Como se desenvolve a autoconfiança (parte 02)

Observar que a fé dos judeus em Jesus só nasceu em função dos milagres que ele realizou nos ajuda a identificar quais são as condições necessárias para o desenvolvimento da autoconfiança. Com efeito, expliquei na coluna anterior que a autoconfiança é a fé que uma pessoa tem na sua própria capacidade de superar desafios.

Ora, assim como a fé em Jesus, a fé que caracteriza a autoconfiança também depende da existência de milagres. Contudo, no caso da autoconfiança, não se trata de milagres reais, ou seja, de acontecimentos que contrariam as leis da natureza. Os milagres que criam as condições para o florescimento da autoconfiança são milagres imaginários, subjetivos, que só são milagres de fato aos olhos daquele que o experimenta.

Consigo imaginar um leitor se perguntando: “Como assim, Lucas? Explica melhor.”. Com prazer! Vamos lá:

Na primeira parte deste texto eu disse que a autoconfiança, diferentemente da coragem, é um afeto involuntário e que, portanto, brota de certas marcas psíquicas profundas geradas por experiências infantis. Também disse que essas marcas são produzidas por experiências que possibilitam ao sujeito perceber-se como sendo capaz de superar desafios.

Ora, quando somos crianças não temos muitos recursos físicos e psíquicos para lidar com desafios. Pelo contrário: somos extremamente frágeis e dependentes dos cuidados dos adultos. Nesse sentido, podemos nos perguntar: como é que a criança vai poder passar por experiências de se sentir capaz de vencer desafios se ela mal consegue ficar sozinha por muito tempo?

É aí que entram os “milagres”. De fato, a criança deixada à própria sorte dificilmente conseguirá vivenciar situações que a farão acreditar na própria potência. Um menino de 3 anos, sem o apoio de seus cuidadores primários, só conseguirá certificar-se de sua fragilidade e impotência. Todavia, quando a criança conta com o suporte ativo dos pais, ela se torna capaz de fazer uma série de coisas. Quando uma mãe, por exemplo, levanta sua filha para que ela alcance um determinado brinquedo ao invés de simplesmente pegar o objeto e entregá-lo à criança, a menina vivencia uma experiência mágica: ela está conseguindo fazer algo que, a princípio, sua condição não permitiria.

Leia o texto completo aqui.


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Polarização é coisa de criança: Melanie Klein explica

Melanie Klein indiscutivelmente faz parte do rol dos principais autores do campo psicanalítico.

Talvez você não saiba, mas essa mulher, nascida em 1882, enfrentou forte resistência por parte da ortodoxia psicanalítica dos anos 1920.

Com efeito, Klein não era médica nem tinha qualquer outro diploma universitário. Era, portanto, o que se chamava à época de analista leiga.

Essa corajosa austríaca de origem judia aprendeu o ofício de psicanalista nos divãs de Sándor Ferenczi e Karl Abraham.

Foi Ferenczi, inclusive, quem a incentivou a se dedicar à análise de crianças, outro alvo das críticas dos colegas mais conservadores que achavam que a Psicanálise só poderia ser aplicada em adultos.

Vítima da perda precoce de tantas pessoas importantes (pai, mãe, irmãos, filho), provavelmente não por acaso Klein foi uma das autoras que mais levou a sério o conceito freudiano de “pulsão de morte”.

Com base em sua experiência clínica orientada pelo último Freud, a autora chegou à conclusão de que toda criança já nasce experimentando um medo de ser morto (“fear of annihilation”).

Com efeito, Melanie Klein acredita que, desde o início da vida, o bebê se relaciona com os seios maternos percebendo-os como objetos diferentes de si.

Isso permite à criança projetar sua pulsão de morte (originalmente uma tendência para a autodestruição) nos seios e imaginar, assim, que são eles que desejam matá-la.

Mas o bebê não nasce apenas com pulsão de morte, né?

Exatamente. Ela também possui uma pulsão de vida, isto é, uma tendência para a autopreservação e a formação de ligações com os objetos.

Por conta disso, a criança não vivencia os seios apenas como objeto maus e persecutórios, mas também como entes angelicais, amorosos e protetores.

Ora os seios aparecem para o bebê como 100% maus, ora como 100% bons.

Doido, né? Pois é… Esse modo polarizado de enxergar a realidade (bem típico dos nossos dias, aliás…) permanece vigente na cabecinha do bebê até o quarto mês de vida.

