Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (parte 3)

Tentei demonstrar até aqui a tese de que nossos desejos não são causados pela falta dos objetos capazes de saciá-los. Utilizando o exemplo do desejo de beber água (sede), expliquei que a ausência parcial (“falta”) de água no organismo não pode ser causa suficiente para o surgimento desse desejo na medida em que tal condição também pode se fazer presente, por exemplo, em um copo d’água e, contudo, não se diz por conta disso que o copo sente sede. Creio ter provado, portanto, que para explicar o desejo de beber água é preciso admitir nos organismos animais (os únicos que aparentemente expressam as reações que nos acostumamos a chamar de sede) a presença de uma força que, nas ocasiões em que se verifica uma reduzida quantidade de água no corpo, mobiliza o indivíduo na busca de um objeto (água) capaz de extinguir essa “falta” e, por consequência, manter vivo o ser, aumentando, assim, sua potência de agir no mundo. Neste sentido, conforme expliquei, não é a falta que move o indivíduo na busca do objeto de desejo, mas sim esse esforço de perseveração na existência que nada mais é do que a própria essência do ser.

Não obstante, na medida em que estamos aqui dialogando com a teoria lacaniana, fizemos nosso interlocutor fictício expressar uma objeção que poderia estar presente na mente de muitos analistas lacanianos que porventura tivessem lido o texto até aqui. Trata-se da tentativa de derrubar meus argumentos através da recorrência à distinção proposta por Lacan entre necessidade e desejo. Com efeito, para o psicanalista francês, o desejo não possuiria objetos fixos e adequados para saciá-lo, diferentemente das necessidades, como fome e sede as quais, para serem satisfeitas, precisariam tão somente de alimento e água, respectivamente. O desejo, por seu turno, seria constitutivamente insaciável. Qualquer objeto utilizado para tentar satisfazer um desejo seria sempre insuficiente, ou seja, jamais conseguiria fornecer uma satisfação completa, mas sempre parcial. Nesse sentido, haveria sempre uma desarmonia entre o desejo e o objeto, pois nada no mundo seria capaz de preencher um suposto furo radical instaurado no ser por sua condição de habitante da linguagem. Como já repetimos por diversas vezes, seria esse furo, de acordo com Lacan, a causa do desejo.

Atendendo, pois, ao pedido de meu interlocutor fictício, demonstrarei que a diferença entre necessidade e desejo – a qual, em tese, ratificaria o argumento de que o desejo é causado pela falta – é, na verdade, uma distinção produzida a partir de uma fantasia: a fantasia do gozo pleno, do absoluto, que implicitamente admite a existência de um ser transcendente, completo, impassível e imóvel, um ser sem desejos.

Outrossim, demonstrarei que a tese que propusemos, a saber: a de que o desejo é causado primariamente pelo esforço de perseveração na existência e não pela falta, pode ser sustentada utilizando o exemplo não apenas de uma “necessidade” (como a sede), mas também de um “desejo” (no sentido que Lacan confere a esses termos – daí as aspas).

Tomemos o desejo de comer uma barra de chocolate como sobremesa. Já não estamos mais no campo da “necessidade”, pois tal desejo não visaria propriamente à satisfação da fome, mas sim, à obtenção de um prazer oral. Vale ressaltar que nesse exemplo estamos supondo que o indivíduo em questão já se alimentou, de modo que não sente mais fome. Entretanto, malgrado isso, deseja ainda saborear, como sobrepasto, o delicioso produto derivado do cacau. Estamos falando, portanto, de um legítimo exemplo de “desejo” e não de “necessidade”.

Como explicar esse desejo? Se não há falta de alimento no organismo, visto que o sujeito já se nutriu, como se sustenta nesse caso a tese lacaniana de que o desejo é causado por uma falta?

