As teses freudianas e a revelação cristã

A meu ver, é possível compreender as teses freudianas à luz da revelação cristã. O que Freud faz é descrever a vida daquele que o apóstolo Paulo chama de “homem velho”, homem que segundo o próprio apóstolo dos gentios é ainda prisioneiro dos “instintos egoístas”. Ora, o que seriam tais “instintos” senão a pulsão sexual de que fala Freud? Pois, para o pai da Psicanálise, a pulsão não possui um objeto pré-determinado, fixo. A única coisa que pode se dizer certa na pulsão é o que ela visa: a satisfação. A busca pelo apaziguamento do acúmulo gerado pela excitação pulsional é o elemento comum a todas as vicissitudes da pulsão. Foi também para a satisfação e o gozo do mundo que Deus chamou o homem à existência (Cf. Gn 1, 26: “Então Deus disse: ‘Façamos o homem a nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra.’”). É possível, então, pensar na hipótese de que enquanto o homem vivia na presença de Deus, em comunhão com ele – o que a Bíblia figurativamente narra como sendo a estada de Adão e Eva no paraíso – a pulsão não existia no homem, pois o próprio Deus era o objeto fixo e pré-determinado para o ser humano. A pulsão passa a existir justamente quando, por influência do diabo, o homem passa a se ver como distante de Deus e, por conseguinte, como menor do que Ele, pois é nisso que consiste a afirmativa da serpente de que ao comer do fruto da árvore do Bem e do Mal, homem e mulher se tornariam COMO deuses.

Para sustentar essa asserção, o demônio tem de lançar mão de duas premissas essenciais: a primeira é a de que o ser humano não é Deus. Essa postulação, por mais óbvia que seja, só adquire seu valor de uma humilde verdade, se for acompanhada de uma outra: a de que embora não sendo Deus, não estamos distantes dele. O diabo, não obstante, agrega a essa primeira premissa a idéia de que ser humano é ruim e que ser Deus é que é bom. Agindo assim, institui no coração do homem aquela que é a mãe de todas as invejas: a inveja da condição divina e, com ela, o primeiro reconhecimento da insatisfação. Até seu encontro com a serpente, o homem não se sentia insatisfeito, ou melhor, logo que os primeiros sinais de insatisfação brotaram em seu coração, Deus logo tratou de criar-lhe uma companheira. E esse estado de plena satisfação do homem não ocorria em função de uma possível cegueira humana para o que lhe faltava. É que a total comunhão com os desígnios de Deus lhe era suficiente (Cf. Gn 1, 31: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”). Essa abertura promovida pelo diabo entre aquilo que o homem é e o que ele poderia ser é o que os psicanalistas chamam de hiância, falta, furo, etc. Vejam bem que essa hiância não nasce com o homem, mas é fruto da influência diabólica que induz o homem a se reconhecer como não pertencente à comunhão com Deus e, pelo contrário, querer se tornar como ele. Essa etapa, coincidentemente, é contemporânea do nascimento do ego no homem. Ora, Freud intuiu muito bem que o ego não é nada mais que a estrutura mental que condensa os ideais de totalidade e perfeição que o sujeito não aufere na realidade. No mito do Gênesis, a representação do ego é justamente a idéia de ser como Deus. O grande logro do demônio é fazer com que o homem vá buscar no fruto da árvore do Bem e do Mal, aquilo que ele já possui, pois qual não seria a maior perfeição do que permanecer no amor Daquele que o criou, isto é, ser Um com Ele?

Percebam também que a falta, a hiância, não surgem em função da incidência da Lei como pensaram alguns freudianos mais apressados. Até porque, no mito bíblico, até então não havia Lei. Pode-se até pensar no mandamento divino de não comer do fruto da árvore do Bem e do Mal como uma Lei, mas ela só adquire esse sentido a partir do discurso da serpente que mente acerca das conseqüências de sua transgressão. O aspecto essencial, portanto, para o advento da falta é a perspectiva de uma condição melhor. Isso adquire maior relevância tendo em vista que a constatação do homem como faltoso servirá a muitos filósofos e teólogos como atestado da existência de Deus, pois se o homem se vê como incompleto, é sinal de que ele concebe a possibilidade de ser completo, que corresponderia à idéia de Deus que, assim, não seria apenas uma idéia.

