Reflexões sobre o Imaginário

betta_fish1As senhoras e os senhores que frequentam assiduamente este blog, provavelmente já devem ter me visto repetir algumas vezes uma fórmula que nos serve de eixo para o entendimento (?) do que é o homem. Costumamos dizer que “o homem é um ser que não nasce sabendo viver”.

Essa fórmula, absolutamente óbvia mas que muitos insistem em negligenciar por motivos que não vêm ao caso no momento, já foi pronunciada de outras maneiras, ainda que com consequências distintas. Vemos, por exemplo, um Sartre fundamentar todo o seu Existencialismo a partir da afirmação de que, no homem, “a existência precede a essência”.

A obviedade presente nessas formulações pode ser escancarada se verificarmos os casos de crianças que não foram criadas num ambiente humano, mas em contato com macacos ou lobos. Invariavelmente, elas se comportam… como macacos ou lobos. É o mesmo que acontece em relação ao peixe Betta (desses que devem ser criados sozinhos num aquário). Para que o Betta macho produza as bolhas que servirão de ninho para os ovos da fêmea, ele precisa visualizar a fêmea. Ou seja, uma simples imagem é capaz de gerar efeitos no organismo do peixe. Tanto é assim que não é necessário que o macho visualize uma fêmea real, mas apenas uma foto de uma fêmea.

No humano, isso ocorre principalmente com relação à imagem que temos de nós mesmos (nosso eu). A construção dessa imagem depende das imagens com as quais temos contato, isto é, com as imagens de nossos semelhantes, com os diversos outros que aparecem durante nossa vida. No caso das crianças criadas no meio de macacos e lobos isso fica evidente: se os outros com os quais elas convivem são macacos e lobos, logo elas vão se comportar como macacos e lobos. Por isso a máxima: “Diga-me com que andas e te direi quem és” porta algo de verdade.

Basta você fazer um pequeno exercício de observação:

Veja por exemplo um casal de namorados. Com apenas alguns anos de relacionamento amoroso, os dois parceiros já portam feições, manias e traços um do outro, o que fica bastante evidente principalmente quando as relações terminam. Outro exemplo, esse ainda mais visível: pense aí nos vários traços de comportamento que você compartilha com seu pai ou sua mãe: é o tradicional “Fulano puxou isso do pai…”

Disso tudo podemos concluir que o nosso eu, aquilo que pensamos ser a nossa identidade, é, na verdade, um amontoado de traços que foram tomados dos outros. Em outros termos, o eu é um agrupamento de identificações.

É esse registro da experiência humana em que o sujeito se relaciona com seu eu e que o eu de uma pessoa se relaciona com o eu de outra que Lacan chama de Imaginário.

Amanhã (25/03) no Seminário de Introdução à Teoria Lacaniana

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Lucas Nápoli fala sobre a Psicologia do Ego, leitura da Psicanálise contra a qual Lacan se insurgiu e Clarisse Boechat inicia a discussão em torno do registro Simbólico.

As aulas do Seminário acontecem todas as quartas-feiras, na sala 305 do edifício 2 da Univale, em dois horários: das 17h às 18h30 e das 19h30 às 20h40.

A paz sem voz egóica

clipe-da-banda-o-rappa-minha-almaO grupo O Rappa  sempre foi pródigo em nos premiar com letras belíssimas, bem elaboradas e cujo conteúdo geralmente é associado a problemas sociais. É assim com “Hey Joe”, “Todo Camburão Tem um Pouco de Navio Negreiro”, “O que Sobrou do Céu” e também com a música mais famosa da banda, “A Minha Alma”, que leva como título alternativo (e muito melhor) “A Paz que eu Não Quero”.

Após ter escutado algumas centenas de vezes a música, penso que, involuntariamente, Marcelo Yuca, ex-integrante da banda e autor de “Minha Alma”, acabou por expressar nessa música não só a hipocrisia da classe média perante a violência. O compositor nos deu uma fabulosa descrição de como se constitui aquilo que em Psicanálise chamamos de “ego”, isto é, aquela imagem que temos de nós mesmos e que ilusoriamente acreditamos resolver o problema da eterna pergunta “Quem sou eu?”.

Desde os tempos pré-históricos da Psicanálise em que a hipnose era o método de tratamento em voga, Freud já sacava que a origem do sofrimento neurótico de seus pacientes situava-se num conflito entre a imagem que o paciente tinha de si mesmo (idealizada, diga-se de passagem) e as fantasias sexuais perversas que nutria. Quer dizer, todo o conflito estava no fato de que o paciente, apegado a uma imagem idealizada de si, não aceita para si mesmo aquilo que ele verdadeiramente deseja.

A partir de então, o ego passa a ser visto como o maior obstáculo do tratamento visto que é o apego do paciente a ele que impede o reconhecimento do verdadeiro desejo. Tamanha força do ego reside na sua capacidade de fazer frente aos impulsos sexuais perversos por meio dos mecanismos de defesa, sendo o principal o recalque. Como vocês já devem saber, o ego exclui do campo da consciência quaisquer vestígios desses impulsos deixando-os marginalizados, tal como a sociedade capitalista faz com aqueles que perdem na guerra do consumo, obrigando-os a viver em favelas e cortiços.