No limite, poderíamos descrever o argumento lacaniano da seguinte forma: o sujeito buscaria obter o prazer parcial proporcionado pelo chocolate, ou seja, devoraria esse alimento ainda que não mais estivesse sentindo fome unicamente com o intuito de saboreá-lo, porque no indivíduo humano haveria uma falta impossível de ser preenchida que o levaria a buscar no mundo objetos que ilusória e temporariamente “tamponariam” (para usar outro jargão lacaniano) a falta sem jamais conseguirem preenchê-la de fato. A existência, por conseguinte, seria um longo ciclo de ilusões e decepções.

Assim, do ponto de vista lacaniano, o desejo de comer chocolate como sobremesa – e todos os demais desejos – seria uma espécie de compensação pela falta de um objeto mítico que ofereceria ao sujeito um gozo absoluto e infinito ou uma tentativa sempre frustrada de encontrar esse objeto. Em outras palavras, o indivíduo só deseja comer a barra de chocolate, só deseja transar com a vizinha gostosa, só deseja ser um ator famoso, só deseja ficar rico, só deseja comprar uma TV de 50 polegadas, só deseja escrever uma poesia, porque não possui o objeto primordial de gozo absoluto e infinito que satisfaria plenamente a suposta falta originária. Se o possuísse, não precisaria desejar. Logo, o desejo seria sempre uma nostalgia do objeto mítico de gozo absoluto.

Observem que o conceito de falta é irremediavelmente correlato da ideia de um gozo absoluto, pleno, infinito. É, por assim dizer, o avesso de uma fantasia que sustenta a existência, em algum lugar do universo, de um ser absolutamente satisfeito e sem desejos. Em outras palavras, para admitir a existência da falta somos obrigados a supor a existência ainda que imaginária de um todo completo. Somos obrigados a considerar a realidade efetiva, sensível, experiencial, como imperfeita, insuficiente, inadequada, aleijada, defeituosa. Em relação a quê? Essa é a pergunta fundamental! Só podemos considerar algo como imperfeito se já soubermos, de antemão, como se configura o perfeito. Exemplificando, só podemos julgar que uma cadeira de três pernas é imperfeita em relação a uma modelo anterior de cadeira com quatro pernas que imaginamos ser perfeito. Nesse sentido, só podemos considerar que o ser humano é essencialmente um ente faltoso, furado, esburacado ou qualquer outro termo correlato utilizado para designar uma insuficiência, insatisfação ou imperfeição constitutiva se, e somente se, tivermos em mente um modelo ideal do humano, plenamente satisfeito e, por conseguinte, sem desejos, já que o desejo decorre da falta! Um corolário óbvio que pode ser extraído dessa concepção, a meu ver, equivocada, é a ideia de que o desejo é uma propriedade da imperfeição, ou seja, que o ideal, a suma perfeição, seria não desejar!

Ora, não é exatamente esse o núcleo da fantasia neurótica, expressão da doença daqueles que frequentam nossos divãs?

Falaremos mais sobre isso adiante. Por ora, retornemos ao nosso exemplo inicial a fim de tomarmos o problema do desejo a partir de outra perspectiva.

Será, de fato, que o desejo de saborear uma barra de chocolate é tão somente uma expressão “dessa saudade que eu sinto de tudo o que eu ainda não vi” (nas palavras do poeta)? Não seria esse desejo, assim como a sede, fruto da tendência que todo indivíduo tem de buscar, na existência, aquilo que lhe é útil (esforço de perseveração na existência)?

Minha indagação serve de “deixa” para meu interlocutor: “Útil?”, pergunta ele, “Desde quando uma barra de chocolate é útil para alguém que já não tem mais fome? É justamente isso o que levou Lacan a diferenciar necessidade e desejo, pois os objetos de desejo são, a rigor, inúteis do ponto de vista da preservação do indivíduo; servem unicamente para proporcionar prazer”.

