Qual a razão de ser do conhecimento que se autodenomina filosófico? Isto é, por que a filosofia existe? Certamente essa pergunta não deve ser respondida de qualquer maneira, mas uma visada periférica da história da filosofia (leia-se a história do que homens que se intitularam ou foram chamados de filósofos disseram) mostra que a função da Filosofia geralmente foi vista como sendo a da procura da verdade.
Que essa verdade tenha tido diversos lugares conforme as idéias de cada autor – no ser em Kierkegaard, no mundo externo em Locke, na razão em Descartes – isso é o de menos. Mais importante é pensar que, se a filosofia toma como mote de sua própria existência o problema da verdade, isso significa que o pensamento humano – e aqui me refiro especificamente à tradição ocidental – amiúde considerou que a questão humana por excelência seria “o que é?”. Com efeito, a busca da verdade é a procura daquilo que é, em todo lugar, em todo o tempo, que sempre será e que nunca deixará de ser.
Ora, o que a psicanálise evidencia é que essa pergunta mascara uma outra, muito mais fundamental e que poderia ser formulada, toscamente, nos seguintes termos: “Por que sou?” ou “Por que existo?”.
Tais indagações possuem basicamente duas respostas possíveis: ou pensamos que nossa existência se deve ao puro acaso, pelo arranjo de contingências sem nenhuma finalidade específica ou cogitamos a hipótese de que existimos por alguma razão que invariavelmente não se encontra explícita. Considerando que essa última opção é a adotada por 99,9% dos exemplares do Homo sapiens – por mais que um Darwin insista o contrário – pode-se dizer que a questão da razão de nossa existência carrega em seu bojo uma outra, qual seja, “O que isso quer de mim?”
Sim, pois se não estou aqui por acaso significa que estou aqui por conta de um desejo. Mas se sou um ser que, diferentemente de uma pedra, além de ser, faz, isso significa que esse desejo do qual fui fruto, além da minha existência demanda que eu aja de determinada maneira.
Essa história foi contada pelo psicanalista Gérard Haddad, no livro “O dia em que Lacan me adotou” no qual ele narra as peripécias de sua análise com Jacques Lacan, análise que durou até a morte do psicanalista francês. O fragmento que apresento a seguir se passou logo nas primeiras sessões dessa análise.
Eis que Haddad havia se formado em Agronomia, mas tomado por um antigo desejo de ser psicanalista da época de adolescente, quando lera as “Conferências introdutórias” de Freud, decidiu enveredar pelo mundo psi. E assim, ao mesmo tempo em que iniciava a análise com Lacan, decidiu cursar Psicologia na Universidade de Paris VIII (Vincennes) – única universidade do mundo até hoje a ter um departamento de Psicanálise.
No entanto, mesmo decidindo iniciar o curso de Psicologia, Haddad não deixou de trabalhar como engenheiro agrônomo – era de onde tirava seu sustento. Aproveitando que sábado era seu dia de folga, se inscreveu em duas disciplinas nesse dia da semana.
Pra quê… Foi só falar para Lacan da sua nova empreitada que as coisas começariam a mudar.
Haddad fazia análise durante toda a semana, com exceção dos sábados e domingos. Assim, ao acabar uma sessão de sexta-feira, já ia se despedindo de Lacan com o costumeiro “Até segunda” quando o cabeça branca francês lhe interrompe dizendo que queria que ele viesse no dia seguinte, sábado – justo o dia das aulas de Psicologia!
Haddad lhe recordou das aulas, ao que Lacan perguntou: “A que horas começa?”. “Às nove”, disse Haddad. “Muito bem. Venha às oito horas. Vou atendê-lo imediatamente. Você terá em seguida tempo suficiente para ir a Vincennes”. O “imediatamente” de Lacan acabou se transformando num atraso e numa sessão excepcionalmente longa (as sessões de Haddad às vezes duravam segundos) que fizeram com que Haddad chegasse com quase uma hora de atraso na Universidade.
Isso passou a se repetir todos os sábados, até que Haddad ficara sabendo que mesmo chegando atrasado em todas as aulas e não fazendo esforço algum, conseguira passar nas duas disciplinas (Bem se vê que as coisas por lá não são diferentes do Brasil). Isso acabou deixando Haddad com nojo de Psicologia, o que o precipitou a desistir do curso.
