deus de cena e instituímos o homem como eixo do mundo – e nem por isso as coisas melhoraram. Será que a idéia de que somos sujeitos de nossos atos não é uma ilusão? É essa a pergunta-chave que começa a ser feita em meados do século XIX e cuja resposta se desdobrará no nosso momento atual que muitos denominam de pós-modernidade.

Freud foi um dos arautos dessa pergunta à humanidade. E a resposta que ele encontrou, na esteira de Nietzsche e Schopenhauer – os quais também colocaram o eu em xeque – foi afirmativa: sim, nos enganamos acreditando que éramos o centro de nós mesmos. Há um pensamento que ocorre nos nossos bastidores e condiciona o que acontece no palco da nossa vida. Nós estamos ali simultaneamente como meros atores e espectadores do desenrolar da cena – eis a tese capital de Freud.

Entretanto, junto com essa tese que permitirá o desenvolvimento do método psicanalítico, surge um impasse: se a cena da nossa vida é condicionada pelo que ocorre nos bastidores e não por nós mesmos, quem é o diretor da cena? A saída de Freud, posteriormente formalizada por Lacan, foi genial: ele não atribuiu ao inconsciente o estatuto de sujeito, ou seja, não substantivou o inconsciente, como poderia se esperar que fizesse à moda de um Schopenhauer, que instituiu a Vontade cega da vida como sujeito fundamental. Não se esqueçam que Freud, antes de tudo, queria ser um cientista. E, por conta disso, ele teve que ser inventivo para não estraçalhar Descartes, o pilar da ciência moderna, com sua descoberta. Assim, em vez de prescindir do sujeito cartesiano, Freud o subverteu (para usar o termo lacaniano). Ou seja, o pai da psicanálise não delegou ao inconsciente a causa da intencionalidade, como o público leigo ainda hoje pensa. É justamente esse mal-entendido que fundamenta a já batida frase: “Freud explica”. Freud não explica nada. É a própria pessoa que se explica!

Freud, por seu turno, mantém o conceito de sujeito, mas o subverte, concebendo-o não mais como autoconsciente, mas sim como dividido. Assim, a “parte” consciente do sujeito se estabelece à custa de um desconhecimento da outra “parte” (inconsciente). Essa, por sua vez, comporta desejos que se manifestam à revelia daquela. É justamente por isso que a psicanálise não abdica da responsabilização do analisando por aquilo que faz. Muita gente pensa que pelo fato de a psicanálise trabalhar com a idéia de inconsciente isso significa que ela destitui da pessoa a responsabilidade dos seus atos atribuindo-a ao inconsciente. Nada mais falacioso. O inconsciente é apenas a qualidade psíquica de determinados pensamentos que possuem como ponto de partida, em última instância, o sujeito. São inconscientes precisamente por terem sido afastados da consciência pelo próprio sujeito.

A grande novidade de Freud foi ter proposto a idéia de que o sujeito não precisa ser necessariamente consciente de suas intencionalidades. Em outras palavras, para a psicanálise, sujeito não é aquele que sabe o que está fazendo, mas, pelo contrário, aquele que responde por aquilo que faz sem saber por quê.

A invenção do inconsciente: Freud e o nascimento da Psicanálise

NOTA: Este texto foi escrito há um ano atrás com a finalidade de servir como material de apoio para a primeira aula de um curso de introdução à Psicanálise que, infelizmente, não aconteceu. Enjoy!

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Grande parte das pessoas ao ouvir o termo “psicanálise” imediatamente o associa a um corpo teórico mais ou menos sistematizado, composto de diversos enunciados e hipóteses a respeito do funcionamento do aparelho psíquico, do modo como se constituem as neuroses, etc. No entanto, é preciso assinalar que tal definição corresponde muito mais à teoria psicanalítica do que à psicanálise propriamente dita.

A psicanálise, em seu sentido mais estrito, nasce como um tipo bastante eficaz de tratamento das neuroses. O termo neurose, tal como utilizado no nascimento da psicanálise, era o nome dado no século XIX às patologias que se davam no plano do psiquismo ou estavam a ele associadas. O prefixo “neuro” denota a concepção etiológica vigente na época, segundo a qual tais patologias ocorreriam em função de lesões neurológicas. Daí a separação entre esse grupo de doenças e as psicoses, para a qual se postulava uma etiologia predominantemente psíquica, como assinalado pelo prefixo “psico”.

A neurose que provocava maior alarde na sociedade burguesa da virada do século XVIII para o século XIX, principalmente por sua freqüência nas mulheres, era a histeria. O termo histeria é derivado do grego hysteros que significa útero, pois durante alguns séculos pensou-se que tal patologia só acometesse mulheres. Do que padeciam pessoas acometidas de histeria? A lista de sintomas passíveis de serem encontrados em quadros histéricos é imensa, mas o elemento comum de todos eles é a existência de uma disfunção ou desordem somática sem a presença de uma lesão orgânica correspondente. São célebres os casos de histéricos que não enxergavam embora possuíssem seus olhos intactos, com toda a estrutura fisiológica necessária para a visão. Assim também, casos de cefaléia, afonia, surdez, paralisia de membros, todos, em um quadro histérico, pareciam meros lances de uma peça teatral, pois o paciente parecia estar fingindo que apresentava o sintoma já que todos os exames não conseguiam localizar uma gênese orgânica para o que o doente sentia.

A histeria se apresentava, portanto, como uma patologia que colocava em xeque a capacidade explicativa de uma medicina que recentemente houvera adotado a anátomo-patologia como disciplina de base e estruturado sua concepção de doença em torno da noção de que para cada sintoma corresponderia uma determinada lesão orgânica. A histeria atestava o furo do saber médico que, justamente por concentrar seu foco na anátomo-patologia acabava por negligenciar a dimensão subjetiva do adoecimento.

A medicina, no entanto, não deu o braço a torcer. Não conseguindo formular uma explicação a partir de seu modelo, caracterizava a histeria como um quadro de piti[1] de donas-de-casa insatisfeitas com sua condição. Em outras palavras, para a maior parte dos médicos da época, todos aqueles sintomas não passavam de formas bastante teatrais de “chamar a atenção”. Essa estratégia de, na ausência de um modelo explicativo, rebaixar o fenômeno à condição de indigno da apreciação científica ainda persiste na atualidade através do célebre jargão repetido por muitos médicos quando os exames não evidenciam uma base orgânica para os sintomas apresentados pelo paciente. Dizem eles: “Você não tem nada.”, o que constitui antes de tudo um completo desrespeito ao paciente na medida em que se desconsidera o estado subjetivo do doente, tomando os exames médicos como atestados de uma verdade absoluta.

Pois bem, após essa pequena digressão, voltemos ao nosso tema central. Podemos dizer que a psicanálise é a filha nascida de um encontro fortuito. Encontro entre Freud e a histeria. No final do século XIX, Freud, um recém-formado médico neurologista, pretendia investir na carreira acadêmica, realizando pesquisas na área de neurologia. Foi ele, inclusive, um dos primeiros pesquisadores que investigou os efeitos da cocaína no organismo humano. No entanto, em função de dificuldades financeiras, Freud resolveu trabalhar também como clínico, a princípio atendendo pacientes indicados por seu amigo Breuer. Este, como muitos outros neurologistas da época, fazia uso terapêutico de um método recentemente formulado chamado hipnose, o qual consistia, basicamente, em fazer com que o paciente saísse de seu estado de vigília, mas que conservasse a capacidade de se conscientizar de determinadas representações e lembranças das quais não conseguia se lembrar quando desperto. Breuer, tal como o médico francês Charcot, aplicava esse método no tratamento da histeria.

O procedimento se dava, em linhas gerais, da seguinte forma: o médico hipnotizava o doente, deixando-o numa espécie de estado sonambúlico. Durante esse estado, o médico dizia ao paciente que ele não possuía o sintoma do qual se queixava. Ao restabelecer-se do estado hipnótico o paciente não mais apresentava o sintoma. A concepção que sustentava tal prática era a de que os sintomas histéricos eram devidos a “idéias dominantes” que “possuíam” o espírito do doente. Assim, a função do médico era a de apresentar ao pacientes idéias que suplantassem o poder das “idéias dominantes” patogênicas de forma a neutralizar o efeito das mesmas.

Posteriormente, tanto Freud quanto Breuer começaram a perceber que durante o estado hipnótico, os pacientes freqüentemente faziam referência a acontecimentos de seu passado e era comum que após tais relatos os sintomas fossem eliminados, sem qualquer interferência do médico. Freud e Breuer elaboraram, então, a teoria da “ab-reação” e com ela uma nova concepção etiológica da histeria. Essa teria sido causada por um trauma, sendo este um evento qualquer diante do qual o paciente não teria reagido adequadamente. A energia psíquica acumulada em função dessa reação mal-sucedida seria canalizada na forma dos sintomas. Assim, durante a hipnose, o paciente teria a oportunidade de acessar novamente as lembranças vinculadas ao evento traumático e reagir a ele de forma diferente. É essa reação retroativa ao trauma que Freud e Breuer chamaram de “ab-reação”. A tarefa, portanto, do médico, seria a de auxiliar o paciente, durante a hipnose, a rememorar os eventos traumáticos que deram origem a seus sintomas para que eles fossem ab-reagidos.

Duas constatações clínicas serviriam para distanciar Freud de Breuer, permitindo ao primeiro se tornar o inventor da psicanálise: a sexualidade e a resistência. Freud constatava em seus tratamentos que era bastante freqüente que os eventos traumáticos dos quadros de histeria estivessem direta ou indiretamente relacionados com conteúdos sexuais. Breuer não compartilhava do ponto de vista de Freud, considerando-o mera interpretação. Além disso, Freud observava que em diversas ocasiões o paciente não conseguia se lembrar de determinados acontecimentos relacionados ao evento traumático e, não raro, do próprio trauma. Como explicar isso? Seriam alguns histéricos portadores de lesões em áreas do cérebro responsáveis pela memória? Ou será que o esquecimento se dava em função do fato de as tais lembranças estarem relacionadas a um passado remoto, o que as tornariam menos facilmente capazes de voltar ao plano da consciência? Para Freud nenhuma dessas hipóteses fazia sentido. Aquele jovem médico vienense preferiu adotar o ponto de vista popular, personificado na suspeita da esposa de que quando o marido esquece seu nome ele está pensando em outra mulher. Para Freud, o histérico – mas não só ele, todos nós – nos esquecemos ou não conseguimos nos lembrar de determinados eventos simplesmente porque não queremos fazê-lo, porque não nos agrada lembrar, porque nos é penoso, porque nos envergonha ou porque queremos pensar em algo que nos dá mais prazer (como no exemplo). Ou seja, trata-se de um ato que pressupõe uma intencionalidade, ou, para usarmos um termo filosófico, pressupõe um sujeito, um sujeito que decide, que quer esquecer determinados fatos ou pensamentos de sua vida.

Para Breuer, isso era um disparate. Formado na tradição anátomo-patológica da medicina que, diante de um paciente, via um corpo, um simples organismo, o colega de Freud não podia conceber que dentro do paciente havia uma pessoa, um sujeito e, ainda mais, que tal sujeito fosse inconsciente! Para Breuer, os esquecimentos histéricos eram resultado do fato de que, na experiência do trauma, a pessoa não estaria plenamente consciente, mas num estado que hoje poderíamos chamar de “obnubilação da consciência”, ou seja, num estado semelhante ao estado hipnótico. Daí que a hipnose fosse reconhecida como a única técnica capaz de tratar a histeria, visto que aquela reproduziria no paciente o próprio estado de consciência em que o trauma foi gerado.

Se o paciente não conseguia se lembrar de determinados eventos, logo havia algo que o impedia de fazê-lo. Foi esse “algo” que Freud chamou de resistência. Note que com esse termo Freud avança no seu processo de descoberta do sujeito visto que torna-se preciso supor alguém que resiste. Além disso, o fenômeno da resistência acrescenta ainda outra pergunta ao processo terapêutico, pois o médico precisará saber não só quais foram os eventos traumáticos que provocaram os sintomas, mas também por que o paciente resiste a lembrar-se deles. É nesse momento que ocorre a virada do método catártico para a Psicanálise. O primeiro tinha como objetivo ocasionar uma ab-reação, isto é, uma reação retroativa a um evento traumático. Quando Freud se apercebe do fenômeno da resistência, as finalidades do tratamento passam a ser mais complexas, pois a ab-reação não coloca em questão as razões pelas quais o evento traumático foi deslocado para o campo inconsciente, ou seja, por que o paciente excluiu tais lembranças de seu campo de consciência.

Assim, o tratamento não é mais visto como um processo de desabafo, de explosão emocional tal como acontecia na catarse. Pensa-se agora numa estratégia de análise do psiquismo, de uma psico-análise, de uma psicanálise como aportuguesamos. O paciente agora não é mais convidado a submeter-se a alguém que escarafunchando-lhe as idéias permitir-lhe-á reagir de forma diferente a seu passado. Trata-se agora de chamar o paciente a tornar-se ativo nessa viagem para dentro de si mesmo. O médico (analista) passa a ser um mero instrumento para que ele (paciente) possa se escutar, coisa que não costumamos fazer cotidianamente…

E qual técnica Freud coloca no lugar da hipnose e da catarse? Entendendo que a resistência é um fenômeno advindo do eu da pessoa que olha para si mesma e emite um juízo de que determinadas representações não devem vir para o plano da consciência, logo, a melhor estratégia para conseguir ao mesmo tempo driblar e entender a resistência é solicitar ao paciente que tente ao máximo deixar de lado essa função egóica de julgar as representações que vem ao campo de consciência. Em outras palavras, pedir a ele que diga tudo o que lhe vier à cabeça. É o que Freud chamou de “associação livre”, mas que do original alemão poderia ser mais bem traduzido como “intrusão livre”, pois a idéia é justamente a de que o paciente não associe, mas que permita a entrada livre em sua consciência das representações que lhe surgirem.

Pois bem! Acompanhamos todo o processo que vai desde o encontro até a gestação que deram origem à Psicanálise. À guisa de conclusão deste primeiro texto introdutório, cabe-nos precisar as conseqüências da invenção da Psicanálise e do conceito de inconsciente para a história do pensamento humano. Você por acaso já se deu conta de quão estranha é a idéia de inconsciente? Provavelmente não, visto que todos nós já nascemos num meio sócio-cultural em que tal idéia já se tornou familiar. No entanto, não se enganem: ela é completamente subversiva! Haja vista que foi preciso pelos menos uns quatro milênios de pensamento humano para que alguém a sistematizasse. A idéia de que o que somos não se limita àquilo que pensamos que somos é bastante insólita. A maior parte da filosofia tal como a conhecemos se desenvolveu a partir da idéia básica e fundamental de que nós somos transparentes a nós mesmos, que não há nada de oculto em nosso ser. Foi Freud quem sistematizou essa constatação óbvia – e por isso mesmo difícil de ser vista – de que somos divididos; de que, como diz o apóstolo Paulo, não fazemos o bem que queremos, mas o mal que não queremos. Em suma, e para usar termos filosóficos, que o nosso ser nos ultrapassa, que não somos lá onde nos pensamos (como queria Descartes), pois onde nos pensamos (isto é, no inconsciente) não somos.

Lucas Nápoli

Rio de Janeiro, 12 de abril de 2010.


[1] Ainda hoje é utilizado no meio médico o termo “pitiatismo” paracaracterizar pacientes que apresentam sintomas indefinidos, sem base orgânica e que promovem uma dificuldade na elaboração de diagnósticos.

Por que Winnicott não aderiu ao conceito de pulsão de morte? (final)

No post anterior abordamos as razões pelas quais Freud se sentiu forçado a admitir a existência de uma pulsão de morte, as condições culturais que permitiram a elaboração do conceito bem como suas contradições internas. Aquilo fora apenas um preâmbulo para o que hoje pretendo expor com a intenção de responder à pergunta que efetivamente motivou este texto.

O que Winnicott trouxe de novo para a psicanálise?

