O amor como afeto e o amor como ação: Freud com Winnicott (parte 1)

Há cerca de uma semana atrás, caiu-me nas mãos uma obra cuja leitura muitos dos que me conhecem e até eu mesmo há duas semanas não recomendaria sequer como companhia para as noites de revolução intestinal, em que nos transformamos dum salto em reis. Trata-se de um best-seller traduzido para diversas línguas e lido por alguns dos maiores empresários do mundo: “O Monge e o Executivo: uma História sobre a Essência da Liderança” da autoria do administrador de empresas James Hunter. É bom que se diga que as razões de minha não-indicação à leitura do livro não eram de fato razões, uma vez que não se fundavam nem em uma mera leitura rápida do texto, mas apenas na temática geral da obra: a tal liderança, assunto que geralmente se encontra no rol dos tópicos trabalhados nos chamados “treinamentos” de psicólogos organizacionais ou administradores de empresas, o cúmulo da mediocridade intelectual em minha opinião. Além disso, o opúsculo era catalogado nas livrarias juntamente com escritos chamados comumente de “auto-ajuda”, cuja ineficácia foi tão bem comentada em um post recente pelo amigo e psicólogo behaviorista Igor Madeira.

Nota-se, portanto, que minha não-recomendação se baseava unicamente em preconceitos. Esses, como bem se sabe, podem tornar-se conceitos se seu conteúdo for efetivamente confirmado após um empreendimento analítico ou empírico, ou refutados caso tal confirmação não ocorra. Foi essa última possibilidade a que se concretizou a partir de minha leitura de “O Monge e o Executivo”. A princípio relutante, devorei o livro em uma semana tão clara era a articulação das idéias do autor e tão saborosa sua originalidade. Não vou me deter aqui nos diversos aspectos que me fizeram considerar a obra de boa qualidade, mas apenas em um ponto em que o autor me fez pensar em alguns vínculos com a teoria psicanalítica.

Em determinado momento, Hunter, inspirado pelos Evangelhos, discute a importância do mandamento do amor cristão expresso em máximas como “ama ao próximo como a ti mesmo” e “ama a teu inimigo” para o bom exercício da liderança. Segundo ele, o cristianismo radicaliza uma concepção de amor que encontra suas raízes no vocábulo grego “ágape” – uma das quatro acepções do amor na língua grega; as demais, como muita gente sabe, são storge (geralmente associado à amizade), filos (o amor que faz o bem, altruísta) e eros (amor da paixão romântica, relacionado também à sensualidade e ao sexo).

Tal concepção de amor distinta da habitual está relacionada muito mais ao campo da ação do que do afeto. Tradicionalmente tendemos a ver o amor como um sentimento derivado de uma relação com outra pessoa, coisa, animal etc. Sentimos amor por nossas esposas, maridos, amigos, bichos de estimação, casas. É uma visão do amor como algo que nos afeta e que, portanto, não nasce de uma escolha ou de um engajamento subjetivo. O modelo paradigmático desse ponto de vista é o arrebatamento experimentado pelo sujeito ao se apaixonar. Essa pequena loucura da qual nenhum exemplar da espécie escapa foi sempre ilustrada pela tradição como resultado de um encantamento proveniente de fora, haja vista a célebre imagem de Cupido jogando suas flechas.

O que James Hunter propõe, e que em sua esteira discutirei com a ajuda de dois autores da psicanálise, é que essa é apenas uma das facetas do amor, que não é a mesma do amor ágape (ou caritas) cristão. Esse se constitui na verdade em um comportamento, em uma ação e não em um afeto. É por isso que é difícil para muitos compreender o mandamento de Jesus de amar também aos inimigos, pois está para-além dos limites do ser humano não sentir ódio de quem lhe maltrata, lhe faz mal. Isso está no plano do necessário e Jesus sabia disso, pois também se fez humano e passou por todas as intempéries experimentadas pelos filhos de Adão. O que Ele propõe, no entanto, é que, não obstante o ódio, amemos, pois esse tipo de amor (ágape/caritas) não está no mesmo nível nem do ódio originado pelo maltrato do outro nem do amor sentido por quem nos agrada; está no nível da vontade, do engajamento, da deliberação enfim. É por isso que Jesus, ao enunciar o mandamento, o contrapõe à prescrição judaica de “Odiar os inimigos”. Ora, odiar o inimigo não seria o sentimento que tenho após o mesmo proferir-me um insulto? Não. Esse ódio sentido é um afeto e, como tal, desencadeado pelas circunstâncias, sem passar pelo plano da vontade. O “odiar” de que Jesus fala é o comportamento que utiliza o ódio como motivo, ou seja, no nosso exemplo, revidar o insulto ou se vingar de outra forma do inimigo. Essa ação, sim, passa no nível da vontade e da deliberação, pois posso escolher insultar ou não, mas não posso escolher sentir ódio ou não.

Assim, amor no sentido cristão, expresso pela palavra grega ágape é uma ação cujo paradigma maior é o acolhimento, uma atitude de total aceitação do outro como ele é em todas as suas idiossincrasias, mesmo quando essas me provocam ódio e me fazem não gostar do outro, ou, nas palavras do apóstolo Paulo, “o que tudo tolera, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (Cf. 1Cor 13).

Vê-se bem, portanto, que amar é completamente distinto de gostar, não pelo fato do primeiro ser mais “profundo” que o segundo, mas pelo fato de que gostar é simplesmente o prazer – portanto afeto – que sinto por alguém cuja companhia me traz uma satisfação narcísica: gosto de quem me faz bem ou como dizem alguns, “gosto de quem gosta de mim”. Já o amor implica num ultrapassamento do narcisismo. Como veremos, Freud (e também Lacan) conseguiu vislumbrar apenas a primeira faceta do amor, o amor como afeto, daí sua visão particularmente pessimista do fenômeno amoroso e sua ênfase no eros. O teórico que, a meu ver, apresentou teses que possibilitam pensar o amor ágape/caritas em ternos analíticos foi Winnicott. No próximo post faremos falar os dois autores.

Objeto a, neurose e perversão

Muitos daqueles que se dedicam ao estudo da teoria psicanalítica tendem a pensar que o objeto a, ao qual Lacan atribui a função de causa do desejo, tem sua (in) existência atrelada à incidência da Lei (Nome-do-Pai). Na verdade, a Lei promove a assunção do falo como objeto alvo do desejo, justamente por deslocar o sujeito do lugar de tal posição (lugar originário da criança no desejo materno) e consagrá-lo ao patamar daquele que, “em nome do pai” poderá se dedicar à busca o falo.

A função lógica do objeto a é, por assim dizer, constitucional, uma vez que o gozo absoluto e inextinguível não pertence à categoria do possível. Lacan ilustra essa postulação com os fenômenos de separação dos objetos auto-eróticos: seio, fezes, olhar, voz e a própria flacidez do pênis após a ejaculação que acaba por adquirir uma conotação semelhante a uma “separação do próprio pênis” por parte dos homens. Todas essas separações são como signos da impossibilidade do gozo absoluto e o atestado de que a origem do desejo não está articulada à Lei, mas a um furo humano original.

Até o Seminário 10, sobre a angústia, no qual formaliza a função do objeto a, Lacan concebia a existência do desejo como sendo tributária da existência da Lei. Nesse esquema, edipiano até o último fio do cabelo, o desejo nasceria justamente do fato de um objeto ser interditado. A mãe, no princípio continuação do corpo infantil, constituir-se-ia em objeto de desejo a partir do momento em que o acesso ao corpo materno sofre a interdição por parte do pai. Nessa fórmula, a existência do desejo está atada ao objeto que é alvo do desejo.