Depois disso, a criança vai se tornando capaz de perceber que os seios não são só bons ou só maus e que, na verdade, eles são apenas partes de um objeto muito maior chamado mãe…

Mas isso é assunto para a aula especial sobre Melanie Klein que os alunos da Confraria Analítica vão receber com exclusividade ainda hoje (sexta-feira).


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Suposto saber: para funcionar, a Psicanálise exige um tipo específico de transferência

A transferência é um fenômeno inevitável tanto no tratamento psicanalítico quanto fora dele.

Onde há relação interpessoal, há transferência.

Com efeito, estamos SEMPRE transferindo para nossas relações atuais atitudes e expectativas que foram desenvolvidas originalmente em relações do passado.

Ao invés de criarmos novas relações “do zero”, economizamos trabalho psíquico recorrendo aos mesmos padrões relacionais de sempre.

O terapeuta que acredita na existência desse fenômeno consegue detectá-lo com certa facilidade.

De fato, basta verificar as semelhanças entre o modo como o paciente se comporta em relação a ele (terapeuta) e as atitudes da pessoa relação a outras figuras do seu passado.

Repito: a transferência é inevitável.

Por outro lado, a psicoterapia, especialmente a psicanalítica, exige que se estabeleça um tipo específico de transferência para funcionar.

Se o paciente, por exemplo, transfere para o analista apenas as atitudes de desprezo ou indiferença que nutria em relação a sua mãe, não há análise que se sustente.

Os tratamentos verdadeiramente transformadores são aqueles em que o paciente transfere para o terapeuta a expectativa de ouvir dele a verdade sobre si.

É a isso que Lacan se refere ao usar o termo “sujeito suposto saber” para falar da transferência.

É óbvio que, ao longo da análise, será importante que essa expectativa se dissipe e o paciente chegue à decepcionante, mas saudável conclusão de que nem o analista nem nenhum outro sabe a verdade sobre ele.

Contudo, sobretudo no início do tratamento, é fundamental que o paciente coloque o terapeuta nesse lugar de autoridade, de suposto saber.

Quando isso não acontece, as pontuações, interpretações, silêncios e cortes do analista não exercem efeito algum na evolução da análise.


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O bonzinho pode ser apenas um endividado

Eu já falei em diversos textos e vídeos sobre o caráter narcísico do padrão de comportamento que comumente chamamos de “bonzinho”.

De fato, muitas pessoas que se encaixam nessa categoria estão inconscientemente buscando seduzir o outro para serem amadas.

A suposta bondade do bonzinho, portanto, não seria genuína. Tratar-se-ia apenas de uma estratégia para “ficar bem na fita” ou, se você quiser, “ganhar likes”.

No entanto, a experiência clínica mostra que há um grupo de pessoas que também desenvolve o  modo “bonzinho” de ser,  mas por outra razão.

Refiro-me a indivíduos que se colocam neuroticamente a serviço do outro não com o objetivo de seduzi-lo, mas de “pagar” uma dívida infantil.

Explico:

Tais pessoas foram levadas a acreditar, na infância, que todo o cuidado que recebiam da parte de seus pais não era gratuito.

Observando certas atitudes e falas parentais, esses indivíduos foram chegando à conclusão de que precisariam “ressarcir” os pais de alguma forma.

A clínica mostra que, sob o domínio dessa ideia absurda, tais pessoas já na infância se comportavam de modo excessivamente submisso, obediente e solícito.

Com efeito, desde crianças já renunciavam aos próprios desejos para submeterem-se às vontades do outro. Dessa forma, estariam “pagando” sua suposta dívida.

Como a gente inevitavelmente transfere nossos padrões de relação com os pais para outras pessoas, esse padrão de submissão acaba se mantendo na vida adulta.

Assim, o sujeito continua preso à fantasia de que precisa pagar aos pais pelo cuidado recebido, só que agora quem recebe o “pagamento” são namorados, esposas, amigos…

Temos, então, um indivíduo adulto que está sempre “pedindo licença” para existir, que não consegue dizer não e se submete passivamente ao desejo do outro.

Ele quer seduzir as pessoas para ser amado? Não. O que inconscientemente ele busca é “ressarcir” simbolicamente seus pais através da submissão ao outro.

Que tal mandar esse texto para todos os bonzinhos que você conhece? Você é um deles?