Após contar sua decisão para Lacan, numa sexta-feira à noite, tendo em mente a sessão no dia seguinte, já ia se despedindo de Lacan com um “Até amanhã”, quando…
“Não”, disse Lacan com um sorriso diabólico, “até segunda…”.
VOCÊ ENCONTRA “O DIA EM QUE LACAN ME ADOTOU” E OUTROS LIVROS EM:
Se você se interessa muito por Psicanálise, considere também participar da CONFRARIA ANALÍTICA, uma comunidade online exclusiva, com aulas semanais ao vivo comigo, para quem deseja estudar Psicanálise de forma séria, rigorosa e profunda. O valor da assinatura mensal é de apenas R$39,99 por mês e, além das aulas, você tem acesso a diversos conteúdos exclusivos.
Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.
Comprando no dia do lançamento você obterá um desconto IMPERDÍVEL!
Ah, e nos três dias anteriores ao lançamento (12, 13 e 14) eu ministrarei um minicurso gratuito de introdução à Psicanálise. Então, siga-me lá no Instagram e não perca!
Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.
Comprando no dia do lançamento você obterá um desconto IMPERDÍVEL!
Ah, e nos três dias anteriores ao lançamento (12, 13 e 14) eu ministrarei um minicurso gratuito de introdução à Psicanálise. Então, siga-me lá no Instagram e não perca!
Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.
Comprando no dia do lançamento você obterá um desconto IMPERDÍVEL!
Ah, e nos três dias anteriores ao lançamento (12, 13 e 14) eu ministrarei um minicurso gratuito de introdução à Psicanálise. Então, siga-me lá no Instagram e não perca!
As senhoras e os senhores que frequentam assiduamente este blog, provavelmente já devem ter me visto repetir algumas vezes uma fórmula que nos serve de eixo para o entendimento (?) do que é o homem. Costumamos dizer que “o homem é um ser que não nasce sabendo viver”.
Essa fórmula, absolutamente óbvia mas que muitos insistem em negligenciar por motivos que não vêm ao caso no momento, já foi pronunciada de outras maneiras, ainda que com consequências distintas. Vemos, por exemplo, um Sartre fundamentar todo o seu Existencialismo a partir da afirmação de que, no homem, “a existência precede a essência”.
A obviedade presente nessas formulações pode ser escancarada se verificarmos os casos de crianças que não foram criadas num ambiente humano, mas em contato com macacos ou lobos. Invariavelmente, elas se comportam… como macacos ou lobos. É o mesmo que acontece em relação ao peixe Betta(desses que devem ser criados sozinhos num aquário). Para que o Betta macho produza as bolhas que servirão de ninho para os ovos da fêmea, ele precisa visualizar a fêmea. Ou seja, uma simples imagem é capaz de gerar efeitos no organismo do peixe. Tanto é assim que não é necessário que o macho visualize uma fêmea real, mas apenas uma foto de uma fêmea.
No humano, isso ocorre principalmente com relação à imagem que temos de nós mesmos (nosso eu). A construção dessa imagem depende das imagens com as quais temos contato, isto é, com as imagens de nossos semelhantes, com os diversos outros que aparecem durante nossa vida. No caso das crianças criadas no meio de macacos e lobos isso fica evidente: se os outros com os quais elas convivem são macacos e lobos, logo elas vão se comportar como macacos e lobos. Por isso a máxima: “Diga-me com que andas e te direi quem és” porta algo de verdade.
Basta você fazer um pequeno exercício de observação:
Veja por exemplo um casal de namorados. Com apenas alguns anos de relacionamento amoroso, os dois parceiros já portam feições, manias e traços um do outro, o que fica bastante evidente principalmente quando as relações terminam. Outro exemplo, esse ainda mais visível: pense aí nos vários traços de comportamento que você compartilha com seu pai ou sua mãe: é o tradicional “Fulano puxou isso do pai…”
Disso tudo podemos concluir que o nosso eu, aquilo que pensamos ser a nossa identidade, é, na verdade, um amontoado de traços que foram tomados dos outros. Em outros termos, o eu é um agrupamento de identificações.
É esse registro da experiência humana em que o sujeito se relaciona com seu eu e que o eu de uma pessoa se relaciona com o eu de outra que Lacan chama de Imaginário.
No último post vimos que a concepção winnicottiana de mente é revolucionária em muitos aspectos. O primeiro deles refere-se ao fato de que, se para a grande maioria dos psicólogos e filósofos, a mente é algo já dado, já presente na constituição inata do homem, para Winnicott a mente surge fundamentalmente como uma reação. Reação, em primeiro lugar, à mãe que não se comporta de acordo com os desejos da criança e, em última instância, ao acaso do mundo.