Acontece que essa é apenas a reprodução da fantasia neurótica por excelência! Somos nós, neuróticos, que desejamos aquilo que se encontra sob o interdito da Lei. É o neurótico quem acha a grama do vizinho sempre mais verdinha e a mulher do próximo a última bolacha do pacote; que vive a sonhar com o dia em que a poligamia se converterá em norma social e, aí sim, ele será feliz para sempre com o número de mulheres que quiser (Ledo engano, mal sabe ele que são poucas as que de fato quer).

Portanto, a idéia de que aquilo que eu não posso ter – não por uma impossibilidade intrínseca – mas porque está interditado, é o que de fato provoca o desejo, é uma maneira sofisticada de fazer da neurose norma do psiquismo. O que Lacan demonstra é que há outras maneiras de pensar o desejo que revelam efetivamente o que o causa.

O exemplo que ele dá é o do fetichismo. O fetichista não se interessa pelo objeto interditado nem vive a se queixar da interdição. Isso porque ele sabe, tem consciência, daquilo que elicia, provoca, faz surgir seu desejo, que é o objeto fetiche. Temos o sapato como o exemplo mais banal, mas podemos tomar outros, como a cor dos olhos ou dos cabelos. Há sujeitos que só conseguem sentir excitação sexual por mulheres de cabelos ruivos. A cor avermelhada não é o que o fetichista deseja. Ele deseja aquilo que todos desejam: o falo, isto é, o pedaço que falta para o Outro (a mãe, Deus, a realidade, a vida) ficar completo. Mas o que o excita e que o faz crer que ali, naquela mulher de cabelos ruivos, está o falo é justamente a cor ruiva dos cabelos que faz, nesse caso, função (semblante) de objeto a, causa do desejo.

Para compreender ainda melhor essa argumentação, é só se lembrar da fábula freudiana sobre o nascimento de um fetiche: está lá a criança a remexer embaixo da saia da mãe à procura de um pênis que ela supõe existir. Suponhamos que a mãe esteja sem calcinha mas de meia calça. A criança, embaixo da saia, após visualizar a meia-calça, vai se aproximando em direção à vagina materna ainda acreditando que em seu lugar encontrará um membro. Ao se deparar com sua desilusão, isto é, a visão estarrecedora de que no lugar do pênis suposto há um vazio, a criança se sente profundamente angustiada e nega aquela visão, guardando na lembrança não a vagina, mas o que viu no instante anterior, a meia-calça. Temos aí o nascimento de um fetiche por mulheres com meia-calça. É óbvio que essa narrativa constitui uma historieta mitológica que apenas ilustra o que se poderia chamar de estrutura da dinâmica fetichista. Em termos lógicos, teríamos a seguinte equivalência:

Meia calça: objeto a

Visão da vagina da mãe (ausência de pênis): (-φ), o significante da castração, ou falo-apenas-suposto.

Assim, o objeto a acaba por ocupar o lugar daquilo que impedirá o fetichista de se lembrar da castração. É por isso que a presença seja na realidade ou na imaginação do objeto fetiche é a condição necessária para a emergência do desejo no fetichista. É por isso também que ele não sonha com o esfacelamento da Lei porque, para ele, a lei neurótica não faz a mínima diferença visto que a lei a que seu desejo está sujeito é de uma ordem completamente diferente. É por isso que Lacan brinca com a homofonia no francês dos termos perversion e pére-version (versão do pai): o perverso inventa a sua própria lei, sua própria versão do pai.

E como é que o objeto a se manifesta no neurótico? Da mesma forma que no fetichista, só que no eixo inconsciente. Todos nós neuróticos também temos um determinado matiz ocular ou um “brilho no nariz” como diz Freud que nos faz ficar encantados por determinadas pessoas. A diferença é que não nos damos conta dessa “condição de amar”.

E é exatamente por isso que a transferência funciona tão bem pro neurótico, pois o enquadramento analítico propicia uma situação em que o analista acaba fazendo as vezes desses pequenos “detalhes tão pequenos de nós dois” que estão na raiz tanto de nossas alegrias quanto de nossas infelicidades e desarranjos subjetivos. Os nossos “a” justamente por estarem na esfera inconsciente acabam agindo de modo com que “façamos o que não queremos” como diz São Paulo, ou seja, desconhecendo onde gozamos.

As agruras dos fetichistas não são dessa ordem, pois eles sabem muito bem o que precisam para gozar.

Ai de mim, grita um neurótico à surdina.

As teses freudianas e a revelação cristã

A meu ver, é possível compreender as teses freudianas à luz da revelação cristã. O que Freud faz é descrever a vida daquele que o apóstolo Paulo chama de “homem velho”, homem que segundo o próprio apóstolo dos gentios é ainda prisioneiro dos “instintos egoístas”. Ora, o que seriam tais “instintos” senão a pulsão sexual de que fala Freud? Pois, para o pai da Psicanálise, a pulsão não possui um objeto pré-determinado, fixo. A única coisa que pode se dizer certa na pulsão é o que ela visa: a satisfação. A busca pelo apaziguamento do acúmulo gerado pela excitação pulsional é o elemento comum a todas as vicissitudes da pulsão. Foi também para a satisfação e o gozo do mundo que Deus chamou o homem à existência (Cf. Gn 1, 26: “Então Deus disse: ‘Façamos o homem a nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra.’”). É possível, então, pensar na hipótese de que enquanto o homem vivia na presença de Deus, em comunhão com ele – o que a Bíblia figurativamente narra como sendo a estada de Adão e Eva no paraíso – a pulsão não existia no homem, pois o próprio Deus era o objeto fixo e pré-determinado para o ser humano. A pulsão passa a existir justamente quando, por influência do diabo, o homem passa a se ver como distante de Deus e, por conseguinte, como menor do que Ele, pois é nisso que consiste a afirmativa da serpente de que ao comer do fruto da árvore do Bem e do Mal, homem e mulher se tornariam COMO deuses.

Para sustentar essa asserção, o demônio tem de lançar mão de duas premissas essenciais: a primeira é a de que o ser humano não é Deus. Essa postulação, por mais óbvia que seja, só adquire seu valor de uma humilde verdade, se for acompanhada de uma outra: a de que embora não sendo Deus, não estamos distantes dele. O diabo, não obstante, agrega a essa primeira premissa a idéia de que ser humano é ruim e que ser Deus é que é bom. Agindo assim, institui no coração do homem aquela que é a mãe de todas as invejas: a inveja da condição divina e, com ela, o primeiro reconhecimento da insatisfação. Até seu encontro com a serpente, o homem não se sentia insatisfeito, ou melhor, logo que os primeiros sinais de insatisfação brotaram em seu coração, Deus logo tratou de criar-lhe uma companheira. E esse estado de plena satisfação do homem não ocorria em função de uma possível cegueira humana para o que lhe faltava. É que a total comunhão com os desígnios de Deus lhe era suficiente (Cf. Gn 1, 31: “Deus contemplou toda a sua obra, e viu que tudo era muito bom”). Essa abertura promovida pelo diabo entre aquilo que o homem é e o que ele poderia ser é o que os psicanalistas chamam de hiância, falta, furo, etc. Vejam bem que essa hiância não nasce com o homem, mas é fruto da influência diabólica que induz o homem a se reconhecer como não pertencente à comunhão com Deus e, pelo contrário, querer se tornar como ele. Essa etapa, coincidentemente, é contemporânea do nascimento do ego no homem. Ora, Freud intuiu muito bem que o ego não é nada mais que a estrutura mental que condensa os ideais de totalidade e perfeição que o sujeito não aufere na realidade. No mito do Gênesis, a representação do ego é justamente a idéia de ser como Deus. O grande logro do demônio é fazer com que o homem vá buscar no fruto da árvore do Bem e do Mal, aquilo que ele já possui, pois qual não seria a maior perfeição do que permanecer no amor Daquele que o criou, isto é, ser Um com Ele?