Assim, ao mesmo tempo em que o ego nos protege de nos vermos como perversos ele nos prende a imagem que não nos permite termos acesso à verdade de nosso desejo. Uma verdade dolorosa, mas uma verdade. Ora, não é exatamente isso, o que Yuca demonstra ao escrever na segunda parte de “Minha Alma”?:

“As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão”

Essa dúvida de que Yuca fala, pode ser tomada tanto no nível da tradicional dúvida obsessiva, quanto no nível da angústia, sinal inconfundível da iminência do impulsos recalcados.

Excluindo do campo da consciência os impulsos sexuais perversos, o ego promove uma aparente paz na vida mental. Na medida em que os impulsos se tornam inconscientes, o sujeito passa a fazer de conta que eles não existem, permanecendo aferrado à imagem ideal de si. Porém, como diz a música, essa é uma “paz sem voz” que acaba revelando-se um medo disfarçado. Medo de reconhecermos para nós mesmos que somos capazes de ter tais e tais fantasias.

Mas não pensem vocês que esse medo não tem nada de vantajoso. Essa paz implicada no processo de defesa do ego acaba produzindo uma sensação também ilusória de felicidade. A pergunta, que o analista coloca para o analisando e que se personifica na letra de “A Minha Alma” é:

“Qual a paz que eu não quero conservar,
Pra tentar ser feliz?”

O trabalho de análise é justamente a resposta o que o autor demanda quando pede para que não o deixe “sentar na poltrona num dia de domingo, procurando novas drogas de aluguel”. É colocar voz na paz…

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A mente em Winnicott (final)

s_albertNo último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.

Uma segunda implicação dessa concepção é a de que eu posso fazer da mente tanto um instrumento de compreensão do mundo quanto uma defesa contra o mundo. Uma vez que a mãe falha e a mente emerge como uma função que dará asas à imaginação do bebê para buscar compreender por que a mãe falha, a mente então pode ser utilizada como o instrumento que possibilitará essa compreensão. Por outro lado, o sujeito pode fazer uso dessa mesma função para afogar-se em um mar de explicações, transformando aquilo que serviria para compreender, numa forma de intelectualização que só serve para que o sujeito se defensa de sua incapacidade de compreender.

Pois bem, senhoras e senhores, não é exatamente essa última alternativa a da Filosofia, da Teologia e da Psicologia tal como nós as conhecemos? Com seus conceitos afastados do mundo real, imersos nas categorias do metafísico e do metapsicologia, buscam uma compreensão do mundo, de Deus e do psiquismo que se perde numa imensidão de abstrações (Exceção feita a Nietzsche, Spinoza, os pragmáticos e alguns outros filósofos).

Os teólogos, principalmente, são os maiores representantes desse uso inadequado da mente (como intelectualização): por não compreenderem a vontade divina (mistérios insondáveis, já dizia a Bíblia), inserem Deus e tudo o que se relaciona a ele nas categorias da razão, esterilizando a Revelação.

Por mais que eu aprecie a teoria lacaniana da Psicanálise, também não posso deixar de incluí-la no conjunto daqueles que preferiam o conforto do mundo das idéias. Façamos justiça: a ética lacaniana, o tempo lógico, o estádio do espelho e o destaque dado à função do significante no psiquismo, foram contribuições extraordinárias de Jacques Lacan. Porém, a ênfase dada à topologia, à teoria dos nós e à matemática, são coisas absolutamente desnecessárias à Psicanálise. Só servem para fazer o campo analítico ficar parado no tempo, masturbando-se intelectualmente em torno das ilustrações lacanianas.

Na outra ponta do barbante, encontram-se aqueles nos quais a função da mente parece não ter surgido. Lembrem-se: a mente, para Winnicott, só surge porque o sujeito percebe que o mundo falhou. Então ele tem que parar para matutar sobre o mundo pra tentar entender porque ele falhou. Daí pode-se depreender a ausência de intelectualidade tão comum na contemporaneidade e que se exemplifica por aqueles que frequentam micaretas. A ilusão dada por esse tipo de evento e tudo o que a ele se associa, quer dizer, os comportamentos cotidianos bem como os “aquecimentos” e “ressacas” é a de que o sujeito pode tudo, que para beijar uma garota basta que ele a puxe pelo braço, que a vida é uma bebedeira e uma festa perene.

Um sujeito desses vai pensar? Pra quê?…

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A mente em Winnicott (parte 1)

12venusPara qualquer um que se inicie na leitura de Lacan, a acidez das críticas do psicanalista francês faz com que a pessoa pense sempre duas vezes antes de ler outros pensadores da Psicanálise, sob o risco de estar consumindo lixo. Assim também aconteceu comigo em relação a D. W. Winnicott. Sempre tendo em mente as chacotas de Lacan sobre o que Winnicott concebia a respeito do papel do analista (isto é, fazer as vezes de uma mãe suficientemente boa), acabei por só me introduzir na obra winnicottiana bem mais tarde, a partir do 6º. período, influenciado pelas aulas de Psicologia dos Portadores de Necessidades Especiais.

