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Não pense na morte. Nunca. Pensar na finitude da existência é como pensar na finitude do desejo após o gozo. O sexo levado às últimas conseqüências. Superlativo à enésima potência da expressão “vias de fato”. Mas saiba que o jorro do esperma e os gemidos escaldantes desembocam em silêncio no buraco-negro da repulsa. Mas nunca se esqueça: viva com a morte no limiar da consciência. Nós não somos capazes de acreditar em paraíso nenhum [muito menos em inferno]. Nós esperamos que o paraíso esteja aqui, aqui mesmo. Não, nunca pense na morte. Você acharia insuportável a eternidade. Já pensou num orgasmo infinito? Essa é a melhor imagem para descrever a eternidade. O orgasmo é uma experiência de morte. Sem saber que no final haverá um culpado não faz sentido ler um policial. É por isso que você não deve pensar na morte. Porque se pensar, vai se dar conta de que só existe o nada. O marasmo, a repulsa ao desejo, o limite. E aí você vai querer com todas as forças acreditar que existe um para-além. E terá a maldita certeza vagante de que não há. E você vai querer apressar as coisas…
O velho sábio suíço conta que no início de sua carreira como psiquiatra, certo dia apareceu em seu consultório uma senhora da alta nobreza que tinha o insólito costume de dar bofetadas em seus empregados.
Como a tal mulher considerava como empregado qualquer pessoa que lhe prestasse algum serviço profissional, os médicos que lhe atendiam também eram vítimas dos tapas na cara.
Eis que essa senhora passou a sofrer de neurose obsessiva e para o tratamento fora internada numa clínica. Não deu outra: dá-lhe tapa na cara do médico que a atendeu. Diante disso, o médico resolveu encaminhá-la para outro colega. Mesma coisa: mais um médico esbofeteado. E a sequência continuaria até o último médico suiço se não fosse pela brilhante idéia do segundo médico de encaminhar a paciente para seu troncudo colega Jung.
Quando Jung viu a mulher pela primeira vez, ele pôde entender porque ninguém revidava os tapas na cara. A senhora era imponente e tinha mais de 1 metro e 80 de altura. No início da sessão tudo corria bem, até o momento em que Jung teve que dizer a ela algo desagradável. A mulher, então, furiosa, se levantou e ameaçou começar a surra.
Jung não se fez de rogado e de imediato também se levantou dizendo: “Pois bem, a senhora é mulher, pode bater primeiro. Ladies first! Depois será a minha vez!” Acreditem: a mulher sentou-se novamente no sofá, abatida e lamentando disse: “Ninguém ainda me falou assim…”
Creio que essa frase seja uma das mais polêmicas já proclamadas pelo psicanalista Jacques Lacan. Mas creio também que isso se deva ao fato de a maior parte das pessoas não entenderem porque Lacan a disse e considerá-la apenas como mais uma justificativa para o preconceito segundo o qual a Psicanálise é machista. Portanto, vamos tratar de botar os pingos nos “is”.
Uma das características mais geniais de Lacan era a sua capacidade de pegar as teorias elaboradas por Freud e tirar delas algumas frases de efeito. Esse é o caso de “A Mulher não existe”. É óbvio que Lacan não está dizendo que os seres do sexo feminino (com vulva, vagina, ovários e etc.) não existam. Ele não era psicótico a esse ponto. O que ele está dizendo é que as mulheres existem, mas A Mulher não. Para entender de onde ele tirou isso, convido meus caros leitor e leitora para um exercício de imaginação.
Imaginem que vocês se encontram por volta das idades de 4 ou 5 anos. Agora, se imaginem (nessa idade) vendo os corpos nus de um menino e de uma menina. Qual a primeira diferença que vocês irão notar? É óbvio: que no menino há uma coisa entre as pernas e que na menina não há uma coisa no meio das pernas. Lembrem-se: nessa época (4 a 5 anos) a gente, mesmo que tenha lido os livros de ciência, ainda não tem como certa a existência do órgão sexual feminino (a vagina). Então, o que a gente vê é que no menino há uma coisa e na menina não há uma coisa. Qual a conclusão mais óbvia a ser tirada dessa visão? A de que o menino possui aquilo que na menina falta.