Percebam também que a falta, a hiância, não surgem em função da incidência da Lei como pensaram alguns freudianos mais apressados. Até porque, no mito bíblico, até então não havia Lei. Pode-se até pensar no mandamento divino de não comer do fruto da árvore do Bem e do Mal como uma Lei, mas ela só adquire esse sentido a partir do discurso da serpente que mente acerca das conseqüências de sua transgressão. O aspecto essencial, portanto, para o advento da falta é a perspectiva de uma condição melhor. Isso adquire maior relevância tendo em vista que a constatação do homem como faltoso servirá a muitos filósofos e teólogos como atestado da existência de Deus, pois se o homem se vê como incompleto, é sinal de que ele concebe a possibilidade de ser completo, que corresponderia à idéia de Deus que, assim, não seria apenas uma idéia.

Assim, quando o homem, por influência do demônio, promove a abertura de uma distância entre seu estado real e um estado ideal, entre ele e Deus, todas as suas tendências que encontravam satisfação no Criador e no mundo por ele criado passam a ficar à deriva, pois nada disso mais satisfaz. Eis o nascimento da pulsão. A partir de então, ou seja, ao se afastar da presença de Deus, o homem passará a se ver às voltas com a terrível sensação de estar insatisfeito (Cf. Agostinho, Confissões, I, 1, 1: “Criastes-nos para Vós, e o nosso coração está inquieto, enquanto não descansa em Vós”) e de constantemente estar tentado a buscar satisfação nos objetos nos quais originalmente não deveria buscar, quais sejam, todos aqueles que a lei mosaica no Pentateuco interdita: animais, familiares, pessoas do mesmo sexo, etc. Como diz Paulo, a lei sistematizada por Moisés é uma manifestação patente do amor de Deus para com o homem, pois mesmo sabendo que o ser humano deixou voluntariamente de estar em comunhão com ele, Deus lhe dá um conjunto de prescrições para que mesmo estando fora de sua presença, ele possa caminhar de acordo com seus desígnios e viver uma vida feliz – é por isso que Paulo compara a Lei a um pedagogo.

O diabo, no entanto, aproveitou a existência da Lei para manifestar suas duas facetas: a de tentador (que já havia sido vislumbrada no princípio) e a de acusador. A de tentador é óbvia. Já a de acusador é análoga ao nascimento do superego, como já havia dito há dois posts atrás. O superego não existe para gerar responsabilidade, ele existe para eliciar o sentimento de culpa, para fazer com que o sujeito se martirize por ter transgredido a Lei. Como até o nascimento do Messias ainda não havia o Advogado (Paráclito), o diabo triunfava, subvertendo a utilidade da lei, como o próprio Paulo diz em uma de suas cartas. A entrada em cena de Jesus representa um passo decisivo nessa dinâmica, porque a fé em Cristo torna a lei mosaica desnecessária porque Jesus veio manifestar com sua morte a vontade do Pai de se reconciliar com o homem, isto é, de restaurar a comunhão que havia sido rompida lá no Gênesis, por influência do demônio. E o mais interessante é que Deus faz isso reconhecendo que após a saída de sua presença o homem se tornou falho e, portanto, não tem condições de, por sua própria força, alcançar novamente a comunhão com Ele. Por isso, Deus vem em socorro do homem não mais com um novo código de normas, pois Ele já viu que a lei acaba servindo para que o demônio escravize o homem. O Pai, enviando seu Filho como sacrifício para o perdão dos pecados, liberta o homem do pecado. Isso significa que o homem não vai mais pecar? Claro que não! Significa que ele já não é mais uma criança que precisa de um rígido conjunto de normas para evitar o pecado, pois esse passa a ser um acidente de percurso – perene, obviamente, mas que não precisa mais ser temido, pois há um Deus que perdoa.

Perceberam que nesse último parágrafo eu falei apenas de religião, sem nenhuma analogia com a teoria psicanalítica? Não é coincidência. É que Freud, de fato, não alcançou a novidade cristã, justamente porque, sendo judeu, ele sabia descrever perfeitamente bem a relação do homem com a Lei e o pecado, ou seja, a dinâmica de vida do homem velho paulino, mas não a do homem novo renascido em Cristo. Talvez a maior realização não só de Freud, mas de toda a Psicanálise, foi ter descoberto que há um judeu escondido em todos os homens.

Voltando ao assunto, para que a comunhão com Deus seja restabelecida, é preciso que o homem, em contrapartida ao amor de Deus, institua um novo destino para a pulsão: tomar Deus como único objeto e o amor a Ele e ao próximo como únicas finalidades. Sim, ao próximo, porque o rebaixamento divino em Jesus trouxe o Deus de volta à imanência (Cf. Mt 25, 40: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.”. A partir de então, Deus não está mais distante do homem, mas se personifica em cada pessoa com a qual nos relacionamos. Esse novo destino da pulsão demanda um recolhimento de investimento libidinal de todas as outras coisas – é o que Jesus chamava de abandono do mundo. E é aí que a conversão beira a psicose, pois o que ocorre nessa psicopatologia, para Freud, é justamente o desligamento libidinal dos objetos e a introversão da libido para o ego. A diferença é que no caso da conversão, a libido se dirige para o Cristo e não para o eu. No entanto, se pensarmos como Agostinho, que concebia que Deus estava presente dentro do homem e, portanto, o afastamento de Deus implicaria um afastamento de si mesmo (Cf. Confissões, III, 6, 11: “De fato, tu estavas dentro de mim mais que o meu íntimo e acima da minha parte mais alta”), a distinção entre psicose e conversão deixa de existir. O próprio apóstolo Paulo ignora qualquer diferença (Cf. 1Co 1, 18: “Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.”; 1Co 1, 21: “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.”; 1Co 1, 23: “Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.”)

Só para fazer mais uma analogia com a Psicanálise, quando Freud elabora a noção de pulsão de morte e com ela a idéia de que o prazer não basta para o homem, que ele busca uma satisfação que vai mais além, Freud sem saber intuiu uma realidade espiritual. Pelo fato do homem um dia ter estado ligado plenamente a Deus, ao buscar se satisfazer através da pulsão com os objetos ilícitos do mundo (na linguagem freudiana, os objetos parciais), o homem procurará repetir aquela plenitude primeira e invariavelmente fracassará. No entanto, como o pecado produz prazer, o homem insistirá nele pensando que poderá, na repetição, alcançar a satisfação pretendida – eis a compulsão à repetição de Freud.

É evidente que as analogias feitas neste texto possuem pouco rigor teológico e suas limitações são bastante claras: são apenas tentativas de estabelecer continuidades entre uma teoria bastante eficaz da condição humana e a verdade sobre tal condição e a relação do homem com Deus. Penso ser lícito tal empreendimento uma vez que muitos pais da igreja, de forma semelhante, fizeram uso de sistemas filosóficos como o aristotelismo e o platonismo como ilustração de suas teses teológicas. A meu ver, Freud evidenciou toda sua genialidade ao destrinchar a vida psicológica do homem que ainda não alcançou a fé cristã.