Inicialmente, é preciso que o leitor ainda não versado no pensamento de D. W. Winnicott possa ter acesso aos pressupostos a partir dos quais o autor enuncia seu discurso psicanalítico. Tais pressupostos estão diretamente relacionados ao campo de atuação clínica ao qual Winnicott se dedicou durante toda a vida, a saber: a pediatria.

Ainda antes de empreender uma formação psicanalítica, Winnicott já atuava como pediatra, o que lhe permitiu ter acesso a um grande aprendizado acerca das relações entre os bebês e suas mães, saber que faltou a Freud. Winnicott precocemente notou que a mãe (ou outro responsável por cuidar do bebê) exercia um papel fundamental no desenvolvimento da criança, de sorte que se tal função não fosse exercida de maneira boa o suficiente a criança inevitavelmente não se desenvolveria a contento e teria no futuro patologias emocionais específicas.

Esse discernimento por parte de Winnicott acerca da importância da presença ativa da mãe no desenvolvimento do sujeito se colocava na via oposta à da tradição psicanalítica, a começar por Freud. Afinal, o pai da psicanálise elaborou a função da mãe não como ambiente, mas como o objeto libidinal primordial, objeto traumático, diga-se de passagem, pois deixaria como marca para o sujeito o desejo de retorno a um estado inicial de gozo excessivo.

Além disso, o entendimento de que o sujeito só pode se constituir a partir da presença suficientemente boa de um ambiente fez com que Winnicott se apercebesse de que o “eu” é uma função a ser desenvolvida, diferentemente de Freud que trabalhava já com a suposição de um sujeito na criança. Essas diferenças levaram Winnicott a encarar seu trabalho como uma espécie de complemento à teoria psicanalítica tradicional. Com efeito, considerava que o que descobrira no trabalho com bebês deveria ser visto no âmbito teórico como um estágio anterior ao da relação com objetos, fase que fora a principal fonte de investigação para Freud e seus discípulos.

No entanto, o que Winnicott fez de fato foi fundar um novo paradigma no interior da doutrina psicanalítica, com conseqüências teóricas e práticas muito específicas. Uma delas é a recusa do conceito de pulsão de morte.

Pulsão de paz

Ora, o cerne da noção de pulsão de morte, como vimos, está na idéia de que no indivíduo age uma força que o impele a um retorno ao estado inorgânico (morte) do qual ele seria proveniente. Winnicott contrapõe a essa tese dois fatos óbvios: o primeiro é o de que nenhum indivíduo orgânico surge a partir do estado inorgânico. Em outras palavras, só a vida é capaz de gerar outra vida. A título de adendo ao comentário de Winnicott, posso dizer que até mesmo as especulações freudianas que não fazem referência ao indivíduo humano, mas a organismos unicelulares não estão de acordo com muitos dos achados da física moderna que têm borrado cada vez mais as fronteiras do orgânico e do inorgânico a partir do estudo dos fenômenos quânticos.

Para Winnicott, a tendência de descarga total de tensões, que de fato pode ser verificada em nosso aparelho psíquico, não deve ser vista tal como Freud supôs como uma tendência para a morte, mas sim para um estado de coisas que mais se assemelharia à condição inicial do bebê no útero materno, isto é, um estado de total pacificação que não implica na ausência de vida. Aliás, as meditações e diversas técnicas orientais de concentração estão aí para mostrar que um sentimento de ausência de tensões é possível de ser alcançado sem que, para isso, não haja vida.

Desamparo e cuidado

O que levou Freud a incorrer no erro de supor que o que se visa nessa tendência geral de nosso psiquismo é a morte em si mesma e não simplesmente a paz foi, em primeiro lugar, sua concepção concernente às origens do sujeito humano. Para Freud, no princípio era a falta e o excesso. O bebê paradigmático do discurso freudiano é a criança que chora com fome, se lembra do trauma que foi ter nascido e por isso já sabe o que significa o desamparo; é amamentado pela mãe; junto com a satisfação de ter sido alimentado, sente um prazer erótico na mucosa da boca, ou seja, algo que se acrescenta à nutrição como um excesso; e vai passar a vida inteira buscando uma satisfação para esse excesso que nunca poderá ser levada a cabo. Em outros termos, para Freud o sujeito humano é, desde o início, um sofredor, seja pelo desamparo, seja pelo excesso.

Winnicott demonstrará ao longo de todo o seu percurso teórico que esse sofrimento só será fato para aquele indivíduo que em momentos anteriores ao bebê paradigmático de Freud não experimentou um ambiente suficientemente bom. Logo, para Winnicott, no princípio não era nem a falta nem o excesso, mas sim a harmonia existente entre o bebê e a mãe, advinda do estágio de dependência absoluta do cuidado materno que o bebê experimenta após o nascimento. Harmonia necessária para que o bebê possa constituir-se como um sujeito existente. É essa harmonia total, plena, que o vivente busca reproduzir e que Freud pensou tratar-se de uma procura da morte, justamente porque em seu esquema teórico tal harmonia não cabia no curso da vida, ou seja, só poderia ser equivalente à morte.

Desculpa para repensar o mal

A outra razão pela qual Freud caiu no engodo de confundir paz com morte foi o fato de que toda essa elucubração em torno do orgânico e do inorgânico era apenas um modo de Freud introduzir com uma retórica científica suas novas opiniões a respeito do problema da agressividade. Freud era um iluminista e, como tal, confiava nas luzes da Razão para dar jeito no mundo. Quando veio a guerra, a perseguição nazista e uma série de outras barbáries, só restaram a Freud duas alternativas: ou ele reconhecia que a Razão tal como havia sido formulada desde o Iluminismo estava equivocada ou mantinha-se firme em seu discurso racionalista e tentava explicar – pela via da própria Razão – o que havia acontecido. E foi essa a opção adotada pelo médico vienense.

Assim, para Freud, não seria a Razão que estava errada, mas sim os próprios homens e esses errariam porque dentro deles habitava uma pulsão de destruição que, em não matando eles próprios (masoquismo primário), mataria seus semelhantes ao ser deslocada para o mundo externo. Ou seja, Freud explicou a causa pelo efeito, como se dissesse: “por que os homens matam? Porque existe neles um impulso de matar.”. É, portanto, uma explicação que não explica, só adia o problema. E Freud de fato queria adiá-lo, pois para respondê-lo ele teria que colocar em questão a própria racionalidade moderna. O pai da psicanálise preferiu resignar-se e dizer em 1930 que o homem sofre um mal-estar crônico, irremediável, ocasionado justamente pela presença silenciosa da pulsão de morte em cada organismo.

A agressividade como defesa

Winnicott, ainda que não o soubesse, não tinha compromissos com a Razão iluminista. E é por isso que ele enxerga a insuficiência da explicação freudiana da agressividade pela da pulsão de morte. Para o pediatra inglês, em primeiro lugar não se pode dizer que exista no indivíduo uma pulsão de destruição autônoma ao lado de uma pulsão de vida. Seu argumento, embora não faça menção a nenhuma filosofia, é o mesmo que Sócrates utiliza na conversa com Mênon e que C. S. Lewis expressa em “Cristianismo puro e simples”: ora, ninguém busca o mal pelo mal, ou seja, é ilógica a existência de uma pulsão de destruição agindo no organismo de maneira independente da pulsão sexual, pela simples razão de que aquele que faz o mal, o faz porque o considera um bem, ou seja, a destruição constitui-se apenas como um meio para a realização de um fim que, do ponto de vista daquele que age, é um bem.

Winnicott indica isso demonstrando dois fatos: em primeiro lugar, o de que o que nós chamamos de agressividade ou destruição, no início da vida não é exercido com o objetivo de efetivamente destruir. Winnicott afirma que no início da vida o amor é marcado por uma voracidade tamanha que pode fantasisticamente ocasionar a destruição do objeto amado. No entanto, o que o bebê pretende é a incorporação plena do objeto, sendo a destruição apenas um efeito colateral do processo e não o que é originalmente visado. Aliás, assim que bebê se dá conta de que seu amor acabou por destruir o objeto na fantasia, ele experimenta pela primeira vez a sensação de culpa – é o que Winnicott, na esteira de Melanie Klein, chamou de posição depressiva.

Por mascarar essa dinâmica afetiva, o conceito de pulsão de morte pode ser visto como uma reificação da agressividade e, como tal, sem utilidade alguma. Ele impede que se veja as reais fontes históricas do comportamento agressivo como, por exemplo, a reação por parte do indivíduo a acontecimentos que quebram seu sentimento de continuidade do ser. Não há nenhum mistério nisso: Winnicott só constatou o fato óbvio – que Freud não quis ver pelas razões já expostas acima – de que nós nos tornamos agressivos por motivos específicos, pelas experiências de vida que nos forçam a adotar o comportamento agressivo como única forma de nos defendermos. E isso vale não apenas para o relacionamento entre indivíduos, mas também entre nações. Nesse sentido, o conceito de pulsão de morte se torna irrelevante, não é uma hipótese heurística, pois a explicação da agressividade está na história do sujeito. Uma suposta tendência inata para a violência é pura tautologia.

O que muda na prática

A guisa de conclusão, quero dizer que as diferenças entre uma concepção que postula a idéia de uma pulsão de morte e outra que não o faz não se dão apenas no nível abstrato da teoria, mas ensejam distinções importantíssimas na prática. Por exemplo, na análise do problema da crescente violência em nosso país, a aplicação da noção de pulsão de morte como hipótese explicativa pode acabar justificando condutas eminentemente repressivas por parte da polícia e da justiça: afinal, se o homem possui em si uma tendência natural para a violência, não há possibilidade de recuperá-lo, restando apenas o emprego de penalidades cada vez mais severas como forma de brecar o advento externo da pulsão de destruição. Por outro lado, se a agressividade é vista como um comportamento advindo de uma história singular, como uma defesa empregada pelo sujeito na condição de último recurso de enfrentamento de condições que se lhe tornaram adversas, a visão acerca da criminalidade é totalmente distinta da primeira: buscar-se-á em primeiro lugar compreender as origens da violência e, em compreendendo-as, buscar solucionar o problema (que, por ser histórico e não pulsional, pode ser solucionado) pela organização de uma ambiente suficientemente bom que possa fazer com que o sujeito não precise recorrer ao comportamento agressivo como defesa.

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Não pretendi aqui realizar uma análise completa das razões que levaram Winnicott a não considerar o conceito de pulsão de morte como útil. Ainda restam alguns aspectos a serem explorados, o que posso fazer na discussão com os leitores nos comentários ou em outra ocasião aqui mesmo no blog.

Por que Winnicott não aderiu ao conceito de pulsão de morte? (parte 1)

A partir de 1920, com a publicação do livrinho chamado “Para-além do princípio do prazer”, Freud introduz, ainda que, naquele momento, de modo meramente especulativo, um novo conceito ao edifício teórico da Psicanálise. De acordo com o médico vienense, tal conceito poderia servir como ferramenta de explicação de uma série de fenômenos com os quais vinha se deparando recentemente. Freud deu a ele o nome de pulsão de morte, o qual já foi explicado aqui mesmo no blog. Mas para aqueles que não querem ter o trabalho de ir até o link e ler toda a explicação, farei aqui uma breve síntese acerca da funcionalidade da noção de pulsão de morte para Freud.

Relembrando por que Freud inventou a “pulsão de morte”

Trata-se de uma engenhoca teórica relativamente simples e que se originou de uma suspeita de Freud em relação à validade da sua primeira explicação do aparelho psíquico como tendo uma tendência imperativa à busca do prazer e à fuga do desprazer (princípio do prazer). Com efeito, alguns fenômenos pareciam contradizer tal princípio como, por exemplo, (1) a chamada “reação terapêutica negativa” que consistia no fato de aparentemente o analisando não querer melhorar embora o analista estivesse trabalhando de maneira competente; (2) os sonhos de ex-combatentes de guerra que, em vez de realizar disfarçadamente seus desejos (como acontecia com a maioria das pessoas), revivia as imagens aterrorizantes do campo de batalha e (3) certas brincadeiras infantis cujo mote era a representação simbólica de uma experiência de sofrimento, como a ausência da mãe.

Todas essas experiências foram levando Freud a duvidar da força do império do prazer no psiquismo humano e a aventar a hipótese de que talvez esse império fosse, na verdade, a colônia de um império maior, cuja tendência não seria para o prazer (reequilíbrio homeostático), mas sim para a eliminação completa de todas as excitações, ou seja, para a morte. Seria isso o que tanto as crianças com suas brincadeiras “masoquistas” quanto os neuróticos de guerra e os pacientes que persistiam em seu sofrimento na verdade buscavam de maneira indireta: a morte.

Nesse sentido, o princípio do prazer ou, dito de outra maneira, o “princípio da vida”, seria um desdobramento secundário da pulsão de morte, resultante do contato do organismo com os estímulos do mundo externo. No entanto, como a pulsão original é a de morte, o organismo sempre tenderia, até mesmo utilizando o princípio do prazer, para o retorno ao estado original de ausência de estímulos. A vida seria, portanto, aquilo que durante certo período de tempo, seria capaz de resistir ao imperativo da morte.

Uma das condições para a existência da vida seria o deslocamento da pulsão de morte, originalmente voltada para o próprio organismo, para o mundo externo na forma de agressividade. No fundo, era esse o grande problema que Freud queria resolver: a agressão. Freud só conseguiu explicá-la através do conceito de pulsão de morte. Assim, desse ponto de vista, os homens se matariam porque possuem em si mesmos um impulso destrutivo, do qual determinada parcela é dirigida para o mundo externo.

Quando a morte ganha vida

Para que possamos entender a crítica que Winnicott fará à noção de pulsão de morte, é preciso que observemos que, no momento em que Freud a formula, a idéia da morte como um processo singular ou, em outras palavras, como um ente distinto da vida, já se encontra disseminada, de modo que o contraste entre vida e morte como duas coisas que podem ser diferenciadas por essência já era um pressuposto da elaboração freudiana. Se tal distinção já não estivesse presente na cultura européia do início do século XX, dificilmente Freud seria levado a cogitar a hipótese de uma pulsão de morte. De fato, anteriormente, morte significava simplesmente um ponto final da vida. Ora, o ponto final, no nível da linguagem, apenas sinaliza o encerramento de uma frase, mas em si mesmo não é nada. A partir do momento em que os primeiros médicos da anatomia patológica, cujo expoente maior foi Bichat, necessitaram distinguir no cadáver aquilo que era próprio da doença e aquilo que advinha do próprio processo de morte, se tornou necessário forjar a idéia de morte como oposta à da vida. Assim, enquanto a vida buscaria a organização, o desenvolvimento e a complexificação, a morte tenderia ao oposto: à desorganização, ao declínio das funções orgânicas e à regressão. Em outras palavras, a morte seria uma espécie de negativo da vida.

Viver para morrer?

Foi justamente essa sistematização do conceito de “morte” como ente e processo que ensejou expressões corriqueiras que utilizamos irrefletidamente como “Fulano está morrendo”. Essa frase, aparentemente banal, contém em si, de maneira implícita, uma negação: ao dizermos que o indivíduo está morrendo, estamos igualmente afirmando que ele não está mais vivendo, ou seja, que ele se encontra num outro regime de existência ao qual nós damos o nome de “morte” e que tem início, meio e fim! Ora, vocês hão de concordar comigo que se trata de um evidente paradoxo, pois só pode morrer aquele que está vivo, como me disse, certa vez, um sábio transeunte. Nós acabamos por dar vida à morte, ao ponto em que um pensador da envergadura de Freud se sentiu obrigado a postular a existência de uma verdadeira tendência natural para a morte!