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Não dá para ver o Inconsciente a olho nu: a importância do olhar simbólico para a Psicanálise

Ontem eu conversava com os alunos da Confraria Analítica sobre como a prática da Psicanálise exige o exercício de um olhar SIMBÓLICO sobre a realidade.

É por isso que eu sempre recomendo “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, de Freud, como primeira leitura para quem deseja iniciar um percurso no campo psicanalítico.

Com efeito, nessa obra o leitor encontrará uma coleção imensa de relatos de pequenos erros e comportamentos aparentemente insignificantes interpretados simbolicamente por Freud.

Quem lê “A Psicopatologia da Vida Cotidiana” vai pouco a pouco se acostumando a encarar um simples esquecimento de nome, por exemplo, como um discurso eloquente.

Sim! Nesse livro, Freud nos convida a olhar para lapsos, equívocos e pequenos atos do dia a dia não só como eles se apresentam, mas enxergando o que eles REPRESENTAM.

É isso o que eu chamo de OLHAR SIMBÓLICO, que penso ser indispensável para quem quer exercer a Psicanálise na prática ou mesmo apenas estudá-la teoricamente.

É somente por meio da aplicação desse olhar simbólico que podemos enxergar no esquecimento da chave de casa, por exemplo, o desejo de não voltar para ela.

Só olhar simbólico também nos permite olhar para os sintomas de nossos pacientes e enxergá-los não só como problemas, mas fundamentalmente como MENSAGENS.

Quem não cultiva esse olhar julga as interpretações psicanalíticas como exageradas ou forçadas. De fato, não consegue ver para-além do imediato.

O olhar simbólico é justamente o que torna um analista apto a observar o Inconsciente em ação. Afinal, é próprio do Inconsciente não se mostrar de maneira explícita.

O terapeuta que não exercita o olhar simbólico é levado a crer equivocadamente que seus pacientes estão apenas descrevendo objetivamente  a realidade.

Olhar simbolicamente para a fala do analisando habilita o analista a percebê-la como um discurso muito mais RETÓRICO do que descritivo…

Em suma, para ser psicanalista é preciso ter olhos para ver. E ouvidos para ouvir.

Você tem facilidade para aplicar esse olhar simbólico?


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Como se desenvolve a autoconfiança (parte 01)

Autoconfiança, portanto, poderia ser definida como a fé na própria capacidade de superar desafios. Quando estamos autoconfiantes, não sentimos medo do fracasso. Pelo contrário, conseguimos vislumbrar o sucesso com antecedência, pois temos a certeza de que somos aptos para chegar até ele.

É por isso que autoconfiança é diferente de coragem. Esta última é uma virtude, ou seja, uma atitude que depende de uma decisão consciente e voluntária do sujeito. Há pessoas, por exemplo, que quase nunca conseguem experimentar a autoconfiança, mas são extremamente corajosas. Elas estão o tempo todo morrendo de medo de fracassar, mas, exercitando a coragem, nunca fogem dos desafios que se apresentam.

Autoconfiança, por outro lado, é um fenômeno involuntário. Sendo assim, ninguém se torna mais autoconfiante por força de vontade. Nesse ponto o caro leitor pode ter ficado confuso. Até consigo imaginar alguns de vocês se perguntando: “Ué, mas se a autoconfiança não pode ser desenvolvida, então uma pessoa que raramente consegue ser autoconfiante morrerá assim?”. A minha resposta para essa questão é o velho e bom “Depende…”.

Explico: sim, é possível que uma pessoa se torne mais autoconfiante, mas, como assinalei acima, não por força de vontade. A autoconfiança pode ser “instalada”, digamos assim, numa pessoa por meio da única tecnologia existente que possibilita a transformação de aspectos psicológicos involuntários: a psicoterapia. Dito de outro modo: uma pessoa que quase nunca se mostra autoconfiante pode mudar “da água para o vinho” se engajar-se num bom processo psicoterapêutico.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Eis as duas fantasias que te fazem ser tão indeciso

Muitas pessoas possuem uma grande dificuldade em fazer escolhas, em tomar decisões, em optar por um caminho em meio a várias possibilidades.

De fato, dúvida e angústia são afetos que invariavelmente se fazem presentes antes de uma escolha. Não existe nenhuma fórmula comportamental capaz de evitá-los.

Em outras palavras, escolher, decidir, optar é sempre difícil.

Por outro lado, existem determinadas FANTASIAS que podem fazer com que qualquer simples decisão, como a escolha do pedido em um restaurante, se torne um ato ainda mais sofrido.