O que é superego? (final)

Caro leitor, terminamos o último post com o vislumbre do avanço teórico-conceitual empreendido por Freud a partir de sua noção de superego. Dissemos que o ponto de partida foi o fenômeno da consciência moral, mas ressaltamos que a intenção de Freud foi trazer à luz um acontecimento psíquico bem mais complexo. É que o pai da psicanálise não estava interessado em descrever o óbvio. Pelo contrário, a teoria psicanalítica pode ser descrita como a tentativa de trabalhar o estranho, o insólito, aquilo que aparentemente é incompreensível. O conceito de superego se presta exatamente a essa função, a tentar explicar, por exemplo, porque uma pessoa não se permite vencer na vida, galgar postos mais altos ou porque alguém sofre de um imenso sentimento de culpa para o qual não consegue conceber razão alguma. Veremos isso, ao examinarmos como Freud articula as origens da formação do superego.

Todos vocês devem conhecer as linhas gerais daquilo que o médico vienense chamou de “complexo de Édipo”: na infância, meninos e meninas estão fortemente apegados à mãe e são obrigados a deixar esse estado de extrema satisfação pela interferência daquele que possui a mãe por direito: o pai. Pois bem, esse estado de coisas perfeitamente verificável em qualquer família, pode ser interpretado como a personificação da entrada da criança no mundo social. Ela deve abdicar de uma satisfação, acatar a lei que limita seu gozo e, como fenômeno colateral, passar a odiar aquele que encarna o papel de limitador.

Agora, imaginem que essa etapa fundamental do desenvolvimento da criança não termine nunca, que ela permaneça para sempre não mais como a relação da criança com os pais, mas como a relação da criança consigo mesma. É exatamente isso o que acontece. Após o término desse período da relação triangular pai-mãe-filho, na cabeça da criança começa a ser formado um personagem que vai passar a exercer a mesma função que o pai na realidade, de maneira tal que, mesmo na ausência do pai, o sujeito se veja limitado em sua satisfação com as coisas do mundo. Mais, e esse é o passo fundamental de Freud, esse personagem que surge na cabeça da criança – que vocês já devem ter percebido tratar-se do superego – adquire características muito mais cruéis que as do pai. Além de lembrar ininterrupatamente ao sujeito que ele não pode gozar de tudo, o superego vai culpá-lo por um dia ter gozado daquela mulher que só pertencia ao pai. Ou seja, o aspecto essencial do superego não é o de limitador, mas daquela instância mental que não nos deixa sentirmo-nos inocentes.

Por não compreenderem isso, muitas pessoas erroneamente dizem que Deus é uma personificação do superego. Se alguma selvageria analítica dessa pudesse ser feita (chamo de selvageria analítica essa bobagem de explicar a religião com conceitos psicanalíticos como Freud fez em ‘O Futuro de uma Ilusão’), o superego deveria ser identificado com o demônio, ou seja, como a figura que faz com que o fiel não se lance na graça do Deus que perdoa os pecados por constantemente fazê-lo sentir-se culpado pelas faltas cometidas.

É por isso que Lacan e Melanie Klein faziam questão de ressaltar a ferocidade do superego. Na sua eterna culpabilização do sujeito, ele faz com que muitos não se sintam em condições de usufruir da vida, pois cada pequeno gozo parcial passa a ser significado como uma rememoração do gozo proibido das primeiras relações com a mãe. E o ponto essencial é que tudo isso ocorre a portas fechadas, por trás das cortinas. No palco da consciência, o sujeito só se observa se estrepando na vida, se prejudicando tão logo conquista uma vitória ou contraindo dívidas. Há até aqueles que cometem crimes apenas para serem flagrados, irem para a cadeia e lá se verem finalmente recebendo a punição pelo incesto precoce com a mãe.

Portanto, caro leitor, esqueça essa versão aguada do superego que ficou pra tradição. Lembre-se do superego como aquela voz ameaçadora que no inconsciente diz: “Um dia eu fui seu pai, mas seu pai não pôde lhe castigar pelo enorme pecado que cometeu. Dormir no colo da própria mãe??? Só eu tenho esse direito. Por isso você vai se sentir culpado pelo resto da vida e nunca poderá vencer pois você não merece experimentar nem mais uma satisfação sequer. Acho que o melhor é você se punir, se castigar, pra ver se consegue expiar um pouco de sua culpa.”

Pra finalizar um conselho: converse com seu superego…

O que é superego? (parte 1)

Antes de iniciar esta exposição, gostaria de deixar claro que as explicações que aqui apresento dos conceitos psicanalíticos não têm absolutamente a pretensão de esgotar o assunto, mão tão-somente expor sinteticamente minha interpretação sobre os aspectos essenciais de cada termo. Em decorrência, é preciso ressaltar ainda que, embora eu tente ao máximo ser fiel às idéias dos autores da Psicanálise, trata-se aqui de um ponto de vista particular de alguém que conjuga o estudo da teoria com sua própria reflexão crítica. Portanto, caro leitor, não encare as definições que aqui se encontram como o reflexo límpido dos conceitos psicanalíticos, até porque, a meu ver, eles estão longe da translucidez. Meu objetivo principal é possibilitar ao leitor leigo uma resposta curta, porém teoricamente rigorosa das noções do campo freudiano, de modo que ele possa evitar o engano das Wikipédias da vida.

Vamos então falar um pouco sobre esse tal de superego que certamente é um dos conceitos de Freud que mais adentrou no vocabulário do senso-comum. Por isso mesmo, de imediato exclua da sua cabeça a idéia de que o superego é o conjunto de leis, normas e regras da sociedade que limitam os desejos dos indivíduos. Essa definição tosca foi uma dentre as muitas tentativas feitas pelos psicanalistas americanos e psicólogos de outras abordagens para encaixar a psicanálise no quadro das teorias psicológicas e solapar a novidade e o caráter surpreendente das elaborações freudianas. Afinal, a idéia de que o indivíduo introjeta as normas sociais e se comporta sob seu controle mesmo na ausência expressa delas é uma noção que existe desde Platão e sua teoria do humano como sendo um cocheiro que deve controlar dois cavalos: um que representa seus desejos e impulsos e outro que faz o papel das normas sociais.

Para verificarmos as peculiaridades da noção de superego em Freud, é preciso em primeiro lugar saber por que diabos o médico vienense resolveu criar esse conceito logo na década de 1920 quando a maior parte de sua teoria já estava estabelecida. Lembrem-se: conceitos sempre são úteis, funcionais. Ninguém (ou melhor, talvez os filósofos) cria conceitos do nada e para o nada. Eles nascem de uma problemática e, pelo menos em tese, servem para buscar soluções para a mesma.

Com o conceito de superego não foi diferente. Ele brotou de duas experiências clínicas observadas por Freud. A primeira delas foi a culpa, bastante proeminente na neurose obsessiva em que muitas vezes o sujeito realiza atos compulsivos como contar o número dos azulejos do chão do banheiro como forma de evitar uma catástrofe que só aconteceria em sua fantasia. Durante a análise, é muito provável se verificar que a catástrofe era, na fantasia do sujeito, o castigo por um ato libidinoso ou agressivo cometido há muito tempo atrás. A compulsão a contar, portanto, constituiria uma forma de expiar a culpa pela ação que não deveria ter sido levada a cabo.