Ora, por que restringir a noção de utilidade apenas à dimensão da sobrevivência? E também: por que considerar que o fato de o chocolate produzir prazer significa que a finalidade do desejo de comê-lo é exclusivamente a fruição de prazer como compensação pela falta?

Podemos admitir tranquilamente que um determinado objeto pode nos ser útil não apenas no sentido biológico ou pragmático do termo, até por que uma barra de chocolate possui alguns componentes não só inúteis para a preservação do organismo como até deletérios para a saúde. Uma coisa pode ser designada como útil na medida em que aumenta real ou imaginariamente nossa potência de agir na existência, aumento que afetivamente experimentamos como alegria.

As diversas experiências da vida, sobretudo as mais precoces, podem fazer com que determinadas pessoas passem a desejar, às vezes até de modo compulsivo, o chocolate como forma de se sentirem seguras e potentes, ou seja, de terem sua potência de agir aumentada. Em decorrência, podemos dizer que o prazer proporcionado pelo chocolate não é o alvo do desejo, até porque eventualmente temos desejos por coisas que não nos trazem prazer algum, mas que, através de mecanismos de deslocamento, condensação etc. são capazes de aumentar nossa potência de agir – esse, sim, o verdadeiro alvo do desejo.

Só consideraremos o prazer proporcionado pelo chocolate como parcial, incompleto, insuficiente, se estivermos imersos na fantasia que sustenta a esperança em uma satisfação plena e eterna. Por outro lado, se considerarmos que a transitoriedade do prazer oferecido pelo chocolate, isto é, o fato de que se trata de um prazer finito, é tão somente uma característica própria e inerente à experiência com o objeto, não precisaremos imaginar que haja um descompasso entre os objetos do mundo e um suposto objeto mítico de gozo, pois esse último não passaria de uma fantasia. Em decorrência, não precisaremos igualmente supor a existência de falta originária nenhuma.

Dito de outro modo, se o fato de que a degustação de uma barra de chocolate não nos impede de desejar outra barra e muitas outras coisas na vida, isso não significa que haja em nós um buraco que nunca pode ser preenchido. Uma coisa não tem nada a ver com a outra!

Desejamos muitas coisas primeiramente porque somos um esforço ininterrupto de perseveração na existência, o que nos leva sempre a buscar no mundo objetos que aumentem nossa potência de agir. Isso significa admitir que existir é o mesmo que desejar. O fato de jamais encontrarmos um objeto que, em sendo encontrado, faria com que não mais precisássemos desejar, não é um indício de que em nós exista um furo, pois a possibilidade de encontro com esse objeto mítico de gozo pleno já é uma fantasia, produto de uma defesa psíquica contra a transitoriedade inerente às experiências de prazer. Nesse sentido, desejamos muitas e variadas coisas porque praticamente todos os objetos da existência são capazes de aumentarem nossa potência de agir seja de modo imediato seja através de mecanismos psíquicos como deslocamento, condensação etc.

Creio ter conseguido demonstrar até aqui que na verdade o desejo não é, como propõe Lacan, causado pela falta, mas é a expressão autêntica do nosso esforço de perseveração na existência. A título de adendo, na parte final deste texto, mostrarei como a concepção de desejo como tributário de uma suposta falta é decorrente da forma defensivamente neurótica com a qual Lacan entende o conceito freudiano de Trieb (pulsão).

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13 comentários sobre “Questionando o “óbvio”: a falta é a causa do desejo? (parte 3)

  1. Querido Lucas… teu artigo ta ficando cada vez mais intrigante e instigante. Quando dás o exemplo da cadeira com 3 pernas, me remetes ao mundo das ideias de Platão, para quem a realidade, o real, é apenas um tênue rabisco do mundo da perfeição, e que este mundo é inacessível ao humano. Vide o mito da caverna.
    Curti a metáfora cacauística, ( embora seja diabético), mas toda via, mesmo sem ter fome, me parece que nosso amigo fictício chocólatra o devora como indicativo de uma falta, de um furo. Particularmente nos chocólatras eu observo este padrão de comportamento, e olha meu amigo, em sua maioria são neuróticos obsessivos. Os caminhos que você esta percorrendo são sedutores, mas eu tenho a sensação de que como Sísifo, a pedra rola outra vez e de novo estamos diante da incompletude, da hiancia, da falta primeva deste homem construído pelo signo linguístico, para o qual haverá sempre um furo, uma falta, uma falata a ser, e daí batemos de cara com o objeto a!
    Aguardo o próximo…. mandou bem Lucas!