Então, senhoras e senhores, como vai se inscrever na cabecinha de todos nós a diferença entre os sexos, quer dizer, como é que a gente vai interpretar o que é homem e o que é mulher? A partir desse objeto que o homem tem e a mulher não tem. Portanto, na nossa cabeça (Lacan diria, na ordem simbólica) a gente tem como dar uma resposta para a pergunta “O que é o homem?”. Qual resposta? “O homem é aquele que possui o objeto”. Agora, para saber o que é a mulher a gente só tem uma definição negativa: “A mulher é aquele ser que não é homem, ou seja, que não tem o objeto”. Mas essa resposta não serve! Afinal, a gente poderia dizer: “Beleza, se a mulher não é o homem então o que ela é?” É uma pergunta para a qual não se tem a resposta porque no caso da mulher não há esse objeto que a represente.
Conclui-se então que a idéia do que é a mulher, de sua essência, de seu desejo realmente não existe. Por quê? Porque diferentemente do homem ela não tem um objeto que a represente – esse objeto Freud chamou de “falo”. Então, na nossa cabeça, no mundo simbólico, a mulher não tem representação. Por isso, Lacan diz que “A Mulher (e aí a gente pode completar com: “A mulher enquanto representação do que é a mulher”) não existe”.
Isso é ruim? Ao meu ver, muito pelo contrário! Meus alunos e alunas de aulas particulares conhecem muito bem o que pensoa respeito disso. Se a mulher não tem uma representação de si mesma, isso significa que ela pode inventar sua essência! É por isso, por exemplo, que nenhuma mulher gosta de encontrar numa festa outra mulher com o mesmo vestido dela. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher. Já homem não. Homem gosta do mesmo, do padrão. Numa festa de gala, estão todos de terno. São raríssimas exceções os que querem se diferenciar – e não são vistos com bons olhos.
Por isso, minha cara leitora, quando ouvir por aí um lacaniano dizer que “A Mulher não existe”, dê graças a Deus, pois ao “não existir” ela precisa “se fazer existir”, cada uma a seu modo…
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A partir da leitura desse post publicado no blog do Zanatta, me lembrei de uma reflexão que venho fazendo já algum tempo sobre as conexões da letra da música “Pais e Filhos” da saudosa Legião Urbana com a Psicanálise. Resolvi publicar, então, as conclusões a que cheguei até o momento.
Em verdade, minha análise é restrita ao trecho final da música. Após a transcrição (belíssima e perspicaz, por sinal) de falas comuns trocadas entre pais e filhos e da extrema sabedoria ao mostrarem o óbvio: que o amanhã não existe, Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá escrevem os seguintes versos:
“Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais
Não o entendem
Mas você não entende seus pais…
Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer”
Em primeiro lugar, a gente pode assinalar o reconhecimento do ser humano como aquilo que o lacanês chama de “falta-a-ser” e que em humanês, a gente pode, parafraseando Sartre, chamar de “ausência de uma essência do homem”. Com isso quero dizer que cada cultura, cada família, cada pessoa, tem uma idéia diferente sobre o que é o homem, como ele deve agir e etc.
Assim, não temos uma definição válida pra todos, o que significa dizer que a gente não nasce sabendo quem a gente é nem como a gente deve viver. Quem incute na nossa cabeça o que mais tarde vamos pensar ser a verdade são as outras pessoas que, via de regra, nasceram antes da gente e o que elas produziram em termos de conhecimento (é mais ou menos isso o que em lacanês se chama o Outro). Ora, os versos “Sou uma gota d’água/Sou um grão de areia” revelam exatamente isso! Um grão de areia isolado, por exemplo, no asfalto da praia de Copacabana, não é um grão de areia! Sim. Essa “coisinha” só será um grão de areia quando houver algum humano (um Outro) para chamá-lo assim. E mais: só será um grão de areia se existirem outros grãos de areia!
Sobre o “Você me diz que seus pais não o entendem/Mas você não entende seus pais” vou me ater a uma consideração influenciada pelo artigo “Confusão de língua entre adultos e a criança”, de 1933, do analista húngaro Sándor Ferenczi. Ao meu ver esse mal entendido entre pais e filhos resulta, entre outras razões, do fato de os filhos representarem para os pais aquilo que eles já foram e que recalcaram para se tornarem o que são hoje.
