A gente faz Psicanálise para se dar conta de que a nossa verdade se revela justamente onde não estamos acostumados a procurá-la.

Quem deseja se tornar analista precisa acostumar-se a olhar para aquilo que normalmente ignoramos.

É por isso que a experiência de ser paciente de outro analista é fundamental.

É principalmente ali, no divã, que percebemos o quão significativos são os atos falhos, os sonhos e os termos que saem de nossas bocas.

Para quem não está habituado a conversar com o Inconsciente, uma troca involuntária de palavras é apenas um errinho a ser desconsiderado.

O analista, contudo, dá valor a essa “pedra que os construtores rejeitaram”. Ele a considera como “pedra angular”.

Com efeito, o Inconsciente se revela justamente nas brechas inevitáveis do nosso discurso consciente e dos nossos comportamentos voluntários.

Assim, um simples lapso de fala ou de escrita é capaz de expressar, de forma truncada e condensada, intenções que não ousamos confessar nem para nós mesmos.

Mas para ser capaz de vislumbrar a verdade reprimida que se manifesta sorrateiramente em um mero errinho de digitação é preciso ter olhos para ver e ouvidos para ouvidos.


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5 estudos experimentais que comprovam descobertas psicanalíticas

Volta e meia reaparece no meio “psi” brasileiro a discussão acerca da cientificidade da Psicanálise.

Do lado dos psicanalistas parece haver um desconhecimento lamentável a respeito do que se concebe atualmente no campo psicológico como boa ciência.

Os detratores da Psicanálise, por sua vez, também evidenciam uma indesculpável ignorância em relação à literatura científica que tanto defendem.

É essa ignorância que os faz baterem o martelo e decretarem que elementos da teoria psicanalítica nunca foram “provados” por estudos independentes da clínica.

Então, para mostrar que essas pesquisas existem, apresento a vocês apenas cinco exemplos de estudos que comprovaram EXPERIMENTALMENTE hipóteses psicanalíticas.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje um vídeo especial em que comento detalhes dessas cinco pesquisas.

As referências dos estudos seguem abaixo:

Adams, H. E., Wright Jr, L. W., & Lohr, B. A. (1996). Is homophobia associated with homosexual arousal?. Journal of abnormal psychology105(3), 440.

Chivers, M. L., & Bailey, J. M. (2005). A sex difference in features that elicit genital response. Biological psychology70(2), 115-120.

Hunyady, O., Josephs, L., & Jost, J. T. (2008). Priming the primal scene: Betrayal trauma, narcissism, and attitudes toward sexual infidelity. Self and Identity7(3), 278-294.

Josephs, L., Katzander, N., & Goncharova, A. (2018). Imagining parental sexuality: The experimental study of Freud’s primal scene. Psychoanalytic Psychology35(1), 106.

Lambert, A. J., Good, K. S., & Kirk, I. J. (2010). Testing the repression hypothesis: Effects of emotional valence on memory suppression in the think–no think task. Consciousness and cognition19(1), 281-293.

Insônia: por que você não consegue desligar

Todo o mundo que possui um PC já passou por essa experiência:

Você tenta desligar normalmente o computador, mas o Windows não permite, acusando que ainda existem programas abertos.

Quando isso ocorre, você tem duas opções:

(1) Voltar à área de trabalho, procurar os programas que estão abertos e fechá-los ou…

(2) Desligar o computador à força, ignorando os aplicativos que não foram encerrados.

Tomar drogas para dormir quando se está com insônia equivale exatamente a essa segunda opção.

Provavelmente existem fatores orgânicos que contribuem para o fenômeno da insônia.

No entanto, do ponto de vista psicológico, o indivíduo que não consegue dormir está funcionando exatamente como um computador que não desliga.

E assim como o Windows impede o desligamento por conta dos programas abertos, assim também não conseguimos dormir quando insistimos em determinadas “pendências” psíquicas.

Psicologicamente, o sono representa a retirada do investimento de energia psíquica no mundo externo.

Em outras palavras, é como se, ao dormir, disséssemos: “Agora chega. Não quero mais saber das questões da realidade pelo menos durante algumas horas”.

Todavia, isso só é possível quando conseguimos fechar os “programas” abertos durante o dia para voltar a mexer neles apenas na manhã seguinte.