Trata-se, primeiramente, da fantasia de que existe sempre uma opção a priori CORRETA.

Essa crença faz com que a angústia envolvida no ato de decidir não se refira apenas às consequências da escolha, mas à sua ADEQUAÇÃO.

Quando nos perguntamos “Será que estou de fato fazendo a escolha certa?”, estamos pressupondo que, em algum lugar do mundo, deve existir uma espécie de “GABARITO DA VIDA”.

A segunda fantasia é a de que nós podemos encontrar em nós mesmos uma espécie de guru ou oráculo capaz de nos informar acerca de quais escolhas DEVERÍAMOS fazer.

Acredito que uma má interpretação popularesca da psicanálise tenha contribuído para construir essa fantasia na mente de muitas pessoas.

Ainda hoje há gente que acredita que, se fizerem psicanálise não mais experimentarão dúvidas a respeito de nenhuma escolha, pois já estarão conscientes do que de fato querem para suas vidas.

Fantasia! O inconsciente não é uma divindade a ser consultada e é até provável que alguém saia de uma análise com muito mais dúvidas do que quando entrou.

Nós não encontraremos respostas definitivas nem dentro e nem fora de nós.

Não há garantia alguma incrustada em nossas escolhas.

Estamos sempre decidindo a partir do risco e da imprevisibilidade.

E não há como ser diferente, a não ser que voluntariamente nos tornemos autômatos que apenas obedecem a comandos previamente determinados sabe-se lá por quem…

Com efeito, uma das características que nos diferenciam dos demais seres vivos é justamente essa capacidade (sim, capacidade!) de sentir angústia, de não saber de antemão o que escolher.

Envie este texto para todos os indecisos que você conhece. 😉


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3 habilidades fundamentais que todo psicanalista precisa ter

Ninguém se torna psicanalista apenas estudando a teoria e atendendo pessoas.

Um requisito básico e essencial para quem deseja praticar a Psicanálise é passar pela experiência de ser paciente de outro analista durante um bom tempo.

Por isso, saliento que a participação assídua e aplicada na Confraria Analítica representa um EXCELENTE ponto de partida no caminho de quem deseja se tornar analista.

Todavia, a maior parte dessa jornada deve ser percorrida no divã.

É no divã que vamos ficando cada vez menos vulneráveis aos nossos “pontos cegos” que brotam do Inconsciente e comprometem a escuta e o acolhimento do outro.

E é também no divã que APRENDEMOS habilidades PRÁTICAS que são fundamentais para o exercício da Psicanálise.

Não se fala muito sobre isso no campo psicanalítico, mas é forçoso reconhecer que existe um rol de COMPETÊNCIAS que todo psicanalista precisa ter.

A gente pode até ler sobre elas (como está sendo o caso nessa postagem), estudá-las, mas só as incorporamos de fato quando temos a oportunidade de VIVENCIÁ-LAS na prática.

E isso acontece justamente quando passamos durante uns bons anos pela experiência de sermos pacientes de outro analista.

Nos cards você encontrará algumas dessas habilidades fundamentais.

Falarei mais detalhadamente sobre elas na aula especial de amanhã (sexta) que será recebida por quem faz parte da Confraria.

Dessas habilidades citadas, qual você considera que seja a mais difícil de desenvolver?


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Quando a gente alimenta o que nos faz sofrer

Ontem uma supervisionanda narrava para mim o caso de uma paciente que se queixa da atitude invasiva e dominadora que tanto o pai quanto o namorado exercem na relação com ela.

Nas sessões com minha supervisionanda, a moça costuma dizer que o parceiro só aceita as coisas “do jeito dele” e que o pai vive tentando controlar a vida dela.

Por outro lado, essa paciente, que tem por volta de 20 e poucos anos, ou seja, é uma jovem adulta, aceita passivamente as imposições de seu pai como se ainda fosse uma criança.

Não, o pai não é violento. Sem dúvida, trata-se de um sujeito controlador, mas, se a filha quisesse, poderia desafiá-lo e ir gradualmente se afastando de seu domínio.

Quanto ao namorado, ela está sempre solicitando a ajuda e a opinião dele na hora de tomar decisões e pede desculpas quando, porventura, deseja fazer coisas que o cara não aprova.

Não é preciso ser nenhum gênio para constatar que essa moça transfere para o parceiro o mesmo padrão relacional que desenvolveu na interação com o pai.