Não sei se vocês, caros leitores, conseguem perceber a contradição, mas para mim é nítido, afinal, se há uma tendência para a morte, logo a morte é o objetivo, certo? Ora, quando se tem um objetivo, se o busca da maneira mais direta possível, concordam? Sendo assim, por que então a pulsão de morte enfrentaria a vida para se manifestar? A explicação de Freud é: a experiência com o Outro institui o princípio do prazer e a pulsão de vida, constituindo um adversário à pulsão de morte. Se aceitarmos essa réplica, caberia ainda outra indagação: se é, de fato, como o próprio Freud afirma, a pulsão de morte que, em última instância, governa os rumos do aparelho psíquico, por que razão ela não seria capaz de superar a pulsão de vida de maneira mais rápida e direta? Em outras palavras, a pergunta fundamental é: por que a morte precisaria da vida para morrer?

É óbvio que se trata de uma questão a que não se pode dar resposta alguma, pois sua própria enunciação é absurda. E é justamente essa contradição interna que será o ponto de partida da crítica que Winnicott fará à validade do conceito de pulsão de morte. Esmiuçaremos essa crítica no próximo post.

“E agora, José?” – Niilismo e fim de análise

Prólogo

No início do post “Como você lida com o seu passado? (parte 1)” eu havia prometido um segundo texto desenvolvendo, tal como naquele, algumas idéias que me vieram à mente no decorrer da leitura do texto “O niilismo e o problema da temporalidade” de Gianni Vattimo, que se encontra na coletânea de ensaios do autor intitulada Diálogo com Nietzsche. Tais idéias estabelecem alguns vínculos entre a Psicanálise e o pensamento de Nietzsche a respeito da história.

Naquele post fiz uma analogia entre os dois modos de encarar o passado postulados por Nietzsche (de acordo com a leitura de Vattimo), a saber: o que ele chama de “doença histórica” e o que seria a maneira autêntica de se lidar com o passado e dois momentos históricos da técnica psicanalítica, os quais acabaram por se converter em dois posicionamentos metodológicos antagônicos, de modo que ambos ainda se fazem presentes no contexto atual da técnica psicanalítica.

Hoje meu interesse é trabalhar o conceito central do ensaio de Vattimo, o niilismo, que, em Nietzsche, aparece como uma postura filosófica não-original, mas reativa, decorrente de um processo anterior caracterizado por certa desilusão. É precisamente nesse modo nietzschiano de encarar a postura niilista que enxergo uma associação com o tratamento psicanalítico.

De Hegel ao Eclesiastes

Na segunda parte de seu ensaio, Vattimo dedica-se a demonstrar por que Nietzsche concebe o niilismo como consequência da doença histórica. Essa, como vimos naquele outro post, consiste na adesão a uma das seguintes pressuposições: (1) de que a história contém em si um sentido, um fim, um propósito previamente definidos ou (2) de que a história é um imenso oceano de eventos transitórios no qual toda ação é pouco relevante ou significativa já que se constitui apenas como mais uma gota d’água dentre milhões de outras.

Por sua vez, o niilismo significa a postura filosófica e/ou existencial que nega a presença de qualquer fundamento ou valor na realidade. Em outras palavras, para o niilista não há nada (nihil) capaz de assegurar que um determinado ato é preferível a outro; todos os atos, todos os eventos, todos os acontecimentos se equivalem. O caro leitor provavelmente já experimentou momentos em que tal argumento se lhe apresentou à mente ou conheceu pessoas que já passaram pela experiência do niilismo. O que Nietzsche fará é uma espécie de análise psicológica das razões pelas quais esse tipo de posicionamento vem à tona na consciência humana. E o que ele conclui é que se trata do ranço de uma desilusão prévia.

Como Vattimo explica, Nietzsche percebe que todo modo de encarar a história baseado na idéia de que há um sentido por detrás dos acontecimentos que se processam ao longo da existência está fadado ao fracasso, pois a própria vida se encarrega de desmenti-lo. Hegel, por exemplo, construiu todo um sistema filosófico baseado na tese de que a história caminha inevitavelmente rumo ao saber absoluto, ou seja, ao momento em que nossa razão seria capaz de conhecer absolutamente toda a realidade. Diga-me, caro leitor, se você tem alguma dúvida de que Hegel deveria ser internado no hospício mais próximo?

Outro exemplo de concepção que admite a existência de uma ordem pré-definida ao mundo é a providencialista, presente na alma de muitos cristãos que entenderam equivocadamente a mensagem de Jesus de Nazaré. Crêem tais homens que Deus guia a história tal como um escritor de um romance. Nessa “obra” aqueles que seriam “de Deus” (os mocinhos) teriam uma vida agradável, cercada de benesses ao passo que os demais (os vilões) sofreriam as agruras da infelicidade. Evidentemente, o que pode resultar disso é apenas desilusão (vide, por exemplo, os lamentos de Salomão no “Eclesiastes”) e em seguida aquele célebre brado do homem de pouca fé: “De que vale ser bom?” – eis o niilismo.

Assim, a crença na providência ou numa ordem de sentido que guia a história, ao ser posta em xeque pela própria existência, gera outra crença: a de que não há nada capaz de funcionar como critério para nossas ações visto que, descortinada a ausência de ordem no mundo, nada há que possa fundamentar o agir humano. Ora, não é precisamente esse sentimento que acomete nossos analisandos já nas etapas finais de um processo analítico?

Da fé à liberdade

Se há um aspecto presente em todo aquele que busca a ajuda de um psicanalista, esse aspecto é a fé. Todo o nosso trabalho como analistas é o de colocar em questão essa fé. Fé em quem? No Outro. Sim, Outro com O maiúsculo, não o pequeno outro, representante de todos esses seres humanos com os quais o sujeito compartilha sua existência. O Outro em questão é esse precipitado maciço de falas do pai, da mãe, do irmão, do avô, da avó, da cultura. Enfim, é essa amálgama de saberes que vão se depositando ao longo da vida num imenso compartimento da alma etiquetado com a pergunta: “Quem sou eu?”. O analisando chega ao divã com a firme certeza de que aquele amontoado de entulho verbal que fora ali depositado responde efetivamente à pergunta que dá nome ao compartimento. Inevitavelmente, esse entulho não permanece imóvel, mas é organizado como uma historinha, de modo que cada fragmento vai se encaixando num romance trágico que passa a constituir o que o analisando irá chamar de “minha história de vida”. É por isso que se o analista não for competente, ele é facilmente enredado nesse romance, pois ele faz todo o sentido. Afinal, é construído justamente com essa finalidade: dar sentido.

Portanto, o analisando, tal como a consciência humana pré-niilista, adentra o dispositivo analítico crente numa pré-ordenação de sua história. Em decorrência, a tarefa do analista é fazer o papel que em Nietzsche é realizado pela própria vida, ou seja, o de demonstrar a falta de sustentação dessa história, deixando claro que não há nenhuma pré-ordenação, que o romance existencial com o qual o sujeito presenteia o analista não existiu desde o início, mas foi paulatinamente sendo construído.

Quando uma análise é levada até o fim, o que geralmente acontece é que depois de muitas idas e vindas, o analisando consegue ter abalada sua crença no Outro, reconhecendo que ele na verdade não existe como disse Lacan no final de seu ensino. Por outro lado, se o Outro não existe, se aquela pré-ordenação da história com a qual o paciente entrou em análise se mostrou construída, artificial, o que fazer? O que a partir de agora servirá como guia das ações do sujeito? Antes era o Outro; agora o sujeito conta com uma apavorante liberdade de movimentos, mas não sabe por onde começar e com base em quê agir.

Da queda do Outro ao imperativo da vida

Nietzsche dá a resposta: não há critérios transcendentais para a ação a não ser que os criemos como reação ao desespero da liberdade. O único critério é imanente, é a própria vida e aquilo que fortalece e aumenta a própria potência vital. O que a psicanálise faz é auxiliar o sujeito a demolir essa massa alienígena (alien=estranho, outro) que se impunha a ele como norteador de ações no lugar da própria vida. Assim, livre dessa história produzida como defesa, o sujeito se torna capaz de optar e de escolher aquilo que mais convém à sua potência vital, mesmo que seja um traço que outrora estava presente na amálgama do Outro. Desacreditado em sua função de eixo absoluto e pré-ordenador, o Outro passa a ser um mero referencial que pode ser descartado ou utilizado. A história agora é outra.

O que é princípio do prazer?

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O mito do brasileiro apolítico (final)

No post anterior me dediquei a descrever em que consiste o que aqui denomino de “mito do brasileiro apolítico” e a demonstrar porque ele constitui uma falácia. Só relembrando: o mito se refere à idéia enraizada no senso comum de nosso país que afirma que os brasileiros não se interessam por política. Fiz ver que essa idéia é falsa na medida em que ela se sustenta num uso equivocado da noção de política.

Hoje pretendo dar prosseguimento à minha demonstração respondendo a duas perguntas que certamente habitam o espírito do leitor mais atento: (1) Se eu afirmo que o brasileiro se interessa – e muito – por política, onde se manifesta esse interesse? Onde ele se transforma em ação já que não o é no terreno da política “standard”, isto é, no âmbito dos três poderes? e (2) Por que o exercício da política se dá nesses outros espaços e não no domínio tradicional?

Onde o brasileiro mostra que se interessa por política

Certamente o leitor já deve ter visto pela televisão ou quem sabe até tenha comparecido pessoalmente a um evento bastante peculiar ao nosso país e que recebe geralmente o nome de “manifestação de torcedores de times de futebol”. Um acontecimento desse tipo ocorreu recentemente após a eliminação do Corinthians da Taça Libertadores da América. Na ocasião, torcedores demandaram a saída de grandes nomes do time como o atualmente aposentado Ronaldo. Pois bem, a pergunta que eu lhes faço é: “Em que um evento como esse difere em seus elementos constituintes, em sua estrutura, de uma revolta popular com a que houve recentemente no Egito?”. Sem dúvida, a massa dirá: “Existe uma distância óbvia entre um acontecimento e outro: o primeiro não era importante, pois o que estava em jogo era apenas o desempenho de um time de futebol; já no segundo estava em questão o destino de um país.”

Eu concordo com a maior parte desse argumento. De fato, a diferença mais evidente e visível é que num caso se trata de uma agremiação esportiva e em outro de um país. Não obstante, discordo radicalmente da idéia de que um acontecimento é mais importante que outro. Do ponto de vista do observador externo, é óbvio que se fossem escalonados numa hierarquia de importâncias o desempenho de um time de futebol e o destino de uma nação, o último estaria acima do primeiro. No entanto, do ponto de vista de quem está inserido em ambas as manifestações o grau de importância dos motivos das revoltas se equivalem. Não é preciso uma pesquisa neurocientífica para verificar isso. Bastaria perguntar a qualquer torcedor do Corinthians que estivesse envolvido na manifestação se o que ele estava fazendo tinha tanto valor quanto o que os egípcios faziam do outro lado do mundo. É claro que ele diria que sim e ainda acrescentaria que o Corinthians, assim como o Egito, também é uma “nação”.

A nossa tendência ao observar esse tipo de manifestação – digo “nossa” porque me incluo de fato entre os que estão subordinados a essa tendência – é criticá-la e dizer que tais torcedores deveriam organizar uma revolta desse tipo não contra um time de futebol cuja performance não interfere demasiado em suas vidas mas sim contra os parlamentares que aumentaram em 60% seus vencimentos. Efetivamente, é impossível negar que um observador externo consideraria o Brasil uma nação esquizofrênica posto que enquanto os supostos representantes do povo aumentam o próprio salário criminosamente, esse mesmo povo, em vez de se insurgir contra tal situação, se revolta contra o baixo desempenho dos clubes de futebol pelos quais torcem! É ou não é incompreensível à primeira vista?

Sim, à primeira vista é mesmo impossível entender. Mas se colocarmos o povo no divã e analisarmos isso como um sintoma, rapidamente aquilo que era estranho e enigmático passa a ser visto como perfeitamente razoável. Façamos esse exercício.

Deslocamento psíquico e nomadismo político

Freud, desde o início de sua atuação clínica tratando de histéricas e neuróticos obsessivos, pôde verificar uma tendência bastante curiosa do nosso aparelho psíquico. È o seguinte: sempre que algum conteúdo psíquico (lembranças, fantasias, pensamentos etc.) se torna difícil de ser suportado, causando-nos desprazer, angústia, aflição, o nosso psiquismo emprega uma estratégia para que nós não permaneçamos sofrendo angustiados: ele desloca a carga de energia que a gente investia naquele conteúdo que nos causava sofrimento para outro conteúdo mais ameno, que pode até nos fazer sofrer também, mas será um sofrimento suportável, menor que o anterior. Assim acontece, por exemplo, com um obsessivo que não podendo lidar com a culpa que sente perante a idéia de um desejo de matar o pai desloca a energia vinculada a essa idéia para a idéia de que tem lavar as mãos de meia em meia hora. Essa última idéia, que agora aparece investida de energia, certamente o levará a ter grandes incômodos e desprazer; no entanto, nada que se compare à culpa por sentir desejo de matar o próprio pai.

Para quê toda essa digressão sobre o conceito de deslocamento em Freud? Abordei essa idéia porque ela me parece interessante para entendermos esse descompasso entre uma atuação incisiva (e política) de torcedores junto a seus clubes do coração e um parco envolvimento das pessoas com os temas da política standard como a questão dos salários dos parlamentares. Ora, do mesmo modo que a energia ligada a um conteúdo psíquico aflitivo pode ser deslocada para outro conteúdo com o objetivo de diminuir o sofrimento ligado ao primeiro, penso que o interesse e o engajamento políticos podem igualmente ser deslocados de um espaço para outro com vistas a certa finalidade que, nesse caso, não seria a diminuição do desprazer, mas sim a busca de uma polis, como mencionei no post anterior.

Essa analogia fica mais clara se ligarmos a noção de polis à de ethos (como sugeriu o colega Alexandre Brito). Com efeito, o termo ethos (que deu origem ao conceito de ética) denota, em grego, a idéia de “morada”, de “casa”, de “habitat”. Logo, quando dizemos que a atuação política se desloca de um espaço a outro em busca de uma polis, a idéia é de que o deslocamento se dá como estratégia para que o potencial político inerente à condição humana encontre uma morada, uma casa, onde seja possível um exercício efetivo da ação política. Aliás, o termo “casa” é bastante utilizado pelos parlamentares para se referirem à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal. É bastante provável que, com exceção deles mesmos, nenhum de nós se sinta “em casa” nessas casas. E é precisamente por não nos sentirmos em casa em relação a tudo o que está relacionado a tais casas que nós saímos, como nômades políticos, em busca de outras moradas…

É melhor ser torcedor do que ser eleitor

Nesse sentido, assim como a culpa do neurótico obsessivo em relação a seus desejos o força a deslocar a energia que neles investe para idéias obsessivas e atos compulsivos, nosso sentimento de impotência da nossa atuação política junto aos três poderes nos faz sair à procura de novos espaços para exercer a nossa potência política. E nós os encontramos: os nossos times de futebol são um exemplo desses espaços favoráveis. Nesse âmbito nossa atuação é reconhecida (Quem nunca ouviu dirigentes de futebol dizerem que o torcedor tem o direito de protestar, xingar e dizer o que pensa?) e, mais do que isso, ela gera efeitos, tem força: ficou nítido que a aposentadoria de Ronaldo foi precipitada em função da insatisfação dos torcedores em relação a sua atuação e, principalmente, em relação a seu peso.

Em outras palavras, é em espaços como a manifestação de torcedores que nossa potência política pode ser efetivada porque são nesses espaços que o brasileiro se sente “em casa”. O clube de futebol é seu ethos, sua polis, pois ali, como na ágora grega, o seu discurso tem valor, tem reconhecimento e, não raro, decide rumos. É justamente isso o que não ocorre no espaço da política tradicional. O sujeito observa a discussão sobre o aumento de salários dos deputados e pensa: “Pra quê eu vou me manifestar se a decisão ocorrerá independente da minha vontade? É melhor eu usar melhor meu tempo indo lá na sede do Corinthians, porque se a nação não quiser o Ronaldo não fica!”