Se tais aplicativos não são fechados, o sistema simplesmente não desliga.

E aí boa parte dessa gente desesperada por não conseguir dormir acaba recorrendo a entorpecentes legalizados.

Essas drogas desligam o sistema à força, impedindo o sujeito de perceber os aplicativos que ele não deu conta de fechar.

Esses “programas” são, como eu disse acima, pendências psíquicas.

Podem ser, por exemplo, frustrações sexuais, preocupações com o trabalho, crises conjugais, problemas familiares etc.

Na maioria das vezes, temos dificuldade para detectar quais são os “programas” que não conseguimos fechar.

Por isso, é comum pessoas que não conseguem dormir dizerem que não sabem por que tem insônia, pois não ficam pensando em nada enquanto rolam na cama.

Normal… Admitir para nós mesmos que determinados programas estão abertos e não conseguimos fechá-los já é um desafio e tanto para nossos egos sensíveis…


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“A boca fala do que está cheio o coração.”

Esta é uma das diversas teses psicológicas de Jesus de Nazaré que se encontram registradas nos Evangelhos.

Ela aparece naquele que talvez tenha sido o discurso mais contundente de Jesus contra os fariseus, em que Ele os chama de “raça de víboras”.

Curiosamente, quando nos lembramos dessa frase “A boca fala…” nos esquecemos de que ela é a resposta da pergunta retórica que Jesus dirige aos fariseus nesses termos:

“Raça de víboras, como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”

Estou chamando sua atenção para essa questão porque ela evidencia um interessante alinhamento entre as concepções de Jesus e as da Psicanálise.

Com efeito, ao insinuar que os fariseus, sendo maus, não poderiam dizer coisas boas, Jesus está implicitamente afirmando que nós não controlamos nossa fala.

A conclusão “A boca fala do que está cheio o coração” é justamente um reforço dessa ideia.

Para Jesus, o Eu parece não ter autonomia completa sobre a fala. Por mais que tente controlar o que sairá de sua boca, no fundo é o Coração quem estará realmente no comando.

Ora, quem disse exatamente a mesma coisa, mas utilizando outros termos, foi o velho Freud.

A invenção da técnica da associação livre e, juntamente com ela, a ênfase na análise dos sonhos e atos falhos mostram justamente que, também para Freud, a verdade sempre escapa do controle do Eu.

Quando seguimos a recomendação freudiana e pedimos aos nossos pacientes que falem tudo o que lhes vier à cabeça, estamos atestando nossa confiança de que da boca deles sairá NECESSARIAMENTE a verdade.

Quando não tratamos um lapso do paciente apenas como um errinho irrelevante, mas o convidamos a interpretá-lo, estamos demonstrando nossa convicção de que… “A boca fala do que está cheio o coração”.

Ao perguntar retoricamente aos fariseus “como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”, Jesus estava sugerindo que existe uma correspondência entre o SER e o DIZER.

Em outras palavras, o que efetivamente DIGO atesta quem verdadeiramente SOU, ainda que “pelo meu muito falar” eu queira farisaicamente convencer os outros e a mim mesmo de que sou o que GOSTARIA DE SER.

Freud certamente daria like nessa “postagem” de Jesus.


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Independência absoluta não existe

Como hoje se comemora a independência da nação brasileira, creio ser oportuno falar sobre como a Psicanálise aborda a questão da independência individual.

Para Winnicott, podemos categorizar as fases do desenvolvimento humano em três grandes estágios: (1) a dependência absoluta, (2) a dependência relativa e (3) rumo à independência (toward independence).

No estágio de dependência absoluta, o bebê depende tão integralmente da mãe que sequer percebe que está sob os cuidados dela.

Nessa fase, as necessidades da criança são satisfeitas de forma tão oportuna que ela nem se dá conta de que há alguém lhe sustentando.

Já no estágio de dependência relativa a criança percebe que está sob os cuidados da mãe. E isso é possível porque, agora, a mãe não satisfaz as necessidades do bebê de modo sempre oportuno.

Assim, a criança “descobre” que a satisfação de suas necessidades sempre dependeu de outra pessoa.

Por outro lado, o bebê começa a desenvolver a sua capacidade de compreensão intelectual da realidade, o que lhe permite não só viver o que acontece consigo, mas SUBJETIVAR essas vivências.