Uma segunda implicação dessa concepção é a de que eu posso fazer da mente tanto um instrumento de compreensão do mundo quanto uma defesa contra o mundo. Uma vez que a mãe falha e a mente emerge como uma função que dará asas à imaginação do bebê para buscar compreender por que a mãe falha, a mente então pode ser utilizada como o instrumento que possibilitará essa compreensão. Por outro lado, o sujeito pode fazer uso dessa mesma função para afogar-se em um mar de explicações, transformando aquilo que serviria para compreender, numa forma de intelectualização que só serve para que o sujeito se defensa de sua incapacidade de compreender.
Pois bem, senhoras e senhores, não é exatamente essa última alternativa a da Filosofia, da Teologia e da Psicologia tal como nós as conhecemos? Com seus conceitos afastados do mundo real, imersos nas categorias do metafísico e do metapsicologia, buscam uma compreensão do mundo, de Deus e do psiquismo que se perde numa imensidão de abstrações (Exceção feita a Nietzsche, Spinoza, os pragmáticos e alguns outros filósofos).
Os teólogos, principalmente, são os maiores representantes desse uso inadequado da mente (como intelectualização): por não compreenderem a vontade divina (mistérios insondáveis, já dizia a Bíblia), inserem Deus e tudo o que se relaciona a ele nas categorias da razão, esterilizando a Revelação.
Por mais que eu aprecie a teoria lacaniana da Psicanálise, também não posso deixar de incluí-la no conjunto daqueles que preferiam o conforto do mundo das idéias. Façamos justiça: a ética lacaniana, o tempo lógico, o estádio do espelho e o destaque dado à função do significante no psiquismo, foram contribuições extraordinárias de Jacques Lacan. Porém, a ênfase dada à topologia, à teoria dos nós e à matemática, são coisas absolutamente desnecessárias à Psicanálise. Só servem para fazer o campo analítico ficar parado no tempo, masturbando-se intelectualmente em torno das ilustrações lacanianas.
Na outra ponta do barbante, encontram-se aqueles nos quais a função da mente parece não ter surgido. Lembrem-se: a mente, para Winnicott, só surge porque o sujeito percebe que o mundo falhou. Então ele tem que parar para matutar sobre o mundo pra tentar entender porque ele falhou. Daí pode-se depreender a ausência de intelectualidade tão comum na contemporaneidade e que se exemplifica por aqueles que frequentam micaretas. A ilusão dada por esse tipo de evento e tudo o que a ele se associa, quer dizer, os comportamentos cotidianos bem como os “aquecimentos” e “ressacas” é a de que o sujeito pode tudo, que para beijar uma garota basta que ele a puxe pelo braço, que a vida é uma bebedeira e uma festa perene.
Um sujeito desses vai pensar? Pra quê?…
SERVIÇOS:
QUER SABER MAIS SOBRE AS APLICAÇÕES DAS IDÉIAS DE WINNICOTT? ADQUIRA JÁ O LIVRO “WINNICOTT E SEUS INTERLOCUTORES” COM ARTIGOS DE VÁRIOS AUTORES POR APENAS R$ 42,90 NA LIVRARIA CULTURA. É SÓ CLICAR NO BANNER ABAIXO E DIGITAR O TÍTULO DO LIVRO NA BUSCA.
Para qualquer um que se inicie na leitura de Lacan, a acidez das críticas do psicanalista francês faz com que a pessoa pense sempre duas vezes antes de ler outros pensadores da Psicanálise, sob o risco de estar consumindo lixo. Assim também aconteceu comigo em relação a D. W. Winnicott. Sempre tendo em mente as chacotas de Lacan sobre o que Winnicott concebia a respeito do papel do analista (isto é, fazer as vezes de uma mãe suficientemente boa), acabei por só me introduzir na obra winnicottiana bem mais tarde, a partir do 6º. período, influenciado pelas aulas de Psicologia dos Portadores de Necessidades Especiais.
Deixando o criticismo sintomático de Lacan de lado, hoje enxergo nas idéias de Winnicott uma das mais inventivas teorias em Psicanálise. Volta e meia vocês verão por aqui mais reflexões sobre conceitos-chave do analista inglês, como essa aqui. Hoje, influenciado por uma palestra do psicanalista André Martinsque você encontra aqui, vou discutir um pouco a idéia de mente em Winnicott e suas interessantes implicações.
