O problema de quem tem dificuldade para dizer não é o desejo infantil de ser amado por todo o mundo

Muitas pessoas se queixam de que têm dificuldade para dizer não.

A intuição nos leva a supor que tais indivíduos são inseguros e, por isso, se sentem inibidos para recusar demandas, pedidos e convites.

Nesse sentido, o senso comum acredita que a saída seria a pessoa passar a “acreditar mais em si mesma”.

Supostamente, a autoconfiança daria a ela a coragem necessária para dizer não.

Por outro lado, a escuta atenta no contexto psicanalítico a indivíduos que apresentam esse problema nos faz perceber que ele costuma brotar de outra fonte.

Trata-se do desejo de ser bem visto por TODOS.

A dificuldade de dizer não é só o efeito colateral do ESFORÇO constante que o sujeito faz… para sempre dizer SIM.

Deixa eu explicar isso melhor. Veja:

Do ponto de vista consciente da pessoa que sofre com essa questão, ela gostaria muito de dizer não. O problema estaria no fato de que infelizmente não consegue.

Mas será que gostaria mesmo?

A escuta psicanalítica revela que não.

A Psicanálise nos ajuda a perceber que, no fundo, inconscientemente, essas pessoas DESEJAM ATIVAMENTE dizer sim para todos.

Por quê?

Porque nutrem a fantasia de que, fazendo isso, serão amadas por todo o mundo.

Assim, no tratamento, não se trata de planejar um “treino de assertividade” para que o paciente “aprenda” a dizer não.

Ele já sabe muito bem fazer isso.

O problema é que, em razão da fantasia de que felicidade significa ser bem visto e querido por todos, ele NÃO QUER RECUSAR NADA QUE LHE PEÇAM.

A terapia, portanto, deve ter como objetivo levar o paciente a questionar essa fantasia a fim de que possa RENUNCIAR a esse modo infantil e autodestrutivo de satisfação.


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A visão da Psicanálise sobre o TOC

O que Freud e a medicina de sua época chamavam de “neurose obsessiva” recebe hoje a alcunha de “transtorno obsessivo-compulsivo” (TOC, para os íntimos).

Diferentemente de outros analistas, penso que “transtorno obsessivo-compulsivo” é, de fato, um termo mais representativo do que verdadeiramente se passa nessa patologia.

Com efeito, os sintomas que a caracterizam se distribuem justamente em duas grandes categorias: as obsessões (pensamentos intrusivos e recorrentes) e as compulsões (atos repetitivos e rituais).

Tem um texto do Freud chamado “O Interesse Científico da Psicanálise”, de 1913, escrito para um periódico italiano, em que ele nos oferece um ótimo resumão da compreensão psicanalítica acerca do TOC.

Quem está na CONFRARIA ANALÍTICA receberá ainda hoje uma aula especial em que comento linha a linha o parágrafo em que Freud faz essa síntese.

Lá a gente percebe com muita clareza que o modo como a Psicanálise aborda o TOC é totalmente diferente da forma como essa doença é tratada por outras abordagens psicoterapêuticas.

Para a Terapia Cognitivo-Comportamental, por exemplo, as obsessões são tomadas como interpretações distorcidas sobre a realidade e o tratamento consiste, dentre outras estratégias, em ajudar o paciente a se convencer de que os pensamentos intrusivos não fazem o menor sentido.

Trata-se, portanto, de uma abordagem que não se interessa muito pelo CONTEÚDO das obsessões.

Tanto faz se o paciente tem o pensamento obsessivo de que pode ter se contaminado com uma doença venérea ou se sofre com a obsessão de imaginar a morte da mãe.

Em ambos os casos, trata-se, para o terapeuta cognitivo-comportamental, de arrumar um jeito de ajudar o paciente a parar de pensar nisso, nem que seja sugerindo que ele transforme seu pensamento obsessivo em uma canção (sic – cf. LEAHY, R. Livre de ansiedade, Artmed, 2011).

Para Freud, em contrapartida, é fundamental prestar atenção no conteúdo das obsessões porque é ele que indica a “racionalidade” por trás delas.

Sim, Psicanálise descobriu que os pensamentos obsessivos possuem uma racionalidade…

Vamos continuar essa conversa lá na Confraria Analítica?