Outra experiência clínica que está nas raízes da noção de superego são os delírios persecutórios, em boa parte dos quais o sujeito escuta nitidamente uma voz que descreve suas ações, do tipo “Agora ele está andando, agora ele está sentado” ou que lhe insulta, recordando ao sujeito possíveis delitos cometidos, como “Você é um fracassado! É tudo culpa sua” (quem assistiu à novela ‘Caminho das Índias’ vai se lembrar prontamente do personagem Tarso). O passo decisivo dado por Freud foi o reconhecimento de que essa instância persecutória dos delírios dos paranóicos e esquizofrênicos se faz presente na mente de todo mundo, não só dos psicóticos. Nesses, em virtude da dinâmica própria da psicose, essa instância se individualizou e adquiriu um caráter semelhante a de uma segunda personalidade: é como se o psicótico escutasse uma pessoa falando com ele. No caso das pessoas não-psicóticas, o perseguidor não aparece como uma segunda personalidade mas como a própria consciência do sujeito. Aqui, uso o termo “consciência” no sentido de “Minha consciência pesou”, ou seja, como aquela parte de nossa personalidade que nos acusa por ações “erradas” e/ou que nos faz sentirmo-nos responáveis pelas mesmas. É justamente para dar corpo e acabamento conceitual a essa “consciência” que Freud introduz o termo superego. Só que tem um detalhe: Freud avança, pois se o pai da psicanálise se contentasse apenas em inventar um nome psicanalítico para a “consciência” não haveria nenhuma novidade na sua empreitada, seria apenas uma troca de termos. Freud vai mostrar em primeiro lugar de que forma essa “consciência” se forma e, o principal e mais surpreendente, que essa “consciência” está no inconsciente!

Mas isso é assunto para o próximo post.

O que é sublimação?

A entrada em cena das idéias de Jacques Lacan no palco da teoria psicanalítica foi de importância incomensurável no processo de refinamento conceitual do campo freudiano. A partir da extração feita pelo psicanalista francês da lógica subjacente a cada um dos mitos criados por Freud (como os do complexo de Édipo, complexo de castração e do pai da horda primeva) foi possível aos de fora enxergar a psicanálise não mais como um conjunto de fábulas reducionistas destinadas a explicar uma gama de fenômenos assaz complexos como a etiologia das neuroses, os sonhos, etc.

Por outro lado, Lacan e, principalmente, os lacanianos, prestaram um enorme desserviço à história da psicanálise no próprio ato de destilar a lógica das noções freudianas. Na tentativa de tornar mais palatável para lingüistas, filósofos, matemáticos e demais intelectuais uma teorização nascida da clínica neuropatológica e feita para os recém-nascidos psicólogos, Lacan e seus discípulos, ao mesmo tempo em que explicavam os paradoxos de Freud, injetaram uma dose exagerada de caráter hermético em suas elaborações.

Um exemplo paradigmático disso ocorreu com o conceito de sublimação. Até Freud não havia nenhuma dificuldade para definir tal conceito. Qualquer incauto que tivesse lido o texto “Pulsões e destinos da pulsão” (na tradição direta do alemão) ou “Os instintos e suas vicissitudes” (na tradução mais conhecida consagrada pela Standard Edition) sabia perfeitamente que a sublimação era uma das saídas possíveis que o sujeito encontra para lidar com a pulsão sexual, cuja peculiaridade seria o fato de utilizar a energia sexual (leia-se tesão) para a realização de atividades culturais como escrever, pintar, organizar um manifesto etc. Partindo da própria etimologia da palavra, podemos dizer que sublimar significa transformar a baixeza das paixões da carne em matéria-prima de coisas SUBLIMES.

Você mesmo, caro leitor, pode-se lembrar facilmente das vezes em que conscientemente sublimou! Quando na impossibilidade de deleitar-se sexualmente com a garota desejada, você se contentava em escrever-lhe cartas e mais cartas de um amor puro e sublime… Agora imagine que esse mesmo processo ocorra sem que você perceba. Imagine que aquela sua coleção de carros esportivos de brinquedo possa ser a forma que você encontrou para satisfazer uma fantasia sexual. Estranho, né? Pois é exatamente isso que Freud chamou de sublimação.

Até aí as coisas se passam de maneira perfeitamente inteligível com exceção dessa última estranheza sentida após a explicação freudiana. O que a elaboração lacaniana produz é justamente um apagamento da inteligibilidade com a contrapartida de eliminar também a estranheza. Podemos dizer, portanto, que Lacan erra nos meios mas acerta nos fins. Já veremos por que.

No seminário sobre a ética da psicanálise, o analista francês surpreende seus alunos com a seguinte afirmação: “Sublimar significa elevar um objeto à dignidade de Coisa”. É em torno dessa assertiva que minha explicação desse post girará pois, para compreendê-la, é preciso estabelecer preliminarmente os pressupostos que a fundamentam.

Em primeiro lugar, convém dizer que do ponto de vista freudiano, toda a nossa existência humana, apesar de composta por inúmeras atividades, possui como objetivo último a busca por um estado de completa satisfação. No entanto, como todos sabem – e não é preciso ler Freud para compreender isso – esse estado não passa de uma construção mítica, pois ele é naturalmente impossível visto que a vida é puro contraste. Uma hora a gente está triste, outra a gente está feliz e só sabemos que estamos felizes porque outrora estivemos tristes e vice-versa. Portanto, o estado completo de satisfação não passa de uma fantasia. Todavia, o aspecto curioso é que mesmo sabendo que é uma fantasia, constantemente tendemos a considerá-la como possível, por exemplo, quando ficamos apaixonados e achamos que a pessoa amada é a outra metade da laranja que vai nos fazer felizes para sempre. Mesmo que alguns leitores digam que não, no fundo, no fundo, é isso que todo mundo sente. Afinal, se todos imaginassem as agruras pelas quais passarão no decorrer do relacionamento, é provável que grande parte de nós permanecesse sozinhos para sempre. Então, já que tendemos a transpor a ilusão de uma satisfação completa para a realidade, é COMO SE em algum momento de nossa existência nós, de fato, já tivéssemos a experimentado e, após determinado tempo, tivéssemos sido separados do objeto que nos proporcionava tal satisfação. Mas vejam bem – e essa foi uma contribuição trazida pelo Lacan – tudo se passa no plano do COMO SE. Por isso não cabe dizer que esse momento de satisfação foi vivido no útero ou nas primeiras mamadas. Todas essas hipóteses são interpretações a posteriori. O mais justo é dizer que já nascemos marcados com a idéia de que um dia experimentamos um estado de completa satisfação que, não se sabe por que cargas d’água, foi perdida.

Lacan, na tentativa de substancializar, quer dizer, dar corpo a essa perda, a essa falta, a princípio (no referido seminário sobre a ética) apresentou a idéia de que no princípio havíamo-nos nos satisfeito com algo que ele chamou de Coisa (Das Ding em alemão), mas a consciência de que essa Coisa havia existido só existiria a partir do momento em que tivéssemos entrado em contato com a cultura que dizia que poderíamos nos satisfazer com determinados objetos e não com outros. Trocando em miúdos, eu só reconheço que um dia estive em contato com a Coisa, o objeto de satisfação, a partir do momento em que o acesso a esse objeto me é interditado.

Vejamos agora se é então possível compreender a definição lacaniana da sublimação. Para isso, vamos substituir o termo “Coisa” por “objeto de satisfação”. A frase, então, fica assim: “Sublimar é elevar um objeto à dignidade de um objeto de satisfação”. Mais fácil, não é? Mas ainda resta articular essa definição com o que Freud afirma sobre o conceito de sublimação e para isso teremos que atentar para as características que o pai da psicanálise enuncia para a pulsão.

Segundo Freud, nada na pulsão sexual é fixo a não ser o fato de que não importa com quem o sujeito se relaciona ou de que forma o faz, ele sempre visa à satisfação. Entretanto, como vimos, essa satisfação é sempre parcial pois a satisfação plena é impossível. Assim, é como se a pulsão nunca alcançasse a Coisa, o objeto de satisfação plena, mas tão-somente desse voltas em torno dele, o bordejasse. No plano psíquico, é como se, ao nos apaixonarmos, fantasisticamente pensássemos que nosso relacionamento com a pessoa amada constituísse o acesso à Coisa. Todavia, como esse acesso é impossível de fato, logo vem a decepção, pois nos damos conta de que tudo não passou de mais uma volta dada em torno da Coisa.