 

O mito do brasileiro apolítico (parte 1)

Meu objetivo ao escrever este texto é bastante preciso. Tenciono demonstrar (no sentido filosófico do termo) que é falsa a afirmação facilmente encontrada no senso comum de que o brasileiro não se interessa por política. Defenderei – e mostrarei porque o faço – a tese de que o brasileiro, como qualquer outro homo sapiens, em qualquer lugar do mundo e em qualquer época, se interessa muito por política, por mais escandaloso que isso possa soar a ouvidos incautos. Minha caixa de ferramentas conceitual, como não poderia deixar de ser, será a teoria psicanalítica. Antes, porém, de indicar e explicar a falácia do mito do brasileiro apolítico é conveniente apresentá-lo.

O mito

O que eu estou chamando aqui de “mito do brasileiro apolítico” se fundamenta na idéia compartilhada pela maior parte das pessoas que ocupam o território designado pelo nome de Brasil e principalmente por aqueles dentre essa massa de pessoas que atuam em veículos midiáticos, de que o brasileiro via de regra não quer saber de política, que não busca se informar sobre o assunto e tampouco se engaja em atividades de cunho político.

Pois bem, a não-correspondência dessa idéia à realidade dos fatos se justifica precisamente pelo uso reducionista que aqueles que a enunciam fazem do termo “política”. Para esses, política significa apenas os acontecimentos que estão relacionados direta ou indiretamente às três esferas de poder constituídas em nossa república, a saber: os poderes executivo, legislativo e judiciário. Logo, quando se diz que o brasileiro não se interessa por política, o que se tem em mente é a cena clássica de um cidadão que abre um jornal qualquer nos cadernos “Brasil” ou “Política”, sente um assombroso tédio e rapidamente folheia o periódico em busca dos cadernos de “Cultura” ou “Esportes”, os quais, diferentemente dos primeiros, despertam-lhe um vivo interesse. À pergunta: “Nessa cena, qual é o problema? O caderno de política que não consegue fomentar no leitor interesse algum ou o próprio leitor que, por ser brasileiro, não se interessa pelo primeiro?” o senso comum não titubeia em responder com um irrefletido: “É óbvio que é o leitor”. Meu posicionamento é outro e o justifico exatamente por meio de uma crítica a esse uso padrão que fazemos da palavra política.

Não pedirei ajuda a nenhum filósofo para fazer essa crítica. Exporei aqui o que penso ser o significado do termo política não a partir de pré-concepções, mas com base na experiência. Certamente ninguém questionaria o fato de que a Revolução Francesa foi um acontecimento político nem tampouco o movimento mais recente que poderíamos chamar toscamente de “Revolução Egípcia”. Como também ninguém se negaria a admitir que o movimento negro nos EUA ou as marchas pela legalização da maconha no Brasil também constituem ações políticas. O que todos esses eventos têm em comum? É justamente a resposta a essa pergunta que, a meu ver, caracteriza a política. E ela tem a ver com a origem etimológica do termo.

Polis, território, Brasil

Eu sei, isso já está mais do que batido, mas nem por isso devemos nos esquecer de que a noção de política em seu sentido mais radical compreende um discurso acerca daquilo que acontece na polis. O grande erro do senso comum é acreditar que todos os brasileiros compartilham de uma mesma polis! Esse erro se baseia numa equivalência injustificada entre polis e nação, polis e estado e polis e município. Não é porque eu habito um país que ele funciona para mim como polis. Polis não é o mesmo que território. Há pré-condições para que possamos reconhecer um território como nossa polis e as duas principais são: (1) que possamos nos reconhecer nesse território e (2) que possamos sentir que nossa ação de fato interfere na dinâmica do território, ou seja, que temos a capacidade de transformá-lo. Caso tais condições não sejam preenchidas, o território acaba sendo apenas o local em que vivemos, sem nenhuma significação política.

Penso que para a grande maioria dos brasileiros é justamente isso o que acontece: não nos reconhecemos como membros de uma nação que se constitui efetivamente a partir de nós próprios. Provavelmente por razões históricas – as quais não tenho competência para delinear aqui – nos acostumamos a pensar que o Brasil tem um dono: o Estado. Daí a conotação de “realeza” com a qual muitas vezes investimos nossos presidentes. Subjaz em nossa percepção do país a idéia de que esse funciona de acordo com os caprichos de alguns seres misteriosos chamados “políticos” que de 4 em 4 anos se revezam no comando de acordo com mecanismos que desconhecemos, mas que, segundo a mídia, têm a ver com o voto. Ora, é uma grande falácia pensar que o voto, para a grande maioria do nosso povo, significa um “exercício de cidadania”, a “manifestação do que queremos para nosso país”. Não. O voto, para a maior parte de nós, constitui-se apenas como a obrigação de escolher a cada 4 anos os novos ladrões que vão mandar no país. Sei que muitos idealistas irão contestar veementemente tal assertiva, mas não me importo. Perceber as coisas não como elas são, mas como nós gostaríamos que elas fossem é a tendência natural do humano.

Concluindo

Creio, assim, ter demonstrado que se a tese de que o brasileiro não se interessa por política deve ser considerada como verdadeira, isso só é possível mediante o uso equivocado do termo política fundamentado na idéia de que o território que habitamos deve naturalmente ser visto como polis independentemente de qual seja nossa experiência para com ele. A partir desse ponto de vista, sim, é possível dizer que o brasileiro não se interessa por política. Mas se atentarmos para o fato de que nem o Brasil enquanto nação, nem os estados e municípios se constituem como polis para a maior parte dos brasileiros na medida em que eles não se reconhecem nesses territórios e não reconhecem o potencial transformador de sua ação nos mesmos, é absolutamente plausível dizer que o brasileiro não se interessa por essa política cujas notícias proliferam nos cadernos “Brasil” dos jornais e da qual ele não sente fazendo parte. Enfim, o brasileiro não se interessa por essa política, porque ela não lhe concerne, não o preocupa, no sentido winnicottiano do termo.

Mas há outras políticas nas quais ele se sente engajado, concernido e que atua com o mesmo espírito dos franceses em 1789. É preciso ter olhos para ver.

Que políticas são essas e como explicar esse descompasso entre o interesse por elas e o desinteresse pela política “standard” é o que veremos no próximo post.

CONTINUA…

Como você lida com o seu passado? (final)

Vimos no post anterior que, de acordo com Vattimo, Nietzsche põe em oposição dois modos de se lidar com a história. O primeiro, que ele denomina “doença histórica” é a forma tradicional com a qual a cultura ocidental sempre encarou o passado, qual seja, como um emaranhado de eventos que devem ser conhecidos objetivamente sendo possível, para algumas cabeças pensantes (como Hegel, por exemplo) encontrar nessa concatenação de acontecimentos um sentido, isto é, um devir que se processa tendo em vista um objetivo final. A esse modo “doentio” de pensar a história, Nietzsche apresenta sua própria perspectiva, a qual não concebe a história nem como uma “verdade factual” que gradualmente descobrimos nem como uma fábula com final feliz. A história, para Nietzsche, é puro devir e os acontecimentos que se processam nesse devir alimentos que podemos recusar ou nos apropriar deles tendo em vista o quanto eles favorecem a nossa capacidade de agir e criar a qual é justamente aquilo que resiste à “hitoricização”.

Um passado traumático

O exercício da reflexão me leva a pensar que o processo de desenvolvimento da Psicanálise enquanto método de tratamento das neuroses experimentou dois momentos que podem dispostos analogamente aos dois modos de se pensar a história propostos por Nietzsche. Ainda que você, leitor, seja apenas superficialmente versado na teoria psicanalítica, provavelmente deve saber que antes de inventar a Psicanálise com a ajuda de suas brilhantes professoras histéricas, Freud utilizava a hipnose como técnica de tratamento. Ora, em que consiste o procedimento hipnótico? Supõe-se que para que o paciente seja curado de seus sintomas atuais ele precisa ser levado a reencontrar-se com as lembranças reais de seu passado relativas a eventos que foram a causa dos sintomas. Ao recordar o que o levou a produzi-los, o paciente poderia retroativamente reagir de maneira distinta aos eventos em questão e abdicar dos sintomas. Com efeito, esses haviam surgido porque o paciente havia reagido inadequadamente àqueles acontecimentos.

O encontro de Freud com o não-histórico

Por que Freud desistiu da hipnose e deu um jeito de inventar a Psicanálise? Porque ele foi se dando conta que freqüentemente a técnica hipnótica fracassava e isso porque parecia haver um fator que dificultava o acesso às lembranças, um elemento que impunha uma resistência ao trabalho terapêutico. Logo, a estratégia de invadir o território inimigo à força bruta com o auxílio da redução do limiar de consciência precisava ser revista, pois fortes muralhas se formavam no meio do caminho. Era preciso elaborar uma estratégia que contemplasse essas muralhas. Nasce, então, a Psicanálise como um método que vai buscar justamente compreender isso que bloqueia o acesso do sujeito à sua própria história.

E, pasmem, isso que o bloqueia é a própria vida! Não é a pulsão de morte, como muitos pensam. O ser não quer morrer. Pelo contrário, quer criar, se expandir, agir e só se torna apático, retraído e doente quando essa é a única forma de se defender daquilo que “aprendeu” a encarar como um perigo maior. A resistência, portanto, é a manifestação da vida em nós que resiste contra aquilo que considera um mal maior do que a dor do sintoma. Nesse sentido, quando Freud se depara com o fenômeno da resistência o que ele encontra é precisamente o que Nietzsche define como vida, isto é, como impulso para a criatividade e a ação. Parece contraditório, pois nos acostumamos a pensar a resistência apenas como um fator que dificulta o trabalho de análise. Mas quero chamar sua atenção para o fato de que ela só é um obstáculo para o alcance daquilo que para o sujeito é um mal maior.

A “doença histórica” na Psicanálise

Assim, poderíamos ver a fase pré-psicanalítica de Freud, com o uso da hipnose, como sendo o predomínio da “doença histórica” nietzschiana. Nesse momento o que se busca é a verdade dos fatos, escondida nos porões mentais das histéricas. Pergunta-se ao paciente quando começaram seus sintomas, quem estava lá, o que aconteceu, enfim, o objetivo é fazer uma historiografia do doente. Quando a vida irrompe na cena na forma da resistência, Freud se apercebe que não é possível fazer uma remontagem fria e objetiva da história. Ele nota que há algo ali que opta, afirmando ou negando determinadas realidades e que é preciso encarar o passado do doente tendo como guia esse elemento.

Torna-se preciso entender por que a vida negou determinado acontecimento e hoje insiste em não querer afirmá-lo. Via de regra, é por medo que ela o faz, como defesa contra uma realidade angustiante e imaginariamente aniquiladora. É justamente por não levar isso em conta que a hipnose fracassa, pois sua prática pressupõe que o simples encontro com a história é suficiente para eliminar o medo; é o pressuposto de que a história sendo a verdade objetiva é capaz por si só de devolver a saúde ao sujeito.

Muitos analistas hoje dizem que fazem Psicanálise, mas fundamentam sua prática nesse mesmo pressuposto: para eles é preciso mostrar a qualquer custo “a verdade” ao sujeito sem qualquer tipo de acolhimento que possa permitir ao doente se sentir seguro para conseguir lidar com sua própria história, isto é, sem o temor de ser aniquilado.

O que essa “doença histórica psicanalítica” (parafraseando Nietzsche) gera são sujeitos que se dizem analisados e conscientes de sua própria história (como provavelmente atestou uma banca de “passe”) e que continuam como os mesmos sintomas com os quais iniciaram a análise. Eles dizem que tais sintomas são “irredutíveis”, expressam seu modo de se relacionar com o mundo. Na verdade, não se trata de nada disso. Em geral, foram maltratados por analistas defensivamente silenciosos e continuam com os mesmos medos, com as mesmas defesas e, por não terem sido tratados corretamente, encontram uma saída na positivação de seus sintomas, considerando-os não mais como problemas, mas como “estilo”.

Portanto…

O pressuposto de uma psicanálise cujo modo de encarar o passado fosse análogo ao proposto por Nietzsche deveria vê-lo não como “a verdade do desejo”, mas sim como uma série de afirmações e negações feitas pela vida. É dessa dinâmica que emergem os sintomas e para levar o paciente a abdicar deles (na medida em que eles constituem formas restritas de vida) é preciso supor que há uma potência de vida guiando o enfrentamento do devir. Essa potência, que Nietzsche denomina de “força plástica”, precisa ser tornada consciente e fortalecida. Só assim o doente estará seguro o suficiente para estabelecer uma relação saudável com seu passado.

Como você lida com o seu passado? (parte 1)

Esta é a primeira parte de um dos dois posts em que pretendo desenvolver algumas idéias que me vieram à mente no decorrer da leitura do texto “O niilismo e o problema da temporalidade” de Gianni Vattimo que figura na excelente coletânea de ensaios do autor intitulada “Diálogo com Nietzsche”. Pra variar, são idéias que buscam estabelecer algumas relações entre o que se encontra no texto e a Psicanálise.

Nietzsche e os dois modos de encarar a história

No início do ensaio, Vattimo aborda o conceito nietzschiano de “eterno retorno” (ewige wiederkehr, em alemão), seu caráter conceitualmente problemático e as diversas interpretações do termo pelos comentadores de Nietzsche. Antes de esboçar a sua própria interpretação, Vattimo faz um breve percurso pelo modo como Nietzsche encara o problema da temporalidade. É essa seção do texto que me serve de inspiração aqui.

Segundo Vattimo, desde seus primeiros escritos Nietzsche tece duras críticas ao modo como a tradição ocidental se acostumou a lidar com sua própria história, a saber: buscando fazer uma remontagem completa dos fatos ocorridos, como se fosse necessário desvendar o que aconteceu no passado em sua totalidade. A maior ilustração dessa tendência de “querer tudo saber”, cujo ponto de origem o filósofo localiza na figura de Sócrates, é o próprio surgimento de uma disciplina científica denominada precisamente “História” que se dedicará justamente a desenvolver métodos e teorias para o conhecimento o mais fiel possível do passado.

Para Nietzsche, esse desejo de produzir um retrato completo do que se passou constitui o que ele chama de “doença histórica”. Sim, doença, pois torna o homem menos capaz daquilo que ele pode fazer ao aniquilar sua criatividade. A investigação minuciosa do passado faz com que se perca a visão do possível na medida em que tudo o que poderia ser criado como novo passa a ser visto como mera reprodução daquilo que já ocorreu. Frente à grande massa do que já aconteceu, a ação que se processa no hoje em vista de um futuro perde em potência e em sentido, pois é encarada como mais um grão de areia na praia do tempo.

Por outro lado, a tendência de querer tudo saber pode levar também à suposição bastante comum de que tudo o que aconteceu, aconteceu em função de uma determinada finalidade: é a idéia de que a história possui um sentido e que, portanto, nossa ação não tem potencial algum de criar algo novo, pois o curso das coisas já se encontra pré-determinado.

Qual alternativa Nietzsche contrapõe à doença histórica? Qual seria o modo correto de lidar com a história na visão do filósofo?

Para Nietzsche a origem da resposta está justamente naquilo que não tem história, ou seja, no elemento que não muda apesar de todo o resto se transformar. Esse elemento é a vida. Nietzsche inverte os termos que foram conjugados na doença histórica. Para o filósofo, o Ocidente colocou a vida a serviço da história. Para Nietzsche o correto é que a história esteja a serviço da vida. E com o termo “vida” o filósofo quer expressar justamente o caráter daquilo que é vivo, isto é, a possibilidade de criação, de invenção e de reinvenção. A relação correta com o passado, portanto, é aquela que vê a história como um manancial de eventos cuja apropriação pode ou não fortalecer, expandir e facilitar a nossa capacidade de criar, de agir. Nem tudo o que aconteceu deve ser apropriado por nós, pois há eventos que limitam e reduzem a nossa capacidade de agir. Ou seja, o crivo para o que deve ou não ser apropriado é sempre a própria vida.