  2. ….Somos obrigados a considerar a realidade efetiva, sensível, experiencial, como imperfeita, insuficiente, inadequada, aleijada, defeituosa. Em relação a quê? Essa é a pergunta fundamental! Só podemos considerar algo como imperfeito se já soubermos, de antemão, como se configura o perfeito. Exemplificando, só podemos julgar que uma cadeira de três pernas é imperfeita em relação a uma modelo anterior de cadeira com quatro pernas que imaginamos ser perfeito…..
    De novo Lucas, ao ler este teu paragrafo, me remeto a questão da Psicanalise como uma Ética do humano, como uma ética que dê conta destes furos aos quais você refere no teu texto, e que se constituem no grande arcabouço da teoria lacaniana. No outro comentário que fiz, ressaltei o mundo das ideias de Platão, porem vindo para os dias de hoje, o que você pensa acerca desta sociedade estruturada na falta, objeto de manipulação midiática, que nos coloca cara-a-cara com nossa incompletude? O próprio ato de comer chocolate, mesmo após um lauto almoço ou jantar, não seria a busca de preencher ainda assim um vazio cujo alimento não foi capaz de dar conta?
    Que vazio seria este? Qual a origem deste vazio? No caso especifico dos chocólatras, o que os leva ao consumo compulsivo do produto, até mesmo ao término de uma transa gostosa dita animal, chocante, massa, etc?
    Por quê a compulsão por roupas nas vitrines, se ao compra-las sem necessidade, assim mesmo estamos vestidos?
    Eu consigo entender teus pontos de vista, mas não consigo me afastar um só instante do furo, da hiancia, da falta lacaniana, que me parecer dar conta deste desvario desejante que é o homem, ou melhor, o sujeito desalojado de sua própria casa. Aqui me refiro a Freud.
    Qual o papel das religiões na cobertura deste furo. desta falta? Será que intuitivamente estes religiosos ainda que de alguma forma “mítica” se dão conta desta falta e via discurso do mestre oferecem um mundo ou um reino onde esta falta cessará?
    Estou adorando estas tuas reflexões provocativas em cima de nitroglicerina pura que é o objeto a e a falta em Lacan….
    Seguimos….
    Acelera ….. talvez tenhamos no seculo 21 a Psicanalise vista não mais sob a ótica Lacaniana e sim de Lucaniana(?)……
    Vai fundo.
    abçs

  3. kkkkkkkkkkkkkkkk Quem me dera ter uma orientação psicanalítica cunhada a partir de minha ideias, Carlos!!! rsrs Mas devo confessar que minhas reflexões não são de todo independentes, mas inspiradas sobretudo pela filosofia de Spinoza e pela obra “Pulsão de morte? Por uma clínica psicanalítica da potência.” do meu orientador de mestrado, André Martins.