Mas o creme mesmo, da letra de “Pais e Filhos” são os últimos quatro versos: “Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você/O que você vai ser quando você crescer”.
Se vocês repararem, esse último verso é ambíguo quanto ao sentido. Ambíguo porque dependendo do ponto que você coloque ao final, o significado da frase muda. Pode ser tanto a pergunta ao filho sobre o que ele vai ser quando crescerquanto uma afirmação de que ele vai ser como os pais!
Senhoras e senhores, essa ambiguidade é própria da interpretação do psicanalista. Essa, não tem a função de fechar um sentido (vocês podem até ver um pouco disso nos casos de Freud, mas são erros próprios de quem tava começando a coisa). A interpretação analítica tem exatamente a função de jogar com a ambiguidade das palavras e mostrar, fundamentalmente, que elas só são palavras e que, apesar de machucarem, elas continuam sendo palavras que, se rearranjadas, em vez de machucar podem curar!
E me parece que os autores realmente encaranaram os psicanalistas nessa estrofe. Os versos anteriores (“Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você”) são a personificação da essência do que um analista busca fazer numa psicanálise.
E o que é que ele busca? Levar o sujeito a parar de se queixar do Outro (é, daquele Outro do qual eu falei acima, que te ensina o que você é, pra onde você tem que ir), desse Outro que é na maioria dos casos encarnado pelos pais. E como a gente consegue parar de se queixar? Quando a gente percebe que eles não sabem tudo. Que, pelo contrário, eles tem que lidar com as mesmas questões com as quais a gente tem que lidar. É quando a gente percebe que, assim como nós, no Inconsciente, eles permanecem sendo uma criança de 5 anos…
Aí, tomando ciência de que eles não sabem tudo, a gente pode desamarrar esse fardo das costas e escolher se a gente quer ser como eles, quando a gente crescer.
Veja o clipe de “Pais e Filhos”:
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Em 1951, o psicanalista e pediatra Donald Woods Winnicott(cuja obra completa você pode baixar na seção Presentes) escreve um artigo para relatar algumas curiosas observações que vinha fazendo com crianças. Winnicott notou que a imensa maioria das crianças em determinado período da infância escolhia um objeto (na maioria das vezes, um ursinho de pelúcia, uma chupeta, uma fralda), carregava esse objeto pra tudo quanto é canto (em especial pra cama na hora de dormir) e não permitia que ele fosse lavado. Quando não era um objeto o bibelô, a criança elegia um determinado comportamento (como emitir um mesmo som), o qual era constantemente repetido (principalmente na hora de dormir).
Winnicott descobre que a fase em que a criança começa a fazer isso é justamente a fase em que ela está começando a se tornar independente e não necessita o tempo todo da presença da mãe. O psicanalista conclui então que a função desses objetos e comportamentos é fazer a transição entrea fase em que a criança dependia da mãe pra tudo e a etapa em que ela está adquirindo independência. Por isso, Winnicott denomina-os de “objetos e fenômenos transicionais” que é também o nome do artigo de 1951.
Assim, os objetos e fenômenos transicionais são como substitutos imaginários da mãe (por isso são tão importantes na hora de dormir- hora em que a criança fica mais tempo longe da mãe). Acontece que a gente não cura essa “saudade” da mãe e do conforto que era estar junto com ela nunca. E aí, já adultos, não temos mais a fralda ou a chupeta para nos consolar, mas temos as músicas, por exemplo. Quer ver como isso é verdade?
Leia a letra da música “Esta Melodia”, de Bubu da Portela e Jamelão e veja se não é a descrição certinha de tudo o que eu falei acima:
“Eu tinha esperança que um dia ela voltasse
Para a minha companhia
Deus deu resignação
Ao meu pobre coração
Não suporto mais tua ausência,
Já pedi a Deus paciência
Quando vem rompendo o dia
Eu me levanto, começo logo a cantar
Esta doce melodia que me faz lembrar
Daquelas lindas noites de luar
Eu tinha um alguém sempre a me esperar
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória
Desde o dia em que ela foi embora
Eu guardo esta canção na memória”
SERVIÇOS:
Ouça “Esta Melodia” na voz de Marisa Monte e a Velha Guarda da Portela:
Para saber mais sobre as teorias de Winnicott, adquira o livro “Da Pediatria à Psicanálise”, que conta com os principais artigos do autor. Clique no link abaixo e digite o título do livro na busca.