No entanto, para que se possa saber discernir o joio do trigo é preciso estar consciente da própria força da vida, que não muda e que ultrapassa a história. Quem não está consciente da vida não percebe que há algo não-histórico e é, assim, facilmente levado a desenvolver a doença histórica, ou seja, a pensar que é presa de um destino ou que sua ação não vale nada em vista de tudo o que já aconteceu.

O que tudo isso tem a ver com a Psicanálise? É o que veremos no próximo post.

CONTINUA…

Winnicott e o cristianismo VII – Da maturidade da fé cristã face à puerilidade do paganismo

À guisa de introdução a este ensaio, abordarei alguns pressupostos da teoria winnicottiana  já descritos nos outros textos, mas que aqui em especial terão uma relevância maior. O núcleo das teses inovadoras de Winnicott para a psicanálise pode ser definido como sendo a dialética entre dois pólos: de um lado a tendência inata ao amadurecimento, à saúde, ao desenvolvimento e de outro o ambiente que, em sendo suficientemente bom permitirá a atualização daquela tendência ou, em sendo insuficiente e invasivo, colocará obstáculos à potência inata, fazendo com que o sujeito tenha que criar formas reativas de adaptação ao ambiente, o que, em outras palavras, redundará em imaturidade.

O conceito de amadurecimento não tem absolutamente nada a ver com o sentido que essa palavra adquiriu no senso comum. O amadurecimento winnicottiano expressa exatamente o contrário de um controle dos impulsos e uma adaptação eficaz ao meio social, o que subjaz à idéia de maturidade no blábláblá cotidiano. Em outros termos, o indivíduo maduro para Winnicott não é o indivíduo careta, mas sim o sujeito que consegue ver sentido na vida e sentir-se criativo. Para alcançar essa maturidade, é preciso que a pessoa tenha experimentado suas tendências inatas dentro de um ambiente suficientemente bom que, como dissemos antes, possibilita a colocação dessas tendências em ato. Essas visam à realizam de tarefas básicas da existência que, se realizadas, terão como conseqüência a formação de um indivíduo maduro. Correndo o risco da simplificação, poderíamos sintetizar essas tarefas da seguinte forma:

 

1. Integração: capacidade que o bebê adquire de conjugar as diversas experiências pelas quais passa num mesmo contínuo, percebendo a si mesmo como uma mesma pessoa que experimentou diversos momentos e não como várias pessoas experimentando cada uma um momento diferente.

2. Personalização: capacidade de integrar suas vivências subjetivas à experiência do corpo, percebendo-se como estando inserido no corpo, o qual é limitado pela pele.

3. Experiência criativa do mundo: ao fornecer um cuidado suficientemente bom, a mãe atende satisfatoriamente as necessidades do bebê, fazendo com que ele tenha a ilusão de ter sido ele próprio a criar os objetos que lhes satisfazem as necessidades. O bebê adquire, portanto, o sentimento de que é possível criar um mundo.

4. Sentimento ético espontâneo: quando ainda não realizou a tarefa da integração, o bebê ainda não consegue reconhecer-se como a mesma pessoa nas diferentes situações. Por conseguinte, também não consegue perceber que não obstante as experiências mudem, o mundo permanece o mesmo. O mundo, no caso, para o lactente, ainda é apenas a mãe. Logo, o bebê que mama com uma voracidade agressiva não é o mesmo bebê que, saciado, desfruta do aconchego materno. Assim também a mãe que é “atacada” por aquela voracidade toda e que, por conta disso, acaba sendo “machucada” não é a mesma mãe que cuida, que lhe dá segurança. Essas duas realidades do bebê e essas duas realidades do mundo que é a mãe só serão integradas e vistas como duas facetas de uma mesma realidade após a conquista do estágio de integração. Quando isso ocorre, acontece uma espécie de insight na cabeça do bebê e ele então se dá conta não só da agressividade que o habita como também do uso que fez dessa agressividade contra a mãe que lhe aconchegava e lhe sustentava. Ocorre então a emergência do sentimento que Winnicott chama de concern, isto é, um sentimento de preocupação, de concernimento, de compaixão pelo outro que, no caso, é a mãe. Se essa mãe for suficientemente boa ela aceitará um ato de reparação que o bebê fará como forma de se desculpar pelos danos causados a ela nos momentos de voracidade.

 

Essa última tarefa é a mais complexa das quatro, mas também a mais instrutiva. Ela contextualiza de que modo o outro emerge na realidade da criança e evidencia a necessidade da separação entre esse outro e o bebê para a existência de uma relação de amor entre eles. É justamente em torno dessa separação que gira nossa analogia nesse momento.

A maior parte dos leitores e estudiosos de Winnicott tenta extrair de sua obra algumas conseqüências para o entendimento do sentimento religioso. E essa maioria é unânime em dizer que Winnicott propõe uma concepção imanentista da divindade, bastante comum nas religiões orientais. Deus não seria transcendente a nós, mas seria uma espécie de Alma Universal da qual somos partes, de modo que o verdadeiro exercício religioso seria uma conexão entre nós (partes) e Deus (todo). Para isso fazem uso de uma origem etimológica suspeita do vocábulo religião, que seria a palavra latina religare (religar). A verdadeira religião seria um religare com o cosmos, pois Deus seria o cosmos.

De que forma usam a teoria de Winnicott para justificar essa idéia? Simples: Winnicott não diz que nós só nos constituímos como pessoas em meio a um ambiente suficientemente bom? Portanto, há uma continuidade entre nós e o ambiente, de modo que nós não podemos ser vistos como separados dele. Logo, se quisermos pensar no tema da religião a partir dessas teses, Deus seria identificado com o ambiente e o homem com o bebê. Nada mais óbvio. É essa analogia que nos próprios estamos utilizando desde o primeiro ensaio dessa série. Deus é a mãe suficientemente boa. O problema desses intérpretes da obra de Winnicott é de identificar Deus à mãe anterior ao alcance da integração, ou seja, à mãe na fase de dependência absoluta, em que o bebê não consegue distinguir a si mesmo da mãe. É por isso que para esses intérpretes há uma semelhança entre a teoria winnicottiana e as religiões orientais. Se nessas o objetivo da existência é um religare ao Todo, analogamente em Winnicott isso se converteria num retorno à fase de dependência absoluta em que a individualidade do bebê não existe. É exatamente o apagamento da individualidade o que pretendem as religiões orientais.

O problema é que na teoria de Winnicott isso corresponde ao sentido diametralmente oposto ao da tendência inata ao amadurecimento. Amadurecer, na perspectiva winnicottiana, significa justamente tornar-se cada vez mais independente, singular, distinto do ambiente, ou seja, trata-se de um processo de individuação, para utilizar um termo de Jung, e não de uma desconstrução de uma individualidade para a integração no Todo. Portanto, associar as teses de Winnicott às religiões orientais é um procedimento radicalmente equivocado, a não ser que, à revelia dos textos do pediatra inglês, se diga que o sentido da vida é caminhar rumo à imaturidade, ao retorno à dependência absoluta.

Contrariamente a essa perspectiva, o Cristianismo não pressupõe um Deus imanente identificado a uma suposta Alma do Mundo. Na perspectiva cristã, Deus é uma pessoa, distinta de nós. Tudo está em Deus, mas Deus não pode ser reduzido ao Todo. Ele intervém no mundo, não é o Mundo. E é justamente por ser distinto de nós é que nós podemos amá-Lo e Ele pode nos amar, da mesma forma que o bebê só pode sentir compaixão da mãe e, portanto, amar a mãe, ao perceber-se distinto dela. O Cristianismo não postula a necessidade de integração com o Cosmos. Ao converter-se, isto é, ao adquirir a consciência do Reino de Deus, o homem passa a ter um relacionamento pessoal com Deus, um relacionamento de amor, em que Deus, tal como a mãe suficientemente boa que aceita o gesto de reparação do bebê e não se vinga da agressividade a ela dirigida outrora, perdoa o homem de seus pecados. No Cristianismo, contrariamente às religiões orientais, o sujeito é convidado a cada vez ser mais si mesmo no sentido de tornar-se cada vez mais impermeável aos condicionamentos externos, pois a Rocha que o sustenta (que é Deus) está dentro dele mesmo, de modo que, em sendo construída sobre essa Rocha, a casa do seu Eu não desabará mesmo que venha a enchente e a tempestade.

Isso não significa que para o cristão existe uma separação radical entre ele e Deus, do mesmo modo que não se pode dizer que o bebê após o reconhecimento da mãe como outro poderá viver sem seus cuidados. Jesus, ao subir aos Céus, disse que estaria conosco até o fim dos tempos. E ele está com o cristão o tempo todo através do Espírito Santo que é Jesus em nós e que faz com que nós sejamos Nele. O bebê também, para Winnicott, não se torna independente dos cuidados maternos mesmo quando já não é mais bebê e sim um adulto com seus 30, 40, 50 anos. Esse cuidado sofre um processo de incorporação pelo sujeito de modo que, mesmo não existindo como realidade exterior, ele funciona no mundo interior como fonte de segurança e de sustentação. Trabalharemos um pouco mais essa analogia no próximo ensaio.

Por ora, podemos concluir que, se para Winnicott a tendência ao amadurecimento caminha numa via que vai da dependência absoluta à independência, ou seja, é um processo de individuação, em absoluto se pode dizer que uma perspectiva winnicottiana para a religiosidade desembocaria nas religiões orientais para as quais o verdadeiro sentido da existência é precisamente o oposto, ou seja, a “desindividuação”, isto é, o apagamento de si mesmo para a integração no Deus-Cosmos. Se há uma fé cujos princípios são análogos ao processo de maturação winnicottiano, é a fé cristã. Pois se o bebê está amadurecendo quando se dá conta de que a mãe, outrora todo o seu mundo, é uma pessoa distinta dele, ao reconhecer a Deus como transcendente ao homem e distinto da Natureza, o cristão demonstra a maturidade da fé cristã face às religiões orientais. Um taoísta ou um budista é como o bebê de Winnicott na fase de dependência relativa (em que a mãe começa a falhar e o bebê começa a se integrar e se dar conta da realidade externa) que assustado e com medo de ser aniquilado deseja com todas as forças o retorno à fase de dependência absoluta em que ele e a mãe eram Um, ou seja, busca voltar a um estágio anterior do processo de maturação por não conseguir lidar com a angústia de ser si mesmo. O cristão, pelo contrário, é como o bebê que, ao contar com uma mãe suficientemente boa (figura da Graça de Deus) consegue enfrentar a angústia de ter que lidar com suas próprias carências e com a realidade externa. E só consegue isso porque não quer ser Um com Deus, mas por que tem Deus dentro de si.

Winnicott e o cristianismo VI – a gênese da moralidade e a ética cristã

Por que não fazemos tudo o que queremos? Essa questão, aparentemente banal e de fácil resolução, não obstante está no cerne das discussões concernentes aos domínios da moral e da ética. Poderíamos formulá-la em outros termos tais como: “Por que muitas vezes sentimos o desejo de agredir e até matar determinadas pessoas e não o fazemos?” Uma resposta que saltaria da boca de muitos seria a de que não realizamos tais atos porque em condições normais seríamos punidos, oficialmente pela polícia e/ou extra-oficialmente pela própria pessoa, por seus amigos ou familiares. Em suma, o que limitaria nossa ação seria tão-somente o medo da punição.

Essa é uma solução de fato plenamente plausível para o problema e ela era compartilhada por ninguém menos que o doutor Sigmund Freud. Com efeito, para o médico vienense, o conflito entre o que desejamos e o que devemos fazer estava na raiz de nossa estrutura enquanto pessoas; era, por assim dizer, o núcleo de nossa existência. Para Freud, o ser humano na origem é potencialmente capaz de realizar e fruir de todas as perversões existentes, das que já existiram e das que virão a existir no futuro. Essa é a tese que levou Freud a dizer que a criança é um “perverso polimorfo”. Isso significa que, sob a ótica do pai da Psicanálise, a moralidade e os princípios éticos teriam se desenvolvido como uma reação, uma defesa, uma tentativa de regular tanto nossa sexualidade quanto nossa agressividade. Em outras palavras, o homem inicialmente seria um monstro capaz de todas as atrocidades imagináveis, que posteriormente seria “amansado” e “controlado” pela instância moral. Mas não só por ela. Freud dá relevância também ao papel da própria realidade na regulação de nossas ações, visto que por vezes embora não estejamos sob a ameaça de uma punição moral, a realidade não nos fornece condições de realização de nossos desejos, como no caso de alguém que se encontra destituído de liberdade.

Para Freud, a primeira regulação que sofremos, isto é, a primeira concessão que fazemos à moral, abdicando de nosso desejo é a proibição de gozarmos plenamente, no sentido erótico, do corpo de nossa mãe. Como se sabe, o bebê não apenas se alimenta ao engolir o leite materno. Ele também se satisfaz com o prazer gerado a partir de seus lábios pela sucção dos seios da mãe, o que faz com que uma das facetas da mãe, para o bebê, seja a de um objeto sexual. Com o tempo, o bebê, ao explorar seu corpo, descobre que seu órgão genital também lhe proporciona prazeres análogos aos da sucção do seio. Logo, quem surgirá na mente da criança associado a esse prazer genital? Óbvio: a mãe. Não obstante, o bebê logo, logo, terá que se esquecer da mamãe e pensar na priminha ou na coleguinha da escola, porque no mundo dos adultos, ninguém pode desejar a própria mãe, pois a mamãe é do papai.

Da mesma forma se passa com a questão da agressividade. “Já que não posso ficar com a mamãe porque ela é do papai, então é simples resolver a questão: eu mato papai! Não, não posso? Por que não? Ah sim, porque no mundo dos adultos é proibido matar. Poxa, mas tudo o que eu quero é proibido!” Tanto a sexualidade quanto a agressividade são regulados, do ponto de vista de Freud, não por uma compreensão da própria natureza dos atos, mas por sanções que vêm de fora e que não explicam as razões das proibições, apenas apresentam as negativas “Não farás isso, não farás aquilo”.

Jacques Lacan, vendo o perigo que tal entendimento de Freud sobre a moralidade poderia gerar visto que se poderia pensar, como de fato se pensou, que já que é a moralidade que faz com que as pessoas não possam dar livre vazão a seus desejos, é só eliminar boa parte dos princípios morais que as neuroses serão bem menos freqüentes. Foi com base nesse tipo de pensamento que, principalmente nos anos 60, iniciou-se um movimento de liberalização sexual que, no entanto, não extinguiu as neuroses. Pelo contrário, foram gerados novos problemas como compulsões sexuais, promiscuidade e a conseqüente proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, entre as quais a AIDS.

Com vistas a impedir que movimentos como esse se dissessem baseados nas teorias da Psicanálise, Jacques Lacan foi obrigado a radicalizar os enunciados freudianos e dizer: “Olha, pessoal, Freud efetivamente disse que a moral limitava o exercício de toda a nossa potencialidade sexual e que muita gente que não dava conta de reprimir seus desejos acabava dando vazão a eles na forma de doença psicológica. No entanto, o que Freud realmente queria dizer é que nem se a gente acabasse com todos os princípios morais, nossa vida seria melhor porque a realização plena de nossa sexualidade é impossível. Sabem por quê? Por que nós somos seres que falam e vivemos num mundo onde tudo está sob o domínio da linguagem. Tudo tem nome e só sabemos o que uma coisa significa tendo em mente todas as outras palavras do mundo que se distinguem do nome da coisa em questão. Enfim, estamos todos alienados na linguagem. Logo, não temos como ter acesso à Coisa da sexualidade, só à sua representação. É por isso que mesmo não estando sujeitos a estatutos morais, nunca estaremos satisfeitos, pois estaremos sempre sujeitos à linguagem que, por sua vez, limita nossa percepção de nós mesmos. Assim, não é a moral que nos divide, fazendo que uma parte de nós deseje uma coisa e outra deseje atingir um ideal de moralidade. É a própria linguagem que, pelo próprio fato de termos um nome, faz com que nos distanciemos de nós mesmos.”