Te vejo lá!


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O estrago que péssimos pais provocam na alma de seus filhos

Toda criança naturalmente espera ser tratada com zelo, carinho e valorização pelos seus pais.

Não passa pela cabeça dela a ideia de que eles podem não estar à altura da função parental.

Os pequenos dão como certo que são fonte de orgulho e satisfação para seus genitores.

E não há nada que deixe uma criança mais feliz do que ter comprovações disso.

No entanto, a experiência nos mostra que nem todo o mundo que coloca filhos no mundo deveria de fato ter tido a dádiva de ser pai ou mãe.

A clínica evidencia que há certos indivíduos que jamais deveriam ter sido genitores, pois nunca souberam exercer adequadamente o papel de pais.

Refiro-me àquelas pessoas que sempre trataram seus filhos desde a mais tenra infância com distanciamento, frieza, excesso de críticas ou violência.

Não, elas não deveriam ter sido pais.

Nós, terapeutas, sabemos o estrago que tais atitudes hostis provocam na alma de seus filhos.

Diante de uma mãe excessivamente severa e que está o tempo todo apontando defeitos e falhas, a filha não se sente triste ou injustiçada. Ela se sente CULPADA!

O mesmo se passa com o garoto que cresceu tendo em casa um pai frio, distante, que parecia viver num mundo à parte. Esse menino morre de CULPA!

Sim, incapaz de entender por que os pais se comportam de forma hostil, a criança começa a achar que o problema está nela mesma.

Estabelece-se, assim, uma situação extremamente perversa:

Sentindo-se a responsável pelos maus tratos que recebe, a criança começa a fazer de tudo para agradar a mãe ou o pai.
Mas, obviamente, a situação não muda.

Isso leva o indivíduo a crescer não só com esse injustificável sentimento de culpa, mas também com uma sensação constante de inadequação e insegurança.

As chances dessa pessoa, já na idade adulta, se envolver em relacionamentos abusivos é MUITO grande.

A explicação é simples: ela PRECISA encontrar um homem ou uma mulher abusivos para que possa REENCENAR a situação infantil traumática e continuar tentando simbolicamente “converter” o papai ou a mamãe.

Toda criança deve ser objeto de afeição, carinho, proteção, presença, validação, valorização e reconhecimento.

Quem não tem a capacidade de oferecer isso não deveria ser pai ou mãe. PONTO.


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Do medo da própria bagunça interior nasce a paixão neurótica pela coerência

No texto “A Questão da Análise Leiga”, de 1926, Freud diz o seguinte:

“O ego é uma organização caracterizada por uma tendência muito marcante no sentido da unificação, da síntese. Essa característica falta ao id; está, como poderíamos dizer, ‘toda em pedaços’; seus diferentes anseios perseguem suas próprias finalidades independentemente e sem levar em conta uns aos outros”.

Isso está entre as páginas 191 e 192 da Edição Standard Brasileira de 1996 das obras de Freud.

Nesse trecho, o autor está chamando nossa atenção para o fato de que, nas regiões mais profundas da alma (o id) todos nós somos incoerentes, ambíguos, ambivalentes e contraditórios.

Não se deve esquecer essa realidade porque, como Freud diz, o ego, isto é, a imagem que construímos de nós mesmos, tem uma tendência para a síntese.

Isso significa que a gente não suporta muito conviver conscientemente com a ideia de que podemos amar e odiar ao mesmo tempo uma pessoa, por exemplo.

O ego é aristotélico. Para ele, A só pode ser A; não dá para ser A e B ao mesmo tempo.

Talvez isso explique porque muitas pessoas tendem a enxergar a bissexualidade manifesta como homossexualidade enrustida.

Do ponto de vista egoico, a coexistência numa mesma pessoa de um desejo hétero e outro homossexual representa uma contradição que não pode ser admitida.

Nesse sentido, podemos pensar a neurose como sendo um tipo de adoecimento emocional derivado de um apego excessivo do sujeito ao próprio ego.

O neurótico está o tempo todo polindo e lustrando a imagem de si a fim de retirar dela qualquer “impureza”, qualquer coisinha que comprometa sua organização.