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Ontem assisti ao segundo filme da nova versão de Batman, The Dark Knight (O Cavaleiro das Trevas) – o primeiro foi Batman Begins. Em The Dark Knight o vilão da vez é Joker (que em português ficou “Coringa”, mas cuja tradução mais fiel seria “Bobo”, pois a referência é o desenho na carta de baralho que é de um bobo da corte). Para combater o Coringa, Batman une forças com o já conhecido comissário Gordon (que só no fim do filme vira realmente comissário) e com o promotor mais famoso de Gotham, Harvey Dent. É com esse último que pretendo iniciar a presente análise.
Harvey Dent é conhecido em Gotham pelos casos difíceis que consegue ganhar, mandando os maiores bandidões para a cadeia e também por sua simpatia por Batman. Dent é o típico bom moço e representa no filme o papel do herói, identificado com os grandes ideais, como o bem, a justiça e a paz. Ao contrário de Batman, ele combate o crime legitimamente, sob o jugo da lei e o apoio da polícia e, assim, é aclamado pelo povo de Gotham como seu legítimo justiceiro, enquanto Batman é só um criminoso estranho. No entanto, no final do filme, Batman tem de decidir entre salvar Dent ou salvar Rachel Dawes, a moça por quem é apaixonado mas que vai se casar com Dent. Batman escolhe salvar Dent , mas durante o resgate, o promotor tem uma das partes do rosto queimada. No hospital, Harvey é visitado pelo coringa e influenciado pelo vilão e pelo ódio que já estava sentindo por Batman e pela polícia por terem deixado Rachel morrer, Dent resolve assumir a identidade de Duas Caras (um antigo apelido) e iniciar uma matança.
Creio que a escolha do autor de Batman pela alcunha de “Duas Caras” para Dent não foi por acaso. Todo mundo desconfia de quem é muito bonzinho, suspeitando de que por trás dessa máscara a pessoa esconde um demônio. Os pré-socráticos, os gnósticos e Jung sempre insistiram na complementariedade existente entre o Bem e o Mal. Só sei o que é o Bem se sei o que é o Mal e vice-versa. Logo, se escolho investir no Bem, terei que abrir mão do Mal. O problema é que ambos pertencem a uma totalidade e só são dicerníveis pela linguagem, o que significa dizer que mesmo abrindo mão do Mal e cultivando o Bem, o Mal não desaparece por completo, mas fica em estado latente e, quando menos se espera, ele aparece com força redobrada. Isso está subentendido em duas teorias psicológicas: a de Freud, com a idéia do recalque e do retorno do recalcado e a de Jung, com a noção de sombra, que seria o local psíquico onde despejaríamos todos os nossos traços de personalidade que consideramos desprezíveis, obscenos, abjetos, enfim, maus. E Jung faz uma ressalva: quanto mais andamos na luz, maior é a nossa sombra, isto é, quanto mais queremos ser bons, mais acumulamos mal em estado latente.
Todo esse processo é mostrado com brilhantismo em Batman. Em vez de continuar o padrão dos super-heróis que são sempre bons, leais, justos e adorados pelo povo, como o Super-Homem, o autor de Batman procura mostrar que onde quer que procuremos Bem encontraremos também o Mal. Em vez de colocar o Mal figurado apenas nos vilões, o autor une Bem e Mal no próprio “herói” da história: Batman combate o crime, mas passa por cima das leis, possui um ódio avassalador por seus inimigos e, de quebra, é odiado por todos pela bagunça que provoca. Tanto assim que no final do filme, Gordon diz que Batman não é um herói mas um dark knight, um cavaleiro das trevas.