Assim, quando o homem, por influência do demônio, promove a abertura de uma distância entre seu estado real e um estado ideal, entre ele e Deus, todas as suas tendências que encontravam satisfação no Criador e no mundo por ele criado passam a ficar à deriva, pois nada disso mais satisfaz. Eis o nascimento da pulsão. A partir de então, ou seja, ao se afastar da presença de Deus, o homem passará a se ver às voltas com a terrível sensação de estar insatisfeito (Cf. Agostinho, Confissões, I, 1, 1: “Criastes-nos para Vós, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós”) e de constantemente estar tentado a buscar satisfação nos objetos nos quais originalmente não deveria buscar, quais sejam, todos aqueles que a lei mosaica no Pentateuco interdita: animais, familiares, pessoas do mesmo sexo, etc. Como diz Paulo, a lei sistematizada por Moisés é uma manifestação patente do amor de Deus para com o homem, pois mesmo sabendo que o ser humano deixou voluntariamente de estar em comunhão com ele, Deus lhe dá um conjunto de prescrições para que mesmo estando fora de sua presença, ele possa caminhar de acordo com seus desígnios e viver uma vida feliz – é por isso que Paulo compara a Lei a um pedagogo.

O diabo, no entanto, aproveitou a existência da Lei para manifestar suas duas facetas: a de tentador (que já havia sido vislumbrada no princípio) e a de acusador. A de tentador é óbvia. Já a de acusador é análoga ao nascimento do superego, como já havia dito há dois posts atrás. O superego não existe para gerar responsabilidade, ele existe para eliciar o sentimento de culpa, para fazer com que o sujeito se martirize por ter transgredido a Lei. Como até o nascimento do Messias ainda não havia o Advogado (Paráclito), o diabo triunfava, subvertendo a utilidade da lei, como o próprio Paulo diz em uma de suas cartas. A entrada em cena de Jesus representa um passo decisivo nessa dinâmica, porque a fé em Cristo torna a lei mosaica desnecessária porque Jesus veio manifestar com sua morte a vontade do Pai de se reconciliar com o homem, isto é, de restaurar a comunhão que havia sido rompida lá no Gênesis, por influência do demônio. E o mais interessante é que Deus faz isso reconhecendo que após a saída de sua presença o homem se tornou falho e, portanto, não tem condições de, por sua própria força, alcançar novamente a comunhão com Ele. Por isso, Deus vem em socorro do homem não mais com um novo código de normas, pois Ele já viu que a lei acaba servindo para que o demônio escravize o homem. O Pai, enviando seu Filho como sacrifício para o perdão dos pecados, liberta o homem do pecado. Isso significa que o homem não vai mais pecar? Claro que não! Significa que ele já não é mais uma criança que precisa de um rígido conjunto de normas para evitar o pecado, pois esse passa a ser um acidente de percurso – perene, obviamente, mas que não precisa mais ser temido, pois há um Deus que perdoa.

Perceberam que nesse último parágrafo eu falei apenas de religião, sem nenhuma analogia com a teoria psicanalítica? Não é coincidência. É que Freud, de fato, não alcançou a novidade cristã, justamente porque, sendo judeu, ele sabia descrever perfeitamente bem a relação do homem com a Lei e o pecado, ou seja, a dinâmica de vida do homem velho paulino, mas não a do homem novo renascido em Cristo. Talvez a maior realização não só de Freud, mas de toda a Psicanálise, foi ter descoberto que há um judeu escondido em todos os homens.