Deixando o criticismo sintomático de Lacan de lado, hoje enxergo nas idéias de Winnicott uma das mais inventivas teorias em Psicanálise. Volta e meia vocês verão por aqui mais reflexões sobre conceitos-chave do analista inglês, como essa aqui. Hoje, influenciado por uma palestra do psicanalista André Martins que você encontra aqui, vou discutir um pouco a idéia de mente em Winnicott e suas interessantes implicações.

Em primeiro lugar, Winnicott traça uma diferenciação entre psique e mente. Isso aparentemente pode até lembrar a antiga distinção entre alma e espírito proposta por alguns teólogos e filósofos, mas é só aparência, não tem nada a ver. Para Winnicott, a psique é como se fosse composta das imagens resultantes da percepção da vivência corporal. Então, todas as sensações e experiências que tenho com meu corpo resultam em imagens que compõem minha psique. Só que tem um detalhe: mesmo sendo a psique dependente do corpo, eles não estão naturalmente ligados. Tanto é assim, que existem sujeitos esquizofrênicos que não reconhecem seu próprio corpo. É preciso, então, que exista um ambiente que ajude essa junção entre psique e corpo a ocorrer. Qual é o primeiro ambiente da criança? Óbvio: a mãe. Então a mãe deverá ser uma ambiente facilitador para promover a ligação entre a psique e o corpo. Como ela faz isso? Nada demais, basta que ela seja uma boa mãe, ou melhor, uma mãe suficientemente boa.

Esse é um dos conceitos que mais causa confusão nos neófitos na leitura de Winnicott. A mãe suficientemente boa (ou mãe boa o bastante) não é a super-mãe que não tem falhas. Pelo contrário: a mãe suficientemente boa é só aquela mãe comum que deu origem a esse conceito mais do que infeliz de “instinto materno”. É aquela mãe que é capaz de se identificar com a criança e atender às suas necessidades básicas. Ou seja, senhoras e senhores, é só fazer o básico.

Então se a mãe for suficientemente boa, ela vai permitir que a psique da criança se una a seu corpo. Mas nesse ponto o leitor pode pensar: “Tá, mas será que esse processo acontece assim de forma tão perfeita? A mãe não pode ser perfeita, ela comete falhas, e aí?”

É nesse ponto, meus amigos, que Winnicott lança mão do seu conceito de mente. Para ele, a mente é fundamentalmente a função que a criança utiliza para suportar as falhas maternas. Mas, atenção, o bebê não sabe que o que está acontecendo com ele são falhas da mãe. Ele só sente a sensação de desprazer e de que as coisas não estão indo bem. Então, para suportar as angústias geradas por essa situação, o que o bebê faz? Cria uma teoria. Sim, não pensem vocês que a criança não pensa. É óbvio que naquele momento ela não possui as categorias racionais que nós possuímos. Mas mesmo nesse nível primário ela pensa. E o interessante é que ela só pensa porque as coisas não deram completamente certo. Sim, porque até então, sentindo apenas prazer, ela não tinha porque ficar matutando sobre a vida. Só agora, que a mãe falhou, é que surgem as questões:  “O que houve? Por que isso está acontecendo? O que é o mundo? Como ele funciona?”

O barato, senhoras e senhores, é que essa idéia permite que a gente entenda um gama enorme de fenômenos: desde a incapacidade intelectual dos frequentadores de micaretas até a intelectualidade exacerbada das teorias em ciências humanas.

MAS ISSO FICA PARA O PRÓXIMO POST…

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“Na dúvida, é melhor ser passivo”: Ronaldo, o ato-falho encarnado

ronaldo-gordoFoi com o chiste acima que o jogador Ronaldo Nazário de Lima, vulgo Ronaldo Fenômeno terminou de responder a uma pergunta sobre a influência do sexo antes de uma partida no programa Altas Horas da TV Globo.

Essa foi mais uma amostra da característica mais marcante de Ronaldo. Não, não estou falando de suas arrancadas ou de sua facilidade para marcar gols. Falo desse traço de caráter bastante comum nas celebridades que chamei de “auto-sabotador”. Ronaldo parece fazer questão de queimar o próprio filme. Que os freudistas de plantão não pensem que estou falando do tal masoquismo. Não! Apesar do jogador ter certa predileção por “mulheres com algo a mais” não creio que ele seja perverso.

Ronaldo está mais para aquele tipo de pessoa que Freud chamou de “arruinados pelo êxito” no texto “Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico”, de 1916. Tais pessoas parecem ser incapazes de tolerar a felicidade, acabando por prejudicarem a si mesmas no momento em que realizam seus desejos e anseios. Isso é absolutamente paradoxal e sobretudo para Freud o foi, uma vez que ele estava acostumado a tratar pacientes cuja neurose se inciava a partir de uma frustração, de um desapontamento e não do sucesso.

O histórico de “auto-sabotagens” de Ronaldo começou a partir da Copa do Mundo de 98. Lembram-se da “amarelada”, que na verdade foi uma convulsão cujo mistério poderia estar no livro “Estudos sobre Histeria”? A partir dali, foi ruína em cima de ruína: a começar pelas contusões. A cada vez que Ronaldo estava num momento ótimo de sua carreira, sobrevinha uma contusão no joelho, que, salvo a selvageria analítica, poderia muito bem ser enquadrada no que a gente chama de “compulsão à repetição”. A partir do ano passado as “auto-sabotagens”, além do corpo, foram estendidas para a imagem de Ronaldo na mídia: o escândalo com os travestis, as fotos tiradas do jogador bem rechonchudo fumando e, mais recentemente, as baladas e atrasos nos treinos.