Assim, aquela pobre moça histérica precisa criar uma dor nas pernas para expressar o desejo de pegar o cunhado. Anseio que não se encaixa na imagem de santinha que ela tem de si.

Assim também aquele senhor obsessivo precisa se manter o tempo todo preOCUPADO para esconder do próprio ego o ódio que alimenta desde a infância pela mãe.

Na saúde, em contrapartida, o ego se apresenta mais permeável ao caos dionisíaco do id.

Na saúde, não temos medo da contradição, da incoerência e da ambiguidade.

Gozamos da liberdade de amar e odiar.

Ao mesmo tempo.


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“Eu te amo, mas porque inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu — o objeto a” (Jacques Lacan)

Por que Lacan disse isso?

Sempre que vocês estiverem diante de um conceito que é aparentemente difícil de entender, tentem abordá-lo fazendo a seguinte pergunta:

— PARA QUE o autor precisou inventá-lo?

Sim, em tese conceitos não são criados aleatoriamente.

Eles são forjados como ferramentas que ajudam a compreender uma determinada realidade.

Pelo menos, deveria ser assim…Assumindo que essa minha premissa epistemológica está correta, vamos pensar:— Para que Lacan precisou inventar o conceito de objeto a?

Obviamente os exegetas da obra lacaniana poderiam citar inúmeros motivos, mas, do meu ponto de vista, um deles me parece facilmente observável.

Ao dizer que o objeto a funciona como causa do desejo, Lacan me parece estar propondo que, no fundo, por trás de todos os nossos desejos está o anseio por um objeto que a gente tem a impressão de que um dia teve, mas acabou perdendo.

E não é mais ou menos assim que acontece mesmo?

Pensa comigo: o que nos faz desejar, por exemplo, uma pessoa?

Ok, você poderá enumerar vários fatores físicos, psicológicos e até morais, mas concorda comigo que sempre está em jogo a expectativa de que essa pessoa lhe deixará satisfeito, feliz?

Então…Se é assim, a gente pode dizer que a causa do seu desejo pela pessoa não é exatamente a pessoa em si, mas um objeto virtual que supostamente lhe proporcionaria felicidade eterna e que acidentalmente você conseguiu enxergar… na pessoa desejada.

Sacou?

Você deseja a pessoa, sim, mas a causa do desejo, isto é, aquilo que te faz desejar não é a pessoa em si, mas esse objeto supostamente satisfatório que não sai da sua cabeça desde que era bebê.

É como se a gente tivesse perdido um brinquedo quando criança e agora passasse a vida inteira tentando reencontrá-lo.

Só que é um brinquedo que a gente nem sabe que cor tem, se é grande ou pequeno, nada.

Tudo o que a gente sabe é que, quando o possuíamos, éramos felizes.

Aí, tem dia que a gente cai na ilusão de achar que ele está na pessoa X ou Y.

Do meu ponto de vista, o conceito de objeto a nos ajuda a pensar no caráter nostálgico que caracteriza o desejo neurótico.


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[Vídeo] A Síndrome do Aluno Nota 10

O certinho, aplicado e bem comportado ganha palmas, prêmios e elogios, mas perde a liberdade de arriscar, desafiar e não agradar.


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[Vídeo] Como pensar a maturidade a partir de Freud

Neste vídeo: veja como podemos pensar a maturidade emocional mediante a compreensão da passagem do império absoluto do princípio do prazer para a vigência do princípio de realidade.


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A gente faz Psicanálise para anistiar os pedaços exilados da alma

Se alguém me perguntasse qual é o principal objetivo a ser alcançado com uma terapia psicanalítica, eu diria:

— Ajudar o paciente a ser uma pessoa menos DESPEDAÇADA.

Explico:

O amor apaixonado que temos pelo nosso Eu, os ditames do Outro e determinadas vicissitudes da existência levam a gente se fragmentar.

Expulsamos de nossa consciência aspectos riquíssimos do nosso ser simplesmente porque julgamos que não são compatíveis com nosso Eu limpinho ou porque a vida nos fez acreditar que eram perigosos.

Veja, por exemplo, aquela mocinha que sofre de ansiedade generalizada.

Ela não faz ideia de que seu constante estado de tensão e o excesso de preocupações que perturbam sua alma só existem porque ela está des-pe-da-ça-da.

