Antes de elaborar o método de tratamento das neuroses que viria a chamar de Psicanálise, Freud, juntamente com seu então amigo Josef Breuer, fazia uso da hipnose como forma de curar suas pacientes histéricas. Podemos, pois, dizer que os dois médicos encontravam-se naquele momento em pé de igualdade quanto aos meios de acesso ao mistério chamado histeria.
Apesar disso, logo surge um desnível entre os dois homens em virtude das respostas dadas por cada um deles à pergunta: “Por que a histérica não consegue se lembrar da ocasião em que surgiram seus sintomas ou por que ela só o faz em hipnose?”.
Breuer, como respeitado médico que era, não conseguiu se desvencilhar da hipótese mais óbvia para os médicos, a orgânica. Então disse: “A histérica não consegue se lembrar da ocasião em que surgiram seus sintomas porque nessa ocasião ela não se encontrava completamente consciente, ela estava com sono ou muito cansada. Assim, a lembrança dessa situação ficou separada do resto das suas repesentações mentais – por isso ela não consegue lembrar. E só pode lembrar em hipnose porque o estado hipnótico é parecido como o estado em que ela estava na ocasião em que surgiram os sintomas.” A esses estados de sono e cansaço que se assemelham à hipnose, Breuer chamou de “estados hipnóides”.
Já Freud, como jovem médico que era e não tão ingênuo quanto Breuer, preferiu prestar menos atenção no preconceito organicista do que na fala das pacientes. E é então que ele formula a hipótese que se tornaria a pedra angular da Psicanálise, a hipótese já tão falada aqui chamada “recalque”. Sua resposta à pergunta inicial então é: “A histérica não consegue se lembrar da ocasião em que surgiram seus sintomas porque ela definitivamente não quer se lembrar delas. E por que não quer? Porque elas lhe trazem sofrimento. E por que trazem sofrimento? Porque essas lembranças mostram os mais íntimos desejos da histérica e dos quais ela nada quer saber porque eles manchariam a imagem perfeita que ela nutre de si mesma. Essas lembranças, então, foram reprimidas por ela, instalando uma divisão na sua vida mental entre uma parte consciente e outra inconsciente.”
Com essa resposta, Freud ao mesmo tempo em que mostra que o ser humano é fundamentalmente dividido, evidencia também a presença do sujeito no organismo. Mais: Freud mostra que por trás do sofrimento do qual a paciente se queixa há um desejo, ou seja, a doença neurótica não é só algo que a pessoa sofre, mas que a própria pessoa produz – o paciente é responsável por seu sofrimento.
Apesar de há mais 150 anos Freud ter dito tudo isso, a Psiquiatria de hoje ainda insiste em sustentar posições caducas semelhantes às de Breuer, ao dizer por exemplo, que a depressão é apenas um funcionamento desregular do circuito serotoninérgico. Com isso, todo o tratamento passa a ser apenas questão de entupir a boca do paciente com os Prozacs da vida, para que ele não fale e, por conseguinte, não pense sobre o que aconteceu em sua vida que o fez ficar melancólico, ou melhor, o que ele fez para ficar melancólico.
Paradoxalmente, são posturas como essa que fazem a Psicanálise sobreviver, como sempre marginalmente. Por que por mais que a fluoxetina regule os níveis de serotonina no organismo, ela jamais reorganizará os significantes que determinam a vida de uma pessoa. Para esse tipo de desordem, senhoras e senhores, até hoje há apenas um remédio – e foi Freud quem o inventou…
As senhoras e os senhores que frequentam assiduamente este blog, provavelmente já devem ter me visto repetir algumas vezes uma fórmula que nos serve de eixo para o entendimento (?) do que é o homem. Costumamos dizer que “o homem é um ser que não nasce sabendo viver”.
O grupo
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No último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.
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Para qualquer um que se inicie na leitura de Lacan, a acidez das críticas do psicanalista francês faz com que a pessoa pense sempre duas vezes antes de ler outros pensadores da Psicanálise, sob o risco de estar consumindo lixo. Assim também aconteceu comigo em relação a D. W. Winnicott. Sempre tendo em mente as chacotas de Lacan sobre o que Winnicott concebia a respeito do papel do analista (isto é, fazer as vezes de uma mãe suficientemente boa), acabei por só me introduzir na obra winnicottiana bem mais tarde, a partir do 6º. período, influenciado pelas aulas de Psicologia dos Portadores de Necessidades Especiais.
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Foi com o chiste acima que o jogador
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A anedota a seguir consta da
Creio que essa frase seja uma das mais polêmicas já proclamadas pelo psicanalista 