Como é que a gente explica todos esses comportamentos esdrúxulos?

Para Freud, trata-se do bom e velho superego dizendo: “Você pode ser tudo menos igual ou maior que seu pai. Goze da vida do jeito que dá: sendo mais um Zé Mané como os outros.”  Forbes  compartilha dessa idéia de Freud, mas prefere analisá-la sob um outro ponto de vista.

O psicanalista vê nas “auto-sabotagens” de Ronaldo, Amy Winehouse, Britney Spears, Michael Jackson e companhia limitada, uma maneira burra de lidar com a principal consequência do sucesso: o destaque do resto dos mortais. Quem faz sucesso torna-se só pois torna-se único (Só existe um fenômeno). Portanto, não pode mais se reconhecer nos outros, o que, em se tratando da espécie humana é terrível. A saudade desse reconhecimento faz com que os “fenômenos” tentem voltar a sermerosacontecimentos naturais. Alguns conseguem fazer isso de forma criativa: Romário, por exemplo, ficou mascarado; Pelé “dividiu-se” entre o Edson Arantes e o Pelé propriamente dito.

Outros, porém, e entre eles está Ronaldo, só conseguem descer do pedestal em que foram colocados levando tombo, se machucando, fazendo ato-falho…

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Veja abaixo o vídeo com a entrevista de Ronaldo no Altas Horas:

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O que é transferência? (final)

2oedipusPois bem, sem mais delongas, vamos tratar de preencher as lacunas deixadas nos dois últimos posts. Dissemos que na transferência o paciente repete com o analista o mesmo modo padronizado de viver que acabou levando-o a se dar mal. A questão é: de onde vem esse modo padronizado de viver?

Uma vez que o Homo sapiens é o único animal que não nasce “sabendo” como viver, logo é possível afirmar que nosso jeito de ser deve ser aprendido. Mas não se enganem: quando eu digo aprendido não estou recorrendo à história de reforçamentos e punições pela qual passou a pessoa. O elemento-chave aí é o desejo do Outro. Sim, porque se nós não nascemos sabendo viver, a gente precisa de um Outro que nos diga quem somos e como nos portarmos perante a vida. Logo, deveremos encontrar um jeito de viver que atenda ao desejo desse Outro. Isso acontece muito cedo na vida da gente, mais ou menos lá pelos 4 ou 5 anos. Nesse ponto, o sagaz leitor pode perguntar: “Tá, mas porque a gente continua repetindo esse jeito de ser mesmo depois de adulto?”. Respondo: porque se esse jeito de ser que a gente criou foi para atender ao desejo do Outro, isso significa que o Outro só vai me amar se eu continuar sendo desse jeito. E como foi o Outro quem me disse quem eu sou, logo se esse Outro não me amar, sentir-me-ei angustiado por não conseguir mais me reconhecer.

Quando o paciente procura um analista, o que ele espera? Espera que o analista diga a ele quem ele é e como ele deve se conduzir na vida. Por quê? Porque o modo como ele vinha se conduzindo acabou por fazê-lo sofrer. Logo, o analista acaba ocupando na cabeça do paciente esse lugar de Outro. É por isso que vocês vão encontrar muitas vezes Lacan dizendo que a transferência está em ação quando o analista é para o paciente um Sujeito Suposto Saber. Por que “suposto”? Porque, é óbvio, o analista não tem esse saber sobre quem o paciente é e o que ele deve fazer para ser feliz. No entanto, para que a análise aconteça, é necessário que o paciente pense assim por muito tempo. Pra quê? Para que ele continue falando na esperança de que um dia o analista lhe revele o segredo sobre o seu ser até chegar ao momento em que ele vai se dar conta de que, de fato, o analista nada sabe. E mais: que ninguém sabe!

Portanto, senhoras e senhores, “o que se transfere na transferência” são as pessoas que ocuparão o lugar do Outro na cabeça do paciente. Antes, eram os pais, hoje é o analista. Então, se o sujeito criou seu jeito de ser para ser amado no princípio pelos pais, ele repete esse mesmo jeito doentio de ser com o analista, para que esse também o ame.

E amando, lhe diga quem ele é, para onde deve ir, o que deve fazer para ser feliz…

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O que é transferência? (parte 2)

fresco1Terminamos o último post no momento em que falávamos desse estranho e comum fenômeno que acontece em todas as análises: a repetição com o analista do mesmo modo doentio de lidar com o mundo que, por sinal, levou o sujeito a buscar ajuda. Vocês já devem ter percebido que é exatamente isso o que se chama de transferência. Tentarei a seguir fazer com que vocês compreendam de que forma a transferência ocorre e por que ela ocorre. Mas antes disso, é preciso desfazer alguns mal-entendidos.