Com a sublimação, o que acontece é que, na fantasia, esse lugar da Coisa é preenchido por um objeto qualquer. É assim que a escrita passa a não constituir mais uma mera função expressiva, mas adquire, na economia psíquica do sujeito, um estatuto tal como uma válvula de escape para suas desilusões e fantasias. Ela se torna a mídia na qual ocorrerão as voltas em torno da Coisa. É assim também que os carrinhos da coleção são elevados da condição de meros objetos de metal à de objetos de satisfação, com os quais o sujeito perde horas e horas, organizando, admirando. É como se ao escrever, pintar ou organizar seus carrinhos, o sujeito por breves momentos fizesse de conta que estava ali, face a face com a Coisa…

Sugestões de leitura:

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XIV SEMINÁRIO: Confirmada a conferência de abertura

cartazNos dias 13 e 14 de agosto, a Universidade Vale do Rio Doce (UNIVALE) sediará o XIV Seminário de Psicologia do Leste Mineiro. Além dos conferencistas já confirmados, os quais você pode conferir clicando aqui, o evento contará com a participação especialíssima do prof. Marcelo Martins Barreira.

Marcelo é doutor em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas, professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e líder do Grupo de Pesquisa em Filosofia da Religião na mesma universidade. Suas pesquisas se concentram em Filosofia da Religião; em específico, quanto à relação entre filosofia e cristianismo na modernidade tardia, tendo como referencial teórico-conceitual a tradição hermenêutica.

No Seminário, Marcelo Barreira proferirá a conferência magna de abertura, com o título: “O CRISTIANISMO NUMA LEITURA PÓS-MODERNA”.

Garanta já a sua vaga enviando um email para seminariopsicolestemg@gmail.com contendo seu nome, endereço, telefones, email e dizendo se você é estudante ou profissional.

Aforismos – II

O ditado que diz que “em casa de ferreiro o espeto é de pau” não poderia ser melhor aplicado do que no caso dessa profissão impossível chamada “psicanalista”. Isso não é nenhuma novidade. Lacan já o dissera nas entrelinhas no início do seu ensino, quando, de cada 10 palavras que dizia, 11 eram críticas ao pós-freudianos. Lacan se indignava com a “contramão da contradição” – como diria Lobão – em que se prendiam os sucessores de Freud. Ao mesmo tempo em que diziam lutar em seus consultórios para ajudar o obsessivo a se libertar dos labirintos de sua neurose, constituíam uma associação de psicanalistas que não fazia mais do que reproduzir esse mesmo labirinto – com as mesmas formações reativas… Ora, esse não é nem de longe o exemplo mais cabal do modo  sintomático como os analistas tomam a palavra. A sombra do pai parece pesar-lhes nos ombros, de modo que, das duas uma: ou eles se esquecem do pai e resolvem andar cambaleantes com as próprias pernas, forcluindo o ensinamento paterno e voltando a praticar os mesmos vícios de outrora – esses são os pós-freudianos; ou eles fazem um altar para o pai, identificando-o quer a um monge, quer a uma esfinge, engalfinhando-se para ver qual deles consegue decifrar o oráculo. Esses não se permitem sequer um passo sem o consentimento do pai. Mas vejam: o pai está morto…

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Uma linguagem esquecida

24hoochUm ônibus é um lugar extremamente produtivo para sujeitos que, como eu, ainda são capazes de surpreender com as desventuras dos Homo sapiens e, mais ainda, quando essas desventuras são postas em palavras. Ontem mesmo, estava eu num ônibus quando minha atenção foi atraída por uma conversa entre uma simplória mãe e sua filha, a qual devia ter cerca de 2 ou 3 anos de idade. A conversa se dava sob os olhos do pai da garota que parecia, tal como eu, apenas contemplar a cena.

Lembro-me apenas de um fragmento da conversa pois rapidamente minhas próprias reflexões a substituíram em minha consciência. Dizia a mãe para a garota:

– Não é calor, minha filha. É frio. Você deve estar sentindo frio.

E olhando para o pai:

– Ela sempre troca as palavras. Diz “Apaga a luz” quando quer pedir para acendê-la.

Esse espetáculo cativante de uma mãe introduzindo sua filha no mundo propriamente humano, isto é, no mundo da linguagem, me trouxe à mente um texto de Freud que eu recentemente reli. Chama-se “A significação antitética das palavras primitivas” e pode ser encontrado no volume XI da Standard Edition.

Nesse artigo, escrito em 1910, Freud se propõe a comentar um panfleto de um filólogo chamado Karl Abel que trata exatamente de um curioso fenômeno lingüístico: a utilização de uma mesma palavra para denotar significados opostos. Alguns exemplos que Abel cita são as palavras latinas sacer que significa, ao mesmo tempo, sagrado e maldito e altus, alto e profundo.

A explicação de Abel, que mais tarde viria a servir de mote para o grande lingüista Ferdinand de Saussure que,por sua vez, influenciaria Lacan, é de que não só a significação mas a própria existência de uma palavra só é possível através da oposição a uma outra. Por exemplo, só tivemos necessidade de criar uma palavra para definir a luz por causa da existência de um estado sem luz, isto é, a escuridão. Assim, as palavras são criadas sempre aos pares: dentro-fora, claro-escuro, bonito-feio.

O que as línguas antigas faziam era uma espécie de economia de palavras: uma vez que para saber o que era bonito dever-se-ia ter em mente o feio, poder-se-ia utilizar apenas uma palavra para se referir a ambos.

Mas o que tudo isso tem a ver com a Psicanálise? Muito. Freud resolve comentar o texto de Abel efetivamente porque percebe que o inconsciente, na medida em que, como Lacan disse, ele é estruturado como uma linguagem, o inconsciente pode fazer uso desse mecanismo lingüístico para se fazer presente.

É assim, por exemplo, que a gente pode sonhar que está abrindo a porta de casa quando na verdade, nosso desejo é fechá-la. Na medida em que abrir e fechar só podem existir por oposição um ao outro, o inconsciente toma liberdade de usar um para esconder o outro.

Portanto, nossa garotinha do ônibus estava dando uma aula para a mãe sobre o funcionamento da linguagem. Mas a mãe, como todo mundo, já havia esquecido dessa linguagem primeira. E, logo logo, a filha também o fará.

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Eles estão chegando… ATUALIZADO

54134Veja abaixo os conferencistas que já confirmaram presença no XIV Seminário de Psicologia do Leste Mineiro: Psicologia, Religião e Pós-Modernidade:

Marisa Decat de Moura – Psicóloga e Psicanalista, Mestre em Psychologie Psychopathologie Subjectivité Langage pela Université Louis Pasteur, Doutoranda em Ciências/Reprodução Assistida pela UFRJ, Coordenadora da Clínica de Psicologia e Psicanálise do Hospital Mater Dei – Belo Horizonte/MG. NO SEMINÁRIO MINISTRARÁ O MINI-CURSO: “PSICANÁLISE E HOSPITAL: SOBRE A MORTE E O MORRER”

Roosevelt Starling – Analista do comportamento, mestre em Psicologia pela UFMG, Doutorando em Psicologia Clínica pela USP, Professor da Universidade Federal de São João Del-Rei. NO SEMINÁRIO PROFERIRÁ A CONFERÊNCIA: “RELIGIÃO E COMPORTAMENTO HUMANO” E O MINI-CURSO: “COMPORTAMENTO RELIGIOSO E CONTEXTO TERAPÊUTICO”