    Considero que as questões que você levantou são bastante pertinentes e extremamente atuais. O problema das compulsões, como você sabe, tem se feito cada vez mais presente na clínica. De todo modo, creio que talvez não precisemos da noção de falta “ontológica” para abordar tais situações. Pois acredito que a noção de falta ou de furo como sendo algo constitutivo em todo sujeito, acaba fazendo com que, no limite, todos nós sejamos compulsivos, o que não é verdade. Se pensarmos a partir do paradigma com o qual trabalho no texto, poderemos entender de forma aproximada (pois se trata de um juízo generalizante) a compulsão como o produto secundário de uma defesa maníaca (como diz Winnicott) contra a TRANSITORIEDADE do prazer (aquilo que Nietzsche chamou de “caráter trágico da existência”). Por não suportar o fato de que os prazeres são finitos, o sujeito se defende com uma fantasia de um gozo absoluto. Aí, de fato, ele se impõe uma “falta” imaginária que, na verdade, nada mais é do que o seu SENTIMENTO de impotência diante da existência. Assim, em seu esforço de perseveração, o sujeito “entende” que precisa “comer o mundo” para se sentir potente.
    Acho que isso precisa ser mais elaborado, mas, por ora, foi o que me veio à mente a partir das suas excelentes indagações.
    Espero um dia poder conversar contigo pessoalmente durante horas sobre esses e outros temas!
    Um forte abraço!

  4. Ola Lucas, adoro seu site, sempre venho aqui. Parabens por tudo. Obrigada por dedicar seu tempo a.
    No meu ver creio que Psicanalise, a titulo de clinica, nao pode ser misturada com Filosofia (evidente que a titulo de especulacao, tudo se pode). A Psicanalise como filiacao simbolica deve ser preservada, senao corremos o risco de sairmos por tangentes, validas sim ! porque nao?,mas que levarao a outra, outras ou uma nova Psicologia ou a terapias “Lucaniana”, “Spinoziana”, “Kleiniana” etc etc etc. Enfim, estaremos fazendo “outra coisa”.
    Respondendo a sua questao: “….Somos obrigados a considerar a realidade efetiva, sensível, experiencial, como imperfeita, insuficiente, inadequada, aleijada, defeituosa. Em relação a quê?”
    Penso que seja em relacao ao momento em que ao bebe nada falta ou sobra, ao momento em que o lactante ainda nao percebeu que o Seio eh um objeto que nao pertence ao seu pequeno corpinho e sim a mae, que tem vida propria e independente. Aih, nosso pequeno Adao eh “expulso do paraiso” e sua jornada, epica, de peregrinacao pelo mundo, pode comecar.
    Te deixo grande abraco!
    Julia V.

  5. Olá Júlia! Muito obrigado pelo comentário. Gosto muito de receber esse feedback dos leitores que sempre frequentam essas bandas!
    Discordo de você em relação a sua opinião concernente à articulação entre psicanálise e filosofia. A meu ver, tal interface é não apenas intrínseca à própria psicanálise enquanto discurso como também bastante frutífera. Creio que ao ser colocada em diálogo com outros campos, a psicanálise só tem a ganhar.
    Um forte abraço e continue sempre acompanhando o blog!

  6. Olá Lucas, venho acompanhando e julgo muito produtivo o encontro com teus textos. Havia até tecido algumas considerações, mas me ocorreu antes propor a seguinte pergunta antes de entrar no mérito das demais considerações. Sem o esclarecimento desta questão, me parece precipitado falar de sua pertinência. Vamos a elas: como você proporia trabalhar com este conceito na clínica? Como analista e analisando podem fazer uso desta construção? Simplificando ainda mais a questão: diante da queixa neurótica, a noção spinoziana propõe ou deriva algum instrumento para a clínica? Abraços

