O que é superego? (final)

Caro leitor, terminamos o último post com o vislumbre do avanço teórico-conceitual empreendido por Freud a partir de sua noção de superego. Dissemos que o ponto de partida foi o fenômeno da consciência moral, mas ressaltamos que a intenção de Freud foi trazer à luz um acontecimento psíquico bem mais complexo. É que o pai da psicanálise não estava interessado em descrever o óbvio. Pelo contrário, a teoria psicanalítica pode ser descrita como a tentativa de trabalhar o estranho, o insólito, aquilo que aparentemente é incompreensível. O conceito de superego se presta exatamente a essa função, a tentar explicar, por exemplo, porque uma pessoa não se permite vencer na vida, galgar postos mais altos ou porque alguém sofre de um imenso sentimento de culpa para o qual não consegue conceber razão alguma. Veremos isso, ao examinarmos como Freud articula as origens da formação do superego.

Todos vocês devem conhecer as linhas gerais daquilo que o médico vienense chamou de “complexo de Édipo”: na infância, meninos e meninas estão fortemente apegados à mãe e são obrigados a deixar esse estado de extrema satisfação pela interferência daquele que possui a mãe por direito: o pai. Pois bem, esse estado de coisas perfeitamente verificável em qualquer família, pode ser interpretado como a personificação da entrada da criança no mundo social. Ela deve abdicar de uma satisfação, acatar a lei que limita seu gozo e, como fenômeno colateral, passar a odiar aquele que encarna o papel de limitador.

Agora, imaginem que essa etapa fundamental do desenvolvimento da criança não termine nunca, que ela permaneça para sempre não mais como a relação da criança com os pais, mas como a relação da criança consigo mesma. É exatamente isso o que acontece. Após o término desse período da relação triangular pai-mãe-filho, na cabeça da criança começa a ser formado um personagem que vai passar a exercer a mesma função que o pai na realidade, de maneira tal que, mesmo na ausência do pai, o sujeito se veja limitado em sua satisfação com as coisas do mundo. Mais, e esse é o passo fundamental de Freud, esse personagem que surge na cabeça da criança – que vocês já devem ter percebido tratar-se do superego – adquire características muito mais cruéis que as do pai. Além de lembrar ininterrupatamente ao sujeito que ele não pode gozar de tudo, o superego vai culpá-lo por um dia ter gozado daquela mulher que só pertencia ao pai. Ou seja, o aspecto essencial do superego não é o de limitador, mas daquela instância mental que não nos deixa sentirmo-nos inocentes.

Por não compreenderem isso, muitas pessoas erroneamente dizem que Deus é uma personificação do superego. Se alguma selvageria analítica dessa pudesse ser feita (chamo de selvageria analítica essa bobagem de explicar a religião com conceitos psicanalíticos como Freud fez em ‘O Futuro de uma Ilusão’), o superego deveria ser identificado com o demônio, ou seja, como a figura que faz com que o fiel não se lance na graça do Deus que perdoa os pecados por constantemente fazê-lo sentir-se culpado pelas faltas cometidas.

É por isso que Lacan e Melanie Klein faziam questão de ressaltar a ferocidade do superego. Na sua eterna culpabilização do sujeito, ele faz com que muitos não se sintam em condições de usufruir da vida, pois cada pequeno gozo parcial passa a ser significado como uma rememoração do gozo proibido das primeiras relações com a mãe. E o ponto essencial é que tudo isso ocorre a portas fechadas, por trás das cortinas. No palco da consciência, o sujeito só se observa se estrepando na vida, se prejudicando tão logo conquista uma vitória ou contraindo dívidas. Há até aqueles que cometem crimes apenas para serem flagrados, irem para a cadeia e lá se verem finalmente recebendo a punição pelo incesto precoce com a mãe.