Contudo, não é para isso que eu quero chamar sua atenção.

O que eu espero que você perceba nesse caso é que essa paciente se queixa justamente daquilo que ela própria mantém.

Como eu disse para minha supervisionanda, ela se comporta como uma pessoa vegana que decide comemorar o aniversário numa churrascaria e reclama que lá só servem… carne!

Ela percebe, mas sua postura passiva, dependente e subserviente diante do namorado e do pai reforça a atitude invasiva e dominadora deles.

Ah, Lucas, entendi! Então, sua supervisionanda tem que falar para essa paciente se colocar de modo mais firme, assertivo e autônomo na relação com eles, né?

Óbvio que não! Você acha que essa moça nunca pensou em fazer isso?

Psicanálise não é coaching.

O que essa paciente precisa é COMPREENDER por que ela age dessa forma.

Ou seja, o que ela GANHA agindo assim, de que perigos imaginários ela se DEFENDE, que FANTASIAS estão sendo realizadas por meio dessa postura de submissão etc.

Mas o primeiro passo é ela perceber que seu padrão de funcionamento alimenta aquilo que a faz sofrer. Como dizia minha mãe, “enquanto tiver cavalo, São Jorge não anda a pé”.

Você já se deu conta desse processo na sua própria vida?


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A gente faz Psicanálise para tirar as mordaças do trauma

Agora há pouco eu estava atendendo um rapaz para o qual pude explicar, em humanês, como a Psicanálise trabalha com os traumas psíquicos.

Vou compartilhar essa explicação com vocês.

Primeiramente vamos lembrar o que é um trauma do ponto de vista psicanalítico:

Trauma, em Psicanálise, é basicamente uma experiência indigesta, ou seja, uma vivência que o nosso aparelho psíquico não dá conta de digerir, de metabolizar, de compreender.

E o que a nossa mente faz quando está diante de uma experiência desse tipo?

Ela se fragmenta: incapaz de incorporar a vivência traumática, o aparelho psíquico se quebra, a fim de separar o trauma do restante da alma.

É um processo análogo ao que a gente faz quando “limpa” uma costela, por exemplo, ao tirarmos a membrana e o excesso de gordura.

A diferença é que a gente joga no lixo o que retira da costela. A mente não pode fazer o mesmo com o registro da experiência traumática. Ele continua lá, só que ilhado, separado, afastado.

No entanto, como diz o brilhante Raimundo Fagner, “Quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar, sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar…”.

Sim, o registro do trauma não fica lá paradinho e quieto. Ele tenta se reintegrar. E, ao fazer isso à força, acaba provocando sofrimento, dor, mal-estar.

O que a Psicanálise possibilita, por ser um tratamento baseado na fala, uma talking cure, como dizia Anna O., é a reintegração saudável do trauma.

Uai, Lucas, mas o trauma não deveria ser eliminado ao invés de reintegrado?

Não. De fato, a vivência traumática não deveria ter acontecido. Contudo, já que aconteceu, ela precisa ser assimilada pelo aparelho psíquico.

Aliás, se isso acontecer, essa vivência naturalmente deixa de ser traumática, pois não mais se apresentará como indigesta.

A Psicanálise promove essa metabolização do trauma porque estimula o sujeito a dar nome a ele, a simbolizá-lo, ou seja, a dar a ele um assento legítimo na mesa “oficial” do psiquismo.

Assim, ao invés de incomodar, o registro traumático, agora sem mordaças, pode se fazer ouvir, não pela dor, mas pela via da palavra.

Como profissional ou paciente, você já conseguiu visualizar esse processo? Conta aí!


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Autossabotagem: uma visão psicanalítica

Clara é uma jovem de 25 anos e está em seu terceiro relacionamento de longo prazo. Guilherme, seu atual namorado, a humilha na frente dos amigos, não aceita ser contrariado em hipótese alguma e, em algumas brigas, quase chega a agredir fisicamente a parceira. Curiosamente, os dois primeiros namorados de Clara tinham um padrão de comportamento muito semelhante. As amigas dizem que a moça sofre de “dedo podre”, pois só se relaciona com homens que inicialmente parecem príncipes encantados, mas acabam se revelando sádicos abusivos.