Ana Maria Feijoo – Psicóloga de abordagem fenomenológico-existencial, Doutora em Psicoterapias Atuais pela UFRJ, Responsável técnica pelo Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial (IFEN). NO SEMINÁRIO PROFERIRÁ A CONFERÊNCIA: “FILOSOFIA E PSICOTERAPIA” E MINISTRARÁ EM PARCERIA COM MYRIAM MOREIRA PROTÁSIO O MINI-CURSO: “O ESTÉTICO, O ÉTICO E O RELIGIOSO EM KIERKEGAARD E A CLÍNICA PSICOLÓGICA”

Myriam Moreira Protásio – Psicóloga de abordagem fenomenológico-existencial, Professora do Instituto de Psicologia Fenomenológico-Existencial (IFEN). NO SEMINÁRIO MINISTRARÁ EM PARCERIA COM ANA MARIA FEIJOO O MINI-CURSO: “O ESTÉTICO E O ÉTICO EM KIERKEGAARD”

Wellington Zangari – Doutor em Psicologia Social pela USP, Pesquisador do Laboratório de Psicologia Social da Religião da USP, Trabalha com Psicologia Anomalística (estudo científico dos fenômenos paranormais). NO SEMINÁRIO PROFERIRÁ A CONFERÊNCIA: “PSICOLOGIA ANOMALÍSTICA: UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE EXPERIÊNCIAS PARANORMAIS”

André Martins – Doutor em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, Doutor em Filosofia pela pela Université de Nice (França), Participa como curador e conferencista do Café Filosófico da TV Cultura, Professor dos Programas de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Saúde Coletiva e Filosofia da UFRJ, Coordena o Grupo de Pesquisa Spinoza e Nietzsche (SpiN). NO SEMINÁRIO PROFERIRÁ A CONFERÊNCIA: “A VIDA COMO FLUXO E A VIDA COMO DESCONTINUIDADE: DO SUJEITO TRANSITÓRIO ÀS IDENTIDADES CONGELADAS”

Para saber mais sobre o Seminário, acesse: https://lucasnapoli.wordpress.com/xiv-seminario/

Em breve as inscrições estarão abertas no site www.univale.br

Caso você queira garantir sua presença, visto que as vagas são limitadas, envie um email para seminariopsicolestemg@gmail.com contendo seu nome, endereço, telefones, email e dizendo se você é estudante ou profissional.

A Psicanálise e a subversão da Filosofia (final)

Heraclitus%2C_Johannes_MoreelseNo último post, mostramos, num esquema lógico – aparentemente com ares silogísticos – que a questão mais fundamental do humano, anterior ao questionamento ontológico (“o que é?”) é a problemática ética que de maneira alguma é o problema do que se deve ou não fazer. A indagação fundamentalmente ética é: “O que isso quer de mim?” ou “Como isso quer que eu seja?”

Utilizo a palavra “isso” para não utilizar precipitadamente o termo “Outro” já que, na raiz, essa questão não implica o Outro e sim algo como “a natureza” ou “o mundo”: “O que o mundo quer de mim?”. O Outro funcionou para que a Psicanálise evidenciasse isso porque, é preciso lembrar, ela nasceu a partir do tratamento das neuroses que não são nada mais nada menos do que os imbróglios do sujeito na sua relação com o Outro, seja ele identificado à cultura ou aos próprios pais.

O Outro, assim como a anatomia (já dizia Napoleão) é destino, ou seja, pra que a gente possa se estruturar minimamente como pessoa é necessária a presença suficientemente boa de uma pessoa, seja ela, a mãe, a babá ou qualquer outra figura que funcione como um esteio.

A essa figura a gente não pergunta o que é o mundo, o que é o que é. Ou melhor, a gente pode até perguntar, mas é com outro objetivo, o objetivo de saber qual é o desejo dessa figura, qual é o desejo desse Outro.

É isso que Lacan mostra na interpretação que faz da tradicional fase em que a criança aborrece a mãe perguntando o porquê de tudo. Lacan mostra que o que a criança quer saber não é o conteúdo da resposta da mãe. Ela está ligada é nos intervalos entre cada palavra, intervalos que denunciam o desejo materno. Ao perguntar sobre o mundo, ela quer saber sobre o desejo.

Do mesmo modo, a pesquisa filosófica pode até fazer semblante de querer saber a “verdadeira verdade”, como diria o Cidade Negra. No entanto, o que se encontra na raiz dessa busca é um questionamento sobre o desejo. Ora, não é isso que mostra o saudoso Renatinho Carteiro (René Descartes) quer dizer quando afirma lá no seu discurso do método que ele quer descobrir a verdade sobre as coisas do mundo “para melhor se conduzir nessa vida”? A verdade que Descartes quer saber é a verdade do desejo do mundo, o que o mundo quer dele para que ele possa se conduzir melhor e evitar os imprevistos.

Na medida em que esse desejo nunca se manifesta às claras, é sempre preciso supor algo. É preciso criar um teatro imaginário em que todas as figuras do mundo encontram seu lugar, no qual eu sabia meu script (o que tenho que fazer, para onde devo ir), sempre supondo que isso seja o que o Outro quer de mim. É o que os psicanalistas chamam de “fantasia fundamental”

Mas isso já é matéria para outro post.

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A Psicanálise e a subversão da Filosofia (parte 1)

philosQual a razão de ser do conhecimento que se autodenomina filosófico? Isto é, por que a filosofia existe? Certamente essa pergunta não deve ser respondida de qualquer maneira, mas uma visada periférica da história da filosofia (leia-se a história do que homens que se intitularam ou foram chamados de filósofos disseram) mostra que a função da Filosofia geralmente foi vista como sendo a da procura da verdade.

Que essa verdade tenha tido diversos lugares conforme as idéias de cada autor – no ser em Kierkegaard, no mundo externo em Locke, na razão em Descartes – isso é o de menos. Mais importante é pensar que, se a filosofia toma como mote de sua própria existência o problema da verdade, isso significa que o pensamento humano – e aqui me refiro especificamente à tradição ocidental – amiúde considerou que a questão humana por excelência seria “o que é?”. Com efeito, a busca da verdade é a procura daquilo que é, em todo lugar, em todo o tempo, que sempre será e que nunca deixará de ser.

Ora, o que a psicanálise evidencia é que essa pergunta mascara uma outra, muito mais fundamental e que poderia ser formulada, toscamente, nos seguintes termos: “Por que sou?” ou “Por que existo?”.

Tais indagações possuem basicamente duas respostas possíveis: ou pensamos que nossa existência se deve ao puro acaso, pelo arranjo de contingências sem nenhuma finalidade específica ou cogitamos a hipótese de que existimos por alguma razão que invariavelmente não se encontra explícita. Considerando que essa última opção é a adotada por 99,9% dos exemplares do Homo sapiens – por mais que um Darwin insista o contrário – pode-se dizer que a questão da razão de nossa existência carrega em seu bojo uma outra, qual seja, “O que isso quer de mim?”

Sim, pois se não estou aqui por acaso significa que estou aqui por conta de um desejo. Mas se sou um ser que, diferentemente de uma pedra, além de ser, faz, isso significa que esse desejo do qual fui fruto, além da minha existência demanda que eu aja de determinada maneira.

CONTINUA…

Shabbat: Lacan e a psicologia

auteur4889Essa história foi contada pelo psicanalista Gérard Haddad, no livro “O dia em que Lacan me adotou” no qual ele narra as peripécias de sua análise com Jacques Lacan, análise que durou até a morte do psicanalista francês. O fragmento que apresento a seguir se passou logo nas primeiras sessões dessa análise.