O que Lacan fez, portanto, foi dar um estatuto ontológico, estrutural, necessário às teses contingentes de Freud, pois podemos conceber uma sociedade sem o mínimo de estruturação moral como Sodoma, mas não há sociedade sem linguagem. É por isso que Lacan vai dizer que os dez mandamentos são as próprias leis da linguagem. Assim, não se trata de uma impossibilidade relativa, mas de uma impossibilidade lógica de satisfação plena. É por isso também que Lacan terá que conjugar o conceito de libido de Freud que, na obra desse último, fazia referência à sexualidade entendida não apenas como sexualidade genital e o conceito de pulsão de morte, a explicação freudiana para a agressividade humana, unindo os dois conceitos em um só: o conceito de gozo. Destarte, em Freud a moral regularia e limitaria a libido e a pulsão de morte; em Lacan, a linguagem limitaria o gozo. Daí a idéia de Lacan de que o sujeito se constitui no próprio ato de representar-se na linguagem o que demanda uma escamoteação da dimensão do gozo, o que em Freud equivaleria ao recalque.

Bem, será que as teses freudo-lacanianas seriam os únicos meios para se pensar as relações entre o homem e a moralidade? A meu ver não. Elas não são sequer eficazes. Basta observar que a conclusão a que se chega ao final da apreciação crítica dessas teses é de que, de fato, é impossível ao sujeito humano ser saudável visto que Lacan, ao dar um estatuto estrutural à teoria freudiana, encampando a moral à linguagem, acabou por dizer que o ser humano é natural e eternamente dividido, ou seja, é neurótico por natureza e não por contingência. Assim, o mundo seria dividido entre os mais e os menos neuróticos.

E ainda há outro inconveniente nessa concepção. Tanto Freud quanto Lacan nem chegam a discutir se os princípios éticos e a moralidade, exemplificados nos dez mandamentos, são úteis para nossa vida. Para ambos, eles não possuem significação em si mesmos, servem apenas para impedir que os indivíduos ajam de determinada forma. O que significa dizer que, para eles, não há uma tentativa nos princípios morais de modificar os anseios das pessoas, mas tão-somente limitar suas ações. Portanto, cabe aos indivíduos unicamente a tarefa de submeter-se aos princípios e não compreender a importância deles.

Ora, será que Lacan foi tomar o exemplo dos dez mandamentos por acaso? Por que ele não usou, por exemplo, a orientação de Cristo para não revidar ofensas? Justamente porque os primeiros de fato são dados por Deus via Moisés sem nenhuma explicação aos israelitas sobre o porquê de segui-los. A razão era unicamente a de obedecer a Javé. Tanto é que se você não obedecesse a Lei, ou seja, se pecasse, era obrigado a realizar um determinado ato reparador, como oferendas, sacrifícios etc. Ou seja, a resposta para a pergunta: “Por que não posso matar?” era “Por que Deus disse que não.” Ora, em Jesus vemos uma dinâmica completamente distinta. Cristo não deixou nenhum princípio ético sem explicar as razões pelas quais as pessoas deveriam segui-los. Por exemplo, quanto ao princípio de não revidar ofensas, o Nazareno é enfático em dizer que se deve agir assim porque Deus não se vinga. Ele não dá chuva, sol, alimento só para aqueles que o agradam, mas também para os que o ofendem.

Os mandamentos de Cristo são todos inteligíveis, o que faz com que a pessoa que os segue, faça-o de coração e não como mera obrigação como acontecia com a Lei de Moisés. Os judeus não sentiam e não sentem a Lei como um conjunto de prescrições que lhes possibilita ter uma vida melhor. Pelo contrário, sentem-nas como um peso nas costas. Justamente porque essa Lei me diz para eu não matar aquele pagão miserável que adora Baal e pelo qual eu nutro dia após dia um ódio imenso; que eu não posso pegar a mulher do meu próximo pela qual eu nutro intenso desejo; que eu não posso deixar meu pai na miséria, o mesmo pai que violentou minha irmã quando criança. Ou seja, a Lei de Moisés vai na direção oposta à da natureza humana! Ela impede justamente aquilo que eu tenho mais vontade! Por quê? Porque ela não muda o entendimento, exatamente porque não há justificativas para segui-las a não ser obedecer ao temível Deus Javé.

Os mandamentos de Cristo não pressupõem que o sujeito a eles se submeta sem pensar. Pelo contrário, é por entender que ao segui-los, se terá vida e vida em abundância é que o sujeito os cumpre. E vejam só: não é que Winnicott nos apresenta uma concepção sobre o desenvolvimento da moralidade no indivíduo que vai de encontro justamente à ética cristã?

Muitos analistas de orientação estritamente freudiana ou lacaniana volta e meia questionam à ala winnicottiana do ringue psicanalítico o fato de na teoria de Winnicott a figura do pai ficar um tanto quanto apagada. Até nos textos em que Winnicott aborda a função do pai, ele o faz associando-a a um papel maternal. Essa aparente elisão do pai no discurso winnicottiano não se deu por acaso. Também não se trata de um possível descuido de Winnicott em enfatizar demasiadamente a mãe e subvalorizar o papel do pai no desenvolvimento da criança. É que Winnicott não opera com a diferença clássica que Lacan herdou de Freud entre uma suposta função da mãe como objeto primordial do sujeito e uma também suposta função do pai como responsável pela incidência da Lei, da castração na economia subjetiva da pessoa. Winnicott não trabalha com conceitos como Nome-do-Pai, essa pequena massa lingüística que, segundo Lacan, seria o eixo organizador de nossa dimensão simbólica.

Para Winnicott mãe e pai são elementos que devem exercer uma função que está para-além deles, qual seja, a de proporcionar um ambiente bom o suficiente para que a criança possa desenvolver suas potencialidades. Às vezes a figura da mãe aparece supervalorizada no pensamento de Winnicott não porque é apenas ela quem pode fazer o papel de um ambiente suficientemente bom, mas sim porque no contexto cultural ocidental contemporâneo herdeiro da família tradicional burguesa o pai tende a assumir um lugar de distância dos cuidados e do processo de desenvolvimento da criança, exercendo o papel apenas de provedor e do último recurso reivindicado pela mãe para a correção dos filhos, o famoso: “Vou contar para o seu pai quando ele chegar”. Nesse contexto, é natural que imaginariamente o pai seja tomado como o veículo da Lei, afinal ele funciona nesse regime familiar como o “supremo tribunal federal” para a mãe. Essa por sua vez, fica a cargo sozinha da tarefa de facilitar o desenvolvimento dos filhos. Obviamente essa situação vem se modificando há algumas décadas – e é ótimo que se modifique; os filhos agradecem! Cada vez mais, os pais vêm se conscientizando do seu papel por assim dizer “maternante”. No entanto, ainda vigora lado a lado com essa versão pós-moderna o modelo tradicional em que o pai surge unicamente “para botar as coisas nos eixos”, do jeitinho que Freud e Lacan pensavam…

Por que fiz toda essa digressão quando na verdade deveria estar falando da moralidade em Winnicott? Justamente porque essa concepção do analista inglês sobre as funções de pai e mãe faz toda a diferença quando vamos investigar como Winnicott entende o nascimento da moralidade no indivíduo. Se não há de um lado uma mãe afetuosa cuja função é apenas a de gerar fantasias edípicas e do outro um pai castrador, cuja função é apenas a de “botar ordem na casa”, temos que, para Winnicott, a moralidade não nasce a partir de uma intervenção regulatória de uma Lei transgeracional. Para o pediatra, quanto a isso a Lei é supérflua. Dá quase para colocar as palavras do apóstolo Paulo na carta aos Gálatas na boca de Winnicott: “Olha, essa coisa de Lei é para imaturos. Imaturos é quem precisam de um tutor para dizer a eles tudo o que elas devem fazer. Nós cristãos, amadurecemos. A fé em Deus nos basta para que não façamos o mal.”

Winnicott vai dizer, com outras palavras, o mesmo conteúdo só que ao falar de teoria do desenvolvimento individual e não de cristianismo. Mas a idéia é a mesma: a Lei só é necessária para quem não contou com um ambiente suficientemente bom! E mesmo assim a Lei não resolve as coisas. Pelo contrário: ela piora (e os exemplos que Winnicott dá são ótimos: crianças “agressivas, “rebeldes” etc. A punição, ou seja, o exercício da Lei, não funciona para elas; o que elas precisam é de um ambiente que as acolha, que as entenda e que ajudem a elas próprias a renunciar à agressividade.). A graça cristã pode ser compreendida, assim, por analogia, através do conceito de “ambiente suficientemente bom”.

Para Winnicott, herdeiro do pensamento de Melanie Klein, no início da vida todos nós convivemos imaginariamente com duas mães. Sim, DUAS mães: uma que nos faz muito feliz ao nos amamentar na hora em que sentimos fome, aquela que nos dá carinho, aconchego quando sentimos que as coisas vão mal, que nos dá calor quando a temperatura começa a cair, enfim, aquela mãe que está na hora certa no lugar certo fazendo a gente se sentir plenamente satisfeito – essa é a mãe boa. Mas também há a mãe má, protótipo das bruxas e madrastas dos contos de fada: é a mãe que não vem quando a gente chora de fome, aquela que às vezes não nos dá toda a segurança de que necessitamos no momento, a que nos deixa assando ao demorar em trocar as fraldas, enfim, é a mãe que falha, que não aparece na hora certa, que demora, que mete os pés pelas mãos às vezes. Obviamente, trata-se de DUAS mães apenas na cabecinha maniqueísta da criança. Na realidade, as duas mães são de fato dois aspectos de uma mesma mãe, justamente porque é existencialmente impossível que se possa ser uma mãe totalmente presente e satisfatória o tempo todo. Mas o bebê ainda não entende isso e a forma dele lidar com essa angústia é cindindo a mãe em duas: uma boa e outra má, da mesma forma como nós, às vezes, imaturamente pensamos que as coisas não estão indo bem porque Deus está nos castigando e que quando as coisas vão bem é porque estamos fazendo tudo o que Deus quer. O modelo dessa cisão entre um Deus que pune e um Deus que agracia está aí no precoce maniqueísmo infantil.

Acontece que há ainda outro complicador. Pelo fato de mãe e criança estarem, nos primeiros momentos da vida do bebê, em um estado que poderíamos descrever como de contigüidade psíquica, a famosa “simbiose” ou díade de Françoise Dolto, o bebê não consegue se reconhecer como constituindo uma existência separada e distinta da existência da mãe, de tal modo que o que ocorre do lado da mãe é imediatamente repercutido do lado da criança. Portanto, se o bebê imagina existirem uma mãe boa e outra má, logo existirão um eu bom e outro mau. Essa correspondência entre os campos da mãe e do bebê se dá através dos mecanismos psíquicos que Melanie Klein tão brilhantemente descreveu, a saber a introjeção e projeção: a criança, ao mesmo tempo em que se reconhece a partir de características extraídas da mãe/ambiente, também expele para fora de si determinados atributos passando a reconhecê-los como sendo próprios da mãe. Há, portanto, um intercâmbio de representações e sentimentos contínuo entre mãe e bebê sem que as fronteiras entre um lado e outro sejam delimitáveis.

Ocorre, no entanto, que todos nós possuímos uma tendência inata para a integração, isto é, uma potencialidade a reconhecermos nossa identidade como algo inteiro, total, ainda que apresentando aspectos conflitantes. É a realização dessa tendência que faz com que possamos nos reconhecer como uma mesma pessoa ao longo do tempo. Quando as condições ambientais não são favoráveis a que tal potencialidade se efetive, surgem problemas da ordem da identidade como os famosos casos de psicose em que o sujeito possui o que se chama de “múltiplas personalidades” sem um eixo que as organize.

Para que a tendência à integração se torne ato, como já dissemos, faz-se necessário um ambiente suficientemente bom, o que, em termos práticos significa um ambiente que proporcione um mínimo de estabilidade de maneira a partir que o bebê reconheça que o “eu bom” e o “eu mau” são de fato um único eu. O que resulta dessa síntese operada dentro de um ambiente minimamente bom é o sentimento de responsabilidade que descrevemos no último post dessa série associando-o ao arrependimento cristão. O bebê percebe que as “más ações” vêm dele mesmo e não de outro eu.

Não obstante, como já vimos, nessa fase em que o bebê depende quase que absolutamente da presença da mãe, tudo o que ocorre do lado do bebê, apresenta uma correspondência, na vida imaginativa da criança, do lado da mãe. Assim, se há uma síntese do eu bom e do eu mau do bebê, haverá também, para a criança, uma síntese entre a mãe boa e a mãe má! E, vejam é justamente essa última síntese que, para Winnicott, marca o nascimento da moralidade no ser humano. Por quê? Porque a partir do momento em que a criança começa a reconhecer que a mãe má é a mesma pessoa que a mãe boa, ela se conscientiza de que todos os pensamentos, fantasias e ações agressivas dirigidas contra a mãe má, que frustra, que falha, eram também dirigidas contra a mãe boa, que gratifica, que alimenta, que dá carinho! Essa consciência, esse insight é um acontecimento de grandes proporções no psiquismo da criança, pois o primeiro sentimento que ele gera é o de culpa, afinal o bebê começa a perceber que estava agindo e desejando mal para aquele ser que ele mais amava! Melanie Klein, ao reconhecer a força do impacto dessa consciência na mente da criança, chamou a fase em que a criança tem essa constatação de “posição depressiva”, pois para a psicanalista o sentimento de culpa geraria um estado deprimido perene que, nos casos de melancolia (depressão) estaria exacerbado, mas que em todas as pessoas persistiria em maior ou menor grau em estado latente. Ou seja, para Melanie Klein, seguindo Freud, todos nós estaríamos condenados ao fado de carregar uma culpa latente que, por sua vez, geraria uma constante depressão também latente!

Winnicott não pensava assim. Para ele havia solução para o sentimento de culpa e a posição depressiva. E essa solução não passava, como queriam Freud e Lacan, pela incidência da Lei na subjetividade. Para o psicanalista inglês, nós nos livramos da culpa por termos ultrajado nosso maior objeto de amor, apenas pela consciência de termos feito mal a quem amamos. Parece tautológico, redundante, mas não é, pois a compreensão desse processo muda todo nosso entendimento da moralidade. No esquema tradicional freudiano, nós abdicaríamos de fazer o mal apenas para não sermos punidos pela Lei. Já em Winnicott, nós deixaríamos de fazer o mal por termos nos conscientizado de que, em primeiro lugar, ao fazermos o mal estamos agredindo a quem amamos e, em segundo lugar, que nós também temos o mal em nós (síntese entre o “eu bom” e o “eu mau”).

Ora, não é exatamente essa compreensão ética que Jesus nos traz em oposição à Lei judaica? Ele diz: “Olha, você não devem fazer o mau a seu irmão não porque a Lei proíbe mas porque seu irmão também é filho de Deus e Deus não deixa de fazer o bem a ele em nenhum momento não obstante ele aja mau.” E também através do mandamento “Faça aos outros o que você quer que façam a você”. Ao reconhecer que o “eu bom” e o “eu mau” são uma mesma pessoa, o bebê percebe que também é capaz de fazer o mal. Obviamente, ele não vai querer que lhe revidem o mal que fez. Assim, do mesmo modo, não irá retribuir ao ambiente o mal que esse possa ter feito. Além disso, ao reconhecer que a mãe boa e a má são uma única e mesma mãe, o bebê não mais a agredirá, não por obediência ao mandamento “Não matarás”, mas por compreender que ao agredir a mãe má ele está agredindo também a mãe boa. Assim também, o cristão não faz mau ao próximo por reconhecer que o próximo por pior que seja é tanto quanto ele próprio amado por Deus, de tal modo que se ele agride o próximo, por tabela ele está agredindo a Deus, justamente Aquele a quem mais ama. Da mesma forma, o cristão não julga o próximo pelo fato de reconhecer que ele próprio não é inimputável, por reconhecer que traz as potencialidades do pecado do próximo em si.

