Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (parte 2)

De acordo com as últimas elaborações teóricas de Lacan, o chamado objeto a seria o agente causador do desejo. O objeto a, contudo, nada mais é do que um termo inventado por Lacan para nomear justamente a inexistência de um objeto adequado à pulsão. Trata-se, por conseguinte, de um conceito que pretende circunscrever um furo, um vazio radical, uma hiância (para usar um jargão lacaniano). Em decorrência, poderíamos simplificar e dizer por fim que, do ponto de vista lacaniano, a causa do desejo é a inexistência do objeto ou, em outras palavras, que o desejo decorre da falta.

Ora, como dissemos anteriormente, nos parece irrefutável a constatação de que só expressemos os nossos desejos nas ocasiões em que não possuímos os objetos que os satisfariam. Todavia, considero um erro supor, a partir dessa constatação, que é a ausência do objeto, isto é, a falta, em si mesma, que mobiliza, ou seja, que põe em funcionamento o nosso desejo! Do meu ponto de vista, incorre-se em um erro de atribuição causal quando se pensa dessa forma.

Farei uso de um exemplo singelo para ilustrar minha crítica.

Com efeito, nós não desejamos beber água por que não temos tal líquido, ou seja, a ausência de água não é o que produz em nós o desejo de bebê-la! Afinal, haverá ocasiões em que mesmo não tendo água à mão não haverá em nós o desejo de ingerir o fluido. Só experimentaremos esse desejo quando considerarmos que a água nos será útil, conveniente, favorável para a preservação de nossa existência. Dito de outro modo, quando sentirmos sede.

Um interlocutor perspicaz poderia redarguir dizendo: “Eis que você traz novamente a falta à baila! Afinal, o que é a sede senão a falta de água no organismo?”.

Em primeiro lugar, essa última afirmação é uma falácia. A sede, isto é, a experiência subjetiva de anelar por alguns goles de água ou outro líquido que contenha um volume razoável de H²O, não é a ausência dos níveis adequados de água no organismo. Só se pode fazer tal equivalência caso se adote um distante e indiferente ponto de vista biológico e mecanicista, que não reconhece a sede como uma experiência, mas se atém unicamente aos registros dos níveis de água no corpo.

Por outro lado, se não fazemos uso dos óculos do reducionismo biológico, o que observamos é meramente uma relação de concomitância entre a experiência da sede e os níveis reduzidos de água no corpo. Inferir, a partir disso, que há uma relação de identidade entre a falta de água no corpo e a sede (desejo de tomar água) significa cair no engodo reducionista que considera que os instrumentos teórico-conceituais utilizados para descrever a realidade são um espelho da própria realidade. A experiência da sede não é a mensuração dos níveis reduzidos de água no organismo.

A réplica de meu interlocutor fictício, porém, não se limita a supor uma relação de identidade entre a sede e a falta de água no organismo. Sub-repticiamente o que sua contestação reivindica é a existência de uma relação de causalidade entre falta de água e sede, pois tal estado de coisas seria um exemplo de como o desejo (no caso, o desejo de beber água) seria causado, como todo desejo, por uma falta.

Novo equívoco motivado igualmente pela suposição de uma equivalência entre a ausência dos níveis apropriados de água no corpo e a experiência da sede. De fato, essa equivalência, se levada ao limite, acaba dando margem a hipóteses absurdas, como a de que um galão ou um copo d’água, quando vazios, também sentem sede. Afinal, não seria a falta d’água que causaria a sede?

“Mas isso é um absurdo mesmo!”, se exaspera meu incansável interlocutor, “O galão ou o copo não são organismos animais. Só os animais podem sentir sede”.

O que meu interlocutor está dizendo, contrariando sua própria argumentação, é que para explicar a experiência da sede é preciso lançar mão de um dado complementar (no caso, a existência de um organismo animal), além da simples constatação da presença de níveis reduzidos de água. Afinal de contas, caso houvesse uma relação causal entre falta d’água e sede, essa associação deveria existir em qualquer objeto, seja um organismo, seja um copo. Se apenas nos objetos conhecidos como organismos animais é possível verificar o que nós chamamos de sede, isso significa esse tipo de experiência constitui-se em um aspecto próprio, particular, característico, inerente apenas a esse tipo de objeto.

A causa da sede, portanto, não pode ser a falta da quantidade adequada de água no organismo, como queríamos demonstrar.