Voltando ao assunto, para que a comunhão com Deus seja restabelecida, é preciso que o homem, em contrapartida ao amor de Deus, institua um novo destino para a pulsão: tomar Deus como único objeto e o amor a Ele e ao próximo como únicas finalidades. Sim, ao próximo, porque o rebaixamento divino em Jesus trouxe o Deus de volta à imanência (Cf. Mt 25, 40: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”. A partir de então, Deus não está mais distante do homem, mas se personifica em cada pessoa com a qual nos relacionamos. Esse novo destino da pulsão demanda um recolhimento de investimento libidinal de todas as outras coisas – é o que Jesus chamava de abandono do mundo. E é aí que a conversão beira a psicose, pois o que ocorre nessa psicopatologia, para Freud, é justamente o desligamento libidinal dos objetos e a introversão da libido para o ego. A diferença é que no caso da conversão, a libido se dirige para o Cristo e não para o eu. No entanto, se pensarmos como Agostinho, que concebia que Deus estava presente dentro do homem e, portanto, o afastamento de Deus implicaria um afastamento de si mesmo (Cf. Confissões, III, 6, 11: “De fato, tu estavas dentro de mim mais que o meu íntimo e acima da minha parte mais alta”), a distinção entre psicose e conversão deixa de existir. O próprio apóstolo Paulo ignora qualquer diferença (Cf. 1Co 1, 18: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.”; 1Co 1, 21: “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.”; 1Co 1, 23: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.”)

Só para fazer mais uma analogia com a Psicanálise, quando Freud elabora a noção de pulsão de morte e com ela a idéia de que o prazer não basta para o homem, que ele busca uma satisfação que vai mais além, Freud sem saber intuiu uma realidade espiritual. Pelo fato do homem um dia ter estado ligado plenamente a Deus, ao buscar se satisfazer através da pulsão com os objetos ilícitos do mundo (na linguagem freudiana, os objetos parciais), o homem procurará repetir aquela plenitude primeira e invariavelmente fracassará. No entanto, como o pecado produz prazer, o homem insistirá nele pensando que poderá, na repetição, alcançar a satisfação pretendida – eis a compulsão à repetição de Freud.

É evidente que as analogias feitas neste texto possuem pouco rigor teológico e suas limitações são bastante claras: são apenas tentativas de estabelecer continuidades entre uma teoria bastante eficaz da condição humana e a verdade sobre tal condição e a relação do homem com Deus. Penso ser lícito tal empreendimento uma vez que muitos pais da igreja, de forma semelhante, fizeram uso de sistemas filosóficos como o aristotelismo e o platonismo como ilustração de suas teses teológicas. A meu ver, Freud evidenciou toda sua genialidade ao destrinchar a vida psicológica do homem que ainda não alcançou a fé cristã.

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3 comentários sobre “As teses freudianas e a revelação cristã

  1. Como acontece frequentemente com aqueles que realmente pensam, seus melhores pensamentos, suas melhores idéias e intuições, aquelas que alçam vôos mais altos que a média e que, por isso mesmo, permitem enxergar mais longe ou pentrar mais fundo, acabam, num primeiro momento, saindo assim, meio “imperfeitas”. Inevitável, visto que normalmente essas coisas brotam de uma intuição brusca, fruto de uma longa ruminação, de uma inquietação que não pode parar por causa de qualquer pequeno detalhe que, diante do objetivo do pensamento, não pode ser outra coisa que desprezível.

    Por isso mesmo, entender, acompanhar tais pensamentos, por parte de outrem, exige primeiro desse outrem que tenha uma inquetação semelhante, um tempo de ruminação semelhante, mas, principalmente, capacidade semelhante. Assim, um teólogo qualquer, ou um psicanalista qualquer, simplesmente destruiria seu argumento, ao se concentrar nas imperfeições dos detalhes irrelevantes, e se servindo da inquisição acadêmica e dos métodos que empacotam o cérebro numa ciranda de sempre voltar ao mesmo lugar. Simplesmente porque um teólogo qualquer, ou um psicanalista qualquer, não tem capacidade de ver o que vc viu. Basicamente, porque tem olhos para não ver. Assim, se esforçam em impedir que outros lá cheguem, de inveja por não conseguir também ele lá chegar.

    Por isso mesmo não vou comentar cada frase, mas só o conjunto da obra, na esperança que meus comentários possam ser, se não um pequeno trampolim, que sejam pelo menos irrelevantes. E será bem sintético, pois é para vc, e não para os leitores do seu blog, logo, não preciso espichar demais.

    Em primeiro lugar, os mitos freudianos e os mitos do éden são os mesmos

    Vc tem no éden, o criador e a criatura (o sujeito e o Outro), o masculino e o feminino (a questão da sexualidade), e especialmente depois do pecado, o problema da vida e da morte (a teoria das pulsões). o bem e o mal…. etc… Ou seja, Freud e Moisés se debatem com os mesmos problemas, que, evidentemente, são centrais.