Em primeiro lugar, Winnicott traça uma diferenciação entre psique e mente. Isso aparentemente pode até lembrar a antiga distinção entre alma e espírito proposta por alguns teólogos e filósofos, mas é só aparência, não tem nada a ver. Para Winnicott, a psique é como se fosse composta das imagens resultantes da percepção da vivência corporal. Então, todas as sensações e experiências que tenho com meu corpo resultam em imagens que compõem minha psique. Só que tem um detalhe: mesmo sendo a psique dependente do corpo, eles não estão naturalmente ligados. Tanto é assim, que existem sujeitos esquizofrênicos que não reconhecem seu próprio corpo. É preciso, então, que exista um ambiente que ajude essa junção entre psique e corpo a ocorrer. Qual é o primeiro ambiente da criança? Óbvio: a mãe. Então a mãe deverá ser uma ambiente facilitador para promover a ligação entre a psique e o corpo. Como ela faz isso? Nada demais, basta que ela seja uma boa mãe, ou melhor, uma mãe suficientemente boa.
Esse é um dos conceitos que mais causa confusão nos neófitos na leitura de Winnicott. A mãe suficientemente boa (ou mãe boa o bastante) não é a super-mãe que não tem falhas. Pelo contrário: a mãe suficientemente boa é só aquela mãe comum que deu origem a esse conceito mais do que infeliz de “instinto materno”. É aquela mãe que é capaz de se identificar com a criança e atender às suas necessidades básicas. Ou seja, senhoras e senhores, é só fazer o básico.
Então se a mãe for suficientemente boa, ela vai permitir que a psique da criança se una a seu corpo. Mas nesse ponto o leitor pode pensar: “Tá, mas será que esse processo acontece assim de forma tão perfeita? A mãe não pode ser perfeita, ela comete falhas, e aí?”
É nesse ponto, meus amigos, que Winnicott lança mão do seu conceito de mente. Para ele, a mente é fundamentalmente a função que a criança utiliza para suportar as falhas maternas. Mas, atenção, o bebê não sabe que o que está acontecendo com ele são falhas da mãe. Ele só sente a sensação de desprazer e de que as coisas não estão indo bem. Então, para suportar as angústias geradas por essa situação, o que o bebê faz? Cria uma teoria. Sim, não pensem vocês que a criança não pensa. É óbvio que naquele momento ela não possui as categorias racionais que nós possuímos. Mas mesmo nesse nível primário ela pensa. E o interessante é que ela só pensa porque as coisas não deram completamente certo. Sim, porque até então, sentindo apenas prazer, ela não tinha porque ficar matutando sobre a vida. Só agora, que a mãe falhou, é que surgem as questões: “O que houve? Por que isso está acontecendo? O que é o mundo? Como ele funciona?”
O barato, senhoras e senhores, é que essa idéia permite que a gente entenda um gama enorme de fenômenos: desde a incapacidade intelectual dos frequentadores de micaretas até a intelectualidade exacerbada das teorias em ciências humanas.
MAS ISSO FICA PARA O PRÓXIMO POST…
SERVIÇOS:
QUER SABER MAIS SOBRE AS IDÉIAS DE WINNICOTT? ADQUIRA JÁ O LIVRO “O BRINCAR E A REALIDADE” DO PRÓPRIO AUTOR POR APENAS R$ 45,00 NA LIVRARIA CULTURA. É SÓ CLICAR NO BANNER ABAIXO E DIGITAR O TÍTULO DO LIVRO NA BUSCA.
Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.
Comprando no dia do lançamento você obterá um desconto IMPERDÍVEL!
Ah, e nos três dias anteriores ao lançamento (12, 13 e 14) eu ministrarei um minicurso gratuito de introdução à Psicanálise. Então, siga-me lá no Instagram e não perca!
Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.
Comprando no dia do lançamento você obterá um desconto IMPERDÍVEL!
Ah, e nos três dias anteriores ao lançamento (12, 13 e 14) eu ministrarei um minicurso gratuito de introdução à Psicanálise. Então, siga-me lá no Instagram e não perca!
Olá! Tudo bem? Este conteúdo não se encontra mais disponível aqui, pois foi reunido no ebook “Psicanálise em Humanês: 16 conceitos psicanalíticos cruciais explicados de maneira fácil, clara e didática”.
Comprando no dia do lançamento você obterá um desconto IMPERDÍVEL!