De repente, a identificação com um pai excessivamente pacífico a fez acreditar que deveria manter seus impulsos agressivos e sádicos o mais distante possível do próprio Eu.

Resultado: a agressividade que poderia estar sendo vivida de forma natural, sob controle, como parte dela, tornou-se ESTRANGEIRA para essa pobre jovem.

É por isso que ela está o tempo todo ansiosa.

Não tem nada a ver com o que acontece do lado de fora.

O que ela verdadeiramente teme é esse pedaço agressivo de si mesma que, por ter sido exilado, passou a PERSEGUI-LA do lado de dentro.

Se essa moça decide fazer Psicanálise, o que será buscado?

Ora, ela e o analista se esforçarão juntos para tornar o Eu dela mais permeável aos impulsos agressivos e sádicos a fim de que ela passe a encará-los como parte legítima de sua personalidade.

Dessa forma, ela deixará de se sentir ameaçada pela própria agressividade e não precisará se defender com a ansiedade generalizada.

De fato, nossos sintomas, inibições e ansiedades evidenciam os despedaçamentos que estão presentes na alma.

A Psicanálise é, portanto, uma fomentadora de integração.

Você sente que há partes de você que precisam ser reintegradas?


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Este homem descobriu o Inconsciente antes de ler qualquer coisa sobre Psicanálise

Em maio de 1917, mês de seu aniversário, Freud recebeu o que poderíamos chamar de um verdadeiro presente:

Tratava-se de uma longa carta escrita por um tal de Dr. Georg Groddeck.

O remetente iniciava a epístola pedindo desculpas por ter metido o pau na Psicanálise em seu primeiro livro, reconhecendo, alguns parágrafos depois, que fizera isso movido pela inveja.

O tal Dr. Groddeck dizia que, em 1909, época em que ainda sequer conhecia a obra de Freud, tratara uma senhora que o levou “a conhecer as peculiaridades da sexualidade infantil e do simbolismo” bem como os fenômenos que a Psicanálise chama de transferência e resistência.

A inveja, portanto, resultava da constatação de que Freud já vinha falando sobre todas essas descobertas há praticamente uma década.

Mas, nessa carta, Groddeck veste as sandálias da humildade e, reconhecendo o pioneirismo do colega, indaga se poderia ser considerado um verdadeiro psicanalista.

Antes, porém, de fazer essa pergunta, o médico relata uma série de casos de pessoas com sintomas FÍSICOS (como hemorragia nos olhos, erupções na pele e úlceras, por exemplo) que foram curadas por ele mediante o emprego da técnica psicanalítica.

Além disso, menciona que trabalha com a ideia de um “Isso” (em latim: Id), uma espécie de força impessoal que estaria na origem de tudo o que acontece com o ser humano.

Sim, meus amigos: foi de Groddeck que Freud tomou o conceito de Id.

Mas quem era mesmo esse cara, que aparentemente descobriu sozinho o Inconsciente e o próprio método psicanalítico antes mesmo de ouvir falar sobre Freud?

Como é que ele aplicava a Psicanálise no tratamento de doenças físicas?

E por que será que provavelmente você nunca tinha ouvido falar sobre ele antes da leitura deste texto?

Responderei essas e várias outras perguntas sobre Groddeck numa aula especial que somente os membros da Confraria Analítica receberão ainda hoje.


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A passagem da primeira para a segunda tópica em Freud

Gosto muito de falar sobre essa mudança na teoria freudiana porque ela representa um ótimo “Cala a boca!” para aqueles que insistem na ladainha de que a Psicanálise não é científica.

A mudança na forma como concebia o aparelho psíquico mostra que Freud sempre esteve disposto a mudar suas ideias conforme ia fazendo novas descobertas.

Para quem não sabe, “tópica” é o termo que a gente costuma usar na Psicanálise para designar o tipo de concepção de mente com que Freud trabalhava.

Há várias formas de pensar o funcionamento da alma humana. Freud ESCOLHEU utilizar uma analogia ESPACIAL para fazer isso.

Assim, ele concebia a mente como uma espécie de terreno dividido em regiões específicas. Daí o termo “tópica” (do grego “topos”: lugar).