    Claro que tem detalhes interessantes. Por exemplo, vc já reparou que o texto bíblico é meio esquisito com essa estória da “árvore do meio do jardim”? Uma hora é a árvore da vida, outra é a da ciência do bem e do mal, e parece que as duas são uma, mas que são diferentes…. eu costumo pensar nelas em termos da relação entre o -phi e o “a”.

    Vc fala um mocado sobre a serpente tbm, e aí tem um detalhe interessante. Nas nossas traduções, a serpente faz uma pergunta pra Eva: “Deus disse pra vc não comer das árvores do jardim?” Porém no texto hebraico isso é uma afirmação: “ah, então adonai elohim disse para não comeres das árvores do jardim!”. Parece pouco, mas é muito. Imagine o adolescente que o pai dele diz: “vc não vai sair no carro hoje”, e aí ele diz pro amigo dele: “meu pai não me deixa fazer nada….”… Sacou? Deus disse para não comer da árvore do jardim, a serpente fez a eva pensar que isso era tudo! Quanto ao problema da lei, é bom vc pensar o seguinte: “crescei-vos e multiplicai-vos” já é uma lei! pense nisso…

    Mas, pelo menos em termos práticos e a curto prazo, o melhor de tudo foi a última frase: “Freud evidenciou toda sua genialidade ao destrinchar a vida psicológica do homem que ainda não alcançou a fé cristã.” Isso, é bom que fique claro, também quer dizer que: são poucos, muito poucos, os que, no mundo, alcaçaram a fé cristã.

    Posso lhe sugerir um filme? Se chama “PI”, a letra grega mesmmo, PI… 3,14159268….. a medida do semiarco de uma cirfunferência de raio igual a 1… enfim… assista esse filme: PI.

  2. Caríssimo RZ, como disse o Marcelo (pastor da minha sala) parafraseando um analista que falava sobre o Miller num congresso: por tua ausência tu te fazes mais presente.

    Em primeiro lugar, muito obrigado pelo comentário, um dos que ainda resistem à escassez neste blog.

    Vou começar pelo final: anotadíssima a dica do filme. Pela sinopse que vi na internet, entendi o porquê da indicação e já pude ficar ansioso para assistir.

    Concordo inteiramente contigo quanto ao número diminuto daqueles que conseguem alcançar de fato a fé em Cristo. Tenho conversado muito ultimamente com o Thalles sobre isso. Aliás, Jesus Cristo mesmo já havia profetizado que seriam poucos e qualquer ET que chegasse aqui na Terra e lesse a Bíblia acharia um absurdo a “religião cristã” ser uma das maiores do mundo… rs

    Essa questão da lei estar presente desde o início na forma do “crescei-vos e multiplicai-vos” já me atormenta a há muito tempo, pois ela deixa implícito que a transgressão também é original, ou seja, que se Deus não houvesse enunciado a ordem, provavelmente não existiríamos…

    Sobre suas demais colocações sobre as árvores do paraíso e da analogia entre os mitos bíblicos e freudianos eu me lembrava por ocasião da leitura de sua dissertação de mestrado. Aliás, foram justamente tais aspectos o que me fez abrir os olhos para as relações entre psicanálise e religião, uma relação que não se limitava ao momento débil mental de Freud em “O Futuro de uma Ilusão”.

    Agora sobre a possibilidade de que todos os meus argumentos possam ser meticulosamente derrubados por qualquer psicanalista ou teólogo, eu já a tinha em conta. Aliás, foi o que pesou na dúvida que antecedeu à publicação desse texto. Mas o que me fez avançar foi algo que eu já venho pensando há algum tempo. Obras como as de Freud, Lacan e a Bíblia são o que se pode chamar de peças originais de produção de delírios. O que quero dizer com isso? Que nego faz o que quer com tais livros, justamente porque eles dão margem a isso, principalmente o ensino de Lacan. Quantos zilhões de definições e conceituações de objeto a que já vi com contradições explícitas na comparação entre elas! São obras que por sua robustez e pretensão podem servir tanto para o democrata quanto para o désposta, para o comunista e para o capitalista. Foi por isso que deixei o receio de lado e expus o my point of view que, como os outros, é mais um point of view, com exceção do que ali se encontra sobre a Verdade.

