Por que não dá para fazer terapia consigo mesmo (autoanálise)?

Se desde a mais tenra idade somos levados pelas pressões sociais, a princípio encarnadas nas palavras de nossos pais, a fingir para nós mesmos que somos melhores do que efetivamente somos, que garantias poderemos ter de que, numa suposta autoanálise, teremos a capacidade de sermos sinceros com nós mesmos?

Por mais franca que uma pessoa possa ser em relação às suas motivações, seu olhar estará sempre embaçado por seus mecanismos de defesa. Afinal, seu desejo de corresponder às expectativas do Outro e se ver como uma pessoa “do bem” e “de bem” será sempre mais forte do que seu esforço para se autoenxergar. É por isso que a presença de um terapeuta é fundamental. De fato, é ele quem, desprovido dos vieses que ofuscam o olhar do paciente, estará suficientemente aberto para escutar as vozes da dimensão natural/espontânea que, ainda que abafadas, se fazem ouvir…

Leia o texto completo em bit.ly/drdautoanalise


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Preciso mesmo fazer terapia?

Muitas pessoas se perguntam se um bom exercício de autorreflexão honesta não poderia substituir a entrada em um processo psicoterápico.

Do meu ponto de vista, acredito que não. Por mais perspicácia e conhecimento de Psicologia que uma pessoa possa ter, há certos EFEITOS SUBJETIVOS que só podem ser produzidos em uma relação de diálogo com um outro que esteja exclusivamente disposto a nos ajudar a pensar.

Dentre tais efeitos, cito dois:

1. Ao exercer a função de testemunha, o terapeuta leva o paciente a se responsabilizar pelo que pensa e diz, implicando-se em seu próprio discurso. Em nossas supostas autoanálises, frequentemente damos desculpas para nós mesmos, o que nos leva a um processo de autovitimização que não nos deixa sair do lugar.

2. A mera expressão de nossos pensamentos por meio da fala para um outro já é, em si mesma, terapêutica. Todo mundo conhece o alívio que traz um bom desabafo. Contudo, na terapia não se trata apenas de desabafo, mas de RELATIVIZAÇÃO. Sim! A necessidade de compartilhar nossos pensamentos com o terapeuta faz com que eles percam imediatamente o poder avassalador e onipotente que detinham quando eram apenas nossos. Às vezes o paciente chega até a rir de pensamentos que antes de serem verbalizados lhe causavam grande sofrimento.

Por essas e outras, acredito que pensar sobre si mesmo é uma tarefa que só se pode fazer adequadamente quando se está muito bem acompanhado.


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Você vive obedecendo à criança que já deixou de ser?

E seu eu te disser que esse quadro de adoecimento emocional que te faz sofrer talvez possa ser a consequência inevitável de um raciocínio que você elaborou quando criança e que mantém no fundo da alma até hoje?

Calma que eu vou te explicar.

Vou tratar aqui de um achado que deriva diretamente da minha experiência clínica iluminada, obviamente, pela teoria psicanalítica.

Percebo com muita frequência que muitos dos padrões de sofrimento que meus pacientes apresentam parecem estar fortemente vinculados a certas conclusões que a pessoa fez quando criança e que, desde então, ela nunca mais questionou.

Deixa eu te dar um exemplo:

Uma moça queixa-se de um excesso de autocobrança que a faz se sentir extremamente mal quando fracassa ou comete alguma falha. Ao falar sobre sua infância, essa paciente relata ter sofrido humilhações e zombarias por parte de alguns colegas no início da vida escolar em função de certas particularidades do seu corpo. No fluxo da associação livre, ela própria chega à conclusão de que, para compensar o sentimento de inferioridade induzido pelos ataques de seus colegas, pode ter buscado se tornar uma aluna exemplar, elogiada por todos os professores, pelos pais e admirada por vários colegas.

O problema é que, na medida em que a busca por se tornar uma “aluna nota 10” foi impulsionada pela fuga do sentimento de inferioridade, ela provavelmente desenvolveu o seguinte raciocínio (naquela época): “Não posso jamais deixar de ser a aluna exemplar! Do contrário, o que serei? Apenas a menina inadequada, inferior e humilhada por aqueles colegas. Não! Não quero isso para mim. Portanto, não posso errar, não posso fracassar, preciso ser sempre a aluna perfeita!”.