Ah, e nos três dias anteriores ao lançamento (12, 13 e 14) eu ministrarei um minicurso gratuito de introdução à Psicanálise. Então, siga-me lá no Instagram e não perca!
Creio que essa frase seja uma das mais polêmicas já proclamadas pelo psicanalista Jacques Lacan. Mas creio também que isso se deva ao fato de a maior parte das pessoas não entenderem porque Lacan a disse e considerá-la apenas como mais uma justificativa para o preconceito segundo o qual a Psicanálise é machista. Portanto, vamos tratar de botar os pingos nos “is”.
Uma das características mais geniais de Lacan era a sua capacidade de pegar as teorias elaboradas por Freud e tirar delas algumas frases de efeito. Esse é o caso de “A Mulher não existe”. É óbvio que Lacan não está dizendo que os seres do sexo feminino (com vulva, vagina, ovários e etc.) não existam. Ele não era psicótico a esse ponto. O que ele está dizendo é que as mulheres existem, mas A Mulher não. Para entender de onde ele tirou isso, convido meus caros leitor e leitora para um exercício de imaginação.
Imaginem que vocês se encontram por volta das idades de 4 ou 5 anos. Agora, se imaginem (nessa idade) vendo os corpos nus de um menino e de uma menina. Qual a primeira diferença que vocês irão notar? É óbvio: que no menino há uma coisa entre as pernas e que na menina não há uma coisa no meio das pernas. Lembrem-se: nessa época (4 a 5 anos) a gente, mesmo que tenha lido os livros de ciência, ainda não tem como certa a existência do órgão sexual feminino (a vagina). Então, o que a gente vê é que no menino há uma coisa e na menina não há uma coisa. Qual a conclusão mais óbvia a ser tirada dessa visão? A de que o menino possui aquilo que na menina falta.
Então, senhoras e senhores, como vai se inscrever na cabecinha de todos nós a diferença entre os sexos, quer dizer, como é que a gente vai interpretar o que é homem e o que é mulher? A partir desse objeto que o homem tem e a mulher não tem. Portanto, na nossa cabeça (Lacan diria, na ordem simbólica) a gente tem como dar uma resposta para a pergunta “O que é o homem?”. Qual resposta? “O homem é aquele que possui o objeto”. Agora, para saber o que é a mulher a gente só tem uma definição negativa: “A mulher é aquele ser que não é homem, ou seja, que não tem o objeto”. Mas essa resposta não serve! Afinal, a gente poderia dizer: “Beleza, se a mulher não é o homem então o que ela é?” É uma pergunta para a qual não se tem a resposta porque no caso da mulher não há esse objeto que a represente.
Conclui-se então que a idéia do que é a mulher, de sua essência, de seu desejo realmente não existe. Por quê? Porque diferentemente do homem ela não tem um objeto que a represente – esse objeto Freud chamou de “falo”. Então, na nossa cabeça, no mundo simbólico, a mulher não tem representação. Por isso, Lacan diz que “A Mulher (e aí a gente pode completar com: “A mulher enquanto representação do que é a mulher”) não existe”.
Isso é ruim? Ao meu ver, muito pelo contrário! Meus alunos e alunas de aulas particulares conhecem muito bem o que pensoa respeito disso. Se a mulher não tem uma representação de si mesma, isso significa que ela pode inventar sua essência! É por isso, por exemplo, que nenhuma mulher gosta de encontrar numa festa outra mulher com o mesmo vestido dela. Mulher gosta de se sentir única, singular, exatamente porque ela não tem uma definição padrão do que é ser mulher. Já homem não. Homem gosta do mesmo, do padrão. Numa festa de gala, estão todos de terno. São raríssimas exceções os que querem se diferenciar – e não são vistos com bons olhos.
Por isso, minha cara leitora, quando ouvir por aí um lacaniano dizer que “A Mulher não existe”, dê graças a Deus, pois ao “não existir” ela precisa “se fazer existir”, cada uma a seu modo…
Já pegou seu exemplar do meu ebook? Clique na imagem e saiba mais!
A partir da leitura desse post publicado no blog do Zanatta, me lembrei de uma reflexão que venho fazendo já algum tempo sobre as conexões da letra da música “Pais e Filhos” da saudosa Legião Urbana com a Psicanálise. Resolvi publicar, então, as conclusões a que cheguei até o momento.