Vocês já devem ter ouvido muitos alunos e até professores de Psicologia dizerem coisas do tipo: “Fulano está completamente transferido com seu analista”, querendo dizer que o paciente não falta às sessões e escuta com atenção e confiança as intervenções do analista. Ou “Fui no analista X, mas não rolou transferência”, querendo dizer que a pessoa em questão não se sentiu à vontade com o analista ou não gostou do seu método de trabalho.

Caríssimos, nos dois casos, os usos das palavras “transferido” e “transferência” não têm absolutamente nada a ver com o que Freud chama de transferência! Transferência não é a confiança ou a simpatia que você pode sentir por seu analista. O que significa também que se você não foi com a cara do seu analista ou vem sentindo raiva das intervenções dele, isso não significa que a transferência não está aí. Muito pelo contrário: isso pode ser a própria transferência gritando!

Feitas essas ressalvas, voltemos para a análise do fenômeno transferencial.

Por que é que Freud resolveu criar o conceito de transferência?

Em primeiro lugar porque ele já utilizava esse termo nas suas tentativas de decifrar o conteúdo dos sonhos. Freud percebeu que os elementos que aparecem nos sonhos retiram seus significados de outros elementos que foram recalcados. Por exemplo, o paciente sonha que está comendo macarronada. No entanto, ao se fazer a análise do sonho descobre-se que a macarronada representa na verdade a mãe do paciente. Ou seja, o significado da representação mental “mãe” é transferido para a representação mental “macarronada”.

A novidade é que Freud observa que esse fenômeno de “transferência” de significados não acontece só nos sonhos, mas na vida cotidiana e, principalmente, na relação entre paciente e analista.

CONTINUA…

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O que é transferência? (parte 1)

535px-tiziano_-_sc3adsifoCreio que todos vocês já devem ter ouvido falar numa coisa chamada “clichê”. Se não, é só se lembrar daquelas frases batidas que costumam ser colocadas em todas as novelas ou daquele tipo de cena que todo filme de super-herói deve ter. Isto é, a frase ou a cena clichês são colocados quando falta criatividade ao autor. Ele então recorre a uma fórmula que já deu certo para não correr o risco de inventar algo novo e se dar mal.

Pois bem, meus nobres colegas, assim também acontece na nossa vida diária. A gente é cheio de repetições! É só pensar aí nos seus relacionamentos amorosos. Geralmente a gente se comporta do mesmo jeito em todos, o que varia é só o parceiro ou a parceira. É como se a gente não soubesse agir diferente, algo parecido com o aprendizado de andar de bicicleta. A gente pode ficar anos sem andar em uma, mas nunca esquecemos do jeito de andar.

E o interessante é que isso não se restringe à vida amorosa. Cada pessoa parece que tem um modo padronizado de se conduzir na vida em geral, seja na relação com os amigos, com a família, com os colegas de faculdade. A gente pode até catalogar uns tipos clássicos: os dependentes, os sedutores, os paranóicos, etc. Alguns psicólogos até cunharam um nome para esse tipos: é o que se chama de personalidade.

Creio que você pode estar pensando: “Sim, mas o que tem de mais nisso? É óbvio que cada pessoa tem um jeito próprio de viver. Cada pessoa é diferente da outra”. Concordo, mas o aspecto que quero ressaltar é exatamente o fato desse jeito de viver ser padronizado, estereotipado a tal ponto que o sujeito não consegue modificar. E então, dependendo das experiências que ele tiver, esse modo estereotipado de viver pode acabar incomodando-o, trazendo-lhe desprazer. E então, com vistas a resolver o problema, ele pode tomar a sábia decisão de procurar um psicanalista.

Mas vejam só vocês: o sujeito marca a primeira consulta, começa a freqüentar uma vez por semana o consultório desse ser estranho que aceitou ouvir suas lamúrias e, pasmem, em lugar de resolver o problema, o sujeito começa a repetir com o psicanalista o mesmo jeito doentio e estereotipado de viver…

 

CONTINUA… 

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Jorge Forbes sobre o amor

O vídeo abaixo mostra os comentários do psicanalista Jorge Forbes  sobre a temática do amor no programa Saia Justa do GNT. Em agosto, Forbes estará presente no XIV Seminário de Psicologia do Leste Mineiro, que será realizado na Universidade Vale do Rio Doce (UNIVALE), aqui em Governador Valadares. No vídeo, o psicanalista fala principalmente sobre o caráter de impossibilidade presente em todas as relações amorosas.

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Por que Lacan disse que “A Mulher não existe”?

07_7agesCreio que essa frase seja uma das mais polêmicas já proclamadas pelo psicanalista Jacques Lacan. Mas creio também que isso se deva ao fato de a maior parte das pessoas não entenderem porque Lacan a disse e considerá-la apenas como mais uma justificativa para o preconceito segundo o qual a Psicanálise é machista. Portanto, vamos tratar de botar os pingos nos “is”.

Uma das características mais geniais de Lacan era a sua capacidade de pegar as teorias elaboradas por Freud e tirar delas algumas frases de efeito. Esse é o caso de “A Mulher não existe”. É óbvio que Lacan não está dizendo que os seres do sexo feminino (com vulva, vagina, ovários e etc.) não existam. Ele não era psicótico a esse ponto. O que ele está dizendo é que as mulheres existem, mas A Mulher não. Para entender de onde ele tirou isso, convido meus caros leitor e leitora para um exercício de imaginação.