Pedro, 35 anos, é engenheiro civil. Sempre muito estudioso, era o aluno que tirava as maiores notas tanto na escola quanto na universidade. Embora não tivesse uma paixão pela Engenharia, decidiu seguir essa carreira por recomendação do pai que trabalhava como mestre de obras e sempre nutriu um verdadeiro fascínio pela profissão de engenheiro. “Na minha época, pobre não tinha oportunidade de fazer faculdade, meu filho. Se tivesse, hoje você seria filho de engenheiro.” era o que o pai costumava dizer a Pedro na época do vestibular. Hoje, apesar de ter se formado com louvor, o rapaz não consegue prosperar na profissão. Tentou alguns concursos públicos, mas, procrastinando o estudo para as provas, nunca conseguiu ser aprovado. Depois de passagens rápidas por duas grandes construtoras, nas quais, segundo ele, “não conseguiu se adaptar”, Pedro decidiu trabalhar por conta própria, mas sofre para conseguir novos projetos.

O que Clara e Pedro têm em comum? Ambos vivenciam o fenômeno que nos acostumamos a chamar de “autossabotagem”. Aparentemente eles agem de uma forma que acaba produzindo resultados prejudiciais para si mesmos, como se inconscientemente estivessem trabalhando contra os próprios interesses.

Leia o texto completo clicando aqui.


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Por que a presença de um pai é fundamental na vida das crianças? Winnicott explica.

Em função da forte influência lacaniana no campo psicanalítico, nos acostumamos a pensar que a presença concreta de um pai na vida das crianças seria uma experiência dispensável.

Dispensável, Lucas? Como assim?

É, meu caro leitor…

Não há como negar que termos como “Nome do Pai” e “pai simbólico” fizeram a gente se esquecer, na Psicanálise, de que a presença REAL do pai é tão importante quanto a presença real da mãe.

É claro que Lacan tem boas razões para enfatizar o papel crucial do pai enquanto elemento simbólico. Eu mesmo já expliquei esses motivos em vários lugares.

Todavia, penso que seja importante, sobretudo às vésperas do Dia dos Pais, relembrá-los da importância inegável da presença real de um pai na existência de uma criança.

Para cumprir essa tarefa, trago a vocês um pouquinho do que o psicanalista inglês Donald Winnicott nos ensina no capítulo 17 do livro “A Criança e seu Mundo”, intitulado “E o Pai?”.

Quem está na Confraria Analítica receberá ainda hoje (sexta-feira) uma aula especial sobre a concepção winnicottiana do papel do pai expressa nesse texto.


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Maturidade saudável: aceitar a realidade sem abrir mão do desejo

Em 1911, Freud publicou um importante artigo no qual explica como surge em nós o que poderíamos chamar de “senso de realidade”.

O título do texto é “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental”. Tá no volume 12 das Obras Completas (Edição Standard).

Por “senso de realidade” me refiro a essa consciência básica de que estamos instalados num mundo que possui existência própria, independente dos nossos desejos.

Freud mostra que essa consciência não nasce conosco e que, no início da vida, a gente resiste a assumi-la.

Em outras palavras, a gente não queria ter que reconhecer a existência da realidade. Só fazemos isso porque não tem outro jeito.

Como assim, Lucas?

Veja: inicialmente a gente tá lá no bem-bom do útero materno, certo? Parasitas do corpo da mãe, sequer temos a experiência de desejar. O estado de satisfação é ininterrupto.

Aí a gente nasce, tem a primeira experiência de desconforto, mas imediatamente depois do parto, já nos colocam no quentinho de novo e passam a nos alimentar.

Nos primeiros meses, conhecemos finalmente o que é desejar, mas nossos desejos são satisfeitos de forma quase instantânea. É só chorar um pouquinho que o peito da mãe aparece.

Nesse contexto, tomar consciência da realidade é irrelevante. Para que olhar para o mundo externo se o que eu quero magicamente aparece bem na hora em que desejo?

A gente só passa a se importar com a realidade quando somos expulsos desse paraíso, ou seja, quando a mãe para de estar o dia todo ao nosso dispor.

Freud diz que é nesse período que nos vemos obrigados a aderir ao princípio de realidade para manter vigente o princípio do prazer.

Em outras palavras, quando a mãe para de fazer tudo o que queremos na hora em que queremos, somos obrigados a BUSCAR ATIVAMENTE o que queremos.

Para isso, precisamos necessariamente tomar consciência da realidade e da lógica própria do mundo externo. O peito da mãe não “cairá do céu” como antes. Agora a gente tem que pedi-lo.