Em verdade, minha análise é restrita ao trecho final da música. Após a transcrição (belíssima e perspicaz, por sinal) de falas comuns trocadas entre pais e filhos e da extrema sabedoria ao mostrarem o óbvio: que o amanhã não existe, Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá escrevem os seguintes versos:
“Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais
Não o entendem
Mas você não entende seus pais…
Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser quando você crescer”
Em primeiro lugar, a gente pode assinalar o reconhecimento do ser humano como aquilo que o lacanês chama de “falta-a-ser” e que em humanês, a gente pode, parafraseando Sartre, chamar de “ausência de uma essência do homem”. Com isso quero dizer que cada cultura, cada família, cada pessoa, tem uma idéia diferente sobre o que é o homem, como ele deve agir e etc.
Assim, não temos uma definição válida pra todos, o que significa dizer que a gente não nasce sabendo quem a gente é nem como a gente deve viver. Quem incute na nossa cabeça o que mais tarde vamos pensar ser a verdade são as outras pessoas que, via de regra, nasceram antes da gente e o que elas produziram em termos de conhecimento (é mais ou menos isso o que em lacanês se chama o Outro). Ora, os versos “Sou uma gota d’água/Sou um grão de areia” revelam exatamente isso! Um grão de areia isolado, por exemplo, no asfalto da praia de Copacabana, não é um grão de areia! Sim. Essa “coisinha” só será um grão de areia quando houver algum humano (um Outro) para chamá-lo assim. E mais: só será um grão de areia se existirem outros grãos de areia!
Sobre o “Você me diz que seus pais não o entendem/Mas você não entende seus pais” vou me ater a uma consideração influenciada pelo artigo “Confusão de língua entre adultos e a criança”, de 1933, do analista húngaro Sándor Ferenczi. Ao meu ver esse mal entendido entre pais e filhos resulta, entre outras razões, do fato de os filhos representarem para os pais aquilo que eles já foram e que recalcaram para se tornarem o que são hoje.
Mas o creme mesmo, da letra de “Pais e Filhos” são os últimos quatro versos: “Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você/O que você vai ser quando você crescer”.
Se vocês repararem, esse último verso é ambíguo quanto ao sentido. Ambíguo porque dependendo do ponto que você coloque ao final, o significado da frase muda. Pode ser tanto a pergunta ao filho sobre o que ele vai ser quando crescerquanto uma afirmação de que ele vai ser como os pais!
Senhoras e senhores, essa ambiguidade é própria da interpretação do psicanalista. Essa, não tem a função de fechar um sentido (vocês podem até ver um pouco disso nos casos de Freud, mas são erros próprios de quem tava começando a coisa). A interpretação analítica tem exatamente a função de jogar com a ambiguidade das palavras e mostrar, fundamentalmente, que elas só são palavras e que, apesar de machucarem, elas continuam sendo palavras que, se rearranjadas, em vez de machucar podem curar!
E me parece que os autores realmente encaranaram os psicanalistas nessa estrofe. Os versos anteriores (“Você culpa seus pais por tudo/Isso é absurdo/São crianças como você”) são a personificação da essência do que um analista busca fazer numa psicanálise.
E o que é que ele busca? Levar o sujeito a parar de se queixar do Outro (é, daquele Outro do qual eu falei acima, que te ensina o que você é, pra onde você tem que ir), desse Outro que é na maioria dos casos encarnado pelos pais. E como a gente consegue parar de se queixar? Quando a gente percebe que eles não sabem tudo. Que, pelo contrário, eles tem que lidar com as mesmas questões com as quais a gente tem que lidar. É quando a gente percebe que, assim como nós, no Inconsciente, eles permanecem sendo uma criança de 5 anos…
Aí, tomando ciência de que eles não sabem tudo, a gente pode desamarrar esse fardo das costas e escolher se a gente quer ser como eles, quando a gente crescer.
Veja o clipe de “Pais e Filhos”:
QUER SABER MAIS SOBRE COMO FUNCIONA UMA ANÁLISE? ADQUIRA O LIVRO “COMO TRABALHA UM PSICANALISTA”, DE JUAN-DAVID NASIO, POR APENAS R$ 36,00 NA LIVRARIA CULTURA. É SÓ CLICAR NO BANNER ABAIXO E DIGITAR O TÍTULO DO LIVRO NA BUSCA.
O vídeo abaixo é um trecho da conferência proferida pelo psicanalista Jacques Lacan na Universidade de Louvain em 1972 em que ele fala sobre as relações entre morte e fé.