Winnicott nos fornece, portanto, com sua teoria do desenvolvimento da moralidade no homem a partir do relacionamento da criança com a mãe/ambiente, um modelo teórico que nos auxilia a compreender a ética cristã, o modo como o cristão lida com dilemas morais. Jesus bate o martelo e diz: “Olha, não importa o que dizem os outros mandamentos. Se vocês observar apenas esse: ‘Amarás a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo’ você não precisam mais observar nenhuma regra”. Agora substitua o termo Deus por mãe e você terá nesse único mandamento de Cristo toda a teoria do desenvolvimento da moralidade de Winnicott. O bebê, no estado de dependência absoluta, não só ama como tem a necessidade de amar a mãe sobre todas as coisas pela simples razão de que, naquele momento, a mãe é, de fato, TODAS AS COISAS para o bebê. Quem dera se nós agíssemos para com Deus como o bebê age para com a mãe, tendo-a como essencial para sua sobrevivência, sabendo que vive nela, com ela e para ela. Além disso, o bebê, como no mandamento, ama à mãe como ele mesmo justamente por reconhecer que não há diferença entre ele e a mãe. A partir do momento em que reconhecemos que entre nós e o próximo não há nenhuma diferença aos olhos de Deus, que independente do que ele ou nós façamos, todos estão marcados pela potencialidade do mal, do pecado e que todos são alvo da graça de Deus, que faz a chuva cair “sobre justos e injustos”, nós não fazemos o mal ao próximo, pois, com efeito, “com a mesma medida que julgardes sereis julgados e aqueles que tiverem misericórdia, alcançarão misericórdia”.

Certamente, muitos de vocês podem se perguntar “Mas por que Freud não pensava assim? Por que ele insistia na necessidade do superego e da lei (interpretação lacaniana)?”. Eu tenho uma hipótese: Freud não pensava assim porque era judeu, e porque como judeu, mesmo renegando a fé, ele não conseguia entender a novidade cristã. Por isso, ele não concebia que a moralidade pudesse advir desse processo de metanóia, de renovação do entendimento que o bebê experimenta no desenvolvimento e o cristão na conversão. Freud, como judeu, pensava como judeu, ou seja, que para que façamos o bem se faz necessária uma Lei que nos diga o que é o bem e como fazê-lo. Ora, não é exatamente isso o que fez Moisés ao proclamar para o povo a Lei?

O que faremos então? Ignoraremos Freud, reconhecendo-o como tendo uma concepção de moralidade caduca? De forma alguma! A concepção de Freud será sempre atual – e para a grande maioria das pessoas. Ela só não explica a ética cristã, o modo como os cristãos lidam com o problema da ética. No entanto, ela explica como todo o resto do mundo lida. Por que todo o resto do mundo só não faz o mal por obediência a leis. E não estou falando apenas da lei judaica ou das leis e códigos civis de direito. Estou falando também de leis filosóficas, sociológicas, políticas, religiosas. Tem gente que não faz o mal porque segue a ética de Aristóteles ou de Kant. Isso significa que a ética dessa pessoa está apartada da Lei? De maneira nenhuma. Ele só está seguindo uma lei diferente: a lei de Kant ou Aristóteles. É só a ética de Jesus de Nazaré a que traz uma libertação de fato de qualquer tipo de Lei. E a minha tese é de que a teoria winnicottiana nos oferece um modelo teórico de entendimento, uma analogia bastante útil para compreendermos essa libertação.

Mas Freud continua valendo para todos os não-cristãos. E é por isso que a psicanálise ainda faz sucesso e nunca será extinta. E é também por isso que a análise não funciona e é completamente desnecessária para um cristão efetivamente convertido. Mas quantos há que ainda não o são…

Winnicott e o cristianismo V – o arrependimento e a capacidade de se preocupar

Em algum post anterior havíamos dito que Winnicott assinala uma distinção entre dois aspectos da mãe na relação com o bebê. O analista inglês diferencia uma mãe-objeto de uma mãe-ambiente. A primeira seria a mãe que é vista pelo bebê como aquela que é ou possui o objeto de satisfação de suas necessidades. Freud considerava que esse era o único papel da mãe na relação com a criança, isto é, servir como um protótipo dos objetos de satisfação que o sujeito buscará posteriormente ao longo da vida. Já Winnicott vislumbrava outro atributo materno que é justamente o que ele denomina de mãe-ambiente, que visa dar conta do trabalho de sustentação e manejo que a mãe realiza para com a criança com o objetivo de facilitar o desenvolvimento de suas tendências inatas para a integração. Assim, temos que a mãe, ao mesmo tempo em que é o primeiro objeto de satisfação do bebê, é também o ambiente primordial que lhe permitirá sentir ou não confiança em si e no mundo ao longo da vida.

Winnicott estabelece essa diferenciação entre os dois aspectos da mãe em um texto, de 1963, chamado “O desenvolvimento da capacidade de se preocupar”. A palavra “preocupação” foi o melhor termo encontrado pelos tradutores brasileiros para expressar o que, em inglês, Winnicott denomina de “concern”. O problema é que “preocupação” possui uma conotação ruim, pois na raiz do termo está a idéia de se ocupar previamente de algo, amiúde em função de uma ansiedade, o que não tem absolutamente nada a ver com o uso da palavra concern por Winnicott. Talvez a melhor tradução para o vocábulo fosse “responsabilidade”, pois o analista inglês usa o termo para descrever o sentimento saudável que temos quando magoamos uma pessoa que gostamos ou quando cometemos algum tipo de má ação. Não, Winnicott não está pensando aqui em culpa, pois culpa seria justamente a faceta doentia do concern. Esse se expressa numa capacidade de se importar com o que aconteceu à pessoa a quem magoamos ou nos sentirmos responsáveis pelo nosso erro. A culpa, por outro lado, impede que nos responsabilizemos, pois dá origem a um martírio que faz com que o sujeito não se sinta capaz de reparar o mal cometido. A culpa sequer gera arrependimento.

Pois bem. Winnicott pretende, com o artigo de 1963, investigar como se forma essa capacidade de se responsabilizar, de se importar com as pessoas. Quem está acostumado com as obras de Freud e Lacan provavelmente teria a resposta para o questionamento de Winnicott na ponta da língua: “ah, é óbvio que o que gera a capacidade de se importar com o outro é a Lei ou, em termos da segunda tópica de Freud, o superego”. Responderiam assim justamente por considerarem como sinônimos responsabilidade e culpa e conceberem um modelo de relacionamento social em que a base é o sentimento de culpa. Basta verem meu texto explicativo sobre o superego. Lá eu demonstro explicitamente como o superego está na raiz do sentimento de culpa.

Winnicott, destituído dessa visão essencialmente judaica da existência, não está interessado em investigar como nos tornamos doentiamente culpados, mas, sim, como desenvolvemos nossa capacidade saudável de se preocupar com o outro. Sua pesquisa levará à relação da criança com os dois aspectos da mãe. Para compreender o que será dito a seguir, é preciso abordar um pressuposto de Winnicott a respeito do aspecto pulsional da criança. Para o analista inglês, ao contrário do que pensava Freud e Melanie Klein, o bebê não vem ao mundo dotado de uma pulsão de morte que, dirigida para o mundo externo, resulta em comportamentos agressivos. Para Winnicott, chamar de “agressivo” o comportamento da criança para com a mãe é uma imposição de fora baseada em comparações com atos intencionalmente destrutivos. Na verdade, a criança não tem o desejo de destruir. Ela nasce com uma potência, uma força de viver que se expressa numa voracidade na utilização do objeto de satisfação. Obviamente que quando se age com voracidade corre-se o risco de destruir o objeto. É como um jovem que há meses não vê a namorada. Quando a vê, quer beijar-lhe tanto e com tamanha força que acaba por machucá-la. É isso o que acontece com a criança em relação à mãe que funciona para ela como objeto ou como portadora do objeto que lhe traz satisfação (seio): o bebê quer tanto que acaba devorando-a, destruindo-a. Por outro lado, ele experimenta outro tipo de relação com a mãe, a mãe-ambiente, que é a mãe que oferece proteção e cuidado e é lembrada nos momentos em que a criança está satisfeita.

Gradualmente, à medida que a criança vai se desenvolvendo, ela começa a perceber que não são duas mães, uma que ela destrói e outra que cuida dela. Ambas são a mesma. É nesse momento em que “cai a ficha” da criança é que brota esse sentimento terrível chamado culpa. Ela começa a perceber que machucou justamente a mesma pessoa que lhe sustentou e que cuidou dela. Mas é nesse momento que a mãe vai exercer um papel fundamental para que a criança possa se libertar do sentimento de culpa: é o que Winnicott vai chamar de “sobrevivência da mãe”, isto é, a capacidade da mãe de mesmo agredida e machucada pelo bebê, sobreviver a esses ataques não limitando, por causa deles, o cuidado à criança. Essa capacidade de sobreviver sinaliza para o infante que a mãe nunca irá abandoná-lo. E é justamente isso que dá força e confiança para que a criança possa fazer o que Winnicott chama de “reparação”, isto é, uma tentativa imaginária de consertar o estrago feito na mãe. É nesse momento que a culpa se transforma no concern, na responsabilidade, na capacidade da criança de reconhecer o erro e se arrepender dele.

É impressionante a capacidade que Winnicott tem de descrever na relação do bebê com a mãe suficientemente boa a relação do homem com Deus. Vamos pensar por analogias. Como não se cansa de afirmar o apóstolo Paulo, para o cristão verdadeiro não há mais Lei, ou seja, não temos mais um tutor para nos dizer o que devemos e o que não devemos fazer. O amor de Deus que se desdobrou a ponto de morrer na Cruz em nosso lugar é suficiente para nos indicar como devemos agir no mundo. No entanto, toda essa liberdade, essa ausência de Lei, acaba sendo, para muitos, ocasião de sedução e é nesse momento em que aparece o abuso da graça de Deus. Já que não há mais Lei, “tudo me é permitido” como dizia o célebre ditado coríntio. Assim, o cristão vai e experimenta de tudo, confiando nessa falsa liberdade supostamente assegurada pela graça de Deus. Age, assim, como o bebê winnicottiano que, diante de um volumoso seio cheinho de leite, não consegue frear a vontade e acaba despedaçando-o, afinal o seio está ali só para ele, é a mãe quem o fornece – pensamento bastante parecido com aqueles que dizem que tudo é permitido, pois foi Deus quem fez…

Todavia, após algum tempo usando e abusando do mundo, assim como o bebê vorazmente destrói o seio, o cristão começa a se cansar do mundo e aí ele se volta para Deus, para o Deus “bonzinho” do Novo Testamento, que perdoa os pecados, que não se vinga, que estará conosco até o fim dos tempos. Assim também o bebê se conforta no colo da “outra” mãe, a mãe-ambiente que cuida e acolhe. E, assim como o bebê não percebe ainda que as duas mães são, de fato, apenas uma, o cristão não percebe que o uso e o abuso do mundo não prejudicam só a ele como indivíduo mas magoam a Deus pois aquela não é sua vontade.

Entretanto, assim como paulatinamente o bebê vai se dando conta de que machucou a mesma mãe que lhe conforta, o cristão começa a perceber que suas experimentações mundanas desagradam a Deus, ou seja, constituem pecado. A imagem mais ilustrativa desse momento de constatação é a do Rei Davi quando o profeta Natã, com uma história, lhe mostra seus pecados. Quando Davi se dá conta do quanto desagradou a Deus, desespera, se deprime, vai se sentar nas cinzas, usa pano de saco como roupa, ou seja, sente-se plenamente culpado, como o bebê que percebe que estava destruindo a mãe que lhe presta cuidado.

É nesse momento que a graça se mostra em toda a sua plenitude, pois, da mesma forma que a mãe sobrevive aos ataques do bebê, Deus não nos abandona, assim como não abandonou Davi fazendo com que de sua descendência viesse o próprio Jesus, assim como o pai do filho pródigo o acolhe com todo o amor, assim como Cristo não abandonou Pedro mesmo tendo esse o negado três vezes. E é justamente esse amor que sobrevive e não abandona que faz com que o cristão se arrependa e não queira mais pecar, da mesma forma que a criança se sente confiante pela sobrevivência da mãe para realizar um ato de reparação. O ato cristão de reparação é o arrependimento e a decisão de não querer mais pecar: é tudo o que podemos fazer e tudo o que Deus quer que façamos.

Winnicott ainda fornece um bom instrumento para identificarmos o cristão verdadeiro e o falso com sua distinção entre culpa e responsabilidade. Como vimos, a culpa antecede e, com a sobrevivência da mãe, se transforma em responsabilidade (concern). Essa transformação, porém, pode não ocorrer caso a mãe não sobreviva. Uma mãe insuficiente é assim: em vez de entender a voracidade da criança, ela reage, se vingando. Assim, a culpa permanece, pois a criança não se sente confiante para fazer o ato de reparação. O falso cristão, aquele que apenas usa essa alcunha, mas não nasceu de novo, não consegue ter fé na graça de Deus. Assim, permanece na culpa, pois julga que o arrependimento (reparação) é inútil, pois Deus não irá perdoá-lo. Como diria Kierkegaard, ele se acha singular a tal ponto que, com essa vaidade, não se atenta para o fato de que para Deus tudo é possível, ou seja, considera que seu pecado limita a potência de Deus – não há nada mais herético. O cristão verdadeiro, por outro lado, pela fé, confia na graça e na misericórdia de Deus e, por isso, se arrepende e decide romper com o pecado, justamente porque confia em um Deus que não o abandona. Conclusão: assim como a sobrevivência da mãe dá confiança para que o bebê faça o ato de reparação, assim também o amor de Deus constrange-nos ao arrependimento.

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Winnicott e o cristianismo IV – a mente e a teologia

A maior parte das considerações que farei na parte inicial deste post eu já a as fizera num texto anterior chamado “A mente em Winnicott” cujas duas partes podem ser acessadas nos arquivos do blog. Winnicott, ao contrário de toda uma tradição em que talvez Freud pudesse ser incluído, não concebe a mente como um espaço imaginário ou real que venha a ser preenchido com seus respectivos conteúdos, a saber: as idéias. Para Winnicott, a mente constitui-se como uma função, função intelectiva. Logo, sendo uma função, a mente não possui um estatuto ontológico, dado, como o corpo. Ela existe devido a necessidades advindas da relação do sujeito com o ambiente.

Também é preciso lembrar que Winnicott faz uma distinção entre mente e psique que, também na tradição psicológica, são tomados como sinônimos. Para o analista inglês, a psique consiste numa “elaboração imaginativa de partes e funções corporais”, ou seja, é um precipitado constituído de imagens derivadas da própria experiência do sujeito com o corpo. Na medida em que tal experiência se inicia primordialmente a partir de seu contato com a mãe, são justamente os cuidados maternos, concretizados em tarefas normais como o banho e a higiene do bebê que o auxiliam a entrar em contato com seu próprio corpo, conjugando a experiência sensório-motora com a realidade imagética dela proveniente.

Percebe-se, portanto, que a psique não está relacionada ao conhecimento no sentido estrito do termo. Em sentido lato, sim, pois se pode dizer que as imagens derivadas da experiência corporal constituem o próprio conhecimento imediato da realidade do corpo pelo bebê. Todavia, o conhecimento no sentido intelectual do termo compete à mente. A função mental, diferentemente da psique, não brota da vivência física, mas aparece, primariamente, em função da relação entre o bebê e o ambiente (mãe). Como vimos nos posts anteriores, em um primeiro momento, devido à satisfação plena das necessidades da criança pela mãe, o bebê não se percebe portando uma existência individual separada de um mundo externo. Naquele momento, tudo é sonho, todos os seus desejos são atendidos. Ora, num mundo como esse, que utilidade teria uma função mental que servisse ao bebê para conhecer e entender o mundo? Nós só buscamos conhecer e compreender a realidade quando ela não corresponde às nossas expectativas, justamente para que, compreendendo-a, possamos saber como agir para saciar nossas necessidades ou para que renunciemos de vez à esperança de fazê-lo. Portanto, num mundo em que todas as necessidades são satisfeitas, não há por que se esforçar por conhecer.