A terceira e última fase é aquela na qual entramos ainda na infância por volta dos 3 ou 4 anos e permanecemos até o fim da vida.

De fato, a partir daquela idade vamos nos tornando cada vez menos dependentes dos cuidados do outro. Pense, por exemplo, na conquista de independência que a criança obtém quando consegue ir ao banheiro sozinha.

No entanto, essa independência permanecerá sendo sempre RELATIVA.É por isso que Winnicott não chama esse terceiro e definitivo estágio apenas de “Independência”, mas de “RUMO À INDEPENDÊNCIA”, indicando, assim, que se trata de um processo sempre inacabado.

Em outras palavras, sempre dependeremos dos outros em alguma medida. Pense, por exemplo, na dependência que temos, para nos alimentarmos, do trabalho de agricultores e caminhoneiros.

A vida adulta em comunidade é necessariamente um misto de dependência e independência.

Nas palavras do próprio Winnicott:

“A independência nunca é absoluta. O indivíduo normal não se torna isolado, mas se torna relacionado ao ambiente de um modo que se pode dizer serem o indivíduo e o ambiente interdependentes.”


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A gente faz Psicanálise para recuperar, com o apoio do analista, a segurança que precisamos para enxergar o avesso de nós mesmos.

Quem faz Psicanálise sabe que passar por esse processo muitas vezes não é fácil.

Somos convidados pelo analista a olhar para dimensões do nosso ser que não gostaríamos que existissem.

Aliás, a gente adoece justamente por passar a vida inteira querendo fugir dessas regiões incômodas do nosso mundo interior.

Na análise, somos levados a visitá-las e reconhecê-las como legitimamente nossas.

Essa viagem, como eu disse, não é fácil. E é por isso que precisamos fazê-la muito bem acompanhados.

O analista não é só quem nos incita a olhar para aquilo que não queremos enxergar.

Ele é também quem oferece a atmosfera de segurança e confiabilidade necessária para que a gente dê conta de lidar com nossos fantasmas.

Muita gente se esquece disso.

Percebo que há no “senso comum psi” uma imagem estereotipada do psicanalista como uma pessoa fria, irônica e que fica jogando supostas verdades na cara do paciente.

Embora alguns colegas talvez se encaixem nesse padrão, é preciso enfatizar que ele não tem nada a ver com o que de fato deve ser a postura de um analista.

Se o paciente resiste a enxergar certos aspectos de si, isso acontece justamente porque ele não se sente suficientemente seguro e relaxado para tal.

O apego narcísico ao eu ideal é justamente a tábua de salvação que utilizamos quando nos sentimos inseguros e vulneráveis diante do ambiente e dos nossos próprios desejos e fantasias.

O analista que compreende isso sabe que, portanto, sua tarefa não é só a de ajudar o paciente a encarar o recalcado.

Cabe ao analista ter sensibilidade suficiente para criar as condições emocionais que auxiliem o sujeito a adquirir a segurança necessária para encarar o recalcado.


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A associação livre não é livre

Associação livre é a expressão que a gente tradicionalmente usa em português para traduzir “Freie Einfälle”, o termo alemão empregado por Freud.

A própria tradução de “Einfälle” por “associação” ou “associações” já é problemática.

Com efeito, associar é um verbo que designa a ação de conectar voluntariamente uma coisa com outra, mas não é disso que se trata nas “Freie Einfälle”.

A tradução mais literal para Einfälle seria “ideias” ou “ocorrências mentais”, ou seja, não se trata de algo que EU faço (como associar), mas de algo que ME ACONTECE.

A expressão “associação livre” pode levar as pessoas a pensar que o paciente em análise é convocado a se esforçar para fazer conexões entre suas ideias.

Na verdade, é justamente o oposto: os analistas pedem aos pacientes que abandonem o ímpeto de controlar seus pensamentos e simplesmente descrevam o que lhes OCORRE.

Em outras palavras, a suposta associação que o paciente está fazendo não ocorre voluntariamente. A passagem de uma ideia para outra não é controlada por ele.

É por isso que eu digo que a associação livre não é livre.

De fato, quem goza de liberdade nesse caso é apenas o Inconsciente, que pode se manifestar de forma menos distorcida quando o paciente renuncia a controlar seus pensamentos.