E essa indissociabilidade entre Bem e Mal se encarna em Dent. Identificado-se apenas ao herói e ao Bem, o promotor esquece-se de sua “sombra” e projetando-a nos criminosos que manda pra cadeia, diante do primeiro sentimento de ódio, sucumbe perante tudo aquilo que teve de reprimir para ser o bom moço. Como dizia Jung:
“Se você declara que o rio que corre perto de sua casa não existe, ele pode inchar e encher seu jardim com seixos e areia e minar sua casa” (JUNG, C. G. Análise de Sonhos, Seminário de 1928-1930)
Caro leitor, hoje vou me atrever a falar como sociólogo, muito embora eu não tenha formação pra isso, mas como nas Ciências Humanas formação nunca foi critério, falarei sem culpa. O tema já está no título: é o Carnaval.
O ponto de vista que adotarei é essencialmente funcionalista. Com isso quero dizer que acredito que todo fato social não existe por acaso, mas que exerce uma função específica dentro de determinada cultura. A questão é tentar saber qual a função exercida.
No caso do Carnaval, essa função é muito clara: a festa da carne em tese seria a oportunidade reservada aos pobres filhos de Adão de descarregarem em quatro dias todos os impulsos que, por força das circunstâncias, tiveram que reprimir ao longo do ano. Tanto é assim que existe até uma “quarta-feira de cinzas” reservada para queimar os pecados cometidos durante os quatro dias.
É importante dizer que eventos do mesmo estilo do carnaval não são fatos exclusivos de terras tupiniquins e nem da atualidade. Pelo contrário, sempre existiram em todas as culturas períodos em que as crenças que fundamentavam as sociedades eram tratadas comicamente e nos quais se era permitido fazer tudo aquilo que não se podia durante o resto do ano. Carl Gustav Jung via aí a manifestação do arquétipo do trickster (Em breve explicarei aqui o que é um arquétipo). Por ora, basta ao leitor saber que o trickster denota o elemento cômico, personificado em muitas fábulas pelos duendes e em muitas culturas pelo palhaço.
Para se ter uma idéia da presença de carnavais em outras épocas, veja: Jung narra estranhos costumes eclesiásticos na Idade Média tais como os que aconteciam após o Natal, em que se escolhia um episcopum puerorum (bispo das crianças), o qual fazia uma visita oficial ao palácio do arcebispo, acompanhado de grande algazarra. Dentro do palácio, o bispo (das crianças) distribuía sua benção. Tais costumes evoluíram a ponto de no final do século XII serem chamados de festa stultorum (festa dos loucos). Assim se vê que até no meio mais improvável, pequenos carnavais já existiram.
Portanto, sabemos que o Carnaval tem essa função de ser o momento reservado para que a gente se recorde de que tudo isso em que acreditamos para viver em sociedade é puro semblante. Mas, será que hoje temos mesmo a necessidade de um Carnaval para fazer isso?
Penso que não. Em primeiro lugar porque eventos idênticos ao Carnaval ocorrem o ano inteiro em praticamente todas as cidades brasileiras, são as chamadas micaretas e as raves,onde as pessoas fazem tudo o que fazem no Carnaval, ou seja: suam, bebem, se drogam e transam. Em segundo lugar, porque a vantagem que o Carnaval outrora trazia, isto é, de ser o único momento em que a gente podia enfiar o pé na jaca sem culpa, já não é mais privilégio do Carnaval, principalmemte em relação à sexualidade: ninguém mais precisa esperar até o Carnaval pra poder transar com várias pessoas numa mesma noite. Em terceiro lugar, porque o momento pelo qual passa a cultura ocidental é de uma total perda de referência, de perda de prestígio das grandes instituições e blá, blá, blá,ou seja, não precisamos do Carnaval pra se dar conta de que a gente vive numa ficção e fazer chacota dessa ficção: fazemos isso a todo momento.
Mas por que, então, ainda se “comemora” o Carnaval. Penso que apenas por razões econômicas. É só porque Olinda, Salvador, Rio e São Paulo geram uma grana preta em patrocínios para TV, por exemplo, que a festa se mantém. Ah, mas e os Carnavais de cidades menores, tradicionais? Os que ainda não entraram no ciclo perverso do capital, estão com os dias contados.