  7. Olá Laerte!
    Muito obrigado pela pertinente pergunta!
    Do meu ponto de vista, sem a ideia de que o desejo é constituído a partir da falta ou do furo, a psicanálise só tem a ganhar do ponto de vista clínico, pois, de certa forma, uma clínica fundamentada na ideia de falta acaba, no limite, tendo como horizonte uma certa resignação, já que a falta ou o furo são tomadas como condições estruturais.
    Por outro lado, uma clínica fundamentada na potência de agir pretende possibilitar ao analisando fazer uso do conhecimento (não no sentido de uma razão universal, mas de uma razão afetiva) para ter acesso e transformar a dinâmica afetiva que está em jogo nos sintomas. Nesse sentido, trata-se de uma clínica que busca prover as condições para que o analisando, conhecendo AFETIVAMENTE, ou seja, via transferência, as causas que o levam a agir da forma como o faz, possa aumentar sua potência de agir.
    Não sei se me fiz entender, mas penso que se trata de um assunto deveras complexo e extenso. Remeto você à obra do filósofo e psicanalista André Martins, que foi meu orientador de mestrado: “Pulsão de morte? Por uma clínica psicanalítica da potência”. No 3º capítulo desse livro, o André propõe as diretrizes para uma clínica pensada a partir desses pressupostos.
    Um forte abraço!

  8. Muito bom texto, pra variar! Lembrou-me da formatação de Análise Leiga, do velho Freud.

    Acerca do texto..
    Mas e o desejo de morte?? Será que se trocarmos, ao longo do texto, o “chocolate” pelo “desejo de morte”, as coisas mudariam?

    Ao falar de existência, Lacan o coloca fora de qualquer questão ontológica. Para a emergência do ser, há a existência, mas esta não necessariamente sempre vai parir um “ser ou não ser”. Existência está ao lado do que não tem sentido, ao lado da vida. Pois é a vida que dá o sentido, e isto é profundamente nietzscheano.

    O gozo, por exemplo, é confundido com desejo várias vezes pelos que interpretam Lacan. Basta ler para interpretar em mil pedaços, e a bíblia é a prova disso.
    Quando ele diz dos excessos, daí que entra o gozo e não o desejo, pois o gozo conduz à eliminação do ser. Ou seja, voltamos a questão da existência.

    O gozo é do diabético que come sabendo que está ficando cego pela gula, é do internauta que opera as mão por tendinite, do casal que briga todo dia e não se separa, do atleta, do marombeiro na academia, da bebida no final de semana, das dolorosas vestes femininas…

    A questão da falta é criticada no Anti-édipo e de lá pra cá falta é sinônimo de negatividade. Em contrapartida, propõe-se com Spinoza e Deleuze um desejo enquanto positividade, agenciamento. Fica até parecendo algo como bom e mau, bom encontro (aumenta potencia de agir) e mau encontro (a degradação, o inverso). Mas devemos ler Lacan à luz de Lacan, Deleuze à luz de Deleuze.
    Em Freud e Lacan a perfeição é unicamente mítica. Freud deixa isso claro no texto sobre narcisismo.
    E o que nos resta (olha o resto aí)? Qual posição tomar? A falta existe ou não? Se existe, tem relação com o desejo? Mas é a única relação do desejo? O desejo é relação?

    Ficam as questões sem únicas respostas…
    Fica um furo, um impossivel, ou ficam todas as possibilidades?

  9. Olá Alexandre! Muito obrigado pelo comentário, meu amigo!

    Creio que se o exemplo fosse o “desejo de morte” e não o desejo pelo chocolate ainda assim o argumento permaneceria o mesmo. Aliás, o próprio Spinoza demonstra isso na Ética. Penso que o mal-entendido está associado à questão da pulsão de morte que, para Lacan existe, mas para mim e para Spinoza, Winnicott e outros autores é um equívoco do pensamento.
    Quem se suicida, assim como o diabético que não segue a dieta, não o fazem, do meu ponto de vista, em função do gozo ou da pulsão de morte, mas sim porque a morte, no caso do suicida, e a alimentação “errada”, no caso do diabético, constituem-se para essas pessoas como um “mal menor”. Em outras palavras, a potência de agir continua vigente, mas, em função das experiências de vida, e através de mecanismos de deslocamento e condensação, esses indivíduos passaram a encarar a própria morte e a alimentação “errada” como mais favoráveis e úteis.
    Atualmente, apoiado em Spinoza e Winnicott, tendo a pensar assim.
    Sobre a questão da existência, acho melhor deixarmos para conversar sobre isso pessoalmente! rsrs
    Um forte abraço!!!