Inicialmente, Freud entendia que a alma teria basicamente 3 “regiões” onde estariam distribuídas as representações mentais:

Na região mais afastada, o Inconsciente, separada das outras por um imenso muro de censura, estariam as ideias que a pessoa foi reprimindo ao longo da vida.

Outra região seria o Pré-consciente, sede das ideias que, temporariamente estão inconscientes, mas podem, a qualquer momento, adentrar a terceira e última parte do terreno, a menorzinha, chamada Consciente.

Por que Freud achou que precisava de outro modelo de mente se esse se mostrou tão útil durante vários anos?

Porque ele percebeu que não são só as ideias reprimidas que perderam a possibilidade de acesso à consciência.

Freud sacou que certos pensamentos que mantinham determinadas ideias em estado de repressão também eram inconscientes.

Isso significa que esses pensamentos estavam localizados na região do Inconsciente?

Ai é que tá! A resposta é: não.

Eles não poderiam estar no Inconsciente porque nessa região só entram ideias reprimidas e esses pensamentos não foram reprimidos.

Então onde eles estariam situados?

A busca por uma resposta para essa pergunta é o que levará Freud a formular a famosa segunda tópica, que dividiu o aparelho psíquico em id, ego e superego.

Mas isso é assunto para outra postagem…


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“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.”

Eu sei que citar frases da Clarice Lispector (especialmente aquelas que a autora nunca escreveu) é a coisa mais clichê da internet brasileira.

No entanto, peço a vocês licença para cometer essa gafe, pois há uma citação da escritora que sintetiza com muita nitidez o que pretendo demonstrar hoje.

Tá numa carta dela para a irmã Tania:

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Imagine o quão chato, pobre e sem graça o mundo seria sem a obstinação dos obsessivos, a insatisfação dos histéricos, o olhar crítico dos deprimidos…

Não se trata de glamourizar ou romantizar as doenças da alma, mas de constatar o fato óbvio de que nossos sintomas, apesar de dolorosos, podem, como diz Clarice, sustentar o edifício de nossas vidas.

Quase todos os dias atendo estudantes universitários e frequentemente me deparo com jovens que provavelmente não conseguiriam chegar a um curso de Medicina ou Direito em uma universidade pública se não fosse pelo excesso de autocobrança que vivenciam desde a adolescência.

E o que dizer do tão mal falado desejo de agradar e ser aceito? Estou certo de que perderíamos excelentes cantores, atores e outros artistas se tal “distúrbio” fosse extirpado deles por algum bem intencionado processo terapêutico…

Por acaso teríamos o belíssimo romance “O jogador”, de Dostoiévski, se o próprio autor não fosse um viciado em tentar a sorte?

Ah, Lucas, então você está dizendo que as pessoas não deveriam buscar tratamento para seus problemas emocionais?

É óbvio que não, cara pálida!

Até porque boa parte do meu trabalho cotidiano é dedicado justamente a ajudar pessoas que estão em sofrimento psicológico.

A intenção desse texto é apenas a de oferecer um contraponto à cultura “saudista” que infesta os nossos dias, especialmente nas redes sociais.

Se dependesse de alguns perfis aí de desenvolvimento pessoal, por exemplo, todo o mundo deveria se transformar em uma cópia de Tony Robbins.

Não raro, a dificuldade de concentração de quem supostamente padece de TDAH costuma ser o superpoder que torna essa pessoa mais criativa do que as superfocadas.

De fato, “até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso”…


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Solidão essencial: a experiência paradisíaca que inaugura a vida

O psicanalista inglês Donald Winnicott tem uma expressão curiosa para caracterizar a experiência psicológica que vivenciamos tanto no útero materno quanto nos primeiros meses após o nascimento.

Trata-se do termo SOLIDÃO ESSENCIAL.

De cara essa expressão tende a provocar algum grau de estranheza e perplexidade porque evidentemente SABEMOS que o bebê não está sozinho no início da vida.

Então, por que Winnicott fala de solidão?

Para entender a experiência a que o autor está se referindo precisamos pensar na solidão não como a condição em que se encontra aquele que não tem companhia ou que a perdeu.

Essa “solidão negativa”, por assim dizer, só se torna possível para nós DEPOIS que DESCOBRIMOS a existência de outras pessoas no mundo.