    Grande abraço e apareça sempre!

  3. Achei ótimo seu ártigo Lucas. Quero fazer alguns cometarios a partir de algumas dúvidas que surgiram a minha mente após ler seu texto e postriormente seu comentário sobre o que o Rodrigo escreveu. Para Lacan existem três tempos do Édipo, no primeiro tempo não há falta, isso correponderia ao ego ideal, a criança é o falo, no segundo tempo nem a mãe, nem a criança o são, o pai é o falo, e no terceiro tempo nem o pai, nem a criança o são. A significação fálica é derivada da cultura. A lei e o Falo estão instaurados como estando acima de qualquer personagem. O pai passa a ser alguém que também não é o Falo, mas que suporta insígnias fálicas que, porém, não se confundem com ele. Em cada um dos tempos em que se dá metáfora paterna a falta é vivida de forma diferente. Na frustração a falta é vivida na ordem do imaginário (ser ou não), na castração na ordem do simbólico (ter ou não). A privação coloca a questão da falta na ordem do real, exigindo simbolização. O Falo simbólico, instaurado com a castração, é algo que se pode ter e perder, algo que circula, podendo-se recebê-lo e dá-lo; algo que pode ser substituído por outra coisa, já não havendo uma ordem fixa que define um sentido ou valor. Nesse sentido, “… é preciso renunciar ao que nunca se foi e ao que nunca se teve, mas que um dia se acreditou ser (frustração) e ter (castração) para que seja possível a simbolização do Falo como objeto de dom (privação)”Assim a passagem do imaginário ao simbólico caracteriza o momento em que ao sujeito é devolvido à sua condição de ‘faltante’ pelo corte que realiza a separação da identificação alienante. Ao ser colocado no campo do simbólico o ser humano terá que perguntar e responder por seu desejo para que possa advir como sujeito. O simbólico, como campo da linguagem, tem na pergunta pelo desejo e pelo sujeito sua centralidade. O desejo fica posto em relação com a falta constitutiva do sujeito, que consiste na imposibilidade de encontrar o objeto perdido com o qual pudesse obturar a falta, ficando a seu cargo encontrar, pela via da simbolização (metonímia), substitutivos para seu desejo. Essa passagem de modalidade do desejo só é possível com a passagem do imaginário para o simbólico. Para a psicanálise a palavra falta não indica para uma ausência contingente, mas para um aspecto central na condição do ser humano, que consiste na impossibilidade de completude e satisfação do desejo. Desta forma, a falta é de natureza estrutural e, como tal, estruturante da subjetividade. A Lei coloca o ser humano em posição de interditado ao seu desejo de junção com a Coisa e faz com que a relação com ela adquira um caráter desmesurado. A Lei produz um equívoco, pois sugere a possibilidade de superar a falta pelo seu cumprimento. A proibição efetivamente não é o que impede a junção, mas encobre sua impossibilidade. O Pai ocupa o lugar da Lei. A falta é instaurada pela função paterna No meu entendimento Deus não pode ser esse algo que me falta devido a transgreção, o pecado, a falta de comunhão e, por isso, nada, a não ser Deus, irá me completar, não creio que Deus nos complete ou preencha esse vazio que tem o tamanho de Deus, Deus não pode ser simbólico. Deus disse eu sou o que sou, essa enuciação traz uma alteridade radical, penso que a Lei já estava instaurada desde o: mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá”. A lei instaura a possibilidade, a sua condição de liberdade e, portanto, de transgressão da própria lei e, assim, faz dele um ser humano. Mas se, por um lado, a liberdade instaurada pela lei o arranca da necessidade, da naturalidade feliz do não saber, por outro, também não é absoluta uma vez que a liberdade absoluta seria a outra face da necessidade, seria a criação do mundo, da totalidade dos entes o que é apenas um atributo de Deus. Não entendo quando você diz que a Lei não produz a falta e que você e o Rodrigo dialogam quanto a Lei advir do mandamento: “Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra! Transgredir, nesse sentido, não seria a impossibilidade de nossa existência e não o contrario? Que bom encontrar seus textos e poder falar dessas coisas. Parabéns

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