O Eu, no entanto, aquele a quem o analista pede que fale o que vier à cabeça, é chamado justamente a abrir mão de sua liberdade (que é mais ilusória do que real).

Quando Freud estabelece as “Freie Einfälle” como técnica fundamental da Psicanálise, ele faz isso justamente por não acreditar na liberdade…

A tese de que podemos acessar o que o paciente esconde de si ao pedir que ele fale o que lhe vier à cabeça se fundamenta no pressuposto do determinismo psíquico.

De acordo com essa premissa, nosso funcionamento mental não acontece de modo aleatório.

Nesse sentido, se uma ideia, por mais irrelevante que pareça ser, ocorre em minha mente, essa ocorrência não se faz por acaso.

Na prática, fazer associação livre significa abrir mão da liberdade imaginária que nos impede de perceber que nossos pensamentos “já estavam escritos”…

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje (sexta) uma AULA ESPECIAL sobre o conceito de associação livre.


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O gozo masoquista do sentimento de inferioridade

Em minha experiência clínica com estudantes universitários frequentemente me deparo com jovens que sofrem com o sentimento de inferioridade.

Tal sentimento costuma aparecer em função da COMPARAÇÃO feita pelo sujeito entre o seu desempenho acadêmico e a performance mais alta de certos colegas.

Em outras palavras, é como se o aluno ficasse o tempo todo dizendo para si: “Olha como eles são melhores do que eu. Sou um burro mesmo!”

Pode não parecer, mas há uma satisfação mórbida nesse tipo de pensamento…

Com efeito, quando me insulto e me menosprezo, estou fazendo uso do mesmo impulso agressivo que utilizo para insultar e agredir verbalmente outras pessoas.

Assim, a autodepreciação sempre vem carregada de um gozo masoquista que costuma ser o resultado da transformação de um impulso que originalmente era sádico.

Explico:

A tendência primária que temos ao NOS COMPARARMOS com pessoas que são melhores do que nós é a de ODIÁ-LAS.

Sim, odiá-las por terem competências que não temos, mas gostaríamos de ter. Qualquer pessoa honesta consigo mesma é capaz de admitir isso.

No fundo, gostaríamos que o colega melhor não existisse ou, pelo menos, não fosse tão bom.

Se isso acontecesse, não nos sentiríamos inferiores.

Como tal desejo não pode se realizar, os impulsos agressivos que dirigimos à pessoa invejada permanecem insatisfeitos no interior da alma.

E é aí que entra o gozo masoquista: incapazes de tirar do caminho aqueles que são melhores do que nós, passamos a depreciar A NÓS MESMOS para descarregar o ódio que, na origem, era dirigido a eles.

Em outras palavras, é como se a gente pensasse: “Já que não posso destruir esse outro que me provoca inveja, destruirei o meu próprio eu”.

É dessa transformação do sadismo em masoquismo que brotam pensamentos autodestrutivos do tipo:

“Eu não presto para nada”.

“Eu sou um m3rda”.

“Eu serei um péssimo profissional”.

Por outro lado, é preciso salientar que toda essa dinâmica emocional só aparece em função da COMPARAÇÃO.

Quando nos colocamos voluntariamente numa relação de rivalidade imaginária com o outro, o resultado é sempre esse: sadismo ou masoquismo.


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Como escutar o Inconsciente?

Os psicanalistas entendem que uma pessoa adoece emocionalmente quando se recusa obstinadamente a reconhecer certos aspectos de sua personalidade e de sua história.

Tal recusa obriga esses aspectos a se manifestarem à força na vida da pessoa, por meio de problemas emocionais.

Um sujeito, por exemplo, que desde a infância se recusa a tomar posse de seus impulsos agressivos pode acabar expressando essa agressividade reprimida por meio de uma culpa neurótica.

Nesse sentido, o principal objetivo de um tratamento psicanalítico é ajudar o paciente a se apropriar conscientemente daquilo que ele não quer reconhecer em si mesmo.

Para alcançar esse propósito, o analista precisa justamente ser capaz de captar na fala do analisando indícios daquilo que ele não quer admitir.

O terapeuta, portanto, deve ter uma escuta que seja sensível ao Inconsciente e estar apto a ajudar o paciente a também desenvolver essa sensibilidade.