  10. A questão da existência seria da ontologia à henologia. Portanto, deixaremos pra pessoalmente.. hahah

    Lembro-me de estudar os livros de Reich e de Jung, ambos também abominando a idéia de pulsão de morte. Ou usam outros fatores pra explicar fenômenos que levam um ser a sua destruição, ou preferia ver a vida simplesmente como boa.
    A explicação behaviorista de masoquismo é proxima da ideia de que “em função das experiências de vida, e através de mecanismos de deslocamento e condensação, esses indivíduos passaram a encarar a própria morte e a alimentação “errada” como mais favoráveis e úteis.” Tao proxima que me espanta! E usando o vocabulario de cada saber, logicamente.

    Em ética (livro longo de se ler, viu!?) Spinoza nao usa a mesma lógica que a psicanálise pra falar dos afetos. Pra ele afeto é a capacidade de se afetar. conceito de afetação que é o movimento dos encontros. Bom: potencia de agir… mesmo que seja para sua destruição, certo?

    Por associação livre, a palavra masoquismo nao cessa em minha mente. Acho que precisamos pensar no masoquismo neste ponto e o nó que ele produz em toda economia e lógicas possiveis…

  11. “As diversas experiências da vida, sobretudo as mais precoces, podem fazer com que determinadas pessoas passem a desejar, às vezes até de modo compulsivo, o chocolate como forma de se sentirem seguras e potentes, ou seja, de terem sua potência de agir aumentada”
    Não é justamente aí que está mais patente a concepção de desejo como tendo por origem uma falta? Falta do quê? Você coloca: sentimento de segurança, por exemplo, vontade de potência. Para mim, isso que você coloca como potência é justamente a negatividade de ser como um objeto para o Outro; é neste sentido que desejo é sempre negatividade, é sempre desejo de Outra coisa. A falta não é inerente a nós, mas é criada pela linguagem. No real não há falta nenhuma, o real é inteiro. É por conta de seremos seres de linguagem que achamos que há uma falta, por não conseguimos significar inteiramente algo, estabilizar nosso mundo, ficarmos constantes. Isso que você fala em potência de agir, que seria a causa de nosso desejo, me parece um outro termo para ‘aplacar a angústia de ser objeto do gozo do Outro’, ou seja, nos colocar como sujeitos ativos, e não como passivos. Outra coisa: me parece que você confunde desejo com pulsão. Não estamos mais na ordem da necessidade; a água não é um objeto neutro para a sede. A água está na mesma ordem que a sobremesa. O que incide quando queremos uma sobremesa ou uma água não é a necessidade nem o desejo, mas a pulsão, e pulsão não é necessidade, pois não é instinto. Desejo é desejo de algo que está mais além do objeto, e o que o causa não é o objeto, mas o que resta do gozo que imaginamos poder obter com ele. É isso que é o objeto a. Nesse sentido, não há relação de causa entre a falta e o objeto do desejo. O que causa o desejo é algo que não é seu objeto, e é por isso que há sempre um descompasso, e por isso que nunca há satisfação completa. É nisso que compreendo o desejo como falta: imaginemos alguém obeso, que come, come, come e come. Do que ele está se alimentando? Qual é seu desejo? Seu desejo é de comer estas coisas gordurosas e saborosas? Não, ele está se alimentando não destes objetos, puramente, mas de uma outra Coisa. É nisso que está o desejo, e ele tem como origem uma falta justamente porque não conseguimos obter este gozo pleno nos alimentos; isto que resta (esta falta de um gozo a mais, que o sujeito acredita ser alcançável) é o que lança novamente o desejo, é o que o causa, o objeto a. Não importa que não haja falta: o sujeito acredita nela! É por isso que podemos falar do desejo como tendo por origem uma falta. Mas isso não significa que a clínica vai tomar isto como ética; ela vai fazer justamente o contrário, mostrar que não há este gozo pleno (pelo menos no caso dos neuróticos), ou melhor, que este gozo pleno é IMPOSSÍVEL, e não PROIBIDO (o que ocorre no caso do neurótico). Sinceramente, não gostei muito da sua crítica ao conceito de desejo como tendo por origem uma falta porque não foi uma crítica imanente. Me pareceu que você, ao invés de lidar com os termos lacanianos (que foram considerados por você como tendo uma falha de raciocínio), você passou a usar termos de outras disciplinas. Desse modo, tudo pode ser criticável, e não há critério para se julgar a crítica. Eu poderia falar: não há pulsão, não existe isso! O que existe é reforço, punição e estímulos discriminativos! Isso não é uma crítica, e acho que você pecou nisso.