Por outro lado, se considerarmos que a água, nas ocasiões em que o indivíduo está com níveis reduzidos desse líquido no organismo, ao mesmo tempo em que se configura para ele como algo desejável, lhe é útil, logo damo-nos conta de que há no indivíduo uma tendência, uma inclinação, uma força atávica que o leva a buscar o que é útil para si a fim de manter-se vivo e como que regenerar-se continuamente. Nesse sentido, a causa do desejo, ou o próprio desejo, nada mais é do que essa tendência, que o filósofo Benedictus de Spinoza chamou de tendência de perseveração na existência. A falta de água, portanto, é uma mera condição transitória experimentada pelo indivíduo em determinadas ocasiões, que não causa o desejo, mas apenas modula a forma como a tendência a perseverar na existência – que se expressa ininterruptamente – se manifestará naquele momento específico em que falta água, ou seja, em forma de sede.

Uma possível nova objeção de meu interlocutor, já combalido, poderia ser a seguinte: “Para Lacan, sede não é desejo. Trata-se de algo da ordem da necessidade. As necessidades possuem objetos adequados para saciá-las; o desejo não. Portanto, seu exemplo, não é adequado ao argumento. Encontre outro”.

No próximo post, tentarei debelar essa nova investida demonstrando que a diferença entre necessidade e desejo, preciosa para Lacan, é também, do meu ponto de vista, questionável.

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4 comentários sobre “Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (parte 2)

  1. Bem, uma parte da minha “objeção”, vc mesmo já fez, no final, ao acenar à diferença entre desejo e necessidade. E estou também ansioso para ver como você vai “questionar” essa diferença. Mas a outra parte, bem mais grave, diz respeito ao que tá por trás da sua referência ao Spinoza, isto é, a “causa final” ou “teleológica”. Não vou fazer isso agora pq tenho q dormir cedo e amanha tenho prova e a semana inteira tenho prova, então… na realidade, não devo fazer isso tão cedo. Mas vou chamar a sua atenção para o seguinte: vc dedica muitas linhas epistemologicamente sensatas à natureza da noção de causalidade, o que é muito bom e pertinente. No entanto, ao introduzir como fator “explicativo” a causa final, que remonta a aristóteles (mas que na verdade é quase que universalmente “instintivo” enquanto explicação em tudo que tem “consciência), você recorre a alguma coisa que não é muito interessante enquanto “explicação” do ponto de vista epistemológico. Para resumir de forma direta e grosseira, com qq “explicação” de qualquer coisa que recorra à causa final, a gente pode então sempre dizer que “a causa da sede (ou de qualquer outro “desejo”) é a vontade de Deus, Seu projeto para a humanidade (ou os animais)”. Talvez seja, mas não tem a menor utilidade do ponto de vista “prático”-científico. Em outras palavras: acho muito mais difícil você conseguir sustentar uma “tendência a preservar a existência” (na verdade, pior que difícil: inevitavelmente você vai recair em explicações metafísicas) do que o “desejo como decorrência de um furo”. O jacaré não como o pato “para sobreviver”, mas uma vez que ele come o pato pq comendo o pato a sensação desagradável que ele tá sentindo desaparece, ele acaba sobrevivendo mais. Com isso, ele muito provavelmente se reproduzirá com mais frequencia que jacarés que não comem quando sentem a mesma sensação, e o filho do jacaré herdará do pai os genes que determinam a “ação” de “comer pato” quando se sente fome… e assim por diante… As pedras não caem pq elas querem chegar no chão…

  2. Complementando: E nem o ar quente sobe pq ele tem mais afinidade com as alturas… mas pq existe um “empuxo” determinado (causado) pela diferença de densidade entre o ar quente e o ar frio…. (e corrige o “… como o pato” para “… come o pato”), por favor…

  3. Lucas, brilhante como sempre, porém agora você me deixou com sede do proximo post.Isto em mim é desejo ou necessidade? Venho estudando há anos o objeto a, que a meu ver é um dos conceitos mais complicados, porém essencial em Lacan.Aguardarei próximo, mas o furo ja esta em mim.
    abçs.

  4. Muito bom o comentário, Carlos!!! Mas pode deixar que você não ficará “faltoso” rsrs Segunda-feira sai a terceira parte. Novamente reitero que o conceito de objeto a é muito interessante e útil sob diversos aspectos. O que estou fazendo é apenas um exercício de pensamento!
    Um forte abraço!!

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