Mas como escutar aquilo que não se manifesta às claras, de forma evidente?

De fato, em função da resistência que o analisando impõe aos conteúdos do seu Inconsciente, eles não se apresentam de forma explícita.

Assim, para ser capaz de escutá-los, o analista precisa seguir e ajudar o paciente a seguir as PISTAS do Inconsciente.

Que pistas são essas?

Várias. Por exemplo, as aparentes “coincidências” que ocorrem na vida do sujeito:

O sujeito que reprime a própria agressividade pode ter desenvolvido uma dor estranha nos braços justamente no dia em que lhe fizeram uma brincadeira de mal gosto no trabalho.

Outra pista bastante esclarecedora são comportamentos involuntários que a pessoa repete sem perceber:

Esse mesmo sujeito que não consegue se apropriar de seus impulsos agressivos pode dizer ao seu analista que não sabe a razão pela qual vive cantarolando uma música popular que fala de violência e ódio…

Esquecimentos, trocas de palavras, excessos… Todas essas coisas também são pistas para o Inconsciente.

Cabe ao analista ter desenvolvido, em sua própria análise e por meio do estudo teórico, a capacidade de enxergar esses indícios que geralmente “passam batido”…


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A gente faz Psicanálise para validar o que não queremos enxergar em nós mesmos

Somos seres divididos.

Existe uma grande e espessa parede dentro de nossa alma separando-a em duas grandes partes: o Consciente e o Inconsciente.

Do lado do Consciente estão todos os pensamentos e sentimentos que voluntariamente queremos enxergar em nós mesmos — e damos conta de enxergar.

Do lado do Inconsciente estão todos os conteúdos que também, obviamente, fazem parte de nós, mas que a gente não quer reconhecer que possui.

Na parede que separa uma parte da outra existe uma porta que paradoxalmente está sempre aberta.

É por essa porta que certos elementos que fazem parte do Consciente podem ser levados para o Inconsciente.

Isso acontece quando determinadas ideias que nasceram no Consciente acabam não se adaptando às “normas da casa” e se tornam incômodas e perturbadoras.

Assim, tais ideias são “convidadas a se retirar” dali e irem morar no Inconsciente, onde poderão agir como bem desejarem…

Mas a porta que eu mencionei acima também permite que elementos do Inconsciente atravessem a parede e penetrem no Consciente.

No entanto, como tudo o que faz parte do Inconsciente é tratado pelo Consciente como indigno, ameaçador e perigoso, os elementos inconscientes são obrigados a se disfarçarem.

Com efeito, só conseguem acessar o Consciente vestindo roupas inofensivas e se comportando de uma forma não barulhenta.

Dessa forma, podem viver no Consciente e mexer com ele sem levantar suspeitas.

Os principais disfarces empregados pelos conteúdos do Inconsciente são os sonhos, os atos falhos, os comportamentos involuntários e os sintomas neuróticos.

Mas por que esse pessoal do Inconsciente quer morar no Consciente? Por que eles não ficam lá onde estavam?

Ora, porque o Consciente é sua terra natal. As ideias que estão no Inconsciente um dia estiveram do outro lado, mas foram expulsas de lá.

Na verdade, o que elas verdadeiramente querem não é apenas viver sob disfarce no Consciente.

Seu maior sonho é serem reconhecidas e aceitas do jeito que são.

Elas gostariam de recuperar a “cidadania” consciente a fim de poderem viver ali sem precisar recorrer a complicados disfarces.

É um pouco esse processo de acolhida e legitimação das ideias que vêm do Inconsciente que nós ajudamos os pacientes a fazerem em Psicanálise.


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O perfeccionista é um escravo de si mesmo

Apesar de parecer um herói corajoso em busca da excelência, o indivíduo que sofre de perfeccionismo é, na verdade, apenas um escravo que está constantemente sendo chicoteado por um senhor chamado IDEAL. Diferentemente de alguém que, exercendo virtudes como a responsabilidade e a generosidade, DECIDE empenhar-se para realizar uma tarefa de uma forma mais qualificada do que o mínimo necessário, o perfeccionista é aquele que não busca a excelência como uma escolha consciente e intencional, mas faz isso porque se vê compelido, obrigado, forçado a perseguir a perfeição.