  12. Oliver, em primeiro lugar devo lhe avisar que o caminho que você está apenas começando a percorrer eu já conheço de cor e salteado. A maioria das coisas que você escreveu não é nenhuma novidade pra mim. Conheço provavelmente de forma muito mais aprofundada os conceitos de objeto a, pulsão, desejo, gozo, etc. Aliás, já escrevi textos explicativos sobre esses termos aqui mesmo no blog. Basta procurar.

    O que você tenta fazer é defender Lacan a todo custo, como a maioria dos lacanianos o fazem. É por essas e outras que a doutrina lacaniana tende a ser dogmática e caminha rumo à esterilidade.

    É óbvio que eu sei que, do ponto de vista lacaniano, não há falta no real, mas apenas a partir da introdução da linguagem. Isso, contudo, não deve ser simplesmente aceito como um dogma religioso. Você parece que leu o texto, mas se negou a compreendê-lo, insistindo na retórica de que o gozo pleno é impossível. É claro que é impossível! E eu digo isso no texto. O que eu critico (e não só eu, mas uma série de outros autores) é a ideia de que TODAS AS PESSOAS desejam esse gozo pleno – o que é uma MENTIRA na qual só os lacanianos acreditam!

    Infelizmente não dá para debater contigo porque frente a argumentos você apresenta dogmas, e dogmas se aceita ou se nega. Eu os nego.

    Quanto à sua crítica de que não utilizei os termos lacanianos, sugiro a você que releia o texto COM ATENÇÃO.

  13. Oi Lucas, parabéns pela exposição didática e arrojada! À exemplo de outros comentaristas acima… A discussão me remeteu ao “Anti-Édipo” de Deleuze e Guattari (estes que partem de uma inspiração Spinoziana, um autor que não tenho a mínima condição de debater) . Mesmo assim o que gostaria de trazer à baila é que talvez seja pouco produtivo uma escolha definitiva entre uma ontologia da falta ou do excesso; uma vez que me parece tratarem-se de termos lógicos indissociáveis. Então, assim como um primeiro valor – tal como o número UM – depende da existência de um valor (que não é valor) que é o ZERO, para lhe dar amparo (e vice-versa)… parece que caímos na aporia binária de que tudo que existe possui um contrário. Isso é o Estruturalismo, fonte que tanto Lacan bebeu e que nunca matou sua sede…Pois não queria ser lido sob espécie alguma de reducionismos, à exemplo do que os pós-freudianos fizeram com o Freud.
    Então e para além de uma simpatia maior pela retórica de Lacan que de Deleuze (sinceramente, autor que sempre li penosamente sob a recomendação de minha orientadora) fico com o primeiro pelo fato de que algo que se define como um “anti” – ou mesmo um “pós” – não chega a nos abrir para uma nova paisagem, ainda que forneça um ângulo interessante. Mas só por isso, quanto às outras propostas como uma possível reinvenção da clínica (que propõe seu orientador) me deixam curiosíssima e empolgada! Falta ou excesso….Não importa !!
    Um abraço e bom trabalho.

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