Moral da história: amadurecer significa continuar buscando fazer os gols do desejo, mas dentro das quatro linhas da realidade.

Conhece alguém que precisa ou gostaria de ler este texto? Assinale a pessoa aí embaixo.


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A gente faz Psicanálise para se respeitar

É natural que as pessoas procurem ajuda psicoterapêutica com o objetivo de mudarem, isto é, de se livrarem de traços e comportamentos que as fazem sofrer.

Todavia, esse legítimo desejo de mudança pode vir contaminado pela busca de certos ideais que não têm nada a ver com aquilo que o sujeito verdadeiramente deseja.

Deixa eu te explicar isso melhor com o apoio de uma ilustração factual.

Tomemos, por exemplo, o caso de um jovem que se deleita ficando em casa sozinho, estudando, tocando instrumentos musicais e assistindo aos filmes de sua preferência.

Navegando por perfis de desenvolvimento pessoal no Instagram, esse jovem é levado a crer que não deveria passar tanto tempo sozinho e que o “correto” seria tornar-se mais sociável.

Esse imperativo evoca nele as duras palavras que sempre ouviu de seu pai: “Sai desse quarto, menino! Parece um bicho do mato! Você precisa dar umas voltas com seus amigos!”

Pronto! Agora esse pobre rapaz acredita que sua forma espontânea de curtir a vida (mais reclusa, sem tantas interações) é um problema e que ele deveria mudar para se adequar.

Para se adequar a quê?

A um suposto ideal de saúde emocional que parece ser natural e universal, mas, na verdade, foi inventado por algumas pessoas (coincidentemente, sociáveis…).

Em casos como esse, o objetivo da Psicanálise não é o de ajudar essa pessoa a mudar a sua forma habitual de se comportar.

A terapia psicanalítica não está a serviço de nenhum ideal normativo.

A meta passa a ser auxiliar o paciente a relativizar o peso do imperativo superegoico de adequação ao ideal de sociabilidade.

Em outras palavras, trata-se de ajudar o sujeito a RESPEITAR o seu próprio jeito de ser.

Afinal, é só quando reconhecemos e legitimamos aquilo que, em nós, é mais forte do que nós que nos tornamos flexíveis o bastante para fazermos diferente – quando necessário.


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Quais são os seus agasalhos emocionais?

No momento em que escrevo este texto, estamos em pleno inverno aqui no Brasil. Por isso, em muitas regiões do país, a temperatura tem se mantido relativamente baixa.

Contudo, é muito provável que daqui a aproximadamente um mês e meio nosso clima quente, tipicamente tropical, volte a dar as caras.

O que você falaria para o seu namorado, por exemplo, se lá por volta de outubro, novembro, no auge da primavera, ele continuasse utilizando grossos agasalhos mesmo sob um intenso calor?

Talvez você dissesse algo como: “Ei, o frio já passou. Hora de usar roupas mais leves. Não faz sentido continuar vestindo isso. Você não se sente incomodado?”

E seu eu te disser que muitos de nós se comportam exatamente como esse excêntrico rapaz, mas em relação à vida emocional?

Deixa eu te explicar:

A gente usa agasalho para se proteger do frio, certo? Então, podemos dizer que tal vestimenta é um instrumento de adaptação ao sofrimento gerado pelas baixas temperaturas, concorda?

É muito mais conveniente usar uma camiseta do que um agasalho, mas, para escapar do desconforto gerado pelo frio, não temos escolha, né?

Então…

A Psicanálise descobriu que, na infância, diante de experiências às vezes não só desconfortáveis como o frio, mas insuportáveis mesmo, a gente também lança mão de instrumentos de adaptação.

São, digamos, agasalhos emocionais.

Trata-se de mecanismos psíquicos patológicos como a repressão, a dissociação, o falso self, a identificação com o agressor e a autocondenação, por exemplo.

Como ainda somos crianças e não podemos fugir do ambiente hostil em que a vida nos colocou, não temos escolha: precisamos vestir esses agasalhos emocionais.

É a nossa sobrevivência psíquica que está em jogo.

O problema é que, tal como o singular rapaz mencionado acima, a gente continua usando esses agasalhos mesmo fora de época…

O contexto adverso da infância já passou, mas continuamos utilizando as mesmas estratégias de autoproteção como se ainda vivêssemos nele.

Você se enquadra nessa descrição? Continua utilizando agasalhos mesmo no calor?


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