Imaginem que vocês se encontram por volta das idades de 4 ou 5 anos. Agora, se imaginem (nessa idade) vendo os corpos nus de um menino e de uma menina. Qual a primeira diferença que vocês irão notar? É óbvio: que no menino há uma coisa entre as pernas e que na menina não há uma coisa no meio das pernas. Lembrem-se: nessa época (4 a 5 anos) a gente, mesmo que tenha lido os livros de ciência, ainda não tem como certa a existência do órgão sexual feminino (a vagina). Então, o que a gente vê é que no menino há uma coisa e na menina não há uma coisa. Qual a conclusão mais óbvia a ser tirada dessa visão? A de que o menino possui aquilo que na menina falta.

Então, senhoras e senhores, como vai se inscrever na cabecinha de todos nós a diferença entre os sexos, quer dizer, como é que a gente vai interpretar o que é homem e o que é mulher? A partir desse objeto que o homem tem e a mulher não tem. Portanto, na nossa cabeça (Lacan diria, na ordem simbólica) a gente tem como dar uma resposta para a pergunta “O que é o homem?”. Qual resposta? “O homem é aquele que possui o objeto”. Agora, para saber o que é a mulher a gente só tem uma definição negativa: “A mulher é aquele ser que não é homem, ou seja, que não tem o objeto”. Mas essa resposta não serve! Afinal, a gente poderia dizer: “Beleza, se a mulher não é o homem então o que ela é?” É uma pergunta para a qual não se tem a resposta porque no caso da mulher não há esse objeto que a represente.

Conclui-se então que a idéia do que é a mulher, de sua essência, de seu desejo realmente não existe. Por quê? Porque diferentemente do homem ela não tem um objeto que a represente – esse objeto Freud chamou de “falo”. Então, na nossa cabeça, no mundo simbólico, a mulher não tem representação. Por isso, Lacan diz que “A Mulher (e aí a gente pode completar com: “A mulher enquanto representação do que é a mulher”) não existe”.

Isso é ruim? Ao meu ver, muito pelo contrário! Meus alunos e alunas de aulas particulares conhecem muito bem o que pensoa respeito disso. Se a mulher não tem uma representação de si mesma, isso significa que ela pode inventar sua essência! É por isso, por exemplo, que nenhuma mulher gosta de encontrar numa festa outra mulher com o mesmo vestido dela. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher. Já homem não. Homem gosta do mesmo, do padrão. Numa festa de gala, estão todos de terno. São raríssimas exceções os que querem se diferenciar – e não são vistos com bons olhos.

Por isso, minha cara leitora, quando ouvir por aí um lacaniano dizer que “A Mulher não existe”, dê graças a Deus, pois ao “não existir” ela precisa “se fazer existir”, cada uma a seu modo…

Legião Urbana e a experiência analítica

legiaoA partir da leitura desse post publicado no blog do Zanatta, me lembrei de uma reflexão que venho fazendo já algum tempo sobre as conexões da letra da música “Pais e Filhos” da saudosa Legião Urbana com a Psicanálise. Resolvi publicar, então, as conclusões a que cheguei até o momento.

Em verdade, minha análise é restrita ao trecho final da música. Após a transcrição (belíssima e perspicaz, por sinal) de falas comuns trocadas entre pais e filhos e da extrema sabedoria ao mostrarem o óbvio: que o amanhã não existe, Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá escrevem os seguintes versos:

“Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais
Não o entendem
Mas você não entende seus pais…

Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer”

Em primeiro lugar, a gente pode assinalar o reconhecimento do ser humano como aquilo que o lacanês chama de “falta-a-ser” e que em humanês, a gente pode, parafraseando Sartre, chamar de “ausência de uma essência do homem”. Com isso quero dizer que cada cultura, cada família, cada pessoa, tem uma idéia diferente sobre o que é o homem, como ele deve agir e etc.

Assim, não temos uma definição válida pra todos, o que significa dizer que a gente não nasce sabendo quem a gente é nem como a gente deve viver. Quem incute na nossa cabeça o que mais tarde vamos pensar ser a verdade são as outras pessoas que, via de regra, nasceram antes da gente e o que elas produziram em termos de conhecimento (é mais ou menos isso o que em lacanês se chama o Outro). Ora, os versos “Sou uma gota d’água/Sou um grão de areia” revelam exatamente isso! Um grão de areia isolado, por exemplo, no asfalto da praia de Copacabana, não é um grão de areia! Sim. Essa “coisinha” só será um grão de areia quando houver algum humano (um Outro) para chamá-lo assim. E mais: só será um grão de areia se existirem outros grãos de areia!

Sobre o “Você me diz que seus pais não o entendem/Mas você não entende seus pais” vou me ater a uma consideração influenciada pelo artigo “Confusão de língua entre adultos e a criança”, de 1933, do analista húngaro Sándor Ferenczi. Ao meu ver esse mal entendido entre pais e filhos resulta, entre outras razões, do fato de os filhos representarem para os pais aquilo que eles já foram e que recalcaram para se tornarem o que são hoje.

Mas o creme mesmo,  da letra de “Pais e Filhos” são os últimos quatro versos: “Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você/O que você vai ser quando você crescer”.