Como assim, Lucas?

É isso mesmo: no início da vida a gente não sabe que o outro existe.

Em “condições normais de temperatura e pressão”, a mãe se adapta de forma tão harmônica às nossas necessidades que a gente nem se dá conta de que ela está lá nos sustentando e cuidando de tudo…

É justamente por isso que Winnicott fala de uma solidão essencial.

O outro tá lá, mas estamos sendo tão bem cuidados que temos a sensação de estarmos sozinhos.

Na verdade, a gente não tem sequer a consciência de que nós mesmos existimos enquanto indivíduos.

Por isso, embora Winnicott denomine esse momento inicial de solidão essencial, a experiência real que temos não é a de estarmos isolados, mas de puramente EXISTIRMOS fora do tempo-espaço, num estado de inabalável tranquilidade.

É dessa experiência original de PURO SER que caminhamos na direção do reconhecimento de outras pessoas.

Todavia, diz Winnicott, por mais que, com o passar do tempo, nossa vida passe a ser cada vez mais constituída de relações, há uma dimensão do nosso ser que permanece vinculada à solidão essencial.

Isso significa que, por mais que façamos contato com o outro, haverá sempre uma parte de nós que se manterá alheia às relações, conservando a memória de um tempo em que nada mais existia a não ser um puro sentimento de viver.

É a manutenção de uma trilha aberta para esse núcleo de solidão essencial que nos impede, na saúde, de não experimentarmos a vida como uma mera adaptação ao social.


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[Vídeo] Quando o bonzinho é um endividado e não um sedutor

Geralmente tendemos a pensar que todo indivíduo “bonzinho” se comporta dessa forma subserviente e passiva com o objetivo de seduzir os outros.

Contudo, há uma categoria de pessoas que se tornaram boazinhas porque se sentem endividadas…


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[Vídeo] O segredo das pessoas disciplinadas: psicanalista explica

Esqueça todas essas bobagens de “força de vontade” e “mindset”. O segredo das pessoas disciplinadas é o tesão pelo controle. Assista ao vídeo e entenda.


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O amor é o grande educador

Tem um texto do Freud cuja leitura recomendo fortemente a vocês: trata-se do artigo “Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico”.

Tá no volume XIV das obras completas (edição standard).

Nesse artigo, Freud descreve três tipos muito curiosos de pessoas que não raro aparecem nos nossos consultórios: (1) aquelas que se acham merecedoras de privilégios da vida, (2) aquelas que se sabotam quando têm sucesso e (3) aquelas que cometem crimes para justificar um sentimento crônico de culpa.

Mas hoje não quero falar especificamente sobre essas categorias de indivíduos. Outro dia eu mexo nesse assunto.

Quero neste momento comentar um trecho desse texto em que Freud nos presenteia com uma síntese do que poderíamos chamar de uma concepção psicanalítica da educação.

Eis as palavras do autor:

“Lado a lado com as exigências da vida, o amor é o grande educador, e é pelo amor daqueles que se encontram mais próximos dele que o ser humano incompleto é induzido a respeitar os ditames da necessidade e poupar-se dos castigos que sobrevém a qualquer infração dos mesmos”.

Nessa passagem, Freud está chamando nossa atenção para o fato de que o processo educacional que os pais desenvolvem junto a seus filhos não é algo da ordem de uma imposição, mas de uma SEDUÇÃO.

Em última instância, a criança não obedece seus pais, submetendo-se aos limites sustentados por eles, por medo ou por convencimento racional.

Ela aceita as diversas “castrações” exigidas pela educação porque AMA seus educadores e quer ser amada por eles.

Fazendo uso da maravilhosa perspicácia infantil, a criança percebe que as demandas de seus pais se apresentam como condições para manter-se na posição de objeto do amor deles.

O próprio medo do castigo, nos diz Freud, é menos um medo da eventual dor ou frustração trazida pela punição e muito mais uma aversão àquilo que o castigo SIGNIFICA, a saber: o desapontamento dos pais.

Portanto, nós não nos submetemos ao Outro porque compreendemos racionalmente o certo e o errado.

A gente obedece por amor.

Porque acreditamos desde a infância que, se formos bons meninos e boas meninas, conservaremos o amor do Outro por nós.


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