O perfeccionista é escravo dos seus próprios ideais. É por isso que o perfeccionismo é difícil de ser abandonado: renunciar à tendência automática de buscar sempre e desnecessariamente a excelência significa, para o perfeccionista, abrir mão de uma parte muito valorizada de si mesmo. Isso explica também porque o perfeccionismo é paradoxalmente um suposto defeito do qual se tem orgulho. De fato, no fundo, o perfeccionista se envaidece ao contemplar-se no espelho da alma como um escravo diligente e proativo. Ele olha para aqueles que não compartilham de sua ânsia doentia pela perfeição e os julga como preguiçosos e medíocres. Bastam apenas alguns minutos conversando com um perfeccionista para verificar que ele se percebe como um ente superior aos “meros mortais” que não sentem tanto tesão pelo Senhor Ideal.

Leia o texto completo clicando aqui.


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A família como base das relações interpessoais

Todos nós temos modos mais ou menos padronizados de nos comportarmos em certas situações típicas da vida.

Por exemplo: cada indivíduo tem uma atitude básica diante de autoridades como chefes ou professores.

Tem gente que sente medo e se apresenta de maneira submissa. Outros, porém, se colocam o tempo todo numa atitude de confrontação frente a um superior.

Da mesma forma, temos modos mais ou menos fixos de nos relacionarmos com objetos de amor e em situações de competição.

Há pessoas, por exemplo, que inevitavelmente exercem uma postura dominadora e controladora sobre seus parceiros amorosos.

Ainda que se policiem para evitarem agir assim a tendência de assumir a posição de “senhor” do outro é mais forte do que elas.

No caso da competição, encontramos indivíduos que se sentem muito estimulados quando possuem um rival e outros que se deprimem quando precisam entrar numa disputa.

A Psicanálise mostra que tais atitudes básicas são forjadas e se consolidam em nosso psiquismo a partir das vicissitudes das relações com nossa família na infância.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá hoje (sexta) uma aula especial sobre essa origem infantil das nossas formas padronizadas de relação com o outro.


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O exagero subjetivista de Freud

Num trabalho de 1906 chamado “Meus pontos de vista sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses”, Freud descreve a evolução de suas teorias acerca da sexualidade percebida como fator causal nas neuroses.

Podemos identificar 3 grandes momentos dessa teorização:

1 – Freud acredita que as neuroses são causadas por abusos sexuais sofridos pelo sujeito na infância e praticados por adultos ou crianças mais velhas.

2 – Freud acredita que tais abusos não necessariamente aconteceram e que são manifestações sexuais espontâneas na infância que levam à neurose.

3 – Freud percebe que essa sexualidade infantil espontânea está presente em todas as crianças e que é a reação do sujeito a ela que está na origem da neurose.

A respeito desse terceiro e definitivo momento de sua teorização sobre as causas da neurose, Freud diz o seguinte:

“Não importavam, portanto, as excitações sexuais que um indivíduo tivesse experimentado em sua infância, mas antes, acima de tudo, sua reação a essas vivências — se respondera ou não a essas impressões com o ‘recalcamento’.”

Essa citação mostra que, para Freud, a pergunta que devemos fazer frente à neurose NÃO É “o que aconteceu na infância para que essa pessoa se tornasse assim?”.

A pergunta correta seria: “Como essa pessoa LIDOU na infância com seus próprios impulsos e com o que lhe aconteceu para que se tornasse assim?”.

Em outras palavras, Freud sai de uma primeira teoria que colocava no AMBIENTE  todo o peso da produção da neurose e vai para o polo oposto…

Sim, ao dizer que, na causação da neurose, o mais importante é a forma como o sujeito reagiu às impressões infantis, Freud relativiza o impacto do ambiente e “absolutiza” o papel do sujeito nessa história.

É como se ele estivesse inadvertidamente dando razão àquela frase de pára-choque de caminhão atribuída a Sartre:

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.”

Felizmente, autores como Ferenczi e Winnicott iriam “corrigir” esse exagero subjetivista freudiano e resgatar, na teoria psicanalítica, o peso do AMBIENTE  na produção do adoecimento emocional.


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Em qual questão infantil você está empacado?

Quando fazemos essas provas de múltipla escolha aplicadas em vestibulares e concursos não é recomendável gastarmos muito tempo com uma questão que não estamos conseguindo resolver.