Se vocês repararem, esse último verso é ambíguo quanto ao sentido. Ambíguo porque dependendo do ponto que você coloque ao final, o significado da frase muda. Pode ser tanto a pergunta ao filho sobre o que ele vai ser quando crescer quanto uma afirmação de que ele vai ser como os pais!

Senhoras e senhores, essa ambiguidade é própria da interpretação do psicanalista. Essa, não tem a função de fechar um sentido (vocês podem até ver um pouco disso nos casos de Freud, mas são erros próprios de quem tava começando a coisa). A interpretação analítica tem exatamente a função de jogar com a ambiguidade das palavras e mostrar, fundamentalmente, que elas só são palavras e que, apesar de machucarem, elas continuam sendo palavras que, se rearranjadas, em vez de machucar podem curar!

E me parece que os autores realmente encaranaram os psicanalistas nessa estrofe. Os versos anteriores (“Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você”) são a personificação da essência do que um analista busca fazer numa psicanálise.

E o que é que ele busca? Levar o sujeito a parar de se queixar do Outro (é, daquele Outro do qual eu falei acima, que te ensina o que você é, pra onde você tem que ir), desse Outro que é na maioria dos casos encarnado pelos pais. E como a gente consegue parar de se queixar? Quando a gente percebe que eles não sabem tudo. Que, pelo contrário, eles tem que lidar com as mesmas questões  com as quais a gente tem que lidar. É quando a gente percebe que, assim como nós, no Inconsciente, eles permanecem sendo uma criança de 5 anos…

Aí, tomando ciência de que eles não sabem tudo, a gente pode desamarrar esse fardo das costas e escolher se a gente quer ser como eles, quando a gente crescer.

Veja o clipe de “Pais e Filhos”:

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Winnicott e o Samba

winnicott20et20enfant1Em 1951, o psicanalista e pediatra Donald Woods Winnicott (cuja obra completa você pode baixar na seção Presentes) escreve um artigo para relatar algumas curiosas observações que vinha fazendo com crianças. Winnicott notou que a imensa maioria das crianças em determinado período da infância escolhia um objeto (na maioria das vezes, um ursinho de pelúcia, uma chupeta, uma fralda), carregava esse objeto pra tudo quanto é canto (em especial pra cama na hora de dormir) e não permitia que ele fosse lavado. Quando não era um objeto o bibelô, a criança elegia um determinado comportamento (como emitir um mesmo som), o qual era constantemente repetido (principalmente na hora de dormir).

Winnicott descobre que a fase em que a criança começa a fazer isso é justamente a fase em que ela está começando a se tornar independente e não necessita o tempo todo da presença da mãe. O psicanalista conclui então que a função desses objetos e comportamentos é fazer a transição entrea fase em que a criança dependia da mãe pra tudo e a etapa em que ela está adquirindo independência. Por isso, Winnicott denomina-os de “objetos e fenômenos transicionais” que é também o nome do artigo de 1951.

Assim, os objetos e fenômenos transicionais são como substitutos imaginários da mãe (por isso são tão importantes na hora de dormir- hora em que a criança fica mais tempo longe da mãe). Acontece que a gente não cura essa “saudade” da mãe e do conforto que era estar junto com ela nunca. E aí, já adultos, não temos mais a fralda ou a chupeta para nos consolar, mas temos as músicas, por exemplo. Quer ver como isso é verdade?

Leia a letra da música “Esta Melodia”, de Bubu da Portela e Jamelão e veja se não é a descrição certinha de tudo o que eu falei acima:

“Eu tinha esperança que um dia ela voltasse
Para a minha companhia
Deus deu resignação
Ao meu pobre coração
Não suporto mais tua ausência,
Já pedi a Deus paciência

Quando vem rompendo o dia
Eu me levanto, começo logo a cantar
Esta doce melodia que me faz lembrar
Daquelas lindas noites de luar
Eu tinha um alguém sempre a me esperar
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória”

SERVIÇOS:

Ouça “Esta Melodia” na voz de Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela:

73973Para saber mais sobre as teorias de Winnicott, adquira o livro “Da Pediatria à Psicanálise”, que conta com os principais artigos do autor. Clique no link abaixo e digite o título do livro na busca.

O que é inconsciente coletivo? (parte 1)

4stanne1Apesar dos poucos votos, na primeira enquete deste blog, venceu Inconsciente Coletivo como o conceito que você, caro leitor, gostaria de entender melhor.  Então vou explicar o mais claramente possível esse que é uma das idéias-chave do pensamento de Jung. Mas antes quero fazer uma ressalva que vale para todos os conceitos que já abordei aqui e para os que virão no futuro:

Conceito, minha gente, não é apenas uma palavrinha bonita que determinado autor achou por bem utilizar, nem algo vindo sabe-se lá de que dimensão. Conceitos são instrumentos de compreensão da realidade, isto é, são funcionais, servem como atalhos mentais, para que você não precise ter que passar por todas as experiências pelas quais o autor passou para elaborar o conceito. Por isso, sempre que você se deparar com um conceito novo, não faça perguntas do tipo: “O que é o Real em Lacan?”. Em vez disso, prefira: “Por que Lacan teve necessidade de utilizar o conceito de Real?” Assim, você não corre o risco de começar a discutir o sexo dos anjos, destino certo de quem opta pela primeira pergunta.