Portanto, caro leitor, esqueça essa versão aguada do superego que ficou pra tradição. Lembre-se do superego como aquela voz ameaçadora que no inconsciente diz: “Um dia eu fui seu pai, mas seu pai não pôde lhe castigar pelo enorme pecado que cometeu. Dormir no colo da própria mãe??? Só eu tenho esse direito. Por isso você vai se sentir culpado pelo resto da vida e nunca poderá vencer pois você não merece experimentar nem mais uma satisfação sequer. Acho que o melhor é você se punir, se castigar, pra ver se consegue expiar um pouco de sua culpa.”

Pra finalizar um conselho: converse com seu superego…

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9 thoughts on “O que é superego? (final)

  1. Qndo diz: “que não nos deixa sentirmo-nos inocentes.” eu me lembrei exatamente de Adão e Eva, qndo deixaram de se sentir inocentes ao comerem do fruto proibido. Neste momento eles ouvem Deus chamando e se escondem, pq ficaram envergonhados, perderam a inocência. Fico pensando se essa satisfação do desejo sem passar por um superego não nos levaria a morte, já q enqto houver insatisfação haverá um desejo a ser realizado e, portanto uma busca pela vida, enqto q morrer é o cessar de todas as insatisfações e, portanto de luta pela vida. Outro dia eu assistia num programa de TV, Por toda Vida, eu acho, e falavam da vida de Raul Seixas, cujas músicas me atraem, e acho q era um visionário, pois falava coisas no tempo dele que acontecem até hoje. Um amigo dele deu uma entrevista dizendo que ele, o Raul, não fazia “absolutamente” nada que não fosse da vontade dele, ou seja, ele só fazia o que queria. Tdo bem q nós muitas vezes achamos q sabemos o q queremos, mas colocando isso a parte, veja no q deu, ele morreu aos 46 anos de tanto beber, teve uma doença causada pelo excesso de bebida, pois segundo o que disseram os familiares no programa ele já estava alcólatra e não aceitava se tratar. Pode ser q eu esteja enganada, mas fazer só o que tinha vontade, parece ter o levado à morte e ainda novo. Ele mesmo disse numa entrevista, que a morte era algo que ele tinha repulsa, mas ao mesmo tempo, dizia: vem minha querida. Preciso dizer mais alguma coisa? rsrs…

    Talvez seja por isso que na bíblia diz, dentro de um contexto diferente, é claro, mas que ao meu ver se encaixa aki: “o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” Gênesis 4:7

    Vc pode até dizer que estou falando do ponto de vista de uma cristã impregnada de superego, mas nesse caso não se trata de um agir, ou pensar sem saber o pq, simplesmente a cumprir dogmas, pautado meramente na moral, mas num entendimento q eu diria, mais saudável, mais interessado na busca pela vida, pq é o que acho q Cristo queria para os filhos dele: “vida abundante”

    Desculpa aí se ficou parecendo um sermão tá!? rs…

    abraço

  2. Ádila, concordo inteiramente com você. Aliás, estou pensando em escrever alguns textos para mostrar como Freud apenas psicologizou algumas noções eminentemente judaico-cristãs. A idéia da pulsão de morte e seu correlato a compulsão à repetição, por exemplo, são uma articulação robusta da idéia paulina de que o salário do pecado é a morte.

  3. Rsrsrs Essa foi boa, Alisson! Mas não deixarei você sem resposta: para dialogar com o superego, primeiramente é necessário conhecer seu dialeto e só há uma escola que oferece um curso sobre essa língua. Ela se chama: psicanálise.

    Espero ter respondido! Grande abraço e apareça sempre por aqui e, sempre que possível, com boas perguntas, como essa!

  4. Me da uma ajuda aí o meu super ego tá me sufocando

  5. Procure a ajuda de um psicanalista aí em sua cidade, Dayvid!

    Forte abraço!

  6. Não entendi o porque “O futuro de uma ilusão” ser uma bobagem de Freud. Muito pelo contrário, é genial em cada detalhe produzido pelo autor.

  7. Olá Gledson! Considero este artigo um dos meus “textos de juventude”. Hoje também não acho “O Futuro de uma Ilusão” como uma bobagem completa, mas continuando achando muito fracas e banais as críticas que Freud faz à religião no livro.

    Obrigado pelo comentário!

    Grande abraço e continue acessando o blog!

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