A melhor estratégia é pular o item difícil e ir respondendo outros mais fáceis, de modo que, se sobrar tempo, a gente pode tentar voltar a quebrar a cabeça com a questão complicada.

Essa recomendação extremamente útil para processos seletivos também é válida para a vida de modo geral.

No entanto, na maioria das vezes ela não é adotada.

Pelo menos é isso o que a clínica psicanalítica nos mostra.

Afinal, o que encontramos todos os dias em nossos consultórios são pessoas que permaneceram presas a questões com as quais vem pelejando DESDE A INFÂNCIA.

Ao invés de seguirem a vida e deixarem para lá certos problemas, tais pessoas insistem em se dedicar compulsivamente a resolvê-los.

Que problemas são esses? Eis alguns exemplos:

— Será que eu posso ser tão potente quanto o meu pai?

— Por que meu pai me rejeitou?

— Como mudar minha mãe e torná-la mais amorosa?

— Por que me forçaram a amadurecer tão precocemente?

Na busca por respostas para questões como essas a gente acaba reencenando na vida adulta os mesmos cenários difíceis da infância.

Fazendo assim, inconscientemente temos a esperança de encontrar as respostas que não conseguimos achar lá atrás.

Mas não dá certo. Ao reencenar os problemas da mesma forma com que eles se apresentaram na infância, tudo o que conseguimos é a repetição do sofrimento.

E assim vamos nos comportando como um estudante fazendo o Enem que fica empacado tentando resolver uma questão difícil e acaba não fazendo as dezenas de outras questões mais fáceis.

No caso da vida, a saída não é simplesmente fingir que a questão difícil não existe.

É preciso encontrar uma nova maneira de encarar o problema.

Um novo olhar que nos permita enxergar que talvez haja questões insolúveis mesmo e que buscar respostas para elas é pura perda de tempo e energia.

É para conseguir desenvolver esse novo olhar que a gente faz Psicanálise.


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Por que os psicanalistas ficam em silêncio?

Aqueles que criticam a Psicanálise como método psicoterapêutico sempre elegeram o silêncio do analista como um de seus alvos prediletos.

“Psicanalistas não dão feedback”, dizem eles. “Deixam o paciente falar, falar, enquanto apenas fazem cara de paisagem”.

Esse tipo de afirmação incorre na famosa falácia do espantalho: não é verdade que todo analista seja silencioso.

É conhecida, por exemplo, a tendência de alguns analistas kleinianos de formularem uma imensidão de interpretações a todo momento.

De fato, cada analista tem o seu estilo. Alguns são mais silenciosos, outros não. Não há uma regra que defina quanto silêncio o analista deva fazer durante as sessões.

Por outro lado, é importante salientar que, quando o analista faz silêncio, ele não está meramente deixando de falar.
Trata-se, na verdade, de uma TÉCNICA.

Sim! O silêncio é uma DECISÃO CLÍNICA tomada pelo analista, tão estrategicamente pensada quanto uma interpretação.

O analista faz silêncio, em primeiro lugar, para sinalizar ao paciente que uma análise não é uma conversa qualquer em que duas pessoas dialogam.

Na terapia psicanalítica, o paciente é convidado a SE ESCUTAR e não a bater papo. Ora, como o sujeito vai se escutar se o outro não para de falar?

Em segundo lugar, o silêncio do analista é necessário para que ele colha as informações necessárias para falar algo que MERECE SER FALADO.

Explico: numa conversa normal, nós falamos o que queremos dizer e não aquilo que o outro PRECISA ouvir.

Na análise é diferente. Como se trata de um TRATAMENTO, a fala do analista não pode ser sobre si e nem pode ser vazia, banal, irrelevante.

Quando o analista fala, é necessário que seu dizer verdadeiramente AFETE o paciente.

E isso só é possível se o analista falar algo que evoque ou reflita o que se passa com o analisando.

Não dá para falar alguma coisa dessa natureza sem ESCUTAR o paciente suficientemente bem.

Muitas vezes, o desejo compreensível que alguns pacientes nutrem de que seus analistas sejam mais falantes é da ordem da resistência.

Com efeito, ESCUTAR-SE não é uma tarefa nada fácil.

Há determinados sons interiores que gostaríamos que fossem abafados pela voz apaziguadora de nossos analistas…


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