Então, para compreender o Inconsciente Coletivo, procederemos da mesma forma, fazendo a pergunta: “Por que Jung teve a necessidade de criar o conceito de Inconsciente Coletivo?”

São várias as razões. E a primeira delas é: porque já existia um conceito de inconsciente, o de Freud que, grosso modo, significava os pensamentos e fantasias que a pessoa havia recalcado e que retornavam na forma de sonhos, sintomas, esquecimentos etc. Por essa definição, já dá pra notar que o inconsciente para Freud era essencialmente pessoal, quer dizer, o que estava no inconsciente de uma pessoa eram só coisas que diziam respeito à história dessa pessoa.

Só que Jung começa a perceber na sua experiência de psicanalista e psiquiatra que muitos pacientes apresentavam conteúdos brotados do inconsciente que não tinham como ter saído da própria experiência pessoal do paciente. Por exemplo, muitos pacientes psicóticos tinham delírios cujo conteúdo era muito parecido com mitos da antiguidade. Mas aí o leitor pode falar: “Ah, mas o paciente pode ter lido sobre o mito antes do surto.” Sim, é uma possibilidade, e Jung a considerava. Mas para nosso espanto, havia casos em que não havia nenhuma possibilidade do paciente ter tido contato com qualquer informação sobre o mito.

Um exemplo, é o caso de um paciente que Jung atendeu que em seu delírio via o “pênis do Sol” (sic) e dizia que o movimento de sua cabeça ao mesmo tempo que o pênis produzia o vento.  Jung descobre quatro anos depois que esse delírio era quase idêntico a um ritual de invocação ao deus Mitra. Detalhe: o livro onde  Jung descobre essa informação só foi publicado quatro anos depois do paciente ter tido o delírio, ou seja, era impossível que o paciente tivesse tido acesso ao relato da invocação.

Além dos delírios de pacientes esquizofrênicos, Jung também observava que seus pacientes “comuns”, neuróticos, apresentavam sonhos e fantasias que também eram muito parecidos com mitos antigos, fábulas e lendas com os quais nunca tiveram contato. Vejamos então como se processou o pensamento de Jung:

“Bom, Freud diz que sonhos, fantasias e delírios psicóticos são conteúdos provenientes do inconsciente, certo? Certo. Mas ele diz também que não existe nada no inconsciente que a pessoa não tenha vivido e recalcado, certo? Certo. Mas então, como eu, Jung, na minha clínica, vejo pacientes tendo sonhos, fantasias e delírios que não têm nada a ver com a história pessoal deles? Só posso concluir então que existem dois tipos de inconsciente: um, pessoal, que é esse que Freud descobriu e outro que não é pessoal, mas que tem conteúdos da história da humanidade como um todo. É então, um Inconsciente Coletivo.”

 Mas se esse Inconsciente Coletivo realmente existe, como é que ele funciona?

A RESPOSTA NO PRÓXIMO POST

O que é recalque? (final)

dorafreudPois bem, no último post ficamos com a pergunta: “Afinal de contas, o que se recalca?” Acrescento a ela, mais uma: “Por que precisamos recalcar?” Mas antes de responder a ambas, quero fazer algumas afirmações para que o leitor entenda o restante do post. São três:

1. Em tudo o que a gente pensa, lembra, imagina, etc., investimos uma quantidade de nossa energia mental.

2. Quanto mais uma idéia, pensamento, lembrança etc. estiver relacionada com a satisfação das nossas pulsões sexuais mais investimos energia nele.

3. Como você já deve saber por outros posts, a tendência de nossa mente é de descarregar a energia que acumulamos e deixá-la no nível mais baixo possível.

Dito isso, vamos à resposta das perguntas: definimos o recalque como uma tentativa de esquecer que ocorre inconscientemente. Então, o que recalcamos?

Recalcamos justamente aqueles pensamentos, idéias, fantasias, lembranças etc. que não se ajustam à imagem ideal que temos do mundo e de nós mesmos (nosso eu ideal). Freud descobre tratando seus pacientes que esses conteúdos que recalcamos geralmente estão associados a modos de satisfação sexual que não estão de acordo com o que a gente acha certo. Por isso recalcamos! Para tentar esquecer pra sempre que um dia a gente fez , viu ou pensou tais indecências!

O problema é que a energia que investimos nesses conteúdos recalcáveis é tão grande, que mesmo recalcados eles permanecem poderosos. Porém, como nossa consciência não os aceita por eles não condizerem com nossos ideais, eles tentam descarregar a energia vinculada a eles disfarçando-se na forma de esquecimentos, sonhos, sintomas neuróticos.

Querem um exemplo? A paciente de Freud, Dora. Dondoca dos tempos em que se casava virgem, seria deplorável para uma moça fina como Dora se imaginar fazendo sexo oral no amigo do pai. Mas ela se imaginava! Porém, como isso não se ajustava à imagem de menina pura que ela deveria ser, Dora recalca tal fantasia. Em compensação, passa a sofrer de tosse nervosa, falta de voz…

Última observação: todo esse processo ocorre inconscientemente.

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