Ora, diante de uma conclusão como essa, como não sofrer com a autocobrança excessiva e o medo de errar?

Percebe? Essa jovem padece de um raciocínio inadequado e defensivo, forjado há muitos anos, mas que provavelmente permanece em seu psiquismo, orientando inconsciente suas ações.

Agora, na terapia, finalmente ela terá a oportunidade de questioná-lo e, consequentemente, abandoná-lo.

Você consegue identificar um processo semelhante na sua própria vida?


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Só quem se assume como autor da própria história é capaz de alterá-la

Hoje à noite vou ministrar uma aula sobre os fatores que promovem a melhora do paciente em um processo psicoterapêutico.

A partir das ideias propostas pelo texto que utilizarei como base para essa aula, retomei uma reflexão que tenho desenvolvido há bastante tempo sobre um fator que, do meu ponto de vista, é crucial para as transformações que acontecem com as pessoas que fazem Psicanálise.

Trata-se da conquista de uma função que eu nomearia como “autoria da própria história”.

Explico:

Quando a gente faz Psicanálise, somos convocados pelo analista a falar de nós mesmos. Isso pode parecer óbvio, mas eu já te conto qual é o “pulo do gato”…

Estimulados pelo terapeuta a narrar nossas vivências, descrever nossos sentimentos, verbalizar nossas ideias, somos levados a adotar um ponto de vista diferente sobre nós mesmos.

Num primeiro momento, saímos da posição de personagens dos nossos dramas e nos tornamos espectadores de nossa história. Esse é o lugar a partir do qual inicialmente falamos. Com efeito, contamos nossas experiências como quem fala de uma terceira pessoa. Nossa expectativa é de que o analista seja uma testemunha solidária que enxerga com olhar compassivo as mazelas e infortúnios que lhe relatamos.

Todavia, para que a análise seja efetivamente transformadora, é preciso um segundo passo. É nele que a magia acontece.

À medida que narramos ao terapeuta nosso sofrimento, pouco a pouco nos damos conta de que a história que estamos assistindo e que contamos a ele foi, na verdade, escrita por nós mesmos! Esse insight acontece porque, conforme verbalizamos nossas experiências, vamos percebendo que há um fio condutor que perpassa todos os acontecimentos. Eles não se concatenam de modo aleatório. Há uma organização, há uma trama, há uma… AUTORIA.

É essa saída da posição de espectador e o reconhecimento do lugar de autor da própria história que percebo como um dos elementos cruciais que promovem a mudança na terapia psicanalítica.

Afinal, é somente assumindo a autoria de minha própria história que me torno capaz de escrever um novo enredo, um novo desfecho, um novo começo…


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Como explicar a Psicanálise para o paciente que nunca fez terapia?

Uma pessoa me fez essa pergunta na caixinha dos stories do Instagram.

Como muitos seguidores consideraram a resposta relevante, decidi compartilhá-la aqui no feed também a fim de alcançar outras pessoas.

Para explicar o funcionamento da Psicanálise para um paciente que nunca fez terapia, creio ser apropriada a seguinte analogia:

“Imagine [você, analista, está falando com o paciente] que a terapia é uma longa viagem que nós dois faremos juntos de carro.

É uma viagem diferente, pois a gente não sabe exatamente onde vai chegar; o mais importante é a jornada que faremos juntos.

Quem irá dirigir o carro? Você. Sim, pode parecer estranho que seja você, o paciente, a guiar esse processo, mas, confie em mim: é melhor assim.

Bem, isso significa que eu, como terapeuta, estarei no banco do carona, certo? Mas, não se preocupe: eu não vou ficar dormindo (aqui pode entrar uma leve risada). Eu vou funcionar para você como uma espécie de copiloto.

Durante a viagem, a sua tarefa é bem simples: você só tem que guiar o carro para onde quiser e ir descrevendo para mim o que está vendo à frente e ao redor.

Não, não temos um mapa. Esta é a graça desta viagem. Não existe um trajeto planejado. É você quem decide para onde a gente vai.

E eu, o que farei? Como disse, eu serei meio que um copiloto. De vez em quando, eu vou pedir para você fazer a volta para a gente passar de novo por certos lugares e vou chamar sua atenção para certas coisas que passaram batido pelo seu olhar.