É exatamente por isso que a função mental nasce no momento em que a mãe começa a sair de seu estado de completa devoção ao bebê e esse começa a enfrentar pequenas – e necessárias – frustrações. Por conseguinte, é como se o bebê acordasse do sonho e tomasse contato com o real que ora é maleável ora não com suas expectativas. A saída encontrada pela criança é justamente a de tentar compreender por que o ambiente não mais lhe sacia exatamente na hora em que ela sente a necessidade. E essa compreensão passa pela identificação de possíveis comportamentos que podem fazer com que a mãe vem até ela, como o choro, por exemplo. Essa é a descrição de um uso saudável da função mental, ou seja, como um instrumento de compreensão do real.

Acontece que nem todos os bebês experimentam um ambiente suficientemente bom, regular o bastante para que ele consiga compreender seu fluxo e confiar na sua eficácia. Por exemplo, muitas mães são inábeis na identificação das necessidades da criança, não sabendo interpretar, por exemplo, quando a criança chora porque está sentindo cólica e quando chora porque está com fome. Assim, ao não se ajustar à necessidade da criança, a mãe torna-se invasiva e faz com que o infante não consiga compreender o ambiente. No entanto, ela (a criança) insiste em tentar entender e, como não consegue, faz uso de recurso bastante encontrado no meio universitário: inventa uma explicação. Sua tentativa de compreensão sai da imanência de sua relação com o ambiente e se converte numa forma de explicar o ambiente caótico gerado pelo comportamento imprevisível da mãe. O bebê, então, inventa razões. Talvez haja dias certos para chorar, dias em que a mãe ouve e dias em que a mãe não ouve – claro que essa é apenas uma hipótese, dada a impossibilidade de ter acesso ao pensamento da criança. Mas o importante a ser retido é que, reagindo ao ambiente desse modo, isto é, inventando explicações ao invés de compreendendo-o, a criança vai criando um padrão doentio de interação com o mundo, marcado por uma espécie de intelectualismo que, é claro, gerará excelentes ganhos secundários caso o sujeito se enverede pela carreira acadêmica. No entanto, para-além da academia, tal sujeito sofrerá imensamente, pois terá dificuldades para compreender sua interação com as outras pessoas e com a própria realidade, justamente por estar acostumado a uma vida teorizada e não vivida.

De que forma tudo isso está relacionado ao cristianismo? Vejamos: será que os fundamentos da fé cristã poderiam ser tomados como um ambiente suficientemente bom? Não entenderam? Vou explicar melhor: o ambiente suficientemente bom atende suficientemente bem as necessidades humanas de tal modo que permite ao bebê compreender quando e por que ele (o ambiente) falha. Sendo assim, será que poderíamos considerar a graça divina, o amor incondicional de Deus pelos homens, a morte de Deus na cruz para salvar o homem dos pecados como fatos facilmente palatáveis para o ser humano, ou seja, facilmente compreensíveis como o ambiente suficientemente bom?

É óbvio que não! Naturalmente tendemos a pensar Deus como um rei poderoso, onipotente, que não se curva a seus súditos, que, pelo contrário, exige que eles se curvem. Ora, como então poderíamos conceber facilmente que o rei, por amor a seus súditos, por querer fazê-los compartilhar de sua majestade, se transformasse por um tempo num deles e morresse da pior forma possível para salvá-los da perdição? É um paradoxo terrível, como dissera Kierkegaard. E, como também disse o pensador dinamarquês, o paradoxo aparece à razão como uma doença (pathos), como algo que deve ser extirpado.

É justamente nesse ponto que se inicia nossa analogia. Por que o bebê consegue compreender as falhas do ambiente? Será que é porque ele consegue descrever racionalmente para si mesmo o padrão de funcionamento das idas e vindas da mãe? Claro que não! O bebê compreende porque confia que a mãe não lhe desamparará. Trata-se, portanto, mais de fé do que de racionalidade. Da mesma forma, a único modo de o cristão compreender os paradoxos da relação do homem com o Deus e também da própria constituição divina (um único Deus que é pai, filho e espírito) só se dá mediante a fé – o que Kierkegaard também dizia.

O que acontece é que há uma classe especial de pessoas que se diz cristã ou pretende sê-lo e que, diante do paradoxo, não fazem uso da fé (pois não a tem), mas tentam utilizar a razão. Agindo assim, evidenciam que o paradoxo transformou-se para eles em escândalo. Todavia, ao contrário de outros que, escandalizados, abandonam de vez qualquer pretensão a compreender, essas pessoas, que vocês já devem ter percebido tratar-se dos teólogos, pretendem extirpar o escândalo, inventando explicações que não explicam. Por exemplo, por que simplesmente não crer que Jesus, o Pai e o Espírito Santo são um único e mesmo Deus, simples assim? Por que, em vez disso, postular que são três pessoas de uma substância que é a divindade e que, portanto, há uma homoousia (esse conceito arrogante) entre eles. Por que não considerar com simplicidade que, não obstante Deus seja onisciente, o homem possui liberdade para escolher e, em vez disso, perder tempo com querelas estéreis sobre determinismo e livre-arbítrio?

Poderíamos dar aqui inúmeros outros exemplos de “intelectualização” como forma de tentar apreender os paradoxos cristãos na teologia. Tomás de Aquino e todos os teólogos sistemáticos foram exemplares nesse quesito. Aquele, por exemplo, foi recorrer à filosofia aristotélica para explicar inexplicáveis, como a existência de Deus, a criação, etc. Ele próprio, no fim de sua vida, após uma experiência mística, reconheceu a inutilidade de suas teorias.

Portanto, assim como o bebê que diante de um ambiente insuficiente – que falha mais do que devia – inventa explicações que não explicam por uma dificuldade de compreender, assim também os teólogos que, como bem disse Lacan, junto com os psicóticos são os únicos verdadeiramente ateus, por não conseguirem, pela fé, ter acesso a um conhecimento imediato, intuitivo, não racionalizável, inventam teorias, sistemas e conceitos que não passam de masturbações intelectuais que agradam muitíssimo ao espírito, mas não explicam. E não explicam pelo simples fato de que não há explicação pela via da razão.

Vemos assim que Winnicott não só fornece um modelo de sujeito que comporta o cristão verdadeiro – o que não significa que tal modelo explique os paradoxos cristãos, mas que, como a função mental saudável, apenas ajuda a pensar sobre eles – mas possibilita pensar em questões periféricas ao cristianismo. Talvez não se trate de uma mera coincidência.

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Winnicott e o cristianismo III – a confiança no ambiente e a fé

De acordo com Winnicott, uma das condições básicas para um desenvolvimento psíquico saudável é a capacidade do sujeito de sentir confiança no ambiente. Por ambiente entenda-se o mundo e suas peculiaridades, ou seja, tanto o relacionamento com outras pessoas quanto com as coisas. Faz parte do ambiente também o que concebemos como nosso passado e nossas expectativas quanto ao futuro. Enfim, pode-se considerar o ambiente como a própria experiência de existir no mundo. E, para Winnicott, tal experiência tem que estar fundada numa confiança fundamental. Por quê? Ora, porque só estando dotado de uma confiabilidade na existência (ambiente) é que o sujeito poderá ser capaz de experimentar acontecimentos que lhe causam desprazer e apreensão, ou seja, acontecimentos que não correspondem a suas expectativas sem considerar que sua própria existência está em perigo. Em outras palavras, a confiabilidade dá condições para que o sujeito, diante das vicissitudes desagradáveis da vida, não se desespere. Por outro lado, é também essa confiança que permite ao sujeito se sentir relativamente feliz sem a necessidade de objetos e estímulos externos que lhe dêem prazer. Com efeito, a busca constante e compulsiva de coisas externas que nos proporcionem alegria, só revela o quanto estamos na dependência do mundo externo e não somos capazes de fruir felicidade a partir de nós próprios. Portanto, podemos dizer que a confiança no ambiente possibilita não só conseguir enfrentar as decepções sem desesperar quanto não ficar submetido às flutuações do mundo para se sentir feliz.

Vejamos agora como se produz essa confiança básica no sujeito. Como bem sabemos pelos posts anteriores, o foco maior de Winnicott é o bebê recém-nascido e é justamente nesses primeiros momentos após o nascimento que o analista inglês encontra as raízes da confiabilidade. Segundo Winnicott, a confiança (trust) é resultante da criação de um objeto bom na realidade psíquica do bebê. Caros leitores, prestem bastante atenção no que vou dizer sobre o “objeto interno bom”, pois será essencial na nossa analogia com o cristianismo.

Esse objeto bom que precisa existir no psiquismo do bebê é uma espécie de construção imaginária baseada nas experiências da criança com uma mãe suficientemente boa. Como vimos, essa mãe (que, repito, é a mais comum) é aquela que consegue atender às necessidades do bebê, ou seja, é aquela que fornece a contrapartida ambiental necessária para o desenvolvimento das tendências inatas do bebê.

Logo no início da vida, até por volta dos seis meses de vida, a mãe boa o bastante fornece um tipo de configuração ambiental para a criança na qual essa ainda não consegue reconhecer um mundo para-além dela. É como se o bebê, nesse momento, vivesse num mundo de faz-de-conta onde todos os seus desejos são atendidos. E isso acontece justamente porque quando a criança sente fome ou sede a mãe já aparece com o seio para lhe dar leite. É justamente por isso que a criança não tem consciência de que existe um mundo externo a ela, pois basta que ela sinta a necessidade de algo que esse algo aparece. Ela tem a impressão de que foi ela própria quem criou o objeto que a satisfaz. O que acontece com quem acredita que é onipotente, que pode criar coisas pela força de seu pensamento? Óbvio: sente-se confiante.

Gradualmente, o bebê sai desse estado e vai tomando consciência do mundo externo. Isso acontece justamente em função das pequenas falhas da mãe – como a demora ao fornecer alimento – que sinalizam pra criança que não é ela quem cria o objeto, mas que é o ambiente que lhe fornece. Todavia, o bebê só vai ser capaz de lidar com essas pequenas – e necessárias – falhas maternas sem se desesperar se tiver passado por aquela fase inicial em que tudo era sonho. Assim, é como se o bebê pensasse: “Ah, naquela época era só eu pensar que a coisa aparecia, agora não vai ser diferente. Pode até demorar um pouco, mas virá.”. Ela confia, portanto, na eficácia do ambiente.

Se a mãe for boa o suficiente, suas falhas não serão tão freqüentes ou tão intensas ao ponto de fazer com que o bebê ponha em questão a capacidade dela de fornecer o objeto de satisfação e, aí sim, considere que sua existência está ameaçada. Pelo contrário, ela falhará apenas o suficiente para que o bebê não se considere como onipotente e reconheça a realidade de um mundo para-além dele. Todavia, continuará gratificando o bebê. E é justamente essa repetição de gratificações o que fará com que o bebê construa em sua realidade psíquica a idéia de um objeto bom para onde se refugiar caso as coisas fiquem ruins. A partir de então, é como se o sujeito nunca mais se visse sozinho, pois “ainda se vier noites traiçoeiras e se a cruz pesada for” (como diz o poeta) ele sabe que poderá contar com esse objeto interno dentro de si, o que nada mais é, que a fé num ambiente que um dia não lhe desamparou.

Creio eu que os leitores mais perspicazes já perceberam as analogias com a fé cristã. Não lhes parece bem semelhante à fase de dependência absoluta do bebê, em que tudo parecia o sonho, em que seus desejos eram todos atendidos, o período da existência de Jesus na Terra? A própria descrição de Jesus a João batista deixa clara a analogia: “[…] os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, e a Boa Notícia é anunciada aos pobres.” (Cf. Lc 7, 22). Da mesma forma como as necessidades do bebê eram plenamente satisfeitas pela mãe, assim também as doenças do povo judeu eram curadas por Jesus, o que, num sentido mais profundo, corresponde ao atendimento feito pelo Cristo de uma verdadeira necessidade daquele povo (e de toda a humanidade) que era a libertação do pecado.

Vocês se lembram de que nesse momento de sonho da vida do bebê, ele se sentia onipotente porque tinha a impressão de que era ele próprio quem criava o seio que o alimentava. Na verdade, era a mãe que lhe dava o seio no exato momento em que ele o queria. Jesus, em alguns momentos, faz um papel bastante análogo ao da mãe que permite ao bebê se sentir onipotente. Para muitas pessoas que curou ele dizia: “A sua fé te curou”. Com isso Jesus estava dando um ensinamento importantíssimo que, infelizmente, a cristandade esqueceu. O Filho de Deus estava dizendo que a única coisa necessária para ser salvo (salvação que ali era personificada na cura da doença) era ter fé de que Deus era capaz de fazer aquilo. Nos termos de Winnicott, seria dizer que o essencial para que a criança recebesse o seio pelo qual ansiava não era o comportamento da criança, não era o fato de ela ser uma criança boazinha. Pois a mãe suficientemente boa não fornece a sustentação em função de como a criança se comporta. Pouco importa se a criança é chata ou educadinha. A maior preocupação (que nem chega a ser uma preocupação de fato, pois que é algo natural) dessa mãe é fornecer um ambiente suficiente para que o bebê possa se constituir como um indivíduo. Ela se interessa pela vida da criança.

Assim também Deus não nos exige que sejamos perfeitos para sermos dignos da salvação operada em Jesus. Ele, como uma mãe suficientemente boa, está interessado na nossa vida. Ele quer resgatar o máximo de vidas que puder da prisão do pecado. E essa salvação, como bem elaborou o apóstolo Paulo, é graça. Ganhar algo de graça é o mesmo que dizer que não se fez nada para ganhá-lo que foi puro dom de quem deu. Ora, não é assim também que faz a mãe com seu bebê? Ela vem de encontro no exato momento e espaço em que o bebê demanda o seio. Assim também Deus nos entregou seu Filho no momento certo para atender a nossa demanda de sermos libertos da prisão do pecado. E assim como a mãe faz o que faz naturalmente, por amor a seu filho, assim também Deus nos salvou gratuitamente, por amor.

E a fé? Pois bem, acabei falando mais da graça do que da fé, talvez porque tais coisas sejam indissociáveis. Pois, assim como o bebê só consegue ter confiança na existência e enfrentar as intempéries do mundo sem se abalar, sem desespero, se tiver experimentado um ambiente suficientemente bom, cujas falhas só o tornaram mais maduro, mas não foram capazes de fazê-lo se sentir em perigo, assim também o cristão só terá fé ao entregar-se à graça de Deus. Com efeito, ao entregar-se assim, o cristão é capaz de experimentar retroativamente o que sentiram os contemporâneos de Jesus, ou seja, a chegada do Reino de Deus e o perdão dos pecados.

Na entrega de si à graça, o cristão experimenta-se imerso numa plenitude tamanha que todos os acontecimentos externos, sejam alegres ou tristes, se apequenam. Ele não é mais submisso ao fluxo da vida visto que a casa de sua existência está fundada sobre a rocha que é o Cristo. Nesse sentido, podemos compreender o objeto interno bom de Winnicott como tendo um sentido análogo ao de Cristo para o cristão, pois o objeto bom é o porto seguro do qual o bebê se lembra quando o ambiente não corresponde a suas expectativas. Da mesma forma, Cristo é o fundamento que permite ao cristão caminhar ainda que “pelo vale tenebroso” e “não temer mal algum”. E, da mesma que é objeto interno bom que permite que o bebê se sinta contente mesmo na ausência de estímulos externos, é Cristo a fonte da felicidade do cristão, que faz com que ele não precise recorrer a prazeres efêmeros para se sentir alegre.

Tudo isso só evidencia que Winnicott, ao contrário de Freud, concebeu um modelo de sujeito que comporta o cristão verdadeiro, visto que, assim como para Winnicott o sujeito não se constitui de forma saudável sem a presença de um ambiente suficientemente bom que lhe faz sentir segurança e confiança na existência, também o cristianismo não concebe que o homem possa ser salvo por si só, sem a graça de Deus – fonte da fé.

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