Este post é o primeiro de uma série que resolvi intitular como “Winnicott e o cristianismo”, pois pretendo através dela defender a idéia de que as postulações do analista inglês são preciosamente úteis para compreender o Deus cristão e a dinâmica da fé no cristianismo verdadeiro. Além disso, as diversas analogias que podem ser feitas entre conceitos e teses winnicottianas e aspectos do cristianismo possibilitam também um auxílio para o discernimento entre o falso e o verdadeiro cristão.
Para dar início à série, escolhi um dos aspectos da teoria de Winnicott que, por uma coincidência feliz (Jung diria: por sincronicidade), fora levantado pelo colega blogueiro Vladimir Melo no seu comentário do post final sobre o amor como afeto e o amor como ação. Estou me referindo a essa condição psíquica assaz peculiar que atinge a grande maioria das mães quando do nascimento de seu filho. Winnicott fica tão aturdido com a singularidade desse estado que só consegue compará-lo com um delírio psicótico, pois é como se a mãe deixasse de ser ela mesma e passasse a ser o próprio bebê. Ora, casos em que uma pessoa se identifica a tal ponto com outra que abdica de sua individualidade, só são encontrados nas psicoses.
No entanto, no caso das mães, não se trata de uma doença, pois essa “preocupação materna primária”, como Winnicott a denomina, é uma condição necessária, sem a qual o bebê não conseguiria desenvolver suas potencialidades. Isso porque muitas das condições psíquicas básicas que nós, adultos, consideramos como inatas, não o são. Por exemplo, tendemos a achar que a certeza que temos de existir em nosso próprio corpo é uma constatação dada pela própria natureza. Hílare engano! Afinal, os CERSAMS da vida estão abarrotados de pessoas que dizem estarem presas em seu corpo atual, mas que sua verdadeira estrutura corporal está alhures, habitada pela pessoa do irmão. A própria doutrina espírita só foi possível ser formulada pelo saber implícito de que a ligação entre corpo e psiquismo não é natural (daí a dizer que a alma renasce em outros corpos é outra história…).
Temos, para Winnicott, uma tendência inata para a integração. Todavia, essa tendência só vai ser concretizada mediante a presença de um ambiente que reconheça, compreenda e se identifique conosco. Afinal, para que esse ambiente possa facilitar o desenvolvimento do processo de integração e das outras tendências, é preciso que ele não apenas reconheça a necessidade do bebê, mas sinta na pele a confusão que aflige a criança. Assim, de acordo com Winnicott, para que a mãe possa ser boa o suficiente para facilitar o desenvolvimento da criança, é preciso que ela possa se sentir no lugar do bebê, identificando-se com ele. É só após o infante ter conseguido realizar as tarefas básicas de seu desenvolvimento, que a mãe sai desse estado de completa identificação com bebê, permitindo que ele possa caminhar cada vez mais independentemente. Todavia, esse caminhar autônomo só se dará de forma saudável se a mãe tiver, de fato, passado pela preocupação materna primária, o que permitirá ao bebê sentir confiança no ambiente e, a partir daí, lidar com ele de forma criativa, não o considerando como ameaçador.
Ora, não seria análogo a essa identificação materna com o bebê o que o Deus cristão fez para com os homens ao enviar seu Filho Unigênito Jesus ao mundo? Essa vinda de Deus à imanência humana na pele do homem Jesus de Nazaré, o que o apóstolo Paulo chama de kénosis divina, isto é, o rebaixamento de Deus à condição de homem, não seria justamente a vontade de divina de identificar-se com os homens, partilhando, assim, de suas necessidades, agruras e sofrimentos?
A analogia fica ainda mais pertinente se pensarmos que da mesma forma que a mãe abdica de sua individualidade para se identificar com o bebê, Deus se despe de sua majestade celestial e morre! A morte, meus caros, é o superlativo do humano, pois é justamente o “prêmio” que o homem ganhou ao ter sido expulso do Éden. Assim, Deus se identifica de forma tão “doentia” (com muitas aspas e no sentido de “doente de amor”) com os homens, que assume a maior das aflições humanas que é a morte.
A prova de que o que Jesus realiza ao morrer na cruz não tem nada de um heroísmo hercúleo, mas constitui “apenas” um ato de amor supremo de um Deus que quis identificar-se maternalmente com a criatura exatamente para redimi-la, é que, em determinado momento, Jesus diz para os apóstolos que a partir de então eles não eram mais seus servos, mas seus amigos. Ora, amigo é aquele com quem me identifico, com quem posso partilhar das minhas dores. O que Jesus está colocando em evidência é a faceta do Deus Amor que os judeus não conseguiram entender (até hoje).
Assim, da mesma forma que a mãe suficientemente boa se identifica com o bebê para facilitar o desenvolvimento de suas tendências inatas, assim também Deus se fez homem em Jesus para que, compartilhando com os homens o fardo de ser humano, pudesse redimi-los, isto é, resgatar e, por que não, facilitar o desenvolvimento de nossa mais primária inviolável tendência que é a de amar a Deus.
E da mesma forma que a mãe vai gradualmente se desidentificando com o bebê para permitir que ele caminhe com as próprias pernas, assim também Jesus ressuscitou, voltando para sua majestade divina. Todavia, tal como a herança deixada pela identificação da mãe com o bebê é a confiança no ambiente e a capacidade de lidar com ele sem considerá-lo como potencialmente aniquilador, assim também Cristo nos deixou a fé no perdão de Deus e na vida eterna, o que nos permite enfrentar as tentações e o pecado sem o temor da morte.
Em um próximo post, desenvolverei melhor as relações entre a “confiança no ambiente” de Winnicott e a fé cristã.







No último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.
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Para qualquer um que se inicie na leitura de Lacan, a acidez das críticas do psicanalista francês faz com que a pessoa pense sempre duas vezes antes de ler outros pensadores da Psicanálise, sob o risco de estar consumindo lixo. Assim também aconteceu comigo em relação a D. W. Winnicott. Sempre tendo em mente as chacotas de Lacan sobre o que Winnicott concebia a respeito do papel do analista (isto é, fazer as vezes de uma mãe suficientemente boa), acabei por só me introduzir na obra winnicottiana bem mais tarde, a partir do 6º. período, influenciado pelas aulas de Psicologia dos Portadores de Necessidades Especiais.
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Em 1951, o psicanalista e pediatra