Eis que Haddad havia se formado em Agronomia, mas tomado por um antigo desejo de ser psicanalista da época de adolescente, quando lera as “Conferências introdutórias” de Freud, decidiu enveredar pelo mundo psi. E assim, ao mesmo tempo em que iniciava a análise com Lacan, decidiu cursar Psicologia na Universidade de Paris VIII (Vincennes) – única universidade do mundo até hoje a ter um departamento de Psicanálise.

No entanto, mesmo decidindo iniciar o curso de Psicologia, Haddad não deixou de trabalhar como engenheiro agrônomo – era de onde tirava seu sustento. Aproveitando que sábado era seu dia de folga, se inscreveu em duas disciplinas nesse dia da semana.

Pra quê… Foi só falar para Lacan da sua nova empreitada que as coisas começariam a mudar.

Haddad fazia análise durante toda a semana, com exceção dos sábados e domingos. Assim, ao acabar uma sessão de sexta-feira, já ia se despedindo de Lacan com o costumeiro “Até segunda” quando o cabeça branca francês lhe interrompe dizendo que queria que ele viesse no dia seguinte, sábado – justo o dia das aulas de Psicologia!

Haddad lhe recordou das aulas, ao que Lacan perguntou: “A que horas começa?”. “Às nove”, disse Haddad. “Muito bem. Venha às oito horas. Vou atendê-lo imediatamente. Você terá em seguida tempo suficiente para ir a Vincennes”. O “imediatamente” de Lacan acabou se transformando num atraso e numa sessão excepcionalmente longa (as sessões de Haddad às vezes duravam segundos) que fizeram com que Haddad chegasse com quase uma hora de atraso na Universidade.

Isso passou a se repetir todos os sábados, até que Haddad ficara sabendo que mesmo chegando atrasado em todas as aulas e não fazendo esforço algum, conseguira passar nas duas disciplinas (Bem se vê que as coisas por lá não são diferentes do Brasil). Isso acabou deixando Haddad com nojo de Psicologia, o que o precipitou a desistir do curso.

Após contar sua decisão para Lacan, numa sexta-feira à noite, tendo em mente a sessão no dia seguinte, já ia se despedindo de Lacan com um “Até amanhã”, quando…

“Não”, disse Lacan com um sorriso diabólico, “até segunda…”.

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O que é falo? (final)

muehlberg_01_aufdiemensurEncerramos o post anterior com uma afirmação que, após uma segunda leitura, julguei que poderia levar a um mal-entendido: a afirmação de que há dois tipos de seres humanos: os que têm o falo (os homens) e os que não têm o falo (as mulheres). Essa pode ser a fantasia de muitos homens mas, na verdade, ninguém tem o falo! E isso se deve ao fato de que uma das formas que temos de pensar o falo é tendo em mente a possibilidade de não tê-lo. Sim: é só se lembrar do menininho e da menininha. O menino morre de medo de ser castrado e a menina tem inveja do menino porque já nasceu castrada.

É por isso que o Lacan quando vai falar desse falo que figura na nossa imaginação ele utiliza a letra grega “fi” acompanhada de um sinal minúsculo: (-φ), ou seja, o falo é sempre algo “real” ou virtualmente faltoso (não se tem ou se pode perder).

Mas o leitor pode estar pensando: “Pô, mas se o que o menino sente é um medo de perder o pênis e a menina um desejo de ter um pênis, por que Freud não fala só de pênis em vez de usar o termo falo?” Porque, caro leitor, o pênis é só o ponto de partida dessa representação chamada falo. Sem pênis não haveria a idéia de falo, mas o falo NÃO é o pênis.

O falo, prestem atenção, é a representação simbólica do pênis. Ou seja, qualquer coisa que tenha para uma pessoa a mesma significação que o pênis para a criancinha no complexo de castração. E qual é essa significação? É só se lembrar dos posts anteriores: para a criança recém-confrontada com a visão do órgão genital feminino, o pênis significa o órgão da completude. É por isso que o menino tem tanto medo de perdê-lo e é por isso que a menina o deseja tanto.

A razão disso é o fato mais do que óbvio de que não gostamos de nos sentir incompletos, faltosos, isso gera angústia. É por isso que os homens geralmente gostam tanto de competições e se gabam tanto entre si de suas conquistas: desde ter conseguido pegar a garota mais bonita da escola até a compra de um carro novo. Tanto a garota quanto o carro funcionam na economia psíquica deles como falos. É preciso mostrá-los, como crianças disputando para ver quem tem o pênis maior.

Do lado das mulheres, o exemplo mais comum de falo é o filho. Já repararam na auto-suficiência de uma grávida? Já notaram o quão cuidadosas são a maioria das mães com seus filhos? Elas parecem estar cuidando de uma parte de seus próprios corpos. E na fantasia, os bebês são mesmo uma parte do corpo delas. Winnicott achava que nesse momento as mães viviam uma espécie de psicose necessária. Então, senhoras e senhores, para a mulher é como se com o filho ela estivesse tendo uma recompensa por ter nascido sem pênis.

Sugestões de leitura:

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O que é falo? (parte 3)

04eve1No último post, interrompemos nosso relato mítico no momento em que meninos e meninas estavam lá no paraíso infantil, cada qual se divertindo como podia: o menino com seu recém-descoberto pênis e a menina com seu também recém-descoberto clitóris. Mas eis que em determinado momento eles se encontram e percebem que em relação a esse tipo de diversão eles não são iguais.

É nesse momento que as crianças se deparam com uma grande descoberta: a de que existe um tipo de ser humano diferente (de tipo diferente delas mesmas). E o que os diferencia? A imagem não mente: um deles possui algo entre as pernas e o outro não possui algo entre as pernas. É assim que meninos e meninas a princípio percebem a diferença entre homem e mulher. Mas, prestem atenção: até esse momento a criança não vai entender esse “um tem algo no meio das pernas e o outro não tem” como “um tem, aquilo que no outro falta”. Isso só vai acontecer no momento seguinte, em que a criança, neste caso o menino, se lembrar de uma ameaça geralmente feita pelo pai: a de que se ele ficasse mexendo no próprio pênis, este lhe seria cortado.

Nesse momento é como se o menino tivesse um insight: “Eureka! Agora entendi porque as meninas não têm pênis! Elas tinham mas perderam. É que elas ficaram mexendo muito em seus próprios pênis e por isso foram castradas!”

Do lado das meninas a coisa se passa de forma diferente. Como elas não receberam a ameaça de terem o pênis cortado, ao se depararem com a diferença entre seu pequenino clitóris e o pênis do menino, elas criam uma fantasia de que seu clitóris é como um “pênis filhote”, que logo mais irá crescer e ficar como o do menino. Após algum tempo, ao se dar conta de que ele não vai crescer mesmo, a menina então passa a entender que ela nasceu defeituosa. E se assim foi, a culpa é de quem? Da mãe, claro, que foi quem a botou no mundo.

Pois bem, meus caros leitores, não levem muito a sério essa historinha, mas também não pensem que se trata apenas de um simples historinha. Essa, que Freud deu o nome de complexo de castração, assim como o complexo de édipo são mitos. O que é um mito? Eu já disse em outro post: um mito é uma forma figurada de falar do Real. É isso que faz com que o mito não seja uma mera anedota.

Então, o que o mito do complexo de castração demonstra: que no caso específico da espécie humana, a única que se coloca a questão: “Qual a diferença entre um ser humano macho e um ser humano fêmea”, a diferença entre os sexos é entendida da seguinte forma: “Há dois tipos de seres humanos: aqueles que têm, mas podem perder e aqueles que não têm. É justamente esse “algo” que uns têm e outros não têm que a psicanálise chama de falo.

CONTINUA…

Sugestões de leitura:

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