Confie em mim: enquanto a gente faz essa viagem, pouco a pouco esse sofrimento todo que te fez vir aqui vai passar.

Talvez, depois de um tempo, você queira estacionar o carro, mas é possível também que goste tanto da viagem que não queira mais parar de dirigir.”.

E aí, o que você achou da analogia? Você, analista, costuma utilizar outras comparações como essa com seus pacientes?


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Psicanálise não é para todo o mundo

O objetivo maior do trabalho de um terapeuta deve ser o de oferecer ao paciente todos os recursos de que dispõe a fim de ajudá-lo a remover os obstáculos que comprometem sua saúde emocional.

A Psicanálise é apenas um desses recursos. Nem todos os pacientes precisam dela e nem todos possuem as condições necessárias para usufruir de seus benefícios.

Psicanálise não é para todo o mundo.

Há pacientes que não precisam de análise, mas de uma simples conversa onde poderão esclarecer algumas ideias e encontrar algumas saídas. Nada de interpretação, nada de análise de resistências, só clarificação de ideias. É o suficiente para alguns.

Há outros que demandarão do analista uma participação ativa, reasseguradora e eventualmente até sugestiva. Faz parte.

O mais importante é proporcionar ao paciente o cuidado que ele precisa no momento.

Eu não deixo de ser psicanalista quando ofereço ao paciente outros recursos não-analíticos. Como dizia Winnicott, nesses casos serei um psicanalista fazendo outra coisa.


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Psicanálise não é uma conversa. É muito melhor do que isso.

Muita gente acredita que a Psicanálise é um tipo de conversa. Isso é um equívoco.

A conversa é basicamente uma troca de ideias. Quando conversamos, estamos interessados em verbalizar o que pensamos e também em ouvir o que o outro pensa. O interlocutor, por sua vez, faz a mesma coisa.

Ora, não é isso o que acontece numa Psicanálise.

De fato, numa sessão analítica, o paciente fala e deseja ouvir o que o seu analista tem a dizer. Aliás, esse interesse pela palavra do terapeuta é um dos sinais do que nós chamamos de transferência, ingrediente fundamental para o sucesso do tratamento.

No entanto, ao contrário do que acontece numa conversa, o analista frustra a demanda do paciente de saber quais são suas ideias. Com efeito, numa Psicanálise, o terapeuta não fala o que pensa, mas tenta colocar em palavras aquilo que está nas entrelinhas do discurso do paciente. Em outras palavras, o psicanalista entrega ao analisante aquilo que está implícito em sua própria fala.

É por isso que fazer análise é uma experiência simultaneamente incômoda e aliviadora.

É desconfortável porque frustra o nosso desejo infantil de termos um guru a nos guiar pela vida dizendo o que devemos fazer e como devemos ser.

Todavia, é uma experiência também reconfortante porque nos oferece a possibilidade de sermos verdadeiramente escutados em nossa singularidade, o que raramente ocorre numa conversa, na qual que o interlocutor, amiúde, ao invés de nos escutar atentamente, está mais preocupado com o que irá dizer quando nos calarmos.


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Terapia é coisa pra gente corajosa

Muitos pacientes chegam ao consultório de um terapeuta se condenando por estarem precisando de ajuda. São pessoas que vivenciam um duplo sofrimento: para-além da dor provocada pelo próprio adoecimento, ainda padecem com o sentimento de culpa simplesmente por estarem reconhecendo sua vulnerabilidade.

No entanto, ao contrário do que esses pacientes pensam a princípio e diferentemente também do que o senso comum sustenta a respeito de quem procura ajuda psicológica, entrar em terapia é uma das atitudes mais corajosas que uma pessoa pode tomar.

A razão é simples: quem se deita no divã ou fica de frente para um terapeuta está se propondo a fazer uma longa viagem pelos confins da própria alma, jornada em cujo trajeto irá se deparar com paisagens desagradáveis e muitas vezes assustadoras.

Quem venceu suas resistências narcísicas e decidiu fazer esse mergulho dentro de si não é nada fraco. Pelo contrário: conta com a força que só conhecemos quando não tememos a vulnerabilidade.


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4 boas práticas para aproveitar melhor sua terapia

1 Encare o processo terapêutico como tratamento: não trate sua sessão de terapia como um mero compromisso semanal ou como um simples momento de desabafo. Considere cada encontro com seu terapeuta como uma etapa do caminho que o levará à tão desejada cura.

2 Não utilize um roteiro: não faça uma lista de coisas que você deseja trabalhar nas sessões. Você talvez não perceba, mas esse tipo de planejamento acaba sendo uma forma inconsciente de evitar tocar justamente nos pontos que precisam ser abordados no tratamento. Em outras palavras, você lista algumas questões justamente para não falar de outras. Em vez de levar um roteiro, faça o que nós, psicanalistas, chamamos de “associação livre”, ou seja, fale o que vier à sua cabeça, sem preocupar-se com ordenação ou coerência. Dessa forma, você tornará seu discurso mais permeável à passagem do Inconsciente e, consequentemente, facilitará a identificação da origem dos seus sintomas.

3 Fique atento aos seus sonhos: quando iniciamos um processo terapêutico é comum passarmos a nos lembrar com mais frequência de nossos sonhos. Isso acontece porque a terapia afeta de forma mais significativa o Inconsciente, levando-o a se movimentar de forma mais visível. Por isso, é importante que você preste atenção aos seus sonhos enquanto estiver em terapia, pois eles revelam o que está se passando em você na dimensão do Inconsciente. Se possível, habitue-se a anotá-los e reflita sobre eles associando os elementos do sonho a aspectos da sua vida atual e de sua história. Trata-se de um material riquíssimo que não deve jamais ser menosprezado.

4 Não limite a terapia apenas ao que acontece nas sessões: a terapia não se dá apenas durante os 45 ou 50 minutos em que você se encontra com o terapeuta. O Inconsciente funciona 24 horas por dia! Por isso, é importante que você intencionalmente reflita sobre o que acontece consigo diariamente, sobretudo sobre atos falhos e esquecimentos, e também sobre os pensamentos e fantasias que lhe passam pela cabeça tentando conectar tudo isso com que vem sendo trabalhado durante as sessões. Às vezes, uma intervenção feita pelo terapeuta em uma sessão só fará sentido alguns dias depois em função de algum evento ou após uma reflexão.

[Vídeo] A falácia da “força de vontade”

Não caia na armadilha de tentar tratar o seu adoecimento emocional apenas com força de vontade. Você não conseguirá, sentir-se-á aflito e, de quebra, arruinará ainda mais sua autoimagem. Não subestime a complexidade da sua alma.

Self-handicapping: prejudicar-se para salvar a autoimagem

self-handicapping

Poucas coisas na vida são tão valiosas para nós quanto nossa autoimagem (sim, de acordo com o Novo Acordo Ortográfico, “autoimagem” se escreve assim mesmo, tudo junto). Para manter nossa autoimagem intacta e ilibada a gente é capaz de qualquer negócio, desde sacrificar nosso bem-estar (e de outras pessoas) até, em casos extremos, comprometer nossa própria sobrevivência.

Os norte-americanos, com sua mania de dar nome para tudo, detectaram com muita precisão o mecanismo por meio do qual nós agimos de modo autodestrutivo para conservar nossa autoimagem. Eles chamam isso de self-handicapping, que poderíamos traduzir mal e porcamente por “autodesvantagem” ou “autoprejuízo”.

Pois bem, o self-handicapping acontece quando inconscientemente (ou quase conscientemente, às vezes) criamos para nós mesmos obstáculos para a execução de uma determinada tarefa ou alegamos que determinados fatores externos são barreiras intransponíveis (a famosa “desculpa”). Por exemplo, João está participando de um concurso público e, dentro de duas semanas, deverá fazer a prova escrita. Contudo, devido ao medo enorme de não ter um bom desempenho, inconscientemente ele passa a se expor a determinados fatores ambientais (por exemplo, mudanças bruscas de temperatura, poeira, comida mal conservada etc.) e, pronto: João acaba ficando doente, inviabilizando seu comparecimento ao local da prova.

À primeira vista a gente poderia pensar que isso não faz o menor sentido, pois ninguém jamais ficaria doente voluntariamente. Um olhar mais profundo, contudo, nos mostra que, no caso de João, a doença era o menor de seus males. O pior mesmo seria encarar o concurso! Veja: por um lado, ele está se prejudicando na medida em que está perdendo a oportunidade de conseguir um novo emprego. No entanto, ao mesmo tempo, João está preservando sua autoimagem posto que, ao deixar de fazer a prova, estará evitando a exposição da autoimagem ao risco de um mau desempenho. Além disso, ao ficar enfermo, poderá alegar para si mesmo e para as outras pessoas que não foi ele quem não quis fazer a prova por estar temeroso de falhar, mas sim que a doença o impediu.

Há outras situações em que não somos nós que criamos os obstáculos, mas utilizamos aspectos do ambiente como supostos empecilhos. Por exemplo, para não lidar com o risco de falhar em uma relação sexual e evitar ter que dizer para si mesmo que não teve a coragem de se expor a esse risco, o jovem José pode dizer a sua namorada que não devem transar, pois não possuem um lugar apropriado para tal. Nesse caso, o rapaz está utilizando uma circunstância que, em si mesma, não representa necessariamente um obstáculo para a relação sexual como um meio de evitar reconhecer para si mesmo que não está suficientemente seguro de sua potência. Agindo assim, mantém sua autoimagem intacta.

Você deve ter percebido que ambos os casos giram em torno da autoconfiança, ou melhor, da falta dela. Isso não significa que o indivíduo autoconfiante não sinta medo ou ansiedade. É impossível viver sem experimentar esses afetos. Contudo, o sentimento de que é potente e de que, mesmo após um erro, será capaz de olhar para si mesmo com alegria, é maior do que o medo ou a ansiedade. O autoconfiante não sufoca o medo e a insegurança. Não! É que na batalha dos afetos, a autoconfiança se mostra mais potente do que o medo. Como disse o filósofo holandês Spinoza, um afeto só pode ser vencido por outro afeto maior e não pela razão. Por isso, não adianta apelar para o bom senso e dizer para o indivíduo inseguro que ele não precisa temer, que “o não ele já tem”, que ele é capaz. É preciso que a autoconfiança seja um afeto, ou seja, uma experiência efetiva.

É por isso que a psicanálise funciona! Funciona porque não é constituída de conselhos por parte do analista, mas sim por uma experiência relacional efetiva e afetiva. Se o indivíduo adquire autoconfiança após um tratamento psicanalítico, isso ocorre não porque o analista o convenceu pela via dos argumentos de que ele é capaz, mas porque o indivíduo pode vivenciar sua própria potência nos encontros com o terapeuta.

Este texto foi publicado com ligeiras alterações em minha página no Facebook no dia 11 de janeiro de 2016.

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[Vídeo] 3 dicas para lidar com a ansiedade

Neste vídeo faço algumas considerações gerais sobre a ansiedade e apresento 3 orientações essenciais para quem está buscando lidar melhor com esse incômodo e desgastante afeto.


7 coisas que você precisa saber antes de começar a fazer terapia

Sete coisas que você precisa saber antes de começar a fazer terapia

1. EXISTEM VÁRIOS TIPOS DE PSICOTERAPIA, que utilizam métodos e teorias distintos. Eu, por exemplo, trabalho com a psicoterapia de orientação psicanalítica, mas existem terapeutas comportamentais, cognitivo-comportamentais, humanistas, existencialistas etc. Procure saber que orientação teórico-metodológica o seu terapeuta adota.

2. TERAPEUTA NÃO É MÉDICO. Não espere sair das sessões com uma “receita” de como viver melhor.

3. TERAPEUTA NÃO É PROFETA. Esforce-se para explicar com a maior riqueza de detalhes possível suas dificuldades e problemas.

4. TERAPEUTA NÃO É GURU. Não inicie uma terapia em busca de conselhos sobre decisões a serem tomadas. O terapeuta lhe ajudará a discernir as origens de seu sofrimento e as possíveis implicações de suas escolhas, mas a responsabilidade pelas decisões permanece sendo sua.

5. TERAPIA NÃO É UMA SIMPLES CONVERSA. Ao iniciar um processo terapêutico, você está estabelecendo uma parceria de trabalho com um profissional. Isso mesmo: vocês estão ali para trabalhar! Nesse sentido, você não deve encarar as sessões apenas como oportunidades para “desabafar” ou “ter com quem conversar”.

6. NÃO ESPERE MUDANÇAS RÁPIDAS. Isso pode acontecer, mas não é a regra. Problemas de natureza emocional são infinitamente mais complexos do que doenças físicas. Não existem medicamentos para os males da alma como há para alguns males do corpo. Por isso, saiba que a terapia será um tratamento relativamente longo e as mudanças acontecerão de forma gradativa.

7. NÃO DESANIME. Ao longo da terapia haverá momentos em que parece que “nada acontece”. Você se sentirá tentado a abandonar o processo terapêutico. Resista e persevere. Algumas pesquisas mostram que um dos principais motores do tratamento é o vínculo entre terapeuta e paciente. Portanto, não se preocupe se durante algumas sessões não surgir nenhuma “descoberta” nova. A simples continuidade do processo é, em si mesma, terapêutica.

Este texto foi publicado originalmente em minha página no Facebook no dia 16/09/2015.

[Vídeo] Recado Rápido #14 – Verdades e narrativas

Não raro as pessoas procuram um analista acreditando que, ao longo do tratamento, encontrar-se-ão com a verdade definitiva sobre si mesmas. Se, no início, a psicanálise de fato foi pensada como um método através do qual o sujeito poderia ir ao encontro das memórias relativas aos acontecimentos que determinaram sua história, atualmente não se trata mais disso. Em vez da busca por uma verdade última que estaria na origem do sofrimento do paciente, a análise busca hoje colocar sob suspeita justamente aquilo que se apresenta ao sujeito com o peso de uma verdade imutável e que são de fato narrativas construídas acerca de sua história.


Quando o analista não se apaga (final)

Joao Bobo - Bichinhos - Tigre - 1907 (1)No artigo “Elasticidade da técnica psicanalítica”, Ferenczi assinala de forma veemente que o uso da empatia como recurso terapêutico não seria propriamente uma inovação no campo da técnica psicanalítica, pois Freud já o teria preconizado. De fato, o fundador da psicanálise sempre defendeu que as intervenções do analista não poderiam ser levadas a cabo à revelia do que se passava com o paciente durante a sessão. Uma interpretação, por exemplo, só deveria ser enunciada quando o analista percebesse que o paciente estava bem próximo de chegar a ela por seus próprios meios. Cremos, todavia, que ao recomendar aos analistas que estejam atentos aos movimentos psíquicos do paciente durante a sessão, Freud não tinha em mente a atitude empática de “sentir com”. Afinal, essa atitude demanda do terapeuta uma disponibilidade para afetar-se que Freud não via com bons olhos.

Ao falar do uso da empatia, Ferenczi está descrevendo uma transformação da posição que o analista ocupava até então no tratamento. O analista que se localizava fora do campo de visão do paciente justamente para facilitar o apagamento de sua pessoa dá lugar a um analista que se posiciona ao lado do paciente, pois só assim é possível “sentir com”. Isso não significa, evidentemente, que o analista abandone sua função de terapeuta e passe a se comportar como um amigo do paciente. Cremos que o cerne da concepção ferencziana sobre o uso da empatia como recurso técnico é a defesa da adaptabilidade do analista. Do ponto de vista freudiano, o analista deve adotar uma postura única para todos os pacientes (até porque Freud considerava que a psicanálise era um método útil apenas para o tratamento das neuroses). Já para Ferenczi, que experimentou a psicanálise no tratamento de formas não-neuróticas de adoecimento emocional, o analista deve adaptar-se às necessidades do paciente. E essa adaptação não pode acontecer jamais se o analista não se coloca no tratamento numa posição de parceria. É a partir desse lugar instaurado no início do processo terapêutico que o analista terá condições de empaticamente “adivinhar” do que o paciente precisa. É possível, inclusive, que o terapeuta chegue à conclusão de que o analisando necessite de um analista mais distante mesmo, mais apagado, pois já é maduro o suficiente para se aventurar nas trilhas de seu inconsciente. No entanto, essa conclusão não pode ser estabelecida a priori, mas a partir da disponibilidade do analista a se deixar afetar pelo paciente.

Ferenczi ilustra essa disponibilidade afetiva do analista com a figura do “João Bobo”, aquele brinquedo infantil que pode ser empurrado e golpeado em várias direções, mas que consegue, ainda assim, retornar a sua posição inicial. A saída do lugar relativamente seguro oferecido pela neutralidade e abstinência e a adoção da posição de parceria exigirá do analista a capacidade de suportar os sentimentos de ódio que eventualmente podem surgir no decorrer do tratamento sem perder o equilíbrio. O analista deve se mostrar aberto a ser alvo tanto dos sentimentos ternos e afáveis quanto dos movimentos apaixonados e agressivos. Mais: deve não apenas se apresentar disponível a recebe-los como também capaz de sobreviver a eles.

Ferenczi observou que pacientes que foram severamente traumatizados nas etapas iniciais de seu desenvolvimento sofrem principalmente da incapacidade de confiarem no mundo (e, por transferência, no analista). Isso os leva a terem dificuldade de se entregar ao processo terapêutico. Assim, o conjunto de manifestações refratárias ao tratamento que Freud chamou de “reação terapêutica negativa” não seria, em todos os casos, uma mera resistência à exploração do conteúdo recalcado ou a expressão de uma suposta “pulsão de morte”. Em outras palavras, o paciente não se entregaria por razões de natureza relacional e não intrapsíquica. A experiência precoce com um ambiente hostil o levaria a sentir-se inseguro e desconfiado: o que garante que o trauma não possa se repetir? Por esse motivo, o esforço do analista não deve ser no sentido de debelar uma suposta resistência, mas na direção de proporcionar um ambiente afetivo o mais próximo possível do esperado pelo bebê antes do trauma. O oferecimento desse ambiente, contudo, não levará o paciente imediatamente à reconquista da capacidade de confiar. Justamente pelo temor de que o trauma possa se repetir, o paciente inevitavelmente tenderá a testar esse novo ambiente acolhedor a fim de certificar-se de que ele é efetivamente confiável. É nesse momento que a maturidade do próprio analista (conquistada graças a sua própria análise) será fundamental. Afinal, o terapeuta deverá ser maduro o suficiente para (1) compreender empaticamente a esperança subjacente aos comportamentos eventualmente agressivos do paciente, (2) aceitar, como um João Bobo, ser golpeado por ele e (3) sobreviver a esses ataques, demonstrando afetivamente ao paciente que ele está diante de um ambiente confiável.

Isso significa que, diante dos movimentos agressivos do paciente, o analista deve simplesmente fazer uma “cara de paisagem” e fingir que nada está acontecendo? Não, dirá Ferenczi. Com efeito, uma das características essenciais de uma pessoa confiável é a sinceridade. O analista húngaro chega, inclusive, a chamar de “hipocrisia profissional” a tendência dos analistas ortodoxos a não expressarem nunca o que sentem a fim de preservarem a neutralidade. Como estamos frisando desde o início deste texto, para Ferenczi o analista não é um lugar, uma função, um vazio. Pelo contrário! O analista é, antes de tudo, uma pessoa com quem o paciente estabelece uma relação real. Nesse sentido, se o analista oculta do paciente todos os seus movimentos afetivos produzidos pela própria relação analítica, ele está impedindo o estabelecimento de uma relação autêntica. Para alguns pacientes (que cada vez se tornam mais raros) essa atitude pode até não comprometer de forma significativa o trabalho. Já para pacientes cuja raiz do adoecimento emocional é a série de traumatismos sofridos na relação com o ambiente, um analista que resiste à instauração de uma relação real é radicalmente anti-terapêutico. Por outro lado, ao defender o uso da sinceridade na relação com o paciente, Ferenczi não está propondo que a análise se transforme numa exposição contínua do próprio analista. O analista húngaro está apenas frisando o valor terapêutico da atitude espontânea e sincera do analista.

À guisa de conclusão, diremos que a técnica psicanalítica clássica proposta por Freud, fundamentada na abstinência e na neutralidade do analista, foi um experimento inegavelmente útil para o tratamento de pacientes que podiam, digamos, se darem ao luxo de prescindir da presença do analista. O analista que se apaga e deixa seu lugar mais ou menos vazio para que o paciente possa atualizar seus conflitos inconscientes é adequado para casos leves de histeria, neurose obsessiva e fobia. Contudo, na atualidade, tais casos têm se mostrado cada vez menos frequentes na clínica. Temos encontrado pacientes cuja capacidade para lidarem com o apagamento do analista é bastante reduzida. Para esses pacientes, o analista empático, que não se apaga e se apresenta disponível para ser afetado é de suma importância. Nesses casos, é a experiência afetiva de relação com tal analista o elemento terapêutico primordial e não a elaboração intrapsíquica de conflitos inconscientes.