Você se queixa de um problema para não encarar outro?

Quando a gente se queixa de um determinado problema não significa que ele seja, de fato, a fonte do nosso sofrimento.

Frequentemente a gente reclama de uma situação porque, agindo assim, concentramos nossa atenção nela e evitamos pensar no problema que está na base dela — e que geralmente é mais doloroso…

Vou citar alguns exemplos:

Sérgio se queixa da namorada, acusando-a de ser fria e pouco interessada sexualmente. De repente, esse sujeito precisa acreditar que o problema de sua vida erótica é exclusivamente o comportamento da namorada para não ter que lidar com sua ânsia por controle e seu medo da intimidade.

Giovana reclama diuturnamente da postura invasiva de seus familiares, enxergando-se como vítima das demandas deles. Essa queixa crônica pode ajudar tal pessoa a não encarar de frente sua insegurança e baixa autoestima que, justamente, a impedem de se posicionar e colocar limites ao comportamento dos familiares.

Paulo procura terapia e, na primeira sessão, se apresenta como alguém que sofre porque se doa muito para os outros e recebe pouco em troca. Ao se perceber como alguém muito virtuoso que padece da ingratidão alheia, ele evita a constatação de que, na verdade, se dedica muitos às pessoas em busca do reconhecimento que lhe faltou na infância.

Você já deve ter notado alguns elementos comuns entre esses três casos fictícios — pero no mucho.

Em todos eles, a pessoa acredita que o motivo principal de seu sofrimento é o comportamento do outro e, ao pensar dessa forma, deixa de considerar a sua “capivara” na história, isto é, sua participação na produção e manutenção daquele problema.

Isso talvez pareça trivial para quem já é versado em Psicanálise. Mas o ponto para o qual quero chamar sua atenção é que a gente (sim, porque isso pode acontecer com qualquer um) faz isso não por malandragem, mas por necessidade.

Sérgio não dá conta de encarar sua ânsia por controle e seu medo da intimidade.

Giovana não consegue encarar de frente sua insegurança e baixa autoestima.

Paulo não suporta perceber que busca o reconhecimento que lhe faltou na infância.

Todas essas questões são dolorosas demais para tais pessoas. Então, elas precisam se enganar achando que o problema está no outro.

É por isso que a Psicanálise não é um método que ajuda o paciente apenas a saber mais sobre si, mas também o fortalece para aguentar o tranco de saber mais sobre si.

Fazendo análise, Sérgio, Giovana e Paulo não seriam só expostos à verdade de que estão se enganando, mas conquistariam também a segurança necessária para não